Guardando Um Anjo
4 Corações & Invocações
Notas iniciais
-Aysla, liberte-me, meu noivo me espera. – Ruth implorava, seu corpo estava atado por correntes e cordas numa cadeira.
-Não seja burra, garota. Não vou te libertar até conseguir o que quero. – A demônia falava calmante enquanto preparava seu ritual de possessão.
Aysla cortou seus pulsos e deixou seu sangue escorrer numa tigela. Ela usou a mesma adaga para cortar o pulso de Ruth. Ela começou a entoar um cântico de possessão. Após terminar a canção, ela misturou seu sangue ao de Ruth. A moça gritava descontroladamente e se debatia na cadeira. A demônia citou umas palavras em uma língua desconhecida. Sua alma passou para o corpo da moça. A demônia possuiu o corpo, movimentos e pensamentos. Ruth parecia estar numa prisão escura dentro do próprio corpo, quanto mais ela gritava, mas ela era jogada pro fundo do seu subconsciente. Aysla a comandava.
-Já tive corpos melhores. – Ela ria macabramente.
A demônia saiu de seu esconderijo, numa capela destruída no cemitério no alto da colina. Lugar era repleto de artefatos de rituais satânicos, adagas, tigelas, ervas e órgãos humanos. Ela iniciou mais um ritual demoníaco. Escolheu um caixão, abriu, e estripou o corpo de um ser que nem conhecia o nome. Retirou-lhe os olhos, depois costurou a boca e olhos do morto. Com a adaga, desenhou um símbolo antigo no coração e juntou tudo numa tigela. Ela comeu os olhos e depois o coração. Tinha gosto estranhamente delicioso para ela, quando ela mastigou o primeiro olho, um líquido escorreu-lhe pelo queixo. Cantava e se alimentava. Dançou em volta do cadáver, quase que completamente apodrecido. Ruth gritava dentro de sua mente, pedindo que parasse, pois aquele era seu corpo. A garota entrava em estado de choque, ela não suportava o gosto de carne humana em sua boca, muito menos do cheiro de carne apodrecida. Ela batia contra as paredes do bloqueio que a demônia colocou sobre ela. Quanto mais ela gritava, mas alto Aysla cantava e mais rápido dançava. A demônia entrou em êxtase, o corpo tremia por completo, ela gritava de tamanho prazer que isso lhe ocasionava. Ela ficou em seu ritual até o amanhecer. No final haviam treze corpos profanados espalhados pelo cemitério.
-Hoje à noite começaremos a brincar. Querida Ruth, seu noivo ainda lhe ama? Será que ele aceita ser meu sacrifício? Faz tempo que não mato um “enviado”. Vamos ver se aquele anjo desgraçado vem atrás de mim. – Ela preparava cada minuto do seu plano, pensava o que fazer. Ruth se debatia no seu subconsciente. “Nãããooo... O Nataniel, não! Você não pode fazer isso com ele, nem ele sabe que é um “enviado”!
-Isso não me importa. – Finalizou a demônia. – Que garota irritante, você vai ser castigada por me irritar tanto com essa sua voz chata. – A demônia pronunciou algumas palavras que adormeceram Ruth por um longo tempo.
Kael observava a cena ao longe. Ele sabia que o jovem corria risco, mas não podia ajudá-lo muito, suas ordens eram extremamente rígidas, o anjo só poderia proteger Ennie, a “guardiã da descendente”. Ele invocou um dos “mensageiros”.
-Leandro, como ascendente de Nataniel, terá que protegê-lo essa noite. Aysla irá atrás dele, pensando que eu o protejo. Ela já matou o anjo da guarda dele. E você também. Não se esqueça disso. Não falhe novamente, se não será mandando para o inferno, seus pecados só foram perdoados, por você ser um “enviado”. Não falhe mais. – O anjo falou ao espírito de forma fria e cautelosa. O espírito apenas acenou afirmativamente.
O anjo ficou esperando a noite começar para poder ir vigiar Ennie. Ele achava que ela era fraca demais para proteger a “descendente”. Kael sobrevoou a cidade até chegar a casa dela. Ele posou no telhado sem fazer nenhum barulho sequer. E esperou. Ele a observou no jardim conversando com o ajudante do pai dela.
-Noah, por que você está me ignorando? O que eu te fiz? – Ela implorava uma resposta, tentando esconder as lágrimas que queriam lhe escapar dos olhos. Ennie ajeitou o cabelo de modo que ele não pudesse ver os olhos dela.
-Isso não está correto. Não podemos ficar conversando assim, não é bom para sua imagem nem para de sua família. É melhor nos afastarmos. Seu pai não está gostando da nossa amizade. – O jovem tentava esconder a frustração de não poder beijá-la, tampouco abraçá-la. Era o que desejava, tê-la em seus braços eternamente. Ennie fez um movimento em direção a ele. Parecia uma tentativa de beijo. Mas ele se afastou bruscamente lhe ferindo os sentimentos. – Ennie, não podemos fazer isso. Serei despedido pelo seu pai, minha família necessita desse dinheiro.
-Por que ...- Kael interferiu. “Nem pense nisso, garota. Você não pode sair da cidade, e se você envolvê-lo nessa história, Aysla não pensará duas vezes antes de sacrificá-lo como um cordeiro. Sua missão está longe de acabar. Então se afaste dele se você realmente o ama. Ele também te ama, e está sacrificando sua felicidade por você, então retribua a atitude dele.” – Ela completou a frase com pesar. – Por que não nos afastamos? Assim ninguém decepciona sua família. Adeus. Tente fingir que não existo. – Ela não esperou a resposta dele, saiu correndo chorando. Kael falou novamente. “Você fez o que tinha quer ser feito, quando chegar a hora será devidamente recompensada.” Ela subia as escadas alucinada pelo que fez.
Noah estava indo embora quando olhou para a lua, e viu algo parado em cima do telhado, parecia um ser humano. Ele piscou algumas vezes, mas quando parou não havia mais nada ali. Ele achou que era coisa de sua cabeça. A cada passo que dava uma lágrima lhe caía pelo rosto. Ele não ergueu a cabeça quando passou pelo senhor e pela senhora Clwart. John sorriu satisfeito, ao notar que o jovem fez aquilo que lhe fora mandando. A senhora Clwart nem reparara que o jovem estava mal. Ela estava tão avoada com os preparativos da festa de noivado da filha, que nem percebeu que sua filha se apaixonou por alguém pobre. Coisa que ela mais destetava. Eleonor era a mais hipócrita da familia, se casara por interesse com o rico John, mas nunca o amou de verdade, seu casamento é falido, e ela não sabe como acabar com isso. As únicas coisas que realmente ama são as jóias, o dinheiro e a filha. Ela nunca se esqueceu da infância pobre no surbúbio. Eleonor sempre viu o marido como uma passagem só de ida para a alta sociedade de Londres. Ela não queria que a filha se tornasse uma esposa pobre cuidando de um monte de filhos. Ela guardou as compras e foi conversar com a filha.
-Ennie, minha querida, não fique assim! Um dia você agradecerá a mim e ao seu pai por ter feito isso. – Acariciando o cabelo da filha, ela tentava fazer com que a filha entendesse que era o melhor.
-Não quero nada disso para a minha vida. Não preciso de luxo para ser feliz. – A mãe lhe encarou, como o que a filha dissesse fosse absurdo.
-Cale a boca! Você não sabe o que está dizendo. – A senhora levantou a mão para filha.
-Vai me bater por dizer a verdade, eu sei que você só se casou com papai por interesse. Você acha que não me lembro de suas brigas, dele chegando tarde em casa? – Ennie soluçava.
-Acho que deveria voltar para aquele convento de onde nunca deveria ter saído. – Eleonor levantou da cama da filha e saiu do quarto, batendo a porta.
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