Grey Hollow
1 Prólogo
ELE A DESEJOU desde a primeira vez que pôs os olhos nela. Adolescentes viviam dando festas em cantos afastados da cidade, perto de florestas, onde podiam montar suas fogueiras, beber, fumar maconha e cheirar cocaína sem serem perturbados. Christopher estava enterrando um corpo quando ouviu de longe a movimentação de um desses eventos começando à margem do pinheiral onde costumava esconder suas vítimas. Era a oportunidade perfeita para escolher a próxima.
E lá estava a figura pálida, próxima do fogo com um grupo de amigas. Se a garota estivesse sozinha, ele poderia tentar um primeiro contato naquela mesma noite. Poderia ficar à espreita e raptá-la no momento em que se afastasse, mas algo do tipo não era do seu feitio, raramente o fazia. Christopher gostava de brincar com os sentimentos de suas vítimas, seduzindo-as. Isso tornava as coisas mais interessantes, podia levar três meses no máximo, era um intervalo de tempo razoável entre um desaparecimento e outro. A garota loira seria sua segunda vítima na pequena cidade, Grey Hollow. Depois da quinta, ele partiria para outras cidades da região e só retornaria depois de dez anos, tempo suficiente para que as lembranças se atenuassem na memória da população.
Estas precauções tornaram-se cada vez mais necessárias, uma vez que a taxa de mortalidade reduzira no mundo no último século, pelo menos no ocidente. Os humanos não simplesmente adoecem e morrem, as condições de trabalho melhoraram e os acidentes diminuíram. No século XVIII, a morte era tão comum que não era necessário muito cuidado com a desova dos cadáveres e ele tinha presas novas sempre que quisesse.
Ainda com os olhos fixos na garota, afastou-se da orla da floresta, onde se recolhia nas sombras, sem sentir necessidade de maior cautela, e caminhou por entre os jovens. A esta altura, estavam tão chapados que não se recordariam, no dia seguinte, de o terem visto. Christopher conseguia distinguir o cheiro inebriante dela do de outras pessoas.
— Olá, estranho. – A voz vinha de um Ford Capri preto, cujo modelo – ele se lembrava – tinha sido lançado no início da década de 70, estacionado um pouco mais distante das pessoas, cuja porta aberta revelava uma garota de longos cabelos tingidos de preto sentada com uma das pernas para fora do carro.
— Oi. – Christopher respondeu um pouco desorientado por ter sido arrancado de sua conexão quase hipnótica com a jovem loira.
— Nunca vi você por aqui. – Ela disse, observando o fundo da garrafa vazia de cerveja em sua mão e franzindo o cenho.
Ele apenas a olhou, não sentia vontade de se justificar para a garota obviamente bêbada.
— Moonspell Rites? Behemoth? — Perguntou, procurando mudar de assunto.
— Ah, sim. – Ela desviou a atenção de sua garrafa, olhando para o rádio e depois fixando os olhos cinzentos no rosto dele. – Eu sabia que você era metalhead, seu cabelo longo o denuncia. – Dito isso, ela levantou-se, com certa dificuldade, apoiando-se na porta aberta do carro, olhando por cima do ombro de Christopher.
— Você não pretende voltar dirigindo, não é? Digo, seu carro é...
— Não! Claro que não! – Ela olhou de volta para Christopher como se ele fosse uma barata estúpida. – Meu padrasto me mata se eu bater o carro. Eu vou dormir aqui hoje... ah! Ali está ela! Vamos logo, Robin!
Christopher olhou para trás e viu outra garota de cabelos negros, presos por uma caneta em um coque, se aproximando e carregando duas garrafas de cerveja em cada mão.
— Por que você fica ouvindo esses chiados? – Robin perguntou, se referindo à música, despertando um olhar de indignação da outra moça.
— Ah, cale a boca! – Pegou a garrafa e voltou a se sentar não notando a partida silenciosa de Christopher e nem imaginando que ele estava considerando a ideia de que ela poderia ser sua terceira presa.
***
Christopher apoiou-se na pá cravada no chão e contemplou a cova que acabara de cavar. A terra estava úmida devido à chuva fina, porém incessante, que caía. Desviou o olhar para o céu carregado de nuvens afastando os longos cabelos castanhos. Olhou ao redor, por entre os pinheiros, se atentando a qualquer barulho e andou até o carro. Abriu o porta-malas e encarou a garota recentemente morta. Era linda. Lucy. Seus lábios estavam entreabertos assim como seus olhos azuis pálidos, os cabelos louros e seu pescoço branco estavam manchados de sangue. Christopher colocou o cadáver sobre o ombro e o levou até a cova, deixando-o cair com um baque abafado. Antes de cobrir a garota com terra, tirou uma estaca de madeira da parte interna da jaqueta e enfiou na barriga da morta. Isso deve segurá-la, pensou.
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