Greeneyes

5 Capítulo 5


Seattle era uma bonita cidade, isso eu tinha que concordar.

Eu não ia deixar minha vida nas mãos imprudentes de uma garota que eu acabara de conhecer por mais que ela tivesse nascido comigo, então se ela ia enfrentar os Zoms iria ter a minha ajuda mesmo que isso piorasse as coisas.

Logo quando passamos da entrada da cidade o jeep deu sinal da escassez de gasolina e eu parei em um posto, enquanto enchia o tanque era domado pelo arrependimento completo em ter dado meu cartão de credito a Julia, para que comprasse algo para comermos e bebermos na loja de conveniência do posto. Após encher o tanque, adentrei no jeep e peguei o celular. 46 ligações perdidas. Haidi devia estar louca. Resolvi retornar na tentativa de tranqüilizá-la enquanto esperava o retorno de Julia.

Ela atendeu no primeiro toque.

- Onde você esta John? – Berrou Haidi.

- Sem grilo. Estou bem..

- Como assim esta bem? Eu quase chamei a policia... Quando acordei você não estava e não atendia o celular... Onde você esta?

- Acalme-se ta legal. Eu estou bem. Estou em Seattle, um amigo precisava de uma carona. Esta tudo bem Haidi, não se preocupe, retorno assim que der e quero que avise que estou numa viagem no colégio, por favor.

- Como. É. Que. É. – Não era uma pergunta. – Você desaparece. E quer que eu sirva de garota de recados?

— Sim, por favor e confie em mim.

Houve uma pausa. Eu podia ouvir a respiração de Haidi se tranqüilizar entre breves rosnados baixos.

- Ok. Mas tome cuidado e ligue para mim toda noite. Você é minha responsabilidade John, não me deixe no escuro.

- Sim, senhora.

Eu sabia que podia confiar nas reações de Haidi, ela não sabia sufocar e confiava em mim, dois motivos para fazer valer a pena.

Eu olhei para dentro da loja e vi Julia empurrando um carrinho já quase completamente cheio, ela acenou pra mim e tentei lembrar qual era o limite disponível do cartão que dei a ela. Suspirei e na esperança de passar o tempo disquei o numero de Max que atendeu no terceiro toque.

- Casa das verduras. Qual é o pepino? – Disse Max em sua saudação costumeira.

- Seattle e garota nova.

- Como é?

- Ontem a noite a garota nova, Julia, foi até minha casa me pedir uma carona e agora estou em Seattle, ela esta nesse momento sorrindo enquanto gasta meu cartão de credito.

- Wow cara. – Exclamou Max. – Mas você dormiu com ela, certo? Porque ela tem que ter dado para obter o direito de receber os limites do seu cartão.

- Digamos que dormimos...

- Em cama separada. – Ele me completou. – Você é otário ou apenas nerd? Ela esta nesse momento gastando seu dinheiro e você nem tirou a calcinha com..

- A garota é maluca.- Eu o interrompi. – E não foi para ser criticado que te liguei. Preciso que venha para cá.

- E como espera que eu faça isso? Que vá montado em um jumento?

- Cadê seu carro?

- Sem gasolina, estou pegando carona com a Jane, argh até minha mãe tomar vergonha na cara e encher o tanque. – Jane era a irmã gêmea de Max, eles se odiavam desde que.. Nasceram?

- Arranje dinheiro para a gasolina e eu cubro depois. Mas preciso de um favor.

- Opa. Diga lá.

- Quero que pegue os refis da bombinha no armário do colégio e a chave da minha casa, você sabe a combinação, espere Haidi sair e encha uma mala com tênis, cuecas, meias e roupas do tipo calça jeans e camisetas de flanela.

- Não era só uma carona cara?

- Acho que vou ficar mais do que previsto.

- Vai se casar com ela, irmão? – Berrou Max surpreso.

Limitei-me a rir.

- Faça o que pedi e seja rápido.

Não vi quando Julia saiu da loja ela devorava um sorvete e sem tocar no carrinho o guiava para a traseira do jeep.Temi que alguém visse aquilo mas nem sinal de alguém por perto e o carrinho não estava tão distante de seu corpo para que alguém desconfiasse realmente. Eu desliguei o celular e tirei a chave da ignição, segurando-a para fora da janela do motorista onde estava. Julia a tirou de minha mão e ainda devorando o sorvete de chocolate abriu o porta mala e esvaziou o conteúdo do carrinho no mesmo em menos de um minuto, tudo sem usar as mãos.

Eu me acostumaria com isso.

Quando voltou ao jeep, Julia já havia terminado o sorvete e sorriu ao me devolver o cartão.

- Quanto gastou?

Ela se virou para a frente e eu neguei com a cabeça sorrindo um pouco. Aquilo não me importava realmente e ela sabia disso.

Julia me guiou para sua casa o tempo inteiro, entre “vira a direita”, “não, a esquerda”, “era aquela rua John, aquela” e “Meu Deus, você matou o esquilo” chegamos a que seria sua casa, ao sul de Seattle. Ela era grande e tinha a cor do concreto, seus altos portões protegiam a perfeição de uma estrutura medieval, ampla e artística. Um terreno de grama batida ladeava ambos os lados do curto caminho que levava a garagem, estacionei o jeep ao lado de um conversível amarelo e quando Julia abraçou o capô deduzi que seria dela. Exagerado e apropriado.

Vislumbrei o lugar, era clássico, as arvores plantadas no terreno e a maneira seca que estavam deixava o lugar com um ar sombrio, os desenhos sinistros no concreto da parede fosca deixava o ambiente quase assustador e de repente eu queria morar ali.

Sorri para o lugar.

- Vamos. – Julia me chamou do alto da escada e eu a segui.

Ela atravessou a enorme porta da entrada da frente e ainda seguindo-a parei diante do interior de sua casa. Parecia acabada de sair de uma revista decorativa de imóveis porem com o tema medieval centralizado por toda ela, a sala de estar era imensa e os moveis que a compunham impecáveis porem com um ar antigo em cada peça, havia uma lareira ampla e apagada no centro da sala e um lustre de cristal tão grande e exagerado que associei imediatamente a Julia.

- Pai. – Chamou ela. – Chegamos!

- Sua casa é incrível. – Disse eu.

- Tá brincando? Aqui parece um calabouço medieval. Gostei da sua casa. – Respondeu ela.

- Olá, olá. – Disse uma voz masculina, vinda de um corredor atrás de Julia. Ela se virou no mesmo instante que eu para olhar para o homem alto e esguio, sua pele era incrivelmente pálida como a de Julia porem seu cabelo era castanho como os meus, ele tinha o nariz fino e quando Julia correu e se jogou em seus braços ele exibiu os dentes brancos e direcionou seus olhos igualmente estranhos em minha direção. – Você deve ser John Parker.- Disse ele com uma das mãos erguida em minha direção enquanto envolvia a cintura de Julia com a outra.

- E o senhor deve ser o Sr. Percie. Muito prazer. – Uni e apertei com firmeza sua mão.

- Me chame de Carl, filho.

Assenti.

- Contou a ele? – Perguntou Carl a Julia.

- Que parte? – Respondeu ela.

- Testes. Komam.

- Aham. – Ela assentiu algumas vezes com a cabeça.

Ele negou com a cabeça como se essa tarefa fosse dele mas deu de ombros.

- Descanse John, a viagem deve ter sido cansativa, Julia vai te mostrar os aposentos.

Ela beijou o rosto de Carl e puxou meu braço em direção a escada.

- A compra do mês esta no carro. – Consegui dizer para Carl e jogar a chave do jeep sobre o sofá enquanto era rebocado escada a cima.

Ela me levou por um corredor não muito estreito, passamos por três portas marrons e uma verde limão, associei aquela a Julia novamente. Ela parou diante o quarto ao lado daquele e chutou a porta já entreaberta.

- Este é seu quarto.

Era maior que meu quarto em Ruston porem bem melhor decorado. A cama era gigante e a decoração da casa também se estendeu aquele cômodo, a enorme janela, o chão de madeira impecável e a parede de concreto exposto davam ao sofá, a cama clássica e até o criado mudo o ar antiquado e medieval que me era incrível.

- Aqui fica o banheiro. – Julia apontou para a direita. – Tem toalhas e roupas nos armários. O almoço é as duas e o jantar as oito, o café da manhã é as sete. Virei te acordar. – Ela passou por mim ainda na porta e foi fechando-a. – Ah, não incomode a dona do quarto ao lado ela morde. Rawr.

Antes que ela fechasse a porta eu a chamei.

- Pois não, querido John?

- Sobre os testes... não tenho idéia de como fazê-los...

- Não se preocupa. Eu vou estar lá e ajudarei você.

Julia sorriu e eu assenti com a cabeça.

Tomei um banho demorado e senti todo o peso das horas de carona com Julia escorrer de meu corpo e descer junto a água escaldante rumo ao ralo.

Tudo tinha acontecido rápido demais e de repente nada era comum, eu fui tirado do meu mundo perfeito e não via fundamentos em meus questionamentos, talvez eu saísse morto ou como um legitimo Komam vitorioso mas no momento nada disso importava, nem ao menos a curiosidade de saber qual era meus dons ou o que eu era e nem mesmo o fato de eu ter que passar o resto da minha vida sentindo a necessidade de saber se a garota mais irritante que conhecia estava em perigo. Eu apenas queria saber aonde isso iria dar, ansiava por alguma coisa que eu não sabia explicar e parecia absurdo tentar porque não fazia sentido, ao que parecia eu ansiava por uma verdade, mas que verdade?

Enquanto encarava meu reflexo no espelho soado, tentei encontrar alguma mudança, coloquei os óculos, limpei o vidro embaçado e observei minha pele, os olhos, a cor do cabelo e nada. Meus cabelos continuavam castanhos, minha pele branca ainda estava no mesmo tom pálido, tirando o avermelhado do banho quente, e meus olhos... Suas íris estavam mudadas, pequenas manchas verdes haviam aparecido porem era quase imperceptível. Subitamente assumi aquela postura, eu era um Komam e mesmo não sabendo o que aquilo significava exatamente eu gostei de como a idéia soava.