DEITADA NO BANCO traseiro do carro, Violet Thompson não ouviu o celular tocando. Estava bêbada demais para acordar. Apenas no dia seguinte, quando acordou e olhou o telefone para saber o horário – 11h – que soube das 12 chamadas perdidas da mãe. Era estranho, mas ela não ligaria de volta, só o faria se as chamadas fossem de Robert, o padrasto. Encarou o teto desanimada.

As reuniões semanais à beira do lago estavam cada vez mais vazias depois de Lucy desaparecer, já fazia quase três semanas e não havia nenhuma pista do que poderia ter acontecido. É verdade que nos últimos meses, a garota andava meio estranha, assustadiça, como se escondesse algo, mas ninguém além de Violet notara isso, no entanto, não era próxima o suficiente de Lucy para perguntar se algo estava acontecendo e agora sentia-se culpada por isso. Na noite passada, Violet teria que dar carona para Robin se esta não tivesse vomitado e ido embora mais cedo com o irmão. Suspirou e se levantou, saiu do carro apenas para entrar de novo e dar partida.

Na estrada, Violet refletia: de que a mãe teria precisado para ligar tantas vezes? Teria que pagar de novo a dívida que ela fizera se entupindo de cocaína? Não vou pagar porra nenhuma, pensou com raiva, ela que se foda. Olhou para os espelhos se certificando que a estrada estava vazia e tirou as mãos do volante por um minuto para acender o cigarro.

“So help me disappear or to believe in a change, no way out of here that I can see” – a voz de Jonas Renkse ressoava no carro enquanto o álbum Last Fair Deal Gone Down, de Katatonia, ficava de fundo durante todo o trajeto.

Depois de 20 minutos, Violet estacionou o carro em frente à garagem aberta, onde o padrasto estava.

— Onde estava, Violet? – Robert perguntou, assim que ela fechou a porta.

— Bom dia para você também. – Ela disse e se apoiou no carro antes de responder à pergunta. – Bêbada por aí. Por quê?

— Sua tia está aí. Vá falar com sua mãe.

Robert tinha acabado de falar quando a dita cuja apareceu na garagem, ainda com o robe por cima do pijama, os olhos brilhantes de lágrimas e o cabelo tingido de loiro bagunçado.

— Eu liguei para você! Onde você estava? – Hilary disse esganiçada.

— Onde eu vou não é da sua conta. – Violet respondeu rispidamente. – Só diga logo o que quer.

— Sua avó faleceu.

A garota não sabia exatamente o que sentir, não era como se ela e a avó fossem próximas apesar de morarem na mesma cidade. Depois que o pai de Violet morreu, a Sra. Thompson se isolou da família.

Atordoada, ela passou pela mãe e entrou pela porta que ligava a garagem ao interior da casa. Subiu as escadas até o quarto.

— Hey. – Era Olivia, sua prima, sentada na cama. – Você está bem?

— Melhor do que pensei que estaria – Violet respondeu fechando a porta. – Sinceramente, não consigo sentir muita coisa. Ela era uma megera. Só ficou observando Hilary se afundar nas drogas e eu ter que me virar sozinha com Richie. – Ela tateou em cima da cômoda procurando por aspirina. – Eu a desprezo tanto quanto desprezo minha mãe.

Olivia assentiu, ela conhecia os problemas da família e compreendia o ódio de Violet. A melhor coisa que Hilary fez foi casar-se com Robert Kelly após 4 anos de viuvez.

— Eu também não consigo ficar de luto. Afinal, só a vi uma vez na vida. – Olivia levantou-se e foi em direção à porta, colocando a mão na maçaneta. – Não se esqueça que daqui a duas horas vamos a um enterro. Vista preto. – E saiu.

Violet quase sempre vestia preto, só não tinha roupas formais.

***

Ela observou a terra sendo jogada sobre o caixão na cova. Não havia muitas pessoas no velho cemitério, apenas a família e algumas senhoras que possivelmente conheceram a Sra. Thompson em seus melhores tempos.

Quando as pessoas começaram a se dispersar, Violet e Olivia começaram a caminhar por entre os túmulos e esculturas de anjos.

— Seu cabelo ficou legal. – Violet gesticulou para o longo cabelo vermelho-cereja de Olivia.

— Obrigada – Ela sorriu. – E aí, o que você vai fazer agora que acabou o Ensino Médio?

— Trabalhar de dia com o Robert na oficina e à noite nos bares até juntar dinheiro suficiente para dar o fora daqui. – Violet suspirou.

— Não pensa em faculdade?

— A coisa é que não faço ideia do que fazer com a minha vida e eu não fui uma aluna que se esforçava. – Elas pararam na orla do bosque de carvalhos que se estendia ao lado do cemitério. – E você?

— Eu não faço ideia – Olivia revirou os olhos. – Mas, ei, você sabe que herdamos a casa e que minha mãe não vai querer se mudar para cá, certo?

Violet apertou as sobrancelhas.

— Eu me esqueci desse detalhe.

— Richard tem 10 anos e nós temos 18. A gente pode ocupar a casa.

Violet se iluminou para uma nova ideia

— Poderíamos transformá-la num bar. Eu conheço gente pra caralho. Poderia dar certo.

Algo chamou a atenção de Olivia por cima do ombro de Violet.

— Você viu?

— Sim... Espera, vi o quê? – Ela virou-se para acompanhar o olhar da prima.

— Tinha duas pessoas a alguns metros de distância de nós. Eu pisquei e elas desapareceram.

Violet olhou do lugar para onde Olivia apontava para o rosto da mesma.

— Está cedo demais para usar drogas, não acha? – Disse arqueando as sobrancelhas.

— Não acredita em mim? Eu tenho certeza que eu vi. – A garota disse muito séria.

Violet assentiu lentamente com a cabeça, ainda não acreditando.

— Ok, vamos sair daqui. – E puxou a prima pelo pulso.

***

— E então, vai me ajudar? – Violet estava encostada com os braços cruzados na parede da oficina do padrasto enquanto este estava deitado em baixo de um carro.

— Eu não sei.

— Ora, vamos, Kelly. Vai dar certo. – Violet caminhou até Robert. – As pessoas bebem no meu bar, batem o carro e o trazem aqui para consertá-lo. – Acrescentou.

A garota o ouviu dar uma risada.

— Só não deixe Hilary saber.

— Pode deixar, eu não a deixo saber nada mesmo. – Violet deu de ombros e, depois de uma pausa, acrescentou: – Por que você ainda está com ela, afinal?

Robert parou o que estava fazendo por alguns segundos e saiu de baixo do carro.

— Por você e por Richard. – Ele fixou os olhos azuis nos dela. Violet sentiu-se emocionar.

— Eu agradeço, Rob, por tudo que você fez por nós.

Ele assentiu com um pequeno sorriso.

— Vamos, levanta essa bunda gorda daí, Kelly. Vamos tomar uma cerveja.