Guardians I - The Divine Stones
5 V - The Cyclops
Notas iniciais

Decidimos ir até Bakersfield, onde os tios de Logan e Luna moravam, embora eles não soubessem nada deles, nem mesmo como eram.
A viagem seria longa, mas como não havia muito trânsito àquela hora, não enfrentaríamos nenhum problema.
– Vira na 405. – Instrui ao observar no mapa, que vovô guardava no carro, a rota para a cidade. – Depois é só seguir por ela até a Rodovia I-5 e por fim a CA-99.
– Uma coisa de cada vez, por favor... – Pediu ele. – Nunca cheguei a pegar uma pista antes, então não tenho experiência.
– Você está com sua carteira de habilitação pelo menos né? – Avistei uma viatura rodoviária próxima de nós.
Logan assentiu, tranquilizando-me.
Ajeitei-me no banco e senti algo gelado tocar a minha pele. Quando olhei vi que era a mão de Luna, que estava distraída observando a pedra que havia encontrado na tenda da cartomante.
– Tudo aconteceu tão rápido... – Ouvi ela murmurar.
Luna ainda estava com olheiras de tanto chorar. Seus cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo e sua maquiagem praticamente já havia saído do rosto.
– Infelizmente. – Concordei com ela enquanto olhava para a janela do carro, observando as poucas estrelas no céu. – O que acha que pode ser isso?
Ela aproximou a pedra do olho, tentando estuda-la mais.
– Não sei, mas quando a toquei me senti como se fosse outra pessoa. – Ironicamente foi o que eu também havia sentido. – Lembranças de alguém invadiu minha mente naquela hora, mas eu não consigo me lembrar de mais nada.
– Você acha que pode ter poderes assim como a minha? – Perguntei, lembrando-me do que havia feito com aquele homem que lutava contra Gary.
– Talvez sim, talvez não... – Foi tudo o que ela disse. – Mas eu não estou preocupada com isso. Você viu no que meu pai se transformou...
– Um lobisomem. – Disse Logan, que até então estava distraído, dirigindo em silêncio, com somente uma de suas mãos no volante. – Isso é tão...
– Estranho? – Completei.
– Não. – Ele exibia um sorriso maroto. – Quer dizer, é estranho também, mas convenhamos que foi maneiro.
Luna revirou os olhos.
– Espero não se transformar naquilo também. – Falou ela. – Por que papai nunca nos contou que ele poderia fazer aquilo?
– Acho que ele estava tentando mantê-los em segurança. – Supus, algo que já havia pensado antes. – Mas pensem... Acabamos de ver lobisomens, homens com quatro e seis braços e poderes com sombras...
– Estou doido para ver um vampiro também. – Brincou Logan.
– Isso é sério cara. – De repente senti meu corpo demonstrar exaustão e eu bocejei. – Que seja! Acho que vou tirar um cochilo. Acordem-me quando precisar.
♦
E mais uma vez o homem surgiu em meus sonhos. Desta vez ele possuía uma aparência mais humana, mas continuava pálido e com os olhos negros.
– Quem é você? – Perguntei antes que ele desaparecesse sem nenhuma resposta.
O homem sorriu. Era um sorriso sombrio e assustador, mas algo nele me fazia acreditar que não pretendia fazer nada comigo.
– Eu sou o Espírito de Hades. – Se apresentou. – E agora você é o meu Guardião, Kevin Wayne.
♦
– Mais um sonho ruim? – Perguntou Luna, assim que acordei assustado.
Percebi que o sol já estava se pondo quando acordei, iluminando a estrada a nossa frente.
A paisagem cheia de árvores e asfalto foi substituída por casas, prédios e lojas pouco movimentadas.
– Sim.- E então relatei com o que havia sonhado. – Sempre são sonhos curtos e não dá para descobrir muita coisa.
Logan franziu o cenho.
– Espera um pouco. – Disse ele de repente, virando uma rua. – Você disse que esse em seus sonhos é o Espírito de Hades.
Assenti.
– Esse daí não era aquele deus do filme do Hércules que a Disney fez?
– Acho que sim, não lembro. – Tentei me lembrar, mas não conseguia. – Assisti quando era criança.
Luna balançou a cabeça.
– Pelo visto só eu presto atenção nas aulas de história aqui... – Ela suspirou e pegou um dos salgadinhos que eu havia comprado na conveniência. – Hades era o deus dos mortos na mitologia grega, responsável pelo mundo inferior. Ele é muito mais do que um simples vilão da Disney.
– Deuses não existem. – Corrigi.
– Assim como lobisomens. – Lembrou-me Luna. – De qualquer jeito... Presumo que isso que está em suas mãos possui o Espírito de Hades, isso explica porque você fez aquilo ontem.
– Maneiro. – Logan e eu falamos no mesmo instante, o que me fez rir.
Ele então diminuiu a velocidade aos poucos, parando num lugar vazio próximo à calçada.
– Também vou querer uma. – Ele parecia cansado, mas sabia que iria negar caso dissesse isso. – Mas no momento precisamos saber como encontrar nossos tios.
Concordamos que tínhamos um pequeno empecilho a nossa frente. Mas por sorte tínhamos Luna, que sempre pensava em algo.
– Podemos procurar o nome deles numa lista telefônica.
– Você é um gênio. – Falei enquanto abria a porta do carro.
Luna parecia feliz com o elogio.
– Me diga algo que eu não saiba. – Respondeu ela.
– Não é a toa que temos o mesmo sangue. – Se gabou Logan, fazendo Luna revirar os olhos novamente. – Acho que naquela loja tem uma...
Assim que ele disse isso ouvimos sua barriga roncar, o que causou muitas risadas.
– E eu acho que você está com fome.
Logan travou a caminhonete com a chave e nos olhou em seguida.
– Se quiserem comer alguma coisa podem ir. – Quem propôs foi Luna e percebi que também estava faminto. – Encontro vocês aqui mais tarde.
Sem hesitar concordamos e nos separamos ali mesmo.
♦
Não foi difícil achar um restaurante por perto, e foi somente virar a esquina que encontramos um que parecia bastante agradável.
– Vou sentir falta de Santa Mônica. – Comentei ao entrarmos no local.
– Bakersfield não é tão feio assim, mas não há nada como Santa Mônica. – Concordou meu amigo.
Sentamos em um banco e rapidamente fomos atendidos pela garçonete, fazendo nossos pedidos logo em seguida.
– Pelo visto você e Luna já se entenderam novamente. – Observou ele assim que a comida chegou: dois hambúrgueres, um refrigerante e um suco de laranja. – Isso é bom.
– É, acho que sim. – Soltei um riso abafado enquanto mexia em meu suco de laranja. – Mas ainda não entendo o motivo dela ter agido daquela maneira.
– E quem entende as mulheres a não ser elas mesmas? – Brincou Logan.
Ele então começou a se distrair e comer lentamente, algo que nunca fazia. Pelo visto tudo que estava acontecendo havia abalado até o apetite dele.
– Estava pensando em meu pai... – Disse ele de repente. – Será que eu também posso fazer aquilo? Digo, se transformar em um lobisomem.
– Ultimamente eu acredito até em fadas.
Logan sorriu, mas ele ainda permanecia intrigado e sério.
– Pense comigo. – Continuou. – Todos aqueles lobos que atacaram o parque ontem eram idênticos ao meu pai, o que me leva a crer que eles também eram lobisomens. Mas meu pai parecia ter controle sobre a sua transformação.
Isso era algo que eu não tinha pensado, o que me fez pensar que seria isso que vinha afligindo Logan todo esse tempo.
– E se eu não tiver controle? – Perguntou ele. – E se eu machucar vocês?
Terminei meu suco de laranja rapidamente e pensei no que Luna diria naquela situação.
– Você não vai nos machucar, pode ter certeza disso. –Garanti. – Você tem um bom coração e sempre quer proteger a gente, não importa qual a situação.
– Muito obrigado... – Agradeceu ele, terminando com seu hambúrguer.
Levantei-me junto com ele para pagar a conta do que pedimos.
– E caso você perca o controle, nós colocamos uma coleira em você e te prendemos.
Saímos então para encontrar Luna na caminhonete, mas quando alcançamos o veículo, ela não estava lá.
O fluxo de pessoas havia aumentado de repente na rua, muitas saindo para trabalhar ou para comprar seu café da manhã.
– Acho que ela não achou ainda. – Supôs Logan. – Melhor esperarmos aqui.
♦
Uma hora se passou desde que decidimos esperar por Luna no. Conforme o tempo passava, mais e mais carros começavam a se locomover nas ruas da cidade, aumentando o trânsito.
Pessoas já começavam a sair com mais frequência de suas casas e as lojas eram totalmente abertas. Assim como crianças que saiam para se divertir, fazendo-me lembrar do tempo em que eu fazia o mesmo com brincadeiras de todos os tipos.
– Bons tempos... – Murmurei.
Pensei que Logan iria concordar, mas ele não parava de se remexer em seu banco. Era para ele estar dormindo devido a cansativa viagem, porém o garoto não conseguia parar de pensar em sua irmã. Nem eu.
– Ela já devia ter voltado. – Ele havia aberto o vidro do carro para respirar um pouco de ar fresco.
– Não se preocupe. Luna sabe se virar, tenho certeza de que ela está bem. – Tentei convencer Logan, mas a verdade era que eu não conseguia convencer nem a mim mesmo.
Já eram 10h da manhã e o clima de Bakersfield se mostrou muito mais agradável e fresco que Santa Mônica. Sabia que a cidade era utilizada como um centro de agricultura no Condado de Kern.
Era uma cidade pequena e com poucos habitantes, nada comparado a grandiosa Los Angeles que beirava os 3 milhões de habitantes. Porém era bem maior que Santa Mônica, que possuía cerca de 90 mil moradores, enquanto Bakersfield por volta dos 350 mil.
Como eu sabia tanta coisa? Simplesmente amava estudar assuntos geográficos como demografia, geologia e tudo relacionado.
De repente Logan se mexeu desconfortável sem eu banco, colocando a cabeça para fora em busca de algo.
– Ouviu isso? – Perguntou, tentando aumentar sua audição.
Decidi fazer o mesmo, mas não ouvia absolutamente nada a não ser o som dos carros passando ao meu lado e de crianças rindo.
– Parecia Luna.
– Acho que você está cansado e ouvindo coisas. Deveria dormir...
– Não! – Me interrompeu, estendendo a mão como sinal para que eu ficasse em silêncio. – Eu a ouvi gritar, te juro.
– Mas eu não ouvi nada.
Logan ficou em silêncio mais uma vez e franziu a testa, juntando suas sobrancelhas de forma intrigada e então abriu a porta da caminhonete, saindo correndo logo em seguida.
– Logan! – Gritei seu nome, mas já era tarde e sabia que ele não ia parar por nada. – Luna tem razão... Você que é o mongoloide entre nós.
E então decidi fazer o mesmo, seguindo meu amigo que era bem mais rápido do que eu.
A caminhonete estava estacionada na Av. Truxtun, a qual Logan e eu seguimos até o fim, encontrando o cruzamento com a Rua Empire.
Era uma rua pequena, com pouco movimento de carros e de pessoas. Havia duas empresas logo no começo, com um grande estacionamento que praticamente era o dobro dela.
A seguimos, fazendo uma curva no meio do caminho e atravessando o estacionamento de uma das empresas e pulando os canteiros até chegar na entrada do Yokuts Park, um lugar não muito bonito para ser considerado um parque, mas relativamente agradável.
O verde habitual em lugares como aquele mal era visto, trocado por uma vegetação rasteira amarronzada e com poucas folhas no chão por causa das árvores mortas, algo que era bem visível naquele lugar.
Logan parou justamente na entrada do parque, onde não havia absolutamente ninguém, olhando para todos os lados e um minuto depois consegui alcança-lo.
– Por favor... – Falei com a respiração ofegante enquanto tentava recuperar o fôlego de tanto correr. – Não faça mais isso.
Meu amigo não parecia nada cansado, muito pelo contrário, parecia ainda mais disposto em correr.
E foi o que ele fez.
– De novo não. – Choraminguei, reunindo a pouca energia que ainda me restara.
Eu não conseguia alcança-lo por nada, isso até que ouvimos um urro grotesco vindo do centro do parque, exatamente onde um ser monstruoso nos encarava de forma sanguinária.
O monstro devia ter pelo menos dois metros de altura para mais. Era extremamente musculoso e coberto de cicatrizes ao redor de seu corpo. Seu rosto apresentava uma boca com dentes tortos e gastos, enquanto sua testa possuía um pequeno chifre. Mas, apesar dessa aparência assustadora, o que mais me deixou com medo foi o fato dele possuir um único olho. E, mesmo não prestando muita atenção nas aulas de história, eu sabia o que era aquilo...
– Logan! – Gritei assim que o ciclope começou a correr na direção de meu amigo, com um porrete de madeira em suas mãos.
Pra variar ele não fugiu, apenas estufou seu peito e se preparou para o ataque do monstro.
Tentei procurar por ajuda, mas não havia ninguém no parque, o que era algo extremamente estranho.
Desesperado eu não sabia o que fazer, até que senti novamente a pedra pulsar em meu bolso. Sem hesitar a peguei, fechando os olhos e me concentrando novamente nas sombras que o ciclope projetava abaixo dele, até que pude sentir cada parte dela como se fosse uma extensão do meu corpo. Podia vê-la se movendo sob os pés do monstro e pouco a pouco se aproximar de Logan.
E foi então que fechei o punho e o levantei com um soco, fazendo com que a sombra se erguesse alguns centímetros a frente do ciclope. No mesmo instante ele acabou a chutando e tropeçando.
O impacto fez com que o chão vibrasse e o som da cabeça se chocando com ele foi ouvido há metros de distância.
Corri na direção de Logan, que observava o ciclope a sua frente com uma expressão de irritação.
– Está inconsciente, não morto. – Murmurou ele enquanto se aproximava e pegava o porrete da mão daquela aberração.
Logan sentiu o peso da arma que agora estava em suas mãos e a segurou firme.
– O que fizeram com Bagro? – Ouvi a voz de alguém soando atrás de nós.
Assim que nos viramos, acabamos nos deparando com outro ciclope ainda maior, rodeado por outros monstros da mesma altura que o que havia acabado de derrubar.
– Luna! – Gritou Logan ao ver sua irmã amarrada aos pés do ciclope maior. – Solte minha irmã!
O ciclope a olhou e depois exibiu um sorriso cruel para nós.
– Eu estou muito a fim de provar a carne dessa menina aqui... – E então ele passou a língua sobre os lábios como sinal de que estivesse imaginando-a como um aperitivo delicioso. – Mas Zargron pediu que eu a levasse viva até ele.
Zargron...
Não era a primeira vez que ouvia aquele nome estranho. Lembrava perfeitamente de Thorfi se referindo aquele nome como seu líder.
– E acho que vou pedir um aumento levando vocês junto comigo.
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