Guerra entre Mundos

14 Quando se morre - uma cruz.


“Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce — uma estrela,
Quando se morre — uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
‘Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!’

– Mario Quintana

Os preparativos já haviam começado. Ninguém sabia o que fazer com Mary.

James não parava de fazer comidas, encharcando as geladeiras de doces e salgados.

Peter estava em seu quarto, fazendo sabe-se lá o que.

Annie estava deitada em sua cama, olhando para o teto. Estava desesperada por o que acabara de acontecer. Não podia sentir coisa alguma. Física ou emocionalmente. Passara quase a noite toda se machucando para ver se sentia algo: nada. O mesmo resultado para quando tentou se lembrar de seu passado e os momentos com sua mãe.

Mais ou menos quando o sol estava nascendo, Annie sentiu um aperto familiar em seu peito. Achou que fosse sono, mas não era. Sabia que estava mais desperta do que nunca. Também sabia o que era. A mulher de vermelho.

Ela pairava acima da cama, o vestido caindo no corpo de Annie.

– Não se preocupe. – sussurrou a mulher – Isso passará. Sabes o que tem de fazer.

– Espera! – mas já era tarde demais.

O que Annie tinha de fazer? Ela não fazia ideia. A mulher sempre agia com ela como se Annie soubesse o que deveria fazer, o que, na verdade, nunca acontecia. Desde então ficara parada, mirando o nada.

Ouviu uma leve batida na porta, mas não se incomodou em ir verificar. Inexplicavelmente, não conseguia mexer um músculo sequer, nem mesmo falar. No entanto, ouvia tudo. Sabia exatamente onde estavam James, Peter e Mary, e o que estavam fazendo.

“Você sabe o que fazer”, sussurrou a voz em sua cabeça.

Depois de mais alguns sussurros, Annie sentiu os movimentos voltando. Levantou lentamente e foi até a cozinha. Ela sentiu seu coração mais forte do que nunca, mas não sabia o que estava fazendo. Era como se ela estivesse em um sonho, e alguém a controlasse. Recuperou seu senso somente quando estava parada na frente da parede da cozinha, arranhando até que seus dedos começaram a sangrar. Sentiu mãos segurando seus braços, afastando-a da parede.

– O que a senhorita está fazendo? – James – Mas o que raios você está fazendo?

Annie se sentia impulsionada a voltar a riscar a parede, mas se controlou o máximo que pôde.

– Eu não sei. – Annie estava exasperada. Sentia vontade de sair correndo e gritando, mas sabia que não podia.

James já a arrastava, dizendo algo sobre limpar ferimentos. Quando estava saindo do cômodo, puxou James de volta.

Palavras. Annie havia escrito palavras na parede, com sangue. Era muito claro o que estava escrito.

A palavra “agora” estava entalhada na parede, com alguns pedaços de unha.

– Isso não está muito explícito? – perguntou James.

O coração de Annie estava prestes a saltar da boca, e tinha certeza de quê com James não seria diferente.

– Em tempos difíceis temos que aceitar o explícito, James. Vamos.

Annie pegou no braço de James para ir até Peter, quando sentiu um choque. Esse foi mais forte do que os outros.

James também a olhava assustada. Ele apontou para os próprios olhos, indicando os de Annie. Pegou-a pelo braço e a levou até uma das janelas da cozinha, onde Annie conseguia se ver. Seus olhos brilhavam na cor vermelha, e ela sabia o que tinha de fazer, as palavras da mulher de vermelho fazendo sentido agora.

– Pegue suas coisas. Vamos partir agora.

A mente de Annie borbulhava, e ela queria gritar. Sua cabeça doía como nunca antes, e toda a sua pele queimava. James saiu correndo para algum lugar da casa enquanto Annie ia para a porta. Não se importava em levar algo para lá nesse momento.

Assim que Peter e James chegaram à porta, Annie começou a andar.

– Senhorita! Para onde quer ir?

No mesmo instante, ela pegou na mão de Peter e agarrou o braço de James. Um choque percorreu todo o seu corpo, e eles estavam no Hollywood Sign.

– Annabel, mas que droga você fez? – perguntou James. Seu braço estava com um roxo onde ela havia segurado.

A verdade é que ela não fazia não fazia ideia do que havia acabado de fazer, apenas sabia que tinha que o fazer.

– O que fazem aqui? – sussurrou uma voz gentil. Peter se virou e saiu correndo, agachando ao lado de algo – Não! Eles sabiam que vocês viriam. Eles querem matá-los com a Phoenix para conseguir a caixa.

O que tinha naquela caixa de tão importante? Embora não tenham visto ou entendido algo de lá, a caixa não parecia ter algo de tão importante.

Annie estava se ajoelhando para soltar Lena da cadeira, quando viu um fio se mexendo. A cadeira era de metal. Mal teve tempo de gritar quando a cadeira explodiu em chamas.

Lena já não era Lena. Lena agora era a Phoenix, e ninguém mais podia controlá-la.

Os três correram para detrás de uma pequena casa que havia ali, e Peter foi o primeiro a atacar. Raios e chuva começaram a cair em Lena, mas ela parecia... Poderosa.

Ele voltou para a parede com uma queimadura no braço.

– Preciso tocá-la. – Annie mais uma vez não sabia o que tinha de fazer, apenas seguiu seus instintos.

James não a questionou, apenas assentiu.

Pegou na mão de Peter, e ele também assentiu. Ao que parecia, poderia pegar o poder de um dos dois, assim como fez com o teletransporte de James para irem até o Hollywood Sign, mas não sabia se poderia pegar o de Lena depois.

Os três saíram de detrás da parede, e saíram correndo.

No primeiro ataque de fúria da Phoenix, James os teletransportou e Peter descarregou um raio. Eles começaram a rodar e a se aproximar de Lena dessa forma, até que Annie a alcançou. Lena urrou e se virou.

– Vão! – Annie gritou o mais forte que pôde, e James saiu dali no exato momento em que Lena cuspiu fogo neles.

Annie sentiu seu corpo arder, e começou a flutuar.

“Eu controlarei, minha querida. Não se preocupe”. Era sua mãe, mas sabia que quem havia falado era a mulher de vermelho. Isso era impossível.

Deixou para pensar nisso depois.

Lena bufou fogo e Annie desviou. Ela sentia que seu corpo era feito de chamas.

Annie gritou, e tudo ao seu redor virou cinzas, mas o corpo da amiga continuava intocado. Ela entrou na Phoenix e abraçou o corpo de Lena. Sentiu tudo ao redor de seus braços derreterem, assim como o último suspiro de Lena.

– Obrigada. – sua última palavra. Tão pequena, mas tão cheia de significados.

Levantou-se assim que caiu no chão. Tudo abaixo de si eram cinzas.

Correu o mais rápido para o que havia sobrado em meio a destruição e parou.

Peter estava debruçado em cima de James. Annie estava paralisada até ouvi-lo dizer seu nome. Saiu correndo e caiu ao lado de Peter.

– Estou aqui. – sussurrou

James respirou fundo e fechou os olhos. Parecia procurar o que dizer.

– Annie...

Ela apertou sua mão, que continuou:

– Está escuro. – Annie fechou os olhos, e sentiu algo molhado escorrer por sua bochecha – Me sinto tão sozinho na escuridão.

James apertou a mão de Annie contra seu peito, que disse:

– Você não está sozinho, Jem. Meu coração lhe pertence.

Ele sorriu. Mesmo em meio a dor ele sorriu. O último e mais lindo sorriso que Annie já vira.