Guardando Um Anjo
6 Sem saída
Notas iniciais
O sol raiava quando a “descendente” acordou. Ela abriu seus belos e angelicais olhos azuis. Mayana era o equilíbrio entre a sedução dos demônios e a beleza inocente dos anjos. A beleza da “descendente” era tão desconcertante que poderia fazer um homem queimar de desejo e fazê-lo morrer de amores. Ela tinha os olhos azuis e os cabelos encaracolados dos anjos. As madeixas em vez de serem douradas como os raios de sol, eram vermelhos feitas as labaredas do fogo do inferno. A boca era tão sedutora quanto a de Aysla. Uma mulher capaz de fazer qualquer anjo cair em desgraça. Em suas veias corre sangue dos anjos. E sangue demoníaco. Seu pai era um arcanjo que perdeu sua graça, após se apaixonar por uma moça que fora possuída. Ele caiu na armadilha dos demônios para criar alguém que tivesse o sangue deles e pudesse ouvir e falar com os anjos. A consciência de Mayana sempre fora sobrenatural. Ela pode ouvir as conversas dos anjos e saber dos planos do inferno. Do mesmo modo que Mayana é doce, inocente e pura. Poderia ser rude, maldosa e pecadora. Bastavam as atitudes certas para isso acontecer. Mas para a ira do inferno, a “descendente” fora criada segundo as leis de Deus e é “guardada” pelo arcanjo mais poderoso da ordem dos anjos. Há mais de cem anos, a peça-chave do apocalipse caminha entre os mortais. Desde o dia que fora deixada no convento por sua mãe, Cléo.
A “descendente” fechou os olhos novamente e esperou os anjos lhe contarem parábolas. O vento trazendo cheiro de terra molhada entrou por cada fresta do casebre de madeira. A chuva começava a cair vagarosamente. Ela contava cada gota de água que cai nas folhas verdes das árvores. A conta parou ao ouvir uma conversa de Aysla com outro demônio qualquer.
-Você deverá possuir o mordomo do “enviado” e matá-lo até a próxima lua cheia, se a “guardiã” completar sua vigésima primavera, ela encontrará a “descendente”. – A atenção de Mayana estava presa à face do corpo que Aysla ocupava. Ela podia ver a consciência de Ruth presa e adormecida pela demônia. A “descendente” sussurrou algumas palavras em latim, que acordou a consciência da moça. Aysla sorriu ao perceber que eles não estavam sozinhos ali. Alguém ouvia a conversa.
-Bom dia, “descendente”! Por que você não nos encontra para tomar um chá? – Aysla gargalhava de felicidade. Finalmente ela sabia, que a “descendente” está viva e próxima a eles.
No mesmo minuto na mansão dos Clwarts, Noah tentava acudir Ennie que desmaiara na sala durante um almoço de negócios. Eleonor se desesperava com a filha. O jovem ajudante levou a moça desfalecida para seu aposento no andar superior da casa. A empregada tentava reanimá-la, mas nada adiantava. Ennie estava presa em outra dimensão. Na qual ela transitava entre os pensamentos e visões das pessoas. Até que parou na visão de um roxinol na janela do casebre da “descendente”. A primeira coisa que ouviu foi choro de Mayana. Ennie tentou falar com a jovem, mas sua voz saía como um cantarolar dos pássaros. Então ela se lembrou que estava vendo pelos olhos de um pequeno pássaro. Sua percepção foi puxada de volta para seu próprio corpo. A jovem sentiu uma mão quente segurando a sua. Ela se sentou assustada na cama.
-Noah, o que você... – O jovem a calou dando lhe um beijo em seus lábios. Ennie não teve reação, apenas retribuiu o beijo que tanto queria.
-Você desmaiou... Seus pais foram... Buscar um médico... Para... Você... Eu fiquei para... Ajudar a empregada a cuidar... De você... – Ele respondia ofegante após o beijo. Noah a abraçou e disse em seus ouvidos que a amava e não podia ficar longe dela. E a beijou novamente. – A empregada foi tomar um banho e depois volta para cuidar de você.
Os dois permaneceram juntos até que a empregada os interrompeu com seus passos que subia a escada de madeira da mansão. Ennie deitou na cama e fingiu que dormia. Noah colocou sua cadeira próxima a janela e se debruçou sobre o para-peito dela. A imagem da empregada surgiu na porta trazendo cobertores e travesseiros para a jovem. A empregada se retirou para ir pegar algo mais. O rapaz apanhou uma caneta e um pedaço de papel e escreveu um bilhete.
“Senhora Bêr, tenho que ir
não posso demorar mais.
Diga a Ennie que eu desejo
melhoras para ela.”
Noah Bow
Noah colocou o bilhete sobre a penteadeira da moça. E deu um último beijo em Ennie. Foi embora do quarto dela sorrindo. Os pais dela acabavam de chegar ao local quando Noah passou por eles. O jovem os cumprimentou e foi embora assoviando pelas ruas, feliz por ter seu amor correspondido por Ennie.
Kael estava enfurecido com o casal. Os dois juntos era o que os anjos não precisavam para atrapalhar seus planos. O anjo sabia que se ela se entregasse ao amor do rapaz e esquecesse a sua missão. A “guardiã” morreria e os anjos perderiam suas graças. Os demônios conseguiriam a proeza de entrar no firmamento. Seria um pandemônio na terra. O caos seria instalado durante séculos e só acabaria com o sacrifício de Mayana. O anjo não podia deixar que sangue de inocentes fosse derramado em vão. Ele precisava fazer algo. “Ennie, você quebrou minhas regras! Eu lhe avisei para ficar longe dele. Você quer que Aysla o sacrifique somente pra te atingir? Se afaste dele, ou eu o terei de fazer!” Ela se encolheu na cama com a bronca que recebera. A jovem sabia que isso era o certo a se fazer, mas era justamente o contrário do que o coração dela a mandava fazer. Por seu coração os dois estariam bem longe de Londres, em alguma cidadezinha do interior da Europa. Os olhos dela mal abriam por causa do inchaço. As lágrimas molhavam seu rosto, travesseiros e cobertores. Ela adormeceu infeliz com sua vida.
Mayana tentava entender por que estava vendo sua “guardiã” e por que o anjo lhe dera uma bronca por ter beijado o belo rapaz. Ela se sentia culpada por ser o motivo do sofrimento da garota. Pois ela era o empecilho do amor de Ennie e Noah. E também o motivo do sumiço de Ruth. Ela não era um anjo. Qualquer coisa que estivesse ligada à ela iria dar errado.
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