Guardião

10 O pedido de casamento


Notas iniciais
Oieeee!!! Como vocês estão? Eu estou ótima!!! Sei que fiquei um bom tempo sem postar aqui, mas aconteceram tantas coisas em minha vida que eu não conseguia administrar o tempo para escrever e postar. Sinto muito pela demora. Farei o possível para que isso não ocorra novamente!! Espero que gostem do capítulo novo! Qualquer coisa, já sabem! Obrigada pelo carinho!!

As semanas se passaram rapidamente e quando Dylan se deu conta, já estava morando na casa dos Blowest há quase três meses. Ajudava Bruno com os animais e com a administração da fazenda — era excelente com cálculos — e também auxiliava as jovens no plantio das hortaliças.

Seu relacionamento com cada uma das meninas diferia de uma maneira avassaladora. Com Marie ele era o parceiro número um para jogar xadrez ou ensinar a tocar piano, ensinava Tina a como usar arma de fogo ou arco e flecha — dizia que ela era excelente naquilo — e nos momentos de leitura da família, Willa pedia sempre para que Dylan desse sua voz macia aos contos dos mais diversos livros que tinha na biblioteca. Já com Elizabeth, ele simplesmente não sabia como agir. Então apenas limitava-se a longas conversas sobre políticas, caçadas e magia.

Durante aquele tempo, ensinou tudo o que sabia sobre os caçadores para a família e também mostrou como se esconder deles. Ensinou a encobrir os rastros e desaparecer. Bruno não podia estar mais feliz com a presença dele ali. Sempre quando perguntavam sobre quem ele era, dizia que Dylan era um sobrinho que estava morando com eles agora.

Naquela noite, a família Smith — uma das mais ricas da região — ofereceu um baile em honra ao aniversário de sua filha mais nova e todos foram convidados. A família seguiu em sua carruagem, parando em frente à entrada da enorme mansão. Dylan auxiliou para que cada uma das mulheres saísse da carruagem, mas seu interesse mesmo era acompanhar a mais velha. Ofereceu um dos braços para ela que prontamente aceitou.

As três jovens Blowest usavam roupas simples, porém bastante bem para a ocasião. Eram vestidos na cor branca, repletos de babados e fitas de cetim. Os cabelos presos, enfeitados com tiaras de pérolas, combinavam perfeitamente com a maquiagem leve que haviam feito. Bruno e Dylan usavam roupas de festa, com cortes impecáveis que ninguém poderia colocar defeito. Já Willa usava um vestido, também de renda e cetim, na cor verde bem clara. Estavam, de fato, no patamar das pessoas que se encontravam ali.

O baile tinha sido preparado exatamente aos moldes daqueles que aconteciam, a todo instante, nas pequenas cidades da Inglaterra. Havia a banda que tocava as mais diversas músicas para que os casais dançassem. Haviam também garçons no meio das inúmeras pessoas, servindo-as no que precisasse, e os oficiais da coroa Inglesa que usavam suas fardas vermelhas e chamativas.

Dylan foi apresentado a todos como da família e, de alguma forma, sentia-se pertencer mesmo ao núcleo dos Blowest. Depois de entrarem na festa, foi convidado a se juntar a uma conversa ao lado de Bruno e de outro senhor, mas sua atenção estava presa logo mais à frente, em Elizabeth, que conversava animada com algumas damas que moravam próximo da fazenda ou que conhecia por frequentar a cidade.

Ela sorria e o jovem fazia o mesmo, involuntariamente.

— Dylan — Bruno chamou. Ele olhou para o homem e engoliu secamente. Foi pego no ato, observando sua filha.

— Mil perdões. Eu estava distraído com a festa — tentou se justificar, mas Bruno o olhava de soslaio. — Sobre o que falavam?

— Daniel me comentava sobre o crescimento de sua fortuna, com a criação de caprinos. Eu disse que você era excelente com números e que tem me ajudado com a administração da fazenda.

— Sim, a fazenda de meu tio é bastante prospera. Em alguns meses ouvirá notícias a respeito dos milagres daquela terra.

— Fico ansioso para saber e até, quem sabe, não fechamos uma parceria. O que acha, Bruno? — o homem de cabelos já brancos bateu nas costas do Sr. Blowest.

— Adoraria fazer negócio com um amigo — comentou.

— Me deem licença, por favor — Dylan pediu e os dois homens assentiram. O rapaz seguiu até onde as damas conversavam e as cumprimentou abaixando a cabeça levemente. As garotas devolveram o cumprimento curvando o corpo para baixo e retornando a postura no instante seguinte. — Prima, me concederia a honra da próxima dança? — pediu estendendo a mão para Elizabeth que sorriu e corou.

— Será um prazer, primo — respondeu segurando em sua mão e sendo conduzida até o meio do salão. Antes da música começar, os casais se cumprimentaram gentilmente, quando as garotas se despuseram de um lado e os rapazes do outro. A banda começou a tocar em seguida e os casais começaram a reproduzir os passos previamente coreografados.

— Vejo que já se acostumou com essa vida, Sr. Norton — Elizabeth comentou quando deu uma volta, ao redor de outra moça, e parou ombro a ombro com Dylan.

— Estou perfeitamente bem à vontade aqui, Srta. Blowest — Seguiram caminhando lado a lado, entre o corredor de casais que aguardavam, antes de regressarem e mais uma vez dessem uma volta ao redor daqueles que estavam parados. Todos então começaram a se mover, metade de um lado do salão e a outra metade do outro. A dança era harmoniosa e bastante delicada, os passos dos dançarinos também tinham que ser. — Não deveria me sentir assim?

— Não quis dizer tal coisa. Sinto muito se entendeu dessa maneira — Lizzie desculpou-se quando deu um passo e parou de frente para Dylan, antes que pudessem girar e inverter as posições. Dylan, que estava do lado direito, foi para o esquerdo e Elizabeth, que estava no esquerdo, seguiu para o direito. — Só quis dizer que o senhor está perfeitamente bem, em nosso meio. A despeito do que acontecia antes de nos conhecermos — novamente se viram caminhando lado a lado pelo meio dos casais.

— Por favor, devo pedir que não me lembre do meu passado. Foi uma época de minha vida que eu gostaria de esquecer — pediu. Não estava com raiva, muito pelo contrário. Mantinha um sorriso terno, nos lábios pequenos, quando a música acabou.

— Eu sinto muito se o aborreci, Sr. Norton — ela lhe fez um agradecimento, abaixando o corpo rapidamente.

— Não aborreceu, Srta. Elizabeth — ele confirmou com um aceno e alargando o sorriso, mas Lizzie já o havia deixado no meio do salão.

Durante o restante da noite, Dylan dançou com algumas outras moças — incluindo Tina e Marie —, mas não viu mais a ruiva no meio dos convidados. A realidade foi que Elizabeth não quis mais ficar no salão e, por isso, preferiu sentar-se em um dos vários bancos que estavam disposto pela propriedade e em frente a um extenso lago artificial.

— Boa noite, Srta. Elizabeth — ouviu uma voz atrás de si e virou-se para ver quem a cumprimentava. O seu nome era John Smith, o filho mais velho dos donos da casa. Curvou a cabeça no típico cumprimento da época.

— Boa noite, Sr. Smith — ela levantou-se do banco e também o saudou.

— Se importaria se eu fizesse companhia a senhorita?

— De modo algum — respondeu com um sorriso e sentou-se mais para o lado. Dando espaço para que o rapaz sentasse também. Ele era bastante alto e tinha os cabelos loiros, mas não muito claro. Tinha o porte físico bastante forte e era tremendamente bonito. Os olhos verdes chegavam a ser convidativos, assim como os lábios bem desenhados.

— A senhorita está se sentindo bem? Percebi quando deixou a festa. Confesso que fiquei preocupado.

— Não foi nada demais — ela respondeu sorrindo, ainda olhando para as águas escuras do lago —, mas agradeço a preocupação.

— Seria óbvio que me preocuparia. Já deixei claro o que sinto pela senhorita — ele comentou, segurando na mão de Lizzie que o olhou assustada. — Meus sentimentos por ti, Srta. Elizabeth, são extremamente fortes, mesmo nos conhecendo a tão pouco tempo. Como filho mais velho, essa casa será minha um dia e gostaria que a senhorita fosse a minha companheira. Por isso peço que me aceite como seu noivo e me dê a honra de chamar-lhe por minha senhora.

— Sr. Smith — ela começou a falar, tomando cuidado para não gaguejar. A realidade era que aquele rapaz, em sua frente, era o mais desejado da região. Justamente por ser um rapaz bom, bonito e rico. Desejado por todas, menos por Elizabeth nos últimos meses. A verdade era que quando chegou ali, não esperava sequer passar tanto tempo e agora alguém lhe pedia para formar uma família. — Me sinto tremendamente lisonjeada com o vosso pedido, mas...

— Palavra triste esse "mas" — John rebateu, apertando os lábios.

— Eu fui pega de surpresa. Não esperava que me fizesse tal proposta.

— Se a senhorita quiser, posso dar-lhe alguns dias para que pense. Pode me dar a resposta na missa, no domingo — John pegou a mão da jovem e levou aos lábios, beijando-lhe com delicadeza. — Só me prometa que pensarás com apreço — John não permitiu que ela concordasse ou discordasse, apenas levantou-se e fez uma nova saudação, antes que pudesse retornar para a festa. Deixou Lizzie com a decisão mais difícil de sua vida.

Ela não sabia mesmo o que fazer. Sabia que logo quando chegou, John lhe chamou bastante atenção pela cordialidade e pela forma como a tratava, mas nos últimos meses deixou de ser mais assim. A realidade era que Elizabeth se percebeu sentir algo por Dylan, algo que ela achava ser apenas gratidão pelo o que ele fez por ela.

Só que com a proposta de John, ela percebeu que não era apenas isso. O medo de magoá-lo ficou claro e ela se viu completamente perturbada pela possível reação que a notícia traria ao jovem. Lizzie se viu em um beco sem saída: se aceitasse a proposta de John, poderia magoar Dylan — ela já havia percebido que o rapaz passava mais tempo com ela do que com as outras pessoas — e se não aceitasse, certamente feriria John. Com esses pensamentos ela se viu parada no mesmo lugar, até o final da festa.

Se encontrou com todos na entrada da casa e, durante todo o percurso, não conseguiu sequer olhar para Dylan. Sempre desviava sua atenção para algo que estava na direção oposta a dele. Ao chegar na casa desceu sozinha da carruagem, mesmo que o rapaz tenha lhe oferecido ajuda para deixar o veículo e seguiu rápido para dentro. Subiu as escadas e trancou-se em seu quarto. Não respondeu às perguntas de suas irmãs ou pais, apenas limitou-se a ficar acordada a noite inteira e pensando no que acontecia. A missa era em seis dias e ela não tinha tempo a perder.

—___ ღ ____

Acordou no outro dia e logo chamou as irmãs e a mãe para contar o que havia acontecido. As jovens ficaram eufóricas com a notícia de que ela havia sido pedida em casamento e Willa não se conteve de felicidade. Correu até o escritório onde Dylan e Bruno estudavam as finanças que seriam investidas na fazenda e falou a novidade sem cerimônia: Elizabeth havia sido pedida em casamento pelo filho mais velho dos Smith.

Bruno comemorou discretamente, até porque ele percebeu que o rapaz ao seu lado ficou inquieto com a situação e esse incomodo apenas aumentou depois que John chegou na fazenda. Pediu um instante da atenção do Sr. Blowest e o homem concedeu. Dylan deixou o escritório em seguida e buscou Elizabeth por todo o lugar. A achou alimentando as galinhas.

— O seu noivo está aí — comentou parando ao seu lado.

— Ele ainda não é. Fiquei de dar a resposta no Domingo — Lizzie comentou jogando uma quantidade de milho no chão e sem nem olhar para ele.

— Porque tanto tempo? Suas irmãs e seus pais estão felizes com a ideia do casamento. A senhorita não?

— Tem muito mais coisa em jogo e que preciso pensar, Sr. Norton. Não posso tomar uma decisão baseada no que os outros vão achar.

— Realmente. A senhorita está certíssima — respirou de maneira profunda — E a senhorita o ama?

— Me aponte quais casamentos hoje são feitos por amor. Nem o dos meus próprios pais foi por amor, mas veja como estão agora — ela novamente jogou outra quantidade de milho no chão — O amor vem com o tempo.

— E está pronta para contar a ele o que a senhorita é de verdade? — Dylan concluiu e Elizabeth o encarou finalmente. — Casamento é bem mais do que a união entre um homem e uma mulher. Ele morre se houver segredos.

— Qual é a propriedade que o senhor tem para falar sobre casamentos? — respondeu rispidamente. Os olhos azuis começaram a marejar, mesmo que ela não tivesse intenção alguma de chorar — Que eu saiba o senhor ainda não é casado, então não pode sequer opinar sobre isso.

— Eu fiz três perguntas simples, Srta. Elizabeth, e não foi capaz de me responder nenhuma delas. Nunca achei que fosse do tipo que se casaria sem amor.

— O senhor não faz parte dessa família, Sr. Norton. Não sabe nada sobre mim.

— Então isso é uma confirmação de que o ama — insistiu. A feição era séria e marcante. Ele estava realmente chateado com toda aquela situação.

— Não, eu não o amo — rendeu-se por fim. Olhou em volta, percebendo que ninguém além de Dylan a ouviu falar aquilo. — Também não estou feliz e muito menos estou pronta para contar-lhe o que sou — o olhava seriamente. — O senhor está satisfeito com o que ouviu? — as lágrimas caíram, finalmente, pelo seu rosto.

— Sendo assim, sua resposta deveria ter sido negativa no momento em que ele lhe propôs — concluiu —, mas a senhorita tem razão. Além de não fazer parte dessa família, que propriedade tenho eu para falar de casamentos? — fez um breve aceno de cabeça, em uma saudação. — Meus mais sinceros votos de que tudo dê certo, Srta. Elizabeth, e parabéns pelo noivado.

Retirou-se da presença da ruiva no momento seguinte. Lizzie o olhou enquanto se afastava. Talvez se ele tivesse lhe dito algo que a fizesse desistir, ela não pensaria duas vezes em negar o pedido de John ainda naquele instante. Dylan apenas a confrontou e quando finalmente a viu fragilizada, a parabenizou por aquilo e saiu sem dar maiores explicações. Naquele momento ela percebeu que talvez o tenha julgado errado e o tempo passado ao seu lado foi apenas uma cordialidade.

—___ ღ ____

Durante o jantar, nenhuma palavra foi trocada entre Dylan e Elizabeth. Os dois mal se encaravam e a família percebeu isso. Willa até questionou a filha, enquanto o rapaz lia os contos para a família na sala de leitura, mas a garota disse que era coisa da cabeça deles e que estava tudo bem com ela e Dylan.

Mas a realidade era que não estava nada bem. As poucas palavras que trocaram, ao longo da semana, foram apenas de cordialidade e, mesmo que ele ainda tentasse se aproximar, ela o evitava. E assim a semana passou e o Domingo chegou.

Os Blowest ocupavam o primeiro banco da igreja, sendo que Elizabeth sentou o mais distante de Dylan possível. A missa se estendeu longa e maçante. Lizzie perdeu as contas de quantas vezes bocejou e de quantas vezes o padre fez cara feia para ela. Quando por fim concluiu, todos se levantaram e a conversa do lado de fora da igreja se tornou alta. Era o momento em que as famílias se encontravam e sempre aconteciam negócios, comemorações ou espetadas pelos casamentos de grande valor.

E esse era o caso de John e Elizabeth. O rapaz não perdeu tempo e logo se aproximou da ruiva.

— Senhorita Elizabeth, conceda-me um passeio para que possamos conversar — pediu. Lizzie assentiu enquanto pedia licença para os seus familiares e amigos que estavam ali. Olhou rapidamente para Dylan, que mantinha a feição séria, e abaixou a cabeça ao passar por ele. Quando estavam a uma distância considerável, John parou de frente para a jovem — Conforme combinamos, a senhorita teve o prazo que pediu. Espero que já me tenha uma resposta.

— Sr. Smith — ela começou a falar — Percebo que sua oferta é sincera e que muito me honra o seu pedido, mas...

— A palavra "mas" outra vez — ele segurou no chapéu e respirou fundo.

— Creio que não sou digna de ser chamada de sua esposa e nem de merecer a sua afeição, visto que não compartilho do mesmo. Mereces alguém que o ame intensamente, Sr. Smith. Eu, infelizmente, não posso ser essa mulher.

— Existe outro em seus pensamentos e em seu coração — ele afirmou e Lizzie abaixou a cabeça. As bochechas queimavam de vergonha. — Esse homem não sabe o quão afortunado é — colocou o chapéu na cabeça outra vez e fez uma saudação de despedida. — Obrigado pela sinceridade, Srta. Elizabeth, e desejo que seja feliz ao lado de seu amor — A mulher apenas assentiu e observou o rapaz se afastar.

Os olhos marejaram quando olhou para a sua família mais ao longe, que cochichavam entre si sem entender o porque de John se afastar daquela forma e nem sequer falar com eles. Ela abaixou a cabeça quando percebeu que Dylan não estava entre eles. A julgava de uma forma tão rude, que talvez não tivesse querido ficar para assistir aquela cena toda.

Lizzie sabia que se voltasse para sua família naquela hora, receberia centenas de perguntas que não estava preparada para responder. Por isso deu a volta e, simplesmente, seguiu caminhando pelo bosque. Demoraria um pouco mais para chegar até sua casa, mas era exatamente o que ela queria. Precisava de tempo e silêncio para chorar sozinha.

Se envolveu com a echarpe preta que usava e caminhou apressada, mas parou alguns passos depois. Apoiou-se em uma das árvores e respirou fundo, o choro a impedia de continuar. Deixou agachar-se ali e sentou-se em uma das pedras. O ar queria faltar e quanto mais ela pensava no que havia acabado de fazer ou no que o que Dylan lhe disse dias atrás, a tristeza aumentava consideravelmente. Não poderia ser feliz nunca. Estava fadada a ser sozinha porque não era fácil contar o que era sem ser julgada.

Ergueu a cabeça quando percebeu que o ar já voltava a fluir por seus pulmões e a primeira coisa que viu foi um par de sapatos em sua frente. Olhou para cima apressadamente e reparou que Dylan estava ali, com feição de tristeza. Ele não podia vê-la chorar. Elizabeth não merecia chorar.

Lhe estendeu a mão, na esperança de ajudá-la a erguer-se do chão, mas a mulher levantou-se sozinha e passou na frente dele. O rapaz ainda permaneceu parado na estrada quando finalmente resolveu dirigir alguma palavra a ela.

— Sua família me pediu para que a acompanhasse até em casa — comentou.

— Eu não preciso de alguém que me cuide — ela respondeu entre um soluço e outro — Eu consigo me defender sozinha.

— Por favor, deixe-me acompanhá-la.

— Para que? — ela virou-se repentinamente, caminhando de volta até onde Dylan ainda se mantinha parado. — Sabes o que sou. Sabe que não sou vulnerável.

— Apenas pela companhia — ele respondeu.

— Deixe-me dizer que não estou apreciando a sua companhia nos últimos dias, se não ficou claro para o Senhor.

— Porque lhe disse verdades? Porque lhe mostrei que aquele casamento seria loucura?

— Porque... — Elizabeth respirou fundo e se deteve. Não estava querendo mesmo discutir com Dylan.

— Lhe disse o que precisava ouvir, Srta. Elizabeth — ele continuou. Os olhos azuis da mulher continuavam nele, mas conforme ele falava, as lágrimas se acumulavam ali. — Como se imaginaria em dez anos?

— Eu teria uma boa casa, um marido que gostava de mim, teria filhos e não precisaria me preocupar com dinheiro. Nem para mim e nem para minha família.

— Estaria infeliz — a interrompeu e respirou de maneira profunda. — Casada com alguém que não ama e presa a ele por causa de sua fortuna. Que destino cruel queria para si?

— O que pode ser mais cruel que isso que eu vivo agora? Eu não sou mais criança, Sr. Norton. Eu estou em idade de me casar e neguei o pedido a um bom homem. Isso não cruel o bastante?

— Foi melhor, Srta. Elizabeth...

— Volte para a minha família e diga que ficarei bem. Que apenas quero ficar só, para assimilar a loucura que fiz — ela pediu. Fez uma rápida saudação e se despediu. — Com sua licença, Sr. Norton.

— Porque sempre que tento uma aproximação, a senhorita foge? — Dylan perguntou um pouco mais alto, porque a jovem já estava a uma distância considerável. A garota parou onde estava e respirou fundo antes de se virar. Os olhos estavam tão amarelos quanto poderiam estar enquanto que os de Dylan assumiram uma cor de sangue vivo assim que os percebeu. — Sempre que tento ser gentil a senhorita me evita. Limita-se a desculpas esdrúxulas e foge. Pelos céus, me diga o que há de errado.

— O senhor não percebe que tudo está errado? — perguntou. Dylan balançou a cabeça negativamente e deu um passo na direção da jovem. — Pensei que estava claro o que acontece aqui.

— Não está. Por favor, queira me explicar — pediu, respirando o mais rápido e profundo que conseguia.

— Eu sinto muito. Creio que não seria capaz de fazê-lo — Elizabeth sentia que sufocaria a qualquer momento. Virou-se novamente e retomou seu caminho, mas não chegou a dar dois passos. Parou quando ouviu a voz de Dylan outra vez.

— Eu a amo — revelou. — Não sei quando aconteceu ou como aconteceu, mas eu amo. Com toda a força e fervor que arde em mim. Eu a amo, Srta. Elizabeth — a jovem fechou os olhos, tentando impedir que mais lágrimas banhassem o seu rosto, mas sem sucesso algum. O silêncio os cobriu por um tempo, antes que o rapaz implorasse por uma resposta — Por favor, diga alguma coisa.

— Isso é loucura — a voz tremula fez com que Dylan a alcançasse e a virasse de frente para ele. Os grandes olhos amarelos recobravam sua cor azulada gradativamente.

— Como pode tratar por loucura, um sentimento tão forte e real como esse?

— Não digo pelo sentimento, porque é o mais belo de todos. Loucura é que sentimos o mesmo e ainda assim sabemos que é impossível — explicou entre um soluço. — Todas as vezes que dou as costas e me afasto é porque eu vejo o que o senhor é e sempre será. Somos de mundos completamente diferentes, sr. Norton — ela respirou rápido para não engasgar — E nesse mundo não há amor.

— Não me imponha um rótulo que eu mesmo arranquei.

— O senhor é um caçador. Nasceu um e vai morrer como um. É o que seus olhos vermelhos me dizem, todas as manhãs em que nos encontramos.

— E você é uma bruxa — esticou a mão direita e tocou no rosto macio da jovem, acariciando levemente a pele das bochechas. Lizzie fechou os olhos apreciando o carinho. — Eu também percebo algo quando vejo a cor de seus olhos, ao encontrá-la.

— O que? — sussurrou.

— Que não podemos julgar por antecipação e que, principalmente, pessoas mudam. Eu mudei tão logo que te conheci — ela o encarou. — Talvez eu saiba, afinal, quando tudo isso começou. Foi naquele dia, senhorita. Eu te amei desde o primeiro momento.

— Senhor... — O jovem retirou o chapéu da cabeça e ajoelhou-se, deixando apenas um dos joelhos em contato com o chão.

— Dê-me a honra de aceitar a minha mão. Prometo lhe fazer a mulher mais feliz de todo esse mundo — propôs. Elizabeth o encarou sem nem sequer piscar. — Eu não tenho uma casa para acolhê-la, não tenho dinheiro e nem posses, como o John. Infelizmente tive que abandonar tudo o que eu tinhaquando deixei o que era para trás — ele sorriu. Não contou para ela a razão de seu irmão tê-lo tentado matar —, mas eu juro que serei eternamente seu. De corpo e alma. Meu coração é seu, Srta. Elizabeth.

Lizzie sequer desviava o olhar do rapaz em sua frente. Ela o amava e talvez o interesse também tenha acontecido no primeiro momento, mesmo que a situação não permitisse tal aproximação. Mas o que os impedia agora?

Dylan havia provado, não só uma vez, que mudou. O fato de estar ali, fazendo tal proposta, era uma prova concreta disso. Para um caçador, deitar-se com uma bruxa era tornar-se imundo. Era virar as costas para o legado com o qual nasceu e trair sua família. Dylan faria isso, sem pensar duas vezes. Na verdade, já o havia feito meses atrás quando se apaixonou por Lizzie.

— Sim — respondeu por fim. O rapaz levantou-se e a beijou ternamente, sentindo o toque macio e quente dos lábios dela nos seus. Foi um beijo simples, mas pela expressão assustada da jovem, Dylan percebeu que ela nunca havia feito aquilo antes.

Sorriu para ela, recompondo-se, antes de se aproximar mais uma vez. Reparou em sua respiração acelerada, ao passo em que a distância era findada. Milímetro por milímetro. Quando finalmente se viu próximo o suficiente, segurou dos lados da cabeça de sua noiva e a beijou como deveria ser feito. Com dedicação, com paixão e principalmente, com muito amor.

Notas finais
Então, gostaram do pedido de casamento de Dylan???????? *-* Espero que siim!! Enfim, se acharem alguma coisa ou tiverem alguma dúvida, deixa nos comentários ou me procura no whatsapp... ficarei feliz de explicar caso eu possa.. kkkkk Um beijão grande para vocês e até o próximo! Flávia Rolim