Notas iniciais
More one cap. É isso aí! Espero que gostem e talvez eu demore um pouco mais para postar, então não esquentem a cabeça.

Larguei a bicicleta no meio da rua e corri em direção a casa em chamas, temendo que meus avós ainda estivessem ali.

Presumi que o pequeno incêndio não havia começado há muito tempo, pois o fogo ainda não havia consumido nem um terço da casa, sem contar que também não tinha nenhum vizinho curioso do lado de fora olhando para a cena.

Entrei na casa, que estava com a porta aberta inclusive e saltei sobre as chamas para não me queimar. Corri desesperado, indo em todos os cômodos da casa. Não havia nada na cozinha, nem na sala e então imaginei que meus avós estavam no quarto quando tudo aquilo começou.

Subi os degraus desesperadamente, saltando de dois em dois, alcançando o segundo andar rápido. E então abri a porta do quarto, mas ele estava completamente vazio, me deixando ainda mais aflito.

Rezei para que eles não estivessem em casa, pois já possuíam uma idade avançada e não sabia se iriam resistir a tanta fumaça.

Sai do quarto deles tossindo e com o fogo se alastrando, então fui em direção ao meu, encontrando a minha pedra em cima da, cama pulsando uma luz negra.

– Procurando por alguma coisa? – Disse uma voz na escuridão de meu quarto.

Senti meu pelos se eriçarem. Sabia que aquela voz não era de meus avós, pois era grave e assustadora demais.

Olhei para a janela e vi o vulto de um homem com... Quatro braços.

– Quem é você? – Perguntei. – O que você fez com meus avós?

De repente ele abriu os olhos, mostrando pupilas inteiramente brancas e que emitiam uma luz na escuridão.

– Pode me chamar de Thorfi, mas acho que não terá muito tempo de vida para proferir meu nome, mortal estúpido.

Sua risada ecoou pelo quarto, me deixando sem reação e em pânico. A única coisa que consegui fazer foi correr e descer a escada.

– Quer mesmo brincar disso? – Ouvi a voz de Thorfi gritar, enquanto descia os degraus.

O vi de relance surgindo no topo da escada e saltando sobre ela, parando exatamente na minha frente.

– Acho melhor você dar uma conferida no teto se quer ter uma ideia do que sou capaz...

Não sei o que me deu, mas eu acabei fazendo o que ele pediu, deixando-me em pânico total.

No teto estava o corpo de meus avós, sem vida e pendurado com fitas, impedindo-os que caíssem. Não havia nenhum sinal de batalha em suas peles, mas claramente havia uma expressão de horror em seus rostos.

– Foi tão fácil e divertido. – Zombou o homem. – Morreram de susto provavelmente.

Ele deu um passo no degrau e me agarrou com dois de seus braços, enquanto os outros dois estavam cruzados. Tentei chuta-lo, mas ele era muito mais forte do que eu e toda vez que tentava me soltar acabava me machucando.

– Imaginei que você fosse um desafio maior, mas acho que nem sabe como utilizar seus poderes. – Thorfi revirou os olhos de tédio. – Zargron precisa me passar tarefas mais desafiadoras.

Não estava entendendo nada do que ele estava falando e nem queria. Naquele momento eu só queria me livrar dele e salvar meus avós, mesmo que não tivesse salvação.

Provavelmente estaria me debulhando em lágrimas, mas eu estava tão perdido que não fazia a menor ideia de como sair dali ou agir diante de tudo. Aos poucos o desespero se transformava em medo.

– Eu não sei do que está falando... – Tentei ganhar algum tempo enquanto pensava em algo.

– Presumi que não sabia, mas isso não faz diferença, apenas preciso te matar. – Falou o homem. – Espero que meu irmão esteja se divertindo com seus dois amiguinhos pelo menos.

Naquele momento todo o medo de perder as pessoas mais importante que eu ainda tinha me atingiu em cheio. Se ele estava falando sério eu precisava fazer algo para salvar Logan e Luna, mas antes eu precisava sair dali e eu não tinha ideia de como fazer aquilo.

Thorfi descruzou os braços restantes e estava prestes a me atacar quando gritei com toda a força e ar que reuni em meu pulmão.

Percebi que o homem estava rindo de mim, mas logo ele ficou sério e me olhou intrigado. Se tinha acontecido alguma coisa eu não sabia, pois Thorfi me soltou no mesmo instante, olhando em volta preocupado com alguma coisa, até que um buraco surgiu abaixo dele, engolindo-o.

Não tive tempo para processar o que havia acontecido, apenas corri para meu quarto, já que a sala estava completamente destruída, impossibilitando-me de fugir pela entrada da casa.

Não olhei para trás, apenas continuei correndo, até adentrar meu quarto e abrir a janela. No entanto, algo me fez parar e olhar para a cama, como se me puxasse para um buraco negro.

“Leve-me com você.”

A voz soou em minha mente e a reconheci imediatamente como sendo o mesmo homem que aparecia em meus sonhos.

Sem hesitar, voltei e peguei a pedra, guardando-a no bolso, mesmo não sabendo o motivo de estar fazendo isso. Dei uma última olhada no baú e o abri, pegando tudo o que podia e colocando-os na bolsa vazia que estava guardada em meu armário.

De repente ouvi a voz de Thorfi gritar furiosamente, mas que parecia feliz.

– Até que enfim desafio!

Em pânico coloquei a bolsa nas costas e saltei sobre a janela, indo parar no telhado da casa. Já havia pulado muitas vezes a janela para me encontrar com Logan e Luna, mas desta vez era diferente.

Desci pelo parapeito e então soltei meu peso, caindo sobre a grama macia do jardim, onde estava a caminhonete de vovô

Olhei para ela e prendi a respiração. George já havia me ensinado a dirigir algumas vezes, mas eu não sabia se deveria fazer aquilo...

– Que se dane! – Falei por fim, correndo até a caminhonete e abrindo a porta dela.

Procurei pela chave e a encontrei no mesmo lugar que antes, colocando-a na ignição o mais rápido que pude. Minhas mão estavam trêmulas e meu coração pulsava aceleradamente.

Vi Thorfi surgindo na janela de meu quarto e eu imediatamente dei partida no carro, fazendo o motor ligar. Assim que ele saltou, pisei fundo no acelerador, engatando a marcha ré e saindo do jardim.

Em situações normais vovó iria me dar uma bronca por ter destruído suas orquídeas, mas tinha certeza que ela não faria o mesmo agora e nem nunca mais...

– Volte aqui! – Gritou Thorfi me encarando.

Girei o volante de uma só vez ao alcançar a rua e então engatei a marcha normal. Pisei mais uma vez no acelerador e fiz a caminhonete atravessar a avenida, fazendo alguns carros frearem bruscamente enquanto passava ouvindo a buzina deles.

Olhei no retrovisor e vi Thorfi correndo para me alcançar. Ele era incrivelmente rápido e temia que ele me alcançasse.

Virei a rua e encontrei um lobo gigante morto, ao lado de um homem com uma espingarda nas mãos. Não sabia o que estava acontecendo com a cidade, mas que havia algo de sobrenatural em tudo isso, havia.

Tentei me orientar, atravessando sinais vermelhos e pisando ainda mais fundo no acelerador, virando ruas e deixando a marca do pneu no asfalto.

Queria encontrar a casa de Logan e Luna antes que o tal irmão de Thorfi, mas não tinha certeza se já era tarde demais. Apenas rezei para que não fosse.

Depois de um minuto dirigindo feito louco pelas avenidas pouco movimentadas, alcancei a casa de Logan e Luna, enquanto que Thorfi havia desaparecido de vista, uma preocupação a menos,

No meio da rua encontrei dois vultos familiares, o que me obrigou a ligar os faróis e encontrar Logan e Luna desesperados enquanto observavam algo.

Freei bruscamente para não atropela-los e então sai do carro, olhando para a casa deles que estava completamente destruída. Havia um lobo gigante lutando com um homem idêntico a Thorfi, só que em vez de ter quatro braços, possuía seis. Os cabelos brancos eriçados balançavam a cada movimento rápido e seus olhos pulsavam a luz branca.

Luna estava chorando e impedia que Logan fosse ajudar o lobo.

– Por favor, me deixe ajudar papai. – Ouvi ele dizer ao me aproximar dos dois.

– Meu Deus! – Passei a mão na cabeça. – Temos que sair daqui!

– Não! – Gritava Logan. – Não sem meu pai!

Olhei para a cena a minha frente e vi que o lobo estava levando uma surra feia, mas não conseguia encontrar o pai deles, que provavelmente estaria em baixo dos escombros da casa.

De repente senti algo pesar em meu bolso enquanto pulsava uma energia própria. Peguei a pedra e a vi emitir uma luz forte e ofuscante.

“Use as Sombras!”

Novamente a voz surgiu em minha mente.

Franzi o cenho, confuso. E então estendi meu braço enquanto segurava a pedra e a apontava na direção do homem. De repente ela aumentou seu brilho e senti algo percorrer meu corpo enquanto me queimava por dentro.

Olhei para a batalha, vendo que o homem estava preso por... Sombras. Enquanto isso o lobo estava parado, tentando se recuperar dos golpes que recebera do homem.

– O que é isso? – Gritou ele e então olhou para mim. – Thorfi é um inútil mesmo...

Ele tentava se libertar das sombras e eu sentia ele usando sua força. Senti também as sombras como uma extensão de meu corpo, então girei meu punho, enrolando-o ainda mais.

– Eu estou controlando isso... – Sussurrei incrédulo, assim como Logan e Luna que olhavam abismados para aquilo.

Em seguida reuni toda a minha força, puxando meus punhos e arremessando o irmão de Thorfi para o alto, em direção à avenida.

– Não temos muito tempo... – Murmurei.

Mas os dois não ouviram, estavam indo em direção ao lobo. Tentei impedi-los, mas já era tarde.

Percebi que a fera estava caída no chão enquanto gania de dor. Aproximei-me deles também, não entendendo o que se passava, até que vi tudo.

O lobo, aos poucos, começava a diminuir de tamanho, fazendo os pelos se encolherem e aderirem à pele. Enquanto isso ele passava a ter uma forma mais humana e assumir a forma de...

– Gary? – O pai dos dois estava despido e extremamente ferido. Seus cabelos grisalhos estavam úmidos de suor. Os olhos inchados pelos golpes daquele monstro e em seu nariz havia uma pequena quantidade de sangue escorrendo.

Ele tentou se levantar, mas estava muito fraco para isso.

– Meus filhos... – Gary tossiu, cuspindo um pouco de sangue. – Me desculpa...

Pouco a pouco ele perdia a vida. Luna se ajoelhou perante ele enquanto chorava desesperadamente.

– Não papai. – Sua voz estava carregada de tristeza. – Por favor... Por favor...

– Cuide de sua irmã Logan. – Pediu. – E o mais importante... Saiam deste país e não voltem.

– Papai... – Ouvi Logan sussurrar enquanto uma lágrima escorria de seu olho.

Gary deu um último suspiro.

– Me desculpem. – Pediu ele. – Eu amo vocês...

E então sua cabeça tombou para o lado, sem vida. Luna gritou e começou a chorar pela morte de seu pai, mas não havia nada que pudesse ser feito.

Olhei para a rua e avistei Thorfi e seu irmão nos encarando furiosos.

– Precisamos sair daqui... – Murmurei. – E rápido!

Logan olhou para eles e concordou, puxando Luna que resistia em ir com eles. O ajudei a carregar Luna que não parava de chorar, abrindo a porta da caminhonete do lado do passageiro, enquanto seu irmão assumia o volante e pisava fundo no acelerador.

♦

Alcançamos a pista em menos de dez minutos e permanecíamos em silêncio, cada um tentando entender o que havia acontecido aquela noite, com exceção de Luna que havia pego no sono em meu ombro depois de tanto chorar.

– Precisamos abastecer. – Quebrou o silêncio Logan, após meia hora.

Olhei para o painel do carro e vi que o nível de combustível estava baixo, concordando com ele.

– Acho que tem um posto daqui 2 km. – Comentei, lembrando-me da vez que havia pego a rodovia com vovô. – Mas não temos dinheiro para pagar.

– Papai me deu o cartão de crédito dele hoje de manhã para eu comprar alguma coisa para comer no parque. – Logan parecia realmente abatido por tudo o que havia acontecido, assim como sua irmã e eu.

Não era fácil perder os avós e muito menos os pais. Nossas vidas haviam virado de cabeça para baixo da noite para o dia, literalmente.

Chegava até ser engraçado pensar que hoje de manhã estávamos indo para o parque de diversões e agora estávamos fugindo da cidade, abandonando nossa escola, nossas casas, nossas vidas...

A imagem de vovô jogando sinuca comigo e rindo toda vez que eu errava uma bola fácil surgiu em minha mente, assim como vovó me ajudando nos deveres de casa que eu geralmente tinha. Uma dor atingiu meu peito ao saber que isso fazia parte do passado agora.

A minha vontade era de me jogar daquele carro ou de chorar, mas sabia que nenhuma das duas coisas iria trazer meus avós de volta.

As únicas pessoas importantes que me restaram eram Luna e Logan a partir de agora e eu precisava fazer de tudo para não perde-los também, pois não saberia o que fazer caso isso acontecesse.

Não havia notado, mas eu vinha segurando a pedra que salvara nossas vidas momentos antes desde que fugimos dos irmãos bizarros.

Ela havia parado de brilhar e pulsar, o que era de certa forma um alívio. Mas eu ainda desejava saber o que era aquilo em minhas mãos e o que fazia no baú de minha mãe.

“O que é você?”

Minha pergunta não foi respondida, infelizmente. Se eu tivesse feito isso ontem acharia que estava louco e pediria para que me internassem. Porém hoje a história era completamente diferente.

Logan girou o volante da caminhonete para a direita, saindo da rodovia principal que ligava as cidades do condado de Los Angeles.

– Ali. – Apontei para o posto que meu avô havia usado para abastecer anos antes.

Luna de repente se mexeu, acordando aos poucos e esfregando os olhos. Temia que ela voltasse a chorar ao se lembrar do que havia acontecido.

– Onde estamos? – Perguntou ela com uma voz sonolenta.

– Provavelmente em West Los Angeles. – Falei, lembrando-me da placa que havíamos passado minutos antes.

Ela franziu o cenho e depois me encarou.

– Então não foi um pesadelo? – Perguntou ela com o olhar triste.

Balancei a cabeça.

– Papai e mamãe estão... – Luna não conseguiu continuar a pergunta, mordendo os lábios para não chorar.

– Eu sinto muito. – Foi tudo o que consegui dizer.

Logan parou o carro e pediu que o frentista enchesse o tanque. Enquanto isso eu peguei o dinheiro que havia encontrado no porta-luvas da caminhonete e sai para comprar alguma coisa na qual poderíamos comer na conveniência durante a viagem.

– Já volto.

Assim que sai, senti o frio da noite atingir minha pele, fazendo-me encolher. Provavelmente já era mais de meia noite e precisávamos de algum lugar seguro para dormir.

Abri a porta da conveniência, onde um clima estava mais quente e agradável. Procurei por algo barato já que não tínhamos muito dinheiro e encontrei alguns salgadinhos de qualquer marca, além de uma Pepsi. Então os peguei e entreguei a balconista, que passou os produtos e me deu o preço final.

– São vinte dólares. – Disse, o que achei um absurdo, mas felizmente tinha trinta dólares, nos restando um pouco.

Olhei para a TV e vi uma notícia de última hora sobre a cidade de Santa Mônica.

– A senhora poderia aumentar o volume? – Pedi à mulher.

Ela assentiu, pegando o controle e apertando o botão.

“... lobos invadiram a cidade de Santa Mônica durante a noite, matando dezenas de moradores e turistas que aproveitavam a diversão no parque do píer da cidade.” Dizia a repórter. “As autoridades ainda não tem nenhuma informação de como os lobos chegaram na cidade, mas há indícios de que escaparam de algum zoológico nas redondezas. Até o momento temos notícia de vinte e dois mortos e cinco feridos, inclusive um casal de idosos em um incêndio na Quinta Rua, no qual os bombeiros presumiram terem sido causados pelos lobos...”

Senti meu coração apertar quando vi a imagem de vovô e vovó sendo levados nas macas e cobertos por tecidos pretos.

– Muito obrigado... – Falei, pegando a sacola com os alimentos.

Sai da conveniência, sendo atingido novamente pelo frio. Observei Luna e Logan abraçados dentro do carro, talvez lamentando por tudo o que estava acontecendo a eles.

– Foi tudo culpa minha! – Tive vontade de gritar, mas me segurei.

Se não tivesse encontrado aquela maldita pedra nada disso teria acontecido, pois foi somente quando ela entrou em minha vida que tudo começou a piorar.

Senti a culpa atingir meu peito e me vi num beco sem saída, até que decidi fazer o melhor para todos.

Rumei em outra direção, com a intenção de sumir da vida deles para que não corressem mais risco por minha causa.

Não sabia se iria conseguir sobreviver por muito tempo naquela situação, mas independentemente do que fosse, eu estava disposto a não coloca-los em perigo mais uma vez.

Já havia dado a volta no posto e andava em uma rua escura e sem nenhum sinal de vida, causando-me calafrios. Isso até a luz de um veículo surgir atrás de mim minutos depois, iluminando meu caminho.

– Onde pensa que está indo? – Ouvi Logan perguntar ao abrir a janela da caminhonete.

– Por favor, vão embora. – Pedi. – Já coloquei vocês dois em perigo, não posso fazer isso de novo.

– Cara, não me obrigue a sair daqui e te espancar. – Ameaçou Logan. – Você é nosso melhor amigo. Independentemente do que for que tenha acontecido, estamos junto nessa, como uma família. Iremos junto aonde for e enfrentaremos o que for preciso, mas não deixamos a família para trás. Entendeu?

Parei de andar e olhei para os dois.

– Vocês devem me amar muito.

Notas finais
E aí? O que acharam? Leitores fantasmas, manifestem-se