Greeneyes
1 Capítulo 1
Ela levantou o olhar e de repente eu estava em um lugar totalmente estranho,os últimos três anos no colégio Volder High não significava mais nada e eu estava completamente mergulhado nas profundezas do verde intenso de suas íris e sem nenhum plano para sair de lá por sinal. Ela afastou os lábios carnudos e exibiu um largo sorriso deixando em evidencia as bochechas salientes, dentes perfeitos e brilhantes me sobressaltaram e uma bolinha de papel na têmpora me fez voltar a realidade.
- Sai fora nerd! – Berrou meu melhor amigo, Max, melhor talvez seja uma palavra exagerada. Arrumei os óculos e sem retribuir o sorriso caminhei para a carteira vazia do lado da dele no fundo da sala, coloquei a mochila sobre a mesa e sentei-me na cadeira. – Será que nenhum nerd sabe disfarçar o calor da paixão? – Indagou ele, o que me fez revirar os olhos.
- Quem é ela? – Perguntei eu.
- Três palavras pra você meu amigo: Canadá. Rica e não é pro seu bico.
- Não foram três. – Eu agora a encarava.
- Que se dane. Ela é rica e canadense cara e você sabe o que dizem sobre os canadenses..
Voltei meu olhar a ele.
- E o que dizem sobre os canadenses?
- Sei lá. Achei que você soubesse. – Ele coçou a cabeça debilmente e eu revirei os olhos novamente voltando-os a ela. Sentada na primeira cadeira da fileira central da sala seus cabelos em uma cascata negra até a cintura mantinham-se perfeitos imitando sua postura, sua pele incrivelmente branca contrastava perfeitamente com o tom dos fios e mesmo com aquela estatura mínima ainda que de costas ela parecia completamente centrada. Vestia um vestido amarelo gema com detalhes pretos, ela cruzou os dedos sobre a mesa e luvas até o cotovelo surgiram, em seus pés, botas com salto fino preto e uma bolsa laranja nada discreta pendia sobre sua cadeira. Ela era nova aqui e disso eu não tinha duvida, conhecia cada um que freqüentava a Volder desde o ano retrasado e nunca vira aquele sorriso, eu me lembraria dele. Eu daria um estilo a ela, gótica talvez mas não acreditava que ela se encaixaria com um grupo tão estranho, por mais que eu falasse com todos os membros das panelinhas da Volder eu sabia que gótico não era a panela dela, eles não sorriam e ela sim e que sorriso..
Ela se levantou e era menor do que pensei, aparentava ter idade para o fundamental e não pro ultimo ano do colegial onde estava, ela caminhou até o Sr. Sanders que acabara de entrar na sala e lhe entregou o papel, achei ter visto vestígios do sorriso de outrora mas não tive certeza. Ela voltou a se sentar e seu olhar disparou para o fundo da sala, em minha direção. Em minha direção? Seus olhos foram tão diretamente nos meus que senti a necessidade súbita de corrigir a postura, ela se sentou e não se virou novamente.
- Você viu isso? – Disse Max antes quieto demais ao meu lado. – Ela olhou pra você cara. Estou sentindo o primeiro olhar da paixão, só não sei explicar como isso foi acontecer.. – Abri a boca para responde-lo mas fui interrompido pelo anuncio de silencio do Sr Sanders, ele era o professor mais respeitado na Volder, um erguer do dedo indicador podia ser sua saída para a diretoria como um mandado de silencio, ele ignorava os alunos completamente porem física ainda era minha matéria favorita.
-Temos uma nova aluna. – Disse ele no tom apático costumeiro. — Ela veio do Canada e espero que seja bem vinda portanto trate-a bem seus vândalos. – A sala vibrou com sua ultima palavra e ele se virou ignorando-nos como sempre. – Bem vinda. – Disse ele a ela em meio a gritaria ainda apático, sem se virar para olhá-la.
O sol se recusava a aparecer na fria manhã de quarta-feira, normalmente recebíamos novos alunos na segunda, isso quando recebíamos, Ruston não é um lugar para o qual as pessoas queiram se mudar, é frio, monótono e fica bem longe de onde se costuma realizar sonhos americanos, Ruston era uma cidade refugio, ninguém queria estar lá de fato por isso eu acreditava que ela era composta principalmente por assassinos, fugitivos, solitários, culpados e órfãos o que era meu caso sem contar que sem duvida era a primeira cidade na lista de refúgios do programa de proteção a testemunhas mas ela não parecia ser nada disso, a garota de longos cabelos negros não parecia se encaixar em nenhum desses quesitos e aqui não havia vestígios de família rica, quero dizer, eu não era rico, prefiro o termo: culto. Sou herdeiro de uma pequena fortuna deixada por minha mãe,nunca soube exatamente o que ela fazia e nem porque minha infantil e cabeça dura tutora me mantinha naquela cidadezinha medíocre, quando minha mãe morreu eu aceitei tão rápido que uma semana depois um sorriso autêntico podia ser visto em meu rosto, ela não me amava o suficiente para evitar o suicídio e eu não pediria isso a ela, então Haidi, minha tutora, cuidaria de meus patrimônios até eu ter idade para isso, daqui a três semanas para ser mais exato. Nunca senti vontade de sair de Ruston, moro aqui a três anos e sou capaz de dizer que conheço todos os oitocentos habitantes mas eu nunca a vira, nem alguém que se vestisse minimamente parecido aqui, ela parecia uma boneca de porcelana, mas o que alguém assim faria numa cidade como Ruston? Acho que essa pergunta também se aplicava a mim.
As horas se passaram lentamente e eu nunca fiquei tão calado, a Srta. Grape de espanhol por varias vezes me olhava esperando um questionamento ou respostas rápidas e costumeiras mas nada teve de mim, a garota que ainda não se apresentara roubara minhas respostas e em tom firme e estridente afirmava sempre corretamente. No intervalo, eu era sempre o ultimo a sair da sala ao contrario de Max que reservava sempre a mesma mesa no centro do pátio. Quando fiquei sozinho depois do tocar do sinal, guardei com calma minhas coisas na mochila e caminhei sem animo nenhum para o maçante intervalo.
- Julia. – Disse-me ela assim que pisei o pé para fora da sala, ela deu alguns pulinhos e notei o tule preto que dava volume a saia de seu vestido, não que eu estivesse olhando para o quadril dela claro.
- Como é? – Perguntei erguendo uma sobrancelha.
- Meu nome, é Julia. Julia Percie. Sei que estava louco pra saber.- E estava mesmo.
- Ahh.- Passei por ela e continuei a caminhar.
- E o seu nome, como é? – Ela veio atrás de mim, trotando e eu me esforcei para não sorrir. Agora eu ignorava a garota nova? Original e estava funcionando.
- John. John Parker.
- Olá John Parker. Sou de Ottawa e vim para cá com meu pai, ele acha que minha mãe quer manipular minha mente e me trouxe para cá, ele é possessivo e super protetor, não tiro a razão dele, sou irresistível mesmo.
- Jura?
- Sim, juro. – Ela usou do tom de surpresa e eu entendi que ela não tinha notado o sarcasmo em minha voz. – Não tinha muitos amigos lá mas era irresistível para os que tinha e estou tentando ser irresistível aqui também. – Notei quando Tom, do segundo ano passou a encarando e ela sorriu para ele quando me virei para olhá-la. – Viu só?
- Então esta afim de fazer amigos? – Disse no mesmo tom empolgado que ela usava.
- Sim! – Ela exaltou com alegria.
- Esta vendo aquele grupo ali. – Apontei para a mesa dos três maiores nerds da escola, Andie, Rodney e Phil. Eles eram legais mas não pareciam a primeira vista. – Eles são loucos por novas amizades!
Sequei o sorriso e antes de me virar em direção a fila quase inexistente da refeição pude ver seu olhos esbugalhar-se.
- Bom dia. O que vai querer hoje John? – Disse-me a cozinheira da cantina.
- Bom dia Claudia. Esta muito elegante hoje.
- Com essa toca?
- Eu vi você chegar e estava incrível, devo admitir.
- Você tem charme garoto. – Eu assenti uma vez com a cabeça. – X burguer?
- E café por favor.
- Sai em um instante. – Ela sorriu para mim e eu retribui o sorriso.
- Aqui não distribui xburguer.. – Julia estava do meu lado novamente.
- Sou um cara de sorte.
- Você dorme com a cozinheira?
Me virei para mostrar-lhe o melhor olhar de reprovação que pude.
- Tudo bem.. – Ela ergueu as mãos. – Foi só uma suposição.
Ela ficou em silencio e eu me virei para ter certeza se ainda estava ali. Ela olhava para meus pés e eu a imitei.
- São grandes. – Disse ela.
- São pés de pessoas altas.
- Como eu disse: Grandes.
Eu voltei meu olhar a seu rosto e o fixei ali.
- O que foi? – Perguntou ela arrumando os cabelos.
- São grandes. – Respondi.
- O que?
- Suas bochechas.
- São charmosas.
- Como eu disse: Grandes.
Ela abriu a boca para falar mas Claudia a interrompeu.
- Aqui esta John. – Ela me entregou uma bandeja com um recipiente de isopor onde estava o xburguer. – Coma devagar. – Disse-me ela antes de por o copo com o café sobre a bandeja.
- Pode deixar minha linda. – Ela sorriu para mim e eu quase me senti culpado, Claudia devia estar na menopausa e mesmo sustentando um corpo e pele de dar inveja a qualquer garota da minha idade, dar em cima dela para obter benefícios privados era quase doloroso.. Não. Na verdade não era.
– O que vai querer? – Ouvi Claudia perguntar a Julia.
- O mesmo que ele. – Ela respondeu com entusiasmo.
- Você tem essas opções..
- Mas..
- São essas as opções.. e seja rápida. – Claudia respondeu de má vontade.
Eu tive que rir. O restante do intervalo foi tranqüilo, Julia não ficou comigo, não que a presença dela me incomodasse realmente, mas ela sumiu e a idéia de procurá-la não me era agradável. Fiz minha refeição tranquila enquanto ouvia Max, Maggie e Paul rirem de como eu estava parecendo mais ‘almofadinha’ a cada dia. Maggie e Paul eram do segundo ano e quando o sinal tocou eu e Max nos separamos deles. O segundo tempo foi rápido mas sem a presença de Julia, ela não voltou do intervalo e no fundo eu me sentia meio culpado, mas a culpa era da Claudia, disse a mim mesmo.
Quando o ultimo sinal tocou, me despedi de todos e como de praxe esperei para ser o ultimo a sair. Caminhei lentamente até a saída e em meio a cumprimentos cheguei a meu jeep troller vermelho. Dei uma rápida olhava no estacionamento quase completamente vazio procurando pela remota presença de uma certa dama de amarelo e nada encontrei. Pulei para dentro do jipe e dirigi em direção a minha casa.
Em Ruston não havia casas luxuosas, ninguém gostava de chamar atenção porem o antigo proprietário da casa onde morávamos era uma exceção, ela era ampla e espaçosa, de uma forma desnecessariamente exagerada, meu quarto era maior que as salas de aula da Volder e os moveis não pareciam bastar para ocupá-lo. Assim que entrei pela porta Haidi me recebeu. Ela rodou em passos de ballet em minha direção e como um ato costumeiro eu a segurei pela cintura, permiti a seu corpo mais um giro e a deitei em meu braço como um ultimo passo finalizando o ato de dança.
- Você é péssimo. – Disse ela.
- Se fosse mesmo você tinha caído, como da primeira vez.
Ela riu. Haidi era tranqüila, não exigia de mim, era bailarina profissional mas mal exercia sua profissão, para que ela faria isso afinal? Era tutora de um garoto rico e sabia que eu jamais a tiraria isso. Ela era magra e seus cabelos castanhos e longos estavam sempre presos em um coque alto, eu imagino que seja moda entre bailarinas, vai saber. Haidi nunca me cobrou nada, como minha mãe ela confiava em minhas decisões, cegamente, quando perdi a virgindade e trouxe uma garota pela primeira vez para casa seu único comentário foi: Coloquei camisinhas na gaveta de meias. Ela disse sem tirar os olhos da tevê. Eu amava Haidi principalmente por isso.
- Tem pizza! – Ela disse empolgada.
- Sempre tem pizza. – Eu ri e subi para meu quarto. Após um banho demorado, desci novamente, comi e subi a fim de dormir antes de Haidi que se negava a se deitar antes das 22hs.
- Boa noite. – Eu disse a ela, batendo em seu pé ao passar por ele esticado sobre o sofá.
- Boa noite. E ah.. – Eu me virei na escada para olhá-la. – Se bater no meu pé novamente eu vou ..
Ela não concluiu a frase e eu caminhei até o sofá.
- Vai o que? – Perguntei.
Ela levantou num pulo e correu para a cozinha. Fui atrás dela. Ela gritando correu para o outro lado do balcão central, eu o contornei e ela se afastou. Ameacei ir para a direita e seguindo de modo contrario meus movimentos a surpreendi indo para esquerda subitamente.
- Peguei! – Exclamei após prendê-la em um abraço apertado. Ela gritava e ria ao mesmo tempo. – O que ia fazer? Hein? – Meus dedos cutucavam-na, causando cócegas.
- Para! Para! – Ouvi entre risadas e gritos.
- O que vai fazer?
-Na.. Nada. – A ouvi dizer e a soltei.
-Como eu pensei.
Haidi ainda ria quando me desejou boa noite.
Eu nunca dormia diretamente, ouvia musica antes de apagar por completo mas já eram quase meia noite e eu ainda não tinha se quer bocejado. Haidi já tinha dormido a tempos e eu a invejava completamente. Desci então para beber água e após fazê-lo pretendia subir de volta a meu quarto quando a campanhinha tocou, me sobressaltei e liguei a luz principal externa antes de abrir a porta, quando o fiz meus olhos se arregalaram e eu sorri. Julia. Vestia um casaco grosso verde limão com detalhes pretos, sua bota agora era roxa e ela usava um chapéu que combinava perfeitamente com a bota, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo longo e ela me olhava agora seria.
- Preciso de uma carona John. – Ela me encarava quase assustada. – Por favor. – Implorou.
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