Guardando Um Anjo

7 Desgraçados


Notas iniciais
Aysla resolve brincar com os sentimentos de Nataniel. Mas alguem a interrompe. Até quando haverá alguém para salvar a vida dele no ultimo instante. Kael já não aceita mais as ordens de seus superiores.

A tarde se erguia sobre o céu ensolarado, o dia estava indo embora e a noite começava a surgir entre as colinas. Aysla preparava mais uma noite turbulenta para Nataniel. O jovem era mais um brinquedo da demônia. Não passava de um mero objeto de diversão para ela. Ainda agora que ela sabia que a “descendente” estava por perto, uns quilômetros de distancia talvez. Escondida atrás dos muros da mansão da família do jovem. Ao sumir da luz da última janela dos quartos da casa. A demônia preparou seu joguinho de terror. Aysla entrou na casa e se dirigiu ao quarto do Nataniel. Carregava na mão uma rosa vermelha que o jovem dizia à noiva que era o símbolo da união dos dois. Ela desfilava pela casa possuindo o corpo da noiva sumida do rapaz. Suas brincadeiras começaram pela casa.

-Nataniel! Nataniel venha até mim. Eu voltei para ficar com você. Nataniel! – Ela fazia de tudo para segurar o riso.

Alguns passos em algum dos cômodos ao lado. Som de corpo se levantando da cama, chinelos sendo arrastados pelas tabuas do chão, mãos na maçaneta, trincas das portas rangendo para revelar o jovem sonolento. Os olhos dele estavam fechados, suas mãos soltas no ar procuravam a voz que lhe chamava. Ruth lutava contra o bloqueio de Aysla, mas a jovem não conseguia tomar o controle de seus movimentos, a demônia ainda a controlava. Aysla se irritou com a atitude da garota e descontou sua fúria em Nataniel. “Se você tentar se libertar de novo, eu vou matá-lo agora! Comporte-se, não queremos machucar esse belo rostinho.”A demônia acertou o jovem com o vaso de flores que enfeitava a mesa do corredor. O rapaz grunhia de dor e lágrimas lhe caiam.

-Ruth, o que você está fazendo? Por que me bateu? – Ele falava confuso, ainda sonâmbulo.

-Meu amor, me desculpe! Vamos para seu quarto, temos muito a resolver. – Aysla acariciou o rosto ensangüentado dele. Os dois se dirigiram para o quarto dele. Ela o deitou na cama e acomodou-se ao seu lado. – Querido, veja ainda tenho nossa flor! – Colocou a rosa sobre o peito dele e beijou seus lábios. Ruth se acalmou ao sentir o corpo de seu noivo próximo ao seu novamente. Mas sua calma não durou muito tempo, o corpo que ele beijava podia ser dela, mas quem o estava usando era Aysla. Sua atenção voltou-se de repente para o pensamento que passou pela sua cabeça. A mão dela deslizava pela bainha de seu vestido, ela sentiu algo gelado e aos poucos foi tomando consciência da forma do objeto. Era a adaga de prata que Aysla sempre carregava, seu desespero foi aumentando conforme a mão dela segurava e retirava a adaga escondida.

“Aysla, pare! Por favor não o mate. Ele não sabe de nada...”Foram as únicas palavras que conseguiu pronunciar antes que a demônia a silenciasse.

O brilho dos olhos de Aysla competia com o da adaga de prata, não dava para saber qual era capaz de causar mais estragos. A mão dela erguida sobre sua cabeça empunhava a adaga em direção ao coração de Nataniel. Em questão de segundos a prata da adaga se confundiria com o sangue quente do rapaz. Não havia ninguém para lhe salvar.

Sombras e vozes surgiam dentro do quarto. Era um caos, gritos ensurdecedores e sombras alucinadas se debatiam contra Aysla. As sombras derrubaram a adaga da mão da demônia, mas aquilo não era suficiente para detê-la. Cada sombra foi tomando uma forma diferente. Uma das formas era Leandro, que jogou a demônia contra a parede, machucando-a fortemente. A forma de Lia, o puxou e lhe avisou mentalmente. “Não se esqueça que o corpo é de uma inocente!” Ele assentiu, pois um único deslize e os anjos lhe mandariam ao inferno. E o detetive sabia que os demônios não iriam ter compaixão por ele. Os espíritos chamaram um dos anjos que retirou a jovem desmaiada e arrumou toda a bagunça. Demoraram apenas alguns segundos para o anjo colocar tudo em ordem novamente na mansão. Nataniel gemeu de dor na cama. Seus olhos foram se abrindo lentamente procurando o causador de sua dor. Não encontrou nenhuma pista. A janela abriu com o forte vento causado pelo bater de asas. Ele levantou rapidamente em direção a janela. Sua visão capturou uma forma alada carregando um corpo desfalecido. Seus pensamentos lhe acometeram o que havia ocorrido ali. O anjo titubeou por uma fração de segundos, mas seu olhar se voltou para Nataniel. A brisa trouxe algumas palavras sussurradas pelo anjo. “Durma, nada aconteceu! Você apenas bateu a cabeça.” O jovem desconfiou num primeiro instante, mas sua mente aceitou aquilo rapidamente.

As janelas continuariam abertas se Kael não as fechasse. Ele trocava algumas palavras com Dulce. “Você deveria procurá-lo, enquanto ele não acreditar em nós, não poderemos revelar sua missão!” As palavras do anjo eram levadas pelo vento até os pensamentos da pequena cartomante. Kael levantou vôo da varanda do quarto do rapaz. E se dirigiu ao seu posto de observação. Ele não aceitava que ele, um anjo tivesse que cuidar de uma moça irrelevante para todos. O anjo tomava muito cuidado com seus pensamentos, pois sabia que se desrespeitasse ou renegasse as ordens que lhe foram dadas, terminaria como “aquele não deveria se citar o nome”. Todo esse caos foi causado por causa dos sentimentos dos humanos e da inveja secular dos anjos por tais emoções. Ele posou no telhado da mansão dos Clwarts assumindo seu posto de sentinela. Qualquer movimento desconhecido deveria ser investigado e apagado. As ordens eram claras, qualquer um que se aproximasse deveria ser punido por pensamentos atormentadores, não importando quem fosse. Os anjos começavam a se preocupar com os sentimentos da “Guardiã”. Se ela se decidisse por um humano qualquer e não pelo “enviado”, a “descendente” correria sérios riscos de vida. A missão deles agora era fazer com que a “Guardiã” escolhesse se unir de corpo e alma com o “enviado” para salvar os humanos da desgraça. Kael apesar de não gostar dos humanos achava aquilo errado. O que eles iriam fazer era impor suas decisões a uma jovem que não tinha culpa em ser descendente de anjos. Um arcanjo interrompeu os pensamentos do anjo para lhe dar mais ordens.

-“Anjo Kael, Aysla virá atrás de Eleonor para cobrar sua divida. É sua obrigação proteger essa família. Você sabe que seu cargo está em risco. Você não está mais obedecendo totalmente às ordens que lhe são dadas. Mas um questionamento sobre o plano maior e terá suas asas arrancadas. Todos nós conhecemos o que acontece a aqueles que caiem em desgraça!” – Kael assentiu temeroso, era comum a informação ser incompleta. Mas esta lhe deixou particularmente curioso. Mas ele se lembrou do aviso, suas asas poderiam ser arrancadas. Ser anjo não era algo bom, era algo amargo e sem luz. Não havia espaço para duvidas, apenas para certeza. Perguntas não eram aceitas, apenas consentimentos. Às vezes até ele duvidava que Deus existisse, nenhum anjo viu ou falou com Ele. Nem sequer há historias de arcanjos que tenham se encontrado com o “Senhor”. Uma dor aguda lhe acometeu, intensos calafrios percorriam o contorno de suas asas. O arcanjo retornou furioso. – “Kael, eu lhe avisei sobre seus pensamentos, será castigado por duvidar de nosso “Senhor”. Você não está mais nessa missão! Vá embora daqui, seu posto será tomado por outro anjo, mais leal e menos questionador. Se afaste da “Guardiã”, você não a protege mais.” O anjo voou para o parque da cidade e pousou em uma das clareiras dali. Ao longe ele viu o anjo que tomaria seu lugar. Inconformado com sua situação, ele urrava de raiva. Mais dores percorriam suas asas. Ele caiu no chão revirando de dor, parecia que lhe arrancavam pena por pena. Sua raiva foi diminuindo conforme sua dor aumentava. Suas asas estavam intactas. Mas sua mente só desejava uma coisa, acabar com a demônia e o anjo que causaram todo esse tormento a mais de cem anos atrás. Como brinde ele acabaria com Aysla.

Notas finais
Kael perderá suas asas? Eleonor e Aysla finalmente se encontrarão para um acertos de contas. Ruth retornará para confundir ainda mais Nataniel. Os anjos terão mais trabalho para unir o "enviado" com a "Guardiã"!