Grey's Inside
1 Ele não faz o tipo
Aos poucos o quarto foi sendo tomado pela luz do dia, ao longe o sol ia surgindo no horizonte.
–Senhor. Telefone. – dizia o velho mordomo batendo na porta.
O senhor Lewis Grey esfregou as mãos nos olhos acordando aos poucos.
–Que horas são? Quem é, James? – perguntou o homem sentando-se na cama.
Ficou pensando quem poderia ser.
–A pessoa se apresentou como Leonard Ruppert, disse que era o... – o mordomo foi interrompido pelo patrão.
–O delegado Leonard! – falou o homem num salto da cama – O que ele quer? Ele falou? – perguntou andando em direção ao guarda-roupa.
O tapete tinha uma textura suave e confortável para os pés. O Senhor Grey abriu o guarda-roupa e rapidamente já havia escolhido a roupa do dia: Uma camisa branca sobreposta por um casaco marrom e uma calça preta. E como de costume não poderia faltar seu chapéu.
–Ele mencionou um corpo. Algo com assassinato e pelo jeito ele tem pressa senhor. – falou o velho insistindo na presença do patrão.
Lewis abriu a porta e pegou gentilmente o telefone das mãos do mordomo.
–Obrigado. – disse ele – Alô. Delegado Leonard? Sim, aqui é Lewis Grey. – começou.
Minutos depois o senhor Grey saiu correndo pela escada deixando o café na mesa e o mordomo intrigado.
O Delegado Leonard era um homem baixo e um pouco acima do peso, mas era uma pessoa justa e inteligente. Seu olhar firme e sua postura ereta denunciavam seu passado no exército. Era um homem de uns cinquenta e poucos anos, reservado e sério.
Ao ver o senhor Grey na porta fez sinal para que o seguisse pela velha casa empoeirada.
–Senhor, tenho que dizer que é uma honra conhecê-lo. De que lhe posso ser útil? – perguntou o homem empolgado na presença do delegado.
–Bem senhor Lewis, a polícia tem em mãos um caso extremamente complicado e o senhor foi muito bem recomendado por alguns colegas então resolvi chamá-lo. – disse o delegado enquanto andava com as mãos cruzadas para trás.
–Entendo. Não lhe garanto que terei muitas respostas senhor, afinal não sou um perito em criminalística. Sou apenas alguém com senso de observação aguçado. – falou o senhor Grey orgulhoso do elogio.
–De qualquer forma, tudo que nos disser será novidade, pois a polícia nada pôde descobrir a respeito desse homem.
–O que torna esse caso tão complicado assim senhor? – perguntou o senhor Grey curioso.
–Bem senhor Grey, é o fato de que nenhum morador local conhece esse homem e de que ele não possui sequer uma marca de agressão. Ninguém sabe de onde veio nem como morreu. – falou o delegado entrando numa sala ampla à esquerda deles.
No canto esquerdo da sala, bem no fundo, um corpo encontrava-se caído no chão. A vítima.
Grey olhou para o corredor de onde veio, olhou a porta de entrada e voltou para a sala onde estava o corpo.
–Bem senhor, posso lhe dizer que ele foi trazido por alguém fraco até aqui e então jogado naquele canto. – falou Lewis.
O delegado fez cara de surpresa e então falou:
–Como você sabe? Não havia testemunhas, ninguém sabe como o corpo chegou aqui.
–Ora delegado, é simples. Desde o lado de fora até aqui há marcas de arrastamento, e alguns metros entre a porta desta sala e o local do corpo continuam cobertos de poeira, o que significa que foi jogado. A posição do corpo, de costas na parede, indica que ele foi atirado. – falou Grey.
–Até aí, por mais espantoso, faz sentido. Mas como sabe que era uma pessoa fraca? – falou o delegado pasmo.
Lewis soltou um riso sarcástico.
–É simples meu bom delegado: Se fosse uma pessoa forte teria trazido o corpo nas costas, como arrastou suponho que seja alguém sem muita força. – falou Grey deixando o delegado surpreso.
–Tenho que admitir que meus colegas estavam certos quando falaram que você poderia ajudar. O corpo é todo seu senhor Grey, pode analisá-lo o tempo que precisar. – falou o delegado.
–Ah não se preocupe. Não levarei mais que cinco ou dez minutos. Pode esperar se quiser. – falou Lewis.
Rapidamente ele foi virando e revirando o corpo. Olhava cada canto das roupas e cada parte do corpo. Passados alguns minutos levantou-se e disse:
–Bem, delegado, descobri algumas coisas sobre ele nessa pequena observação que fiz. – falou Grey.
–Compartilhe suas descobertas senhor. – falou o delegado esperando.
–Bem, o homem era comerciante e aparentemente estava vendendo algo na praia no momento da morte. Morreu durante ou depois da chuva de ontem a noite e durante a mesma esteve com uma mulher com quem tinha mais intimidade. – falou Grey, como se fosse óbvio.
–E como o senhor descobriu isso? – perguntou o delegado espantado.
–Simples. Ambas as mãos desgastadas apenas em certa região sugerem que ele empurrava algo pesado, como um carrinho de vendedor ambulante. A areia nas botas é igual a da praia. E a parte da mulher é ainda mais simples. Apenas metade do seu corpo está molhada, o que sugere que ele dividiu o guarda-chuva com alguém, além do mais há um amassado em torno do casaco dele, o que sugere que alguém veio agarrado à sua cintura firmemente. – falou Grey.
–E como sabe que era mulher? – falou o delegado.
–Ele não parece o tipo que anda abraçado com homens. – falou ironicamente Lewis.
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