Grey Hollow
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— SENTIU ALGO DIFERENTE? – Olivia, com os olhos fixos na estrada enquanto dirigia, perguntou às gêmeas, Anna e Kate.
— Não. – Anna respondeu, evidentemente decepcionada. – Eu esperava... sei lá... trovões, ventania, mas não aconteceu nada!
— Você estava realmente acreditando que ia dar certo? O problema é como vamos explicar os cortes para a mãe. – Kate examinou a mão ensanguentada e enfaixada com um pano branco.
— Contem a verdade de modo a parecer uma mentira – Olivia sugeriu. – “Ah, mãe, nós estávamos fazendo bruxaria no meio da floresta”.
— É só fechar a mão quando ela estiver perto. Resolvido! – Anna disse, exasperada. – Livro estúpido, ritual estúpido! Tem tanta coisa escrita que até me pareceu verdade...
Olivia detestava dirigir à noite em Black Lake. Além do fato de estar escuro, a neblina, que não se dissipava nunca, atrapalhava. O lugar era parecido com Grey Hollow, a cidade vizinha de onde a mãe veio, tudo parecia cinzento, sem vida, e sempre nevoento e frio.
***
— Fique com essa coisa para você, se quiser. Deixei no banco de trás. – Disse Anna.
— A gente se vê amanhã. – Olivia se despediu através do vidro do carro e partiu.
Anna e Kate observaram a amiga dobrar a esquina. Suspirando, Anna girou a chave e elas entraram na casa tentando não fazer muito barulho. Eram quase 2 horas da madrugada. A mãe das garotas não conseguia mais manter controle sobre as saídas noturnas delas depois que Olivia ganhara o carro.
Kate olhou para a cruz pendurada na parede da sala.
— Jesus deve estar decepcionado com a gente – ela sussurrou com um meio sorriso para a irmã.
— Eu nem acredito em Deus.
— Mas acreditou que viraríamos bruxas, ou sei lá. – Kate debochou.
— De qualquer forma – Anna fez um gesto com a mão dispensando o comentário da irmã –, nada aconteceu. Então estaria decepcionado por quê?
***
Olivia estranhou o fato de as luzes da sala estarem acesas. Talvez a mãe, Rachel Thompson, estivesse preocupada, e enquanto abria a porta, já estava pensando na desculpa que daria. Atravessou o hall um pouco apreensiva.
— Oi, mãe, eu... – e se interrompeu ao ver o rosto dela inchado, vermelho e coberto de lágrimas. – O que aconteceu?
— Sua avó...
Olivia não precisou que a mãe completasse a frase para que pudesse concluir que a avó havia morrido.
— Infarto? – Ela se sentou passando o braço pelos ombros da mãe, que assentiu. – Por que não me ligou?
— Recebi a notícia há pouco tempo. Robert ligou. – Ela respirou fundo. — Amanhã vamos a Grey Hollow para o enterro e porque precisamos ver o que fazer com a casa.
Rachel engravidou aos 17 anos. Seu namorado, que tinha acabado de começar a faculdade, entrou em desespero, não assumindo a criança e nunca mais retornando a Grey Hollow. Rachel foi tentar a vida em Black Lake, a cidade próxima, pois sua mãe a enxotou de casa. Ela sabia que havia cometido um erro, mas contava muito com o apoio da mãe, até porque Rachel sempre tentava ajudar em casa com seus trabalhos temporários, que muitas vezes prejudicavam seus estudos. Ela criou um rancor tão grande de sua mãe a ponto de manter Olivia afastada dela e evitar visitar sempre que possível. Portanto, a filha de Rachel não tinha laço de afeto nenhum com a avó.
Oito anos se passaram depois de sua gravidez, e seu irmão mais velho faleceu em um acidente de trânsito, deixando a filha de 8 anos, Scarlett, e o filhinho de apenas 9 meses, Richard, órfãos. Os sobrinhos eram o único motivo para Rachel visitar Grey Hollow.
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