Guardando Um Anjo
1 Sonhos
Notas iniciais
Numa noite chuvosa e fria, às três da madrugada, uma jovem mulher bate na porta do convento Irmãs de Fé. Um belo e frágil bebê é entregue às freiras. Alguém observa a cena ao longe, escondida por portões e arbustos. Não é possível enxergar quase nada, exceto um leve brilho de um olhar demoníaco. A mulher sente a fúria do olhar de quem lhe observa, ela acelera o andar pelas ruas, a pessoa a segue por cada esquina. Ela vira numa rua sem saída, é o fim da linha para a jovem mãe. Nas ruas é possível ouvir o cântico arcaico. Do outro lado de Londres, Lia se remexe na cama atormentada por suas visões. Ela acorda como num pulo. — Ela voltou!-tremendo Lia acende as luzes do quarto. Sentada na cama ela começa a ouvir a torneira pingar, as portas e janelas baterem com o vento da tempestade. As luzes parecem brincar. De repente tudo para, a pia, as janelas e portas, e as luzes. O cômodo fica em um breu atormentador. Os corredores vazios são preenchidos com os gritos de Lia, e o som de móveis e objetos voando contra a parede. A assassina sai pela escada de incêndio do cortiço. Tão silenciosamente quanto um gato. Novamente ouve-se o cântico de invocação na voz da ruiva de casaco sobretudo tão vermelho quanto seus longos cabelos.
Ennie acorda sobressaltada em sua cama. As suas roupas estão molhadas de suor. Ela caminha até o espelho do banheiro. O reflexo no espelho mostra uma jovem pálida, com enormes olheiras abaixo dos olhos negros, e de cabelo ondulado embaraçado. Ignorando a imagem do espelho, ela pega o calmante e volta para cama, na esperança de conseguir ter uma noite tranquila. Depois de meia hora virando de um lado para o outro, até o remédio fazer efeito, finalmente adormece. Os pesadelos recomeçam.
Theodoro, um jovem coveiro, trabalha na preparação de mais uma cova. -Quem é o defunto?Onde está o corpo?- Aysla pergunta às gargalhadas. Theodoro se assusta com o gracejo da ruiva. -É uma maluca da cidade que dizia que era perseguida por uma demônia. – A gargalhada vira um rosnado de escárnio. A ruiva rodeia a cova analisando a profundidade. -A idiota pensou que podia se esconder de mim. Vidente de quinta categoria! Nem se comunicava com aquele maldito anjo Kael. – O coveiro agarrou o crucifixo pendurado em seu pescoço. Ela apenas o olhou de relance. -Nessa cidade só tem louco! Vai dizer que a senhorita é um demônio? – Aysla parou de rir, e se aproximou dele de modo que pudesse cochichar em seu ouvido. -Adivinhou! Sou uma linda e esperta demônia, concorda? Fui obrigada a vir para cá por meu senhor. Ele quer que o sangue dessas idiotas que tenho de matar. – Aysla o beija fervorosamente e cochicha. –Você será o sacrifício que irei dar de presente ao meu amo. – Ela o empurra na cova funda. Theodoro grita desesperadamente por socorro. Ela o mata, enquanto entoa o cântico antigo que lhe foi ensinado.
Ennie tenta acordar, mas não consegue. O remédio ainda faz efeito no seu sistema nervoso. Sua consciência é sugada novamente para mais uma visão.
Pouco meses depois, ainda em 1808, chega à cidade, um senhor já idoso que atende pelo nome de Leandro. Mal desfeita as malas, ele segue para a taverna mais próxima. Se apresenta como investigador, interroga todos os presentes afim de saber como ocorreram as mortes bárbaras dos últimos meses. Todos falam a mesma coisa, que os corpos estavam sem coração e que suas bocas e olhos estavam costurados, havia várias menções de rituais satânicos nos depoimentos. Ninguém sabia responder onde estavam os corações. A noite caía quando o detetive foi embora da taverna. Ele resolveu tomar outra direção, em vez de ir para a pensão, foi para os becos onde as prostitutas trabalhavam. Uma sedutora prostituta lhe chamou a atenção. Como o beca estava muito escuro, ele não reparou que os olhos dela estavam completamente negros, e tampouco que estava possuída por Aysla. Os dois saíram juntos para ir a um cortiço próximo. Ele lhe contou que um anjo havia lhe pedido para ir atrás de uma demônia. E que não acreditava que justo ele, um policial corrupto e pecador pudesse ter recebido um pedido de Deus. Ela o embebedou e perguntou onde estava o anjo, e se ele estava com a criança. Leandro percebeu como os olhos que ela escondera o caminho todo com o cabelo estavam tão escuros quanto ônix. A voz de Kael lhe sussurrava em sua mente para ele sair dali, senão ele morreria. A prostituta ficou ainda mais irada ao notar que o anjo estava falando com o detetive. Ela pegou a adaga guardada na gaveta do criado-mudo e o esfaqueou. Enquanto o sangue dele escorria pela cama, ela viu uma marca de coração com meia cruz. Ele era um dos “enviados” que se perderam no meio da batalha. Quando o relógio da torre da igreja da praça deu quatro horas da manhã, no último badalo do sino, Aysla deixou o corpo da prostituta largado no chão do quarto.
Ennie acordou com os primeiros raios de sol que adentraram pela janela do quarto do convento. Hoje ela irá conhecer o pretendente que seus pais lhe arranjaram. As únicas coisas que sabia sobre ele, era que se chamava Nataniel, tinha por volta de 25 anos e que sua antiga noiva sumira duas semanas antes do casamento, e que sua família descendia de italianos. Ela foi se lavar para encontrar com eles, seus pais e o pretendente. A madre superior do convento se anunciou na porta do quarto para entregar o vestido que sua mãe mandara para ocasião. O vestido estava embrulhado em papel de seda turquesa, dentro de uma elegante caixa de presente. Era um belíssimo vestido cor de esmeralda, com rendas cor de ébano. O decote era discreto como o figurino mandava. Mangas longas terminavam de compor o visual sério e majestoso da veste. Ela se vestiu, o cabelo estava alinhado em um coque simples e a única jóia, uma corrente de ouro com a foto de seus pais, a tornavam uma dama quase perfeita.
Um vulto percorreu o quarto de um lado a outro como se procurasse algo. Brisas agitaram a roupa de Ennie deixando-a descabelada. Sussurros surgiram na mente dela.
-Ennie, venha... Ennie, precisamos de você...- O vulto saiu do quarto, Ennie teve o impulso de sair correndo gritando pelos corredores do convento. Mas não o fez, pois sua mente lhe dizia que estava tudo bem. Ennie seguiu o vulto até a parte antiga do convento que foi destruída por um incêndio, iniciado por um raio de uma forte tempestade. O vulto parou em frente ao altar destruído e voltou-se para Ennie tomando a forma de uma mulher loira chorando.
-Ennie, me ajude! Estou presa... Ela virá atrás de você, Aysla irá matá-la, fuja vá para... – A mulher foi sugada por uma imensa luz.Ennie quis sair correndo dali, mas algo fechou a porta de saída. As imagens de santos destruídas voaram pelo ar da igreja, derramando sangue nela. Ela se jogou contras portas. Nem um centímetro das portas se movia com o baque do corpo de Ennie. A jovem desmaiou no chão da igreja. Sua mente só pensava em uma coisa, Aysla. Ela acordou com as batidas fortes na porta. Ao notar que estava em seu quarto novamente e que tudo estava ao normal, ela entrou em desespero. No espelho da penteadeira estava escrito “Ennie, fuja!”. Outra batida na porta, e o aviso no espelho sumiu.
Fale com o autor