Greeneyes
2 Capítulo 2
- Como é? – Perguntei incrédulo.
- Até Seattle. Lembra que disse que minha mãe quer minha cabeça?
- Você disse que sua mãe queria fazer sua cabeça.
- Que seja. Preciso encontrar com meu pai em Seattle. – Minha cabeça estava confusa e a presença de uma desconhecida em minha casa a deixava ainda mais, como ela sabia onde era minha casa? Ok, todo mundo naquela cidade sabia e ela não teria medo de perguntar mas porque ela viera pedir carona logo a mim?
- Porque pedir carona a mim? – Dei voz ao pensamento.
- Você é o único que conheço aqui.
- Não nos conhecemos. E já ouviu falar em taxi? Porque não pediu carona ao grupo que te mostrei no colégio..?
- Vai me dar carona ou não? – NÃO!
- Sim. – Respondi e ela sorriu. – Mas tenho que falar com minha tutora e..
- Não há tempo, vamos. – Ela se virou e arrastou uma mala sem duvida maior que ela que eu não notara até então, não parecia pesada então não me ofereci para ajudar.
Eu não sabia porque estava fazendo aquilo, mas esperei por alguma sensação ou qualquer coisa que me impedisse, qualquer motivo ou até uma dor física, não que existisse uma realmente mas se houvesse, eu desistiria na hora de dar carona a uma irritante desconhecida mas não houve nada, então repassei rapidamente os problemas que ela poderia me causar porem o que alguém com menos de um metro e sessenta de altura poderia me causar alem de torcicolo?
- Preciso me arrumar. — Eu disse olhando para a calça de moletom cinza e a blusa branca surrada que usava. Ela me avaliou.
- Não demore. E não avise a sua tutora.. – Eu a encarei e ela continuou. – Você liga pra ela mais tarde.. para que acordá-la agora? – Ela tinha razão. Haidi entenderia.
Subi para meu quarto e em dois minutos uma calça jeans, blusa Levi’s azul e um blazer preto compunha o estilo costumeiro, finalizado por um bom par de tênis Nike, não costumava pentear o cabelo então passei a mão sobre ele e esperava que estivesse apresentável. Exagerei? Não, eu não queria impressiona — lá, talvez meu subconsciente quisesse mas desde que minha mãe morrera eu não via mais necessidade em me vestir como alguém de Ruston, eu não era de lá afinal. Quando desci, vi apenas sua mala próxima a porta e ao ver a luz da cozinha acessa caminhei até lá. A geladeira parecia gigante perto dela e quando ela fechou a porta uma garrafa de dois litros de coca-cola pendia em baixo de seu braço direito enquanto um recipiente com o bolo de chocolate que Haidi fizera na tentativa inútil de me fazer comer doces era segurado por suas mãos livres. Ela sorriu com a boca suja de chocolate e eu revirei os olhos.
- Achei que estivesse com pressa. – Disse eu.
- Uau.- Ouvi ao me olhar de baixo para cima, desviei meu olhar do dela. — Vamos. – Eu mal acreditei que era realmente levaria o bolo e a coca-cola com ela. Mas ela passou por mim e caminhou até a porta, parando diante dela. – Por favor. – Ela me olhou indicando a porta e eu corri para abri-la, em seguida peguei meu celular, as chaves do carro, carteira, meus oculos e minha bombinha de asma sobre a mesa próxima a porta – Pegue minha mala. – Julia berrou e de má vontade puxei a alça de sua mala com apenas uma das mãos e quase a quebro, a mala estava tão pesada que meu puxão mal a moveu porem o latejar em meu pulso por pouco não me fez gemer, tive que levá-la com as duas mãos ao carro. Julia me esperava sentada bebendo no gargalo da garrafa de coca-cola. – Pesada?- Perguntou ela. Eu a ignorei. Quando em fim consegui por a mala no porta malas caminhei e sentei em frente ao volante ignorando o fato de que precisava malhar mais.
- Seattle?
- Sim. – Respondeu Julia limpando os lábios.
- Suponho que seja no mínimo dois dias de viagem.
- Espero que tenha cartão de credito.
- Então é por isso que preferiu a mim..?
- Chega John! – Ela me interrompeu. – Se não quer me levar tudo bem.. – Julia abriu a porta do jeep e pois um pé para fora.
- Entre. Anda, vamos. – Pensei ter visto vestígios de um sorriso mas não tive certeza, liguei o motor e dei partida.
Já tinha ido uma vez para Seattle com Haidi fazer compras, era uma estrada única, e a não ser pelo intermédio em meio a algumas cidades era fácil chegar. Guiei o jeep até a saída da cidade em direção a Ruston Way.
- O que tem em Seattle?
- Prédios, pessoas..
- Você entendeu.
- Meu pai vai estar esperando por mim, ele me quer longe da minha mãe e parece que ela estava vindo me fazer uma visitinha aqui. – Explicou ela com um sorriso duro.
- Ahh.
- Gostei do blazer. Você não é de Ruston é?
- Nova York.
- E o que faz aqui?
- Minha mãe precisava de paz depois da morte do meu pai. – Fiz uma pausa. – Mas parece que não conseguiu aqui.
- Ahh. — Ela jogou o recipiente agora vazio com antes metade de um bolo pela janela.
- Para onde vai tanta coisa?
- Estomago. — Ela riu.
- Ainda em fase de crescimento? – Julia perdeu o sorriso e senti que me encarava. – Eu acho que esta.. – Agora eu ria.
Ao passar pela saída da cidade, pisei o pé no acelerador até alcançar a estrada principal, a medida que avançava por ela fui diminuindo a velocidade enquanto era torturado pela a voz estridente e irritantemente porem potente de Julia, ela alcançava tons que só os cachorros ouviam e isso sem saber metade da letra da musica, quando nos aproximamos da rodovia 705 desliguei o radio mas ela não protestou apenas sorriu, vi no painel que já passara da uma da manha e me surpreendi por ainda não estar nem um pouco cansado. O tempo foi passando e Julia substituiu as letras erradas das musicas por perguntas sem fim, em instantes ela descobriu a minha vida desde que vira morar em Ruston alem de algumas coisas desnecessárias como minha sensibilidade na nuca, mas eu também fiquei sabendo de algumas coisas como que ela tem uma mania cruel de limpeza e que não era canadense e sim dinamarquesa, que sua ida para o Canadá teve a ver com a perseguição de sua mãe, que para a mesma a decisão do juiz que decidira a guarda para o pai de Julia não significava nada, questionei esse fato perguntando por que o juiz não proibia ela de se aproximar. Ela não respondeu.
Já passávamos de Tacoma e o painel indicava por volta das quatro da manhã, Julia agora dormia e o silencio da rodovia era tenso até para mim. Quando adentramos os arredores de Port of Tacoma Rd. Em toda rodovia apenas um carro nos seguida, não estranhei de inicio mas me permiti testar, sorri ao ver o perímetro 99/137 que dava acesso a saída e retorno da rodovia porem o sedam preto ainda nos seguia, ignorei a paranóia e continuei dentro do limite de velocidade.
Julia acordou e após olhar ao redor sorriu para mim.
- Droga. Comi o bolo inteiro e agora estou com fome... O que aconteceu em minha ausência?
- Uma grande seqüência de silencio e um sedam preto.
- Sedam preto? – Ela parecia seria agora, mas eu não tinha certeza
- Sim.- Respondi e ela olhou para trás, para o sedam que ainda nos seguia.
- Eles nos seguem desde quando?
- Desde de Tacoma Rd.
- Acelera John.
- Como é? – Eu me permiti rir.
- Acelera! — Ela quase berrou
- Não vou cometer erros tão banais... prezo a minha carteira de motorista e isso é loucura.
- Agora! – Ela gritou e eu me sobressaltei, sua mão se esticou para o acelerador e subitamente meu pé o pressionou, o jeep deu uma guinada para frente enquanto passávamos de noventa por hora. O carro atrás de nós acompanhou nossa velocidade atual e eu a olhei.
- Minha mãe. – Disse ela.
- Vamos parar... Conversar, as vezes...
- Esta louco John? Não se atreva a parar esse carro!
- E porque não? Ela não te seqüestraria e você é filha dela...
- A situação é bem mais complicada...
- Então me explica.
Nesse momento dei o comando para que lentamente meu pé saísse do acelerador mas ele continuava a pressioná-lo para quase cem por hora, percebi que Julia ainda mantinha a mão estendia na direção do mesmo enquanto fitava o retrovisor.
- Julia o que... ? – Comecei a perguntar mais ela me interrompeu.
- Olhe!
Obedeci e achei ter visto um homem no teto solar do sedam, estava escuro e eu não tive certeza, quando prestes a questioná-la o que achei ser um homem tirou o que parecia ser uma arma de dentro do carro ele apontou para a traseira do jeep e agora eu acelerava. Quando a mão de Julia que estava em direção a meu pé se abaixou o carro deu uma guinada violenta para trás e tive que forçar o pé no acelerador para manter a velocidade anterior. Ela agora olhava pela janela e quando voltou a cabeça para dentro respirou fundo e lançou a mão vazia com firmeza pela janela, o sedam parou, bruscamente, seus pneus dianteiro na verdade, de modo que a parte traseira subiu como se eles batessem em um muro mas sem amassar sequer o pára-choque, enquanto o jeep avançava eu não pude ver mais nada alem do capô do sedam se abrir e o motor ser arrancado e levitar sobre ele.
Olhei para Julia e seus olhos verdes quase brilhavam em meio ao breu da madrugada. Sua mão ainda estava para fora da janela e ela olhava fixo pelo retrovisor, entre minha visão da estrada olhei para onde ela olhava e ao abaixar o olhar para o asfalto da rodovia vi o motor do sedam se arrastando atrás de nós.
- Mas o que... O que é você? – Foi tudo que consegui dizer.
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