Guardando Um Anjo
5 Persianas Vermelhas
Notas iniciais
Duas semanas antes da festa de noivado, Eleonor leva a filha a uma famosa cartomante do subúrbio. O motorista as levou até uma loja empoeirada com as janelas cobertas por persianas vermelhas. As duas chamaram a cartomante. Uma velha maltrapilha fumando cigarro as atendeu.
-Que diabos! Isso lá são horas de se consultar. – A velha esbravejava soltando a fumaça do fumo. Uma voz quase que infantil soou dos fundos da loja.
-Quem é vó? Se forem clientes, mande entrar. – A velha fez uma carranca. – Vó, mande-as entrar. Da última vez você me enganou dizendo que era cobrança. – A voz infantil foi aumentando pela loja, no canto direito da loja apareceu uma garota negra de cabelos curtos e olhos verdes, devia ter catorze anos.
-Sua mãe está? Viemos nos consultar com ela? Se não me engano ela chama Dulce. – Eleonor falou olhando a garota desconfiada.
-Minha mãe não está e não faz consultas. Eu sou a Dulce, a cartomante que desvenda os mistérios do seu futuro. – Ela ria da confusão. No instante que viu Ennie sua risada sumiu. – O que você quer aqui? – Perguntou para Ennie.
-Minha mãe me obrigou a vir me consultar com você. – Ela respondeu, estranhando a reação da garota.
-Ande, não temos tempo a perder. – Apressou Eleonor. A garota revirou os olhos de tédio, encaminhou as duas a uma saleta escura, com uma mesa redonda. Dulce parou na porta, bloqueando a passagem.
-É só uma de cada vez, então quem vai primeiro?- Enfatizou a adolescente. Eleonor deu um passo à frente. As duas entraram na saleta. Dulce fechou a porta logo atrás dela. Elas se sentaram nas cadeiras.
-Suas mãos? – Pediu a pequena cartomante. – Vejo que você está presa a um segredo do passado, algo que fez e não pode falar. Não há futuro nas suas linhas. Ela virá cobrar a sua divida. Ela quer o que você tem de mais precioso! – A cartomante falava com nojo do que via. Eleonor se remexia na cadeira desconfortável com a notícia. Dulce fez sinal para que ela saísse da sala. Nos últimos metros até a porta, a cartomante fez um aviso.
-Não adianta fugir! Ela está na cidade e trouxe reforços com ela. Se ela não te achar, outro achará. Não se engane pensando que estará segura em um convento. – Eleonor saiu da sala branca feita um fantasma. Não havia mais saída para ela.
Ennie entrou na sala devagar e se sentou delicadamente na cadeira. Ela estendeu-lhe as mãos, mas Dulce fez sinal para que retirasse as mãos. A cartomante fechou os olhos e falou uma frase inaudível. E prosseguiu, quando abriu os olhos estavam brancos. Sua boca tremia enquanto falava.
-Ennie, você está correndo risco. Kael não pode lhe proteger a todo instante. Você tem que encontrar a “descendente”. Eles irão atrás dela para aprisioná-la e torturá-la, não a deixe pegarem. Se ela morrer e você falhar na sua missão... Ennie, você será severamente punida. Os anjos não admitem falhas. – Ennie interrompeu bruscamente.
-Kael? Anjo? É ele que fala comigo? Quem é essa tal de “descendente” e por que tenho que protegê-la? – Os olhos de Dulce foram voltando ao normal. Ela não respondeu as perguntas de Ennie. A cartomante apenas refletiu sobre o que disse.
-Não posso responder suas perguntas. Não tenho permissão para isso. Quando for a hora certa Kael falará pessoalmente com você. A única coisa que posso lhe dizer é que deve confiar em seus instintos.
Ennie se retirou da sala insatisfeita com as respostas. Ao chegar à porta de saída, Dulce já estava parada lá com um colar na mão.
-Isso irá te proteger dos rituais e atrapalhará a busca deles em relação a você. Nunca o tire, exceto quando Kael estiver por perto. E antes que você pergunte, perceberá quando ele estiver próximo. Tenha cuidado, “Guardiã”. – A cartomante abriu a porta para ela sair. Ennie procurava o dinheiro na bolsa para pagar a consulta. – Não se preocupe sua mãe já pagou a conta. Lembre-se eu sou uma cartomante. E não. Eu não leio pensamentos. – Dulce ria da careta que Ennie fazia.
Ennie entrou no carro, onde sua mãe já estava lhe esperando. Elas seguiram em silêncio todo o caminho de volta à mansão. Cada uma guardando seus respectivos segredos amaldiçoados.
Na loja, Dulce e Kael conversavam na saleta.
-Kael, por que não posso contar a missão dela por completo? – O anjo não gostava da curiosidade humana.
-Se ela realmente for uma boa “guardiã”, saberá o que e quando fazer. Já tivemos “guardiões” que fracassaram antes dela. Os arcanjos não podem mais “guardar” Mayana. Uma hora eles a descobrirão e enfim a guerra começará. – Suspirou pesadamente.
-Por que isso não está na bíblia? – Dulce perguntou curiosa.
-Porque não precisamos de mais seres humanos idiotas interferindo nos planos do Senhor. Aquele anjo nunca deveria ter se apaixonado por uma “possuída”. – A pequena cartomante fez uma carranca de desgosto.
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