Guardando Um Anjo

8 Luzes na Escuridão


Notas iniciais
Ennie conhece seu novo anjo da guarda, mas ele não é tão eficaz quanto Kael. Onde Kael está? E por que ela tem que sonhar. Qual a ligação de Eleonor com Aysla?

O novo anjo que iria cuidar de Ennie assumiu seu posto de vigia em cima do telhado. Ele era um anjo relativamente novo comparado a Kael. Não sabia como lidar com a situação, mas tinha que obedecer a suas ordens. Teria que falar com a garota sem mostrar sua localização e seus pensamentos. A idéia de entrar na mente de um humano lhe assustava mais que lutar contra demônios, pois havia muitas historias de anjos que se apaixonaram por seus protegidos após conhecerem seus pensamentos e dores. Mas ele tinha que cumprir sua missão e assim faria. “Ennie, sou seu novo anjo da guarda! Agora, durma. Você precisa se lembrar de mais coisas de seus sonhos, só assim poderá manter Mayana em segurança.” A garota se sentiu estranha, não se sentia mais protegida da mesma forma quando Kael a protegia. Para Ennie sua segurança parecia diminuir cada vez mais, onde estaria seu anjo protetor? O anjo sentia o medo nos pensamentos dela, mas não podia lhe dar as respostas que queria. Era contra as ordens e Kael estava preste a perder suas asas por revelar detalhes demais a Dulce, uma mera humana. Ennie adormeceu aos poucos amedrontada por suas preocupações. Seus sonhos a sugaram numa nuvem negra e pesada, quase tão densa que se ela esticasse a ponta dos dedos poderia sentir cada átomo daquela nuvem.

A noite era fria e chuvosa, a poucos metros do convento “Irmãs de Fé” uma jovem loira vestida com roupas velhas esperava por alguém numa encruzilhada. Um arrepio percorreu todo corpo da jovem quando ela ouviu um cantarolar estranho, mas que faria o mais valente guerreiro tremer de medo. Era o anuncio de que ela estava chegando e que havia acabado de fazer um sacrifício. A jovem sentiu a presença dela próxima, era capaz de jurar que podia ouvir o som do sorriso malicioso dela. Ao girar o corpo para trás para procurar a pessoa, Aysla estava parada a poucos centímetros da jovem, sua respiração ofegante se confundia com o olhar felino da demônia. Ambas estavam encharcadas com a tempestade. O corpo da jovem a denunciava mostrando seu medo, seu frio e sua oferta. Aysla riu com a cena e zombou da jovem.

-Quem é você? O que quer comigo? Não sabes que não posso perder tempo com pessoas insignificantes como você? Tenho coisa muito maior para receber. – ela não continha o riso, ao ver as lágrimas caindo dos olhos da jovem. Aquilo era imensamente divertido para ela, ver pessoas sofrendo e desesperada por uma solução rápida.

-Meu nome é Eleonor, quero me casar com o filho do banqueiro mais rico da cidade. Não quero mais ser essa pobre coitada, quero pisar em todos que pisaram em mim. E quero que tudo que é dele seja meu também. – Aysla a analisava, o pedido era simples, mas algo naquela mulher a fez querer cobrar um preço maior. A ambição da jovem era tão grande que fazia Aysla querer algo a mais.

-Bem, vejamos. Posso lhe dar o que você quer. Mas terá um preço alto. – Aysla rodopiava ao redor de Eleonor, fingindo que segurava uma varinha mágica. – Quando sua filha completar a vigésima primavera eu virei buscá-la para ser minha serva.

-Eu concordo com todos os termos que você quiser com tanto que eu seja rica. – Eleonor não hesitou nem um instante sequer. As duas selaram o contrato. Aysla não quis revelar que ao cobrar o contrato Eleonor teria que entregar sua alma à demonia. A jovem ficou meia hora parada antes de ir embora, quando piscou na direção que Aysla caminhava, a demônia sumiu numa fração de segundos.

Ennie acordou sobressaltada, aquele sonho era novo. Mas as pessoas nele, era como se ela já as conhecesse. O nome da jovem lhe havia escapado da mente, seu rosto era familiar, seu jeito e a historia. Ela já conhecia aquela historia, antes daquele sonho, mas como? Ela se sentou na cama, mas uma ordem lhe atingiu. “Durma garota. Você só tem que dormir.” A garota se sentiu contrariada, pegou o diário no criado-mudo ao lado de sua cama e começou a escrever seu sonho. As luzes de seu quarto se apagaram sozinhas. Ela se levantou e as acendeu novamente. E gritou contra as paredes de seu quarto.

-Eu não vou dormir! – as janelas se sacudiram com o vento que a jogou contra a parede.

“Você vai dormir sim! Você tem que se lembrar do seu sonho, e que era sua mãe que te vendeu.” O anjo só percebeu que havia falado demais pelos pensamentos tempestuosos da garota.

-Quero Kael como meu anjo da guarda de volta. Você é incapaz de me proteger! – Um clarão encheu o quarto de Ennie. Ela não conseguia ver nada, mas sabia que não estava sozinha. Barulho de asas batendo preencheu todo o lugar. As paredes tremiam, a paisagem oscilava. Ennie gritava com medo. “Cale a boca, sua idiota. Durma agora mesmo.” Ele a jogou contra a cama. A garota caiu desmaiada na cama. O anjo a ajeitou na cama e arrumou toda a bagunça. Pousou no telhado, tentou ensaiar alguns vôos, mas suas asas falhavam a todo instante. Uma sombra alada cruzou o jardim da mansão até o telhado do quarto de Ennie. Kael tentou assumir seu posto, mas o outro anjo não deixava. Os dois se atracavam no céu. Asas batendo fortemente uma contra a outra. Kael deu um giro e ficou sobrevoando sobre o outro anjo enfraquecido. Ele segurou as duas asas do anjo o desequilibrando no ar. Os dois caiam em espiral pelo ar. Penas angelicais caiam pelo jardim, gotículas de sangue escorriam pela asa do anjo, mas Kael não parava de puxá-las. Arrancando todas as penas que conseguia puxar com as mãos. Um cheiro horrível de carniça preenchia todo o céu. Kael deu um único puxão que arrancou as duas asas do outro anjo. Ele caia rodopiando como um pássaro que foi atingido por uma pedrada. As asas do anjo foram se desfazendo em pequenos raios de luzes tão douradas quanto à lança que Kael empunhava em direção ao coração do anjo caído. A lança dourada de Kael perfurou o coração do anjo, fazendo com que ele se desfizesse em luz. As asas de Kael foram se tornando negras. O branco puro das penas foi tingido por sombras, tornando ele um anjo negro. Ele alçou vôo até o telhado e ficou imóvel ali durante horas. O anjo podia sentir pelo medo de Ennie que ela vira toda cena acontecer. Não todos os detalhes, mas o espetáculo de horrores entre anjos. Para ela, anjos eram puros e inofensivos. Mas o que ela vira ali, contrariava qualquer crendice. Anjos não eram bons como todos pensavam, eram frios, sem corações, soldados fieis e cegos por suas missões. A garota já não sabia se tinha mais medo de Aysla ou da bipolaridade dos anjos. Kael falou com ela novamente. “Não recebo mais ordens, mas não cai ainda. Os arcanjos não conhecem o que estou fazendo. Quando souberem o que eu fiz, eles me mandaram direto ao inferno!” Ennie não entendia mais nada.

-Por que você fez isso? – ela tinha medo da resposta que poderia ouvir. “Ele era jovem demais, e não sabia se controlar ia acabar matando-a sem querer. O seu coração estava cheio de duvidas em relação a ser um guardião. Senti a fúria dele contra você e tinha que fazer algo urgente, Rafael iria matá-la por você não obedecer às ordens dele. Me desculpa pelo o que você viu pelas janelas.”

Ennie sentou na cama e ficou olhando para o teto, pensando no que Rafael havia lhe dito. Aysla tem um trato com sua mãe, e ela é o pagamento da divida. A demônia não pouparia a vida de Eleonor, e tampouco a sua.

Notas finais
Ela descobriu que anjos podem ser mals. O que Ennie irá fazer para não virar serva de Aysla?