Green
9 Sangue
Notas iniciais
Taylor ainda sonhava com ela.Estavam em um campo verde, ele sentia o cheiro de grama fresca adentrar suas narinas junto ao perfume doce e suave de Sofia.Corriam de mãos dadas, ele a rodopiava no ar e vez ou outra focalizava nos olhos dela: claros e meigos.

Mas então uma força puxava Sofia bruscamente para longe de seu abraço.Enquanto ela gritava por socorro, ele tentava correr e puxá-la de volta, mas seus músculos ficavam cada vez mais fracos até que ele não pudesse se levantar do chão.Ela chamava seu nome, ele mal podia se mover.
_Filho!Acorda!_Pedia Sarah enquanto o balançava.
Taylor estava ofegante quando abriu os olhos e suava como se estivesse voltando de uma maratona.
_Calma, meu filho, foi só um pesadelo...você deu um grito chamando pela Sofia.
_Eu preciso ver a Sofia, mãe, por favor, chama ela, eles vão levá-la pra longe de mim!Droga...Sofia!
Taylor falava alto, estava visivelmente alterado.Sarah apenas o abraçou e ele chorou em seu ombro.
_Eu não posso perdê-la...eu não vou aguentar.
_Ela só vai embora amanhã, querido, vou chamar seu pai para te ajudar e você se arruma para chamá-la.
_Não precisa, eu consigo.
_Tudo bem.Qualquer coisa é só chamar.
Sarah deu um beijo em sua testa e foi para a sala onde estava Malcolm, sentado no sofá com os olhos parados na televisão que nem sequer estava ligada e testa franzida.Ela podia ver lágrimas ameaçando cair de seus olhos.
_O que aconteceu?
Sem olhar diretamente em seus olhos, pegou um papel ao seu lado e o ergueu .
_Quando pretendia me contar?_Sua voz saiu embargada.
Sarah sentiu todo o seu corpo se queimar por dentro.Torcia para que fosse qualquer outra coisa até checar direito o papel.
_Malcolm, eu ia te contar..._Respondeu ao ver que realmente se tratava do que ela mais temia.
_"Ia me contar"?Meu amor, você não confia em mim?Caramba...há quanto tempo você sabe e está carregando isso sozinha?
_Tem uns três dias_Disse com a cabeça baixa e a voz trêmula.
Malcolm se levantou e a abraçou enquanto ela tentava abafar o choro em seu ombro.
_Sarah...escute..._Disse com a voz mais fraca do que pretendia_você não pode abraçar todos os problemas do mundo, meu anjo, por mais que queira.Não falar dos seus problemas não vai aliviar os dos outros.
_Eu só não queria que vocês soubessem agora...droga, o Taylor acordou gritando e chamando pela Sofia.Não posso contar a ele agora.
_Nós somos sua família!
_Eu sei!E eu amo vocês mais que tudo nessa vida, por isso peço que não conte ao Taylor agora, por favor...
_Mas querida, você vai ter que começar o tratamento e o Taylor é a pessoa mais perceptiva que eu conheço, vai sacar logo.
_Eu não vou fazer o tratamento.
_O que??Espera, eu não posso estar ouvindo isso...você vai se entregar?
_Não, Malcolm, eu vou viver!Não vou ficar meses definhando na quimioterapia para ter o final que nós já conhecemos.Eu vou passar o tempo que me resta com a minha família e com qualidade de vida, dentro do possível.
Malcolm se sentou no sofá e cobriu o rosto com ambas as mãos.
_É o que você quer fazer?_Perguntou em um sussurro.
Ela assentiu.
Ele abriu os braços e ela se sentou em seu colo, abraçando-se a ele.
...
_Oi, Tay!
_Oi, será que nós podemos nos encontrar na praça?Quero me...despedir.
_Claro, eu já ia te ligar, estou indo pra lá agora, beijo.
_Sofia!
_Sim?
_Eu te amo.
Sofia não respondeu, apenas desligou.Ele não entendia o significado daquilo, mas seu coração doía, ouvir a voz dela tão fria doía.
Malcolm colocou Taylor no carro e enfiou a cadeira no porta malas.
_Pai...aconteceu alguma coisa?_E não obteve resposta_Pai?
_Ahn?Oi, Taylor.
_Por que você está tão aéreo?Mal me ouve chamar...
_Ah...eu só estou cansado, filho, só isso_Disse forçando um sorriso_Chegamos...aquela lá não é ela?
_Aonde?
_A única deitada na grama igual a uma louca_E riu.
_É ela mesma.
Malcolm tirou-o do carro e deixou que seguisse o caminho até Sofia.Não via a hora de chegar em casa para ficar com a esposa.
_Oi_E Sofia continuou deitada com os olhos fechados_Sofia?
_A garota viaja_Começou de repente, ainda de olhos fechados_e quando volta, depois de uns anos, nada mudou entre ela e o cara que ela amava.Os dois se esperaram e nunca perderam as esperanças.Consegue imaginar um amor assim?_E então abriu os olhos.
Ele não respondeu, apenas a fitava, até que ela se levantou e sentou-se em seu colo, com o rosto colado no dele.
_Porque eu consigo.
Taylor sorriu, contrariando seus olhos que mais uma vez estavam marejados.Ele balançou a cabeça afirmativamente em um movimento quase imperceptível.
_Eu também consigo.
Ela o abraçou e assim ficaram por um tempo.
_Queria te levar a um lugar diferente_Disse ele.
_Que lugar?
_Bom, precisaríamos de um carro.
_Isso não é problema, eu chamo o Javier, aonde quer ir?
_Ligue para ele, você vai ver!
Quando Javier chegou, Taylor cochichou o destino em seu ouvido, mantendo-o em segredo para Sofia.Percorreram alguns quilômetros até que Sofia começasse a reconhecer o cheiro de mar.
_Ashland State Park?Minha nossa...vim aqui a última vez quando tinha dez anos!Como é lindo...
Taylor amava o modo como sua voz se tornava mais aguda quando estava entusiasmada.
_Meus pais tem uma cabana nas extremidades do Ashland, é onde costumávamos passar fins de semana.Eu queria passar pela ponte com você, mas minha cadeira deixou de caber lá quando eu tinha no máximo uns nove anos.
_Obrigada...
_Pelo quê?
Sofia sorriu e passou a mão pelos seus cabelos.
_Espero que quando eu estiver lá, aprenda a tirar essa franja dos olhos.
Ele também sorriu e beijou a palma da mão que ela havia colocado em seu rosto.
Javier e Sofia o ajudaram a sair do carro.
_Bom, vão precisar que eu fique..._Pigarreou_por perto?
_Não, muito obrigada, Javier, de verdade.
Sofia abraçou Javier e seguiu até a cabana com Taylor.Era de madeira, rústica, porém sofisticada.A parte de dentro era composta por uma lareira, duas salas,uma delas com um enorme aquário vazio que se extendia por uma parede inteira, três quartos e móveis de cor acobreada.
_Caramba!É linda!Meus pais nunca teriam bom gosto o suficiente para fazer uma coisa assim.
_Que bom que gostou!Já é bem antiga, meus pais me fizeram aí nesse sofá onde você está sentada_E deu uma gargalhada.
Sofia se jogou no sofá e começou a beijá-lo.
_O que você está fazendo, sua maluca?
_Só agradecendo!
_Você não existe, sabia?
Ele levou a cadeira até o lugar onde ela estava sentada e ficaram frente a frente.Taylor fechou os olhos e Sofia colou a testa na dele.
_Vem, vamos para a praia_Disse ela levantando-se.
Ela saiu primeiro e correu para a areia, ficando bem próxima do mar.Taylor a observou de longe antes de ir.Seus cabelos esvoaçantes, aquelas curvas perfeitamente marcadas e modeladas em um vestido justo e branco de tecido fresco.Ela segurava as rasteirinhas em uma das mãos e sorria para o vento, até que virou-se para trás e fez sinal para que Taylor se juntasse a ela, tirando-o de seus devaneios.Levou a cadeira até onde Sofia estava e ambos ficaram parados, lado a lado, encarando fixamente o horizonte.Sofia colocou uma das mãos em seu ombro e disse um "eu te amo" mais para si.
_Disse alguma coisa?
Ela balançou a cabeça negativamente.
_Já pensou em voar?_Perguntou Sofia.
_Voar?
_É, você tem vontade de voar?
_É claro que tenho, mas pra isso acho que tenho que pensar em andar primeiro_E riu.
_Quem disse?Feche os olhos.Vamos, feche os olhos, prometo não te estuprar.
Ele gargalhou e então os fechou.
_E agora?
_Relaxe suas pernas e abra seus braços o máximo que puder.
_Abrir os braçoso máximo que eu puder?Isso é algum tipo de bullying?
Ela riu.
_Bom, só relaxe os braços.
Ele o fez.Sofia empurrou a cadeira depositando toda a sua força e em alguns segundos ela deslizava a cadeira de Taylor pela parte mais sólida da areia.Ele podia sentir o cheiro das ondas e ouvir os assovios do vento misturados com as gargalhadas de Sofia.Não podia estar mais perfeito.
Quando pararam Sofia estava ofegante, mas feliz.Se sentou no colo dele e o abraçou.
_Você não me disse o que vê no futuro...
Ela fechou os olhos e deu uma longa suspirada, o que causou preocupação imediata em Taylor.
_Eu..._Antes de terminar lágrimas escorriam em suas bochechas.Correu para a casa de praia, pegou as sandálias e as calçou.Já estava com o celular em mãos quando Taylor adentrou o quarto.
_Você vai embora?Vai embora assim, sem me responder?
_E se eu não souber o que te responder?E se eu não puder cumprir com as minhas promessas?Eu tô indo embora, Tay...meus pais conseguiram o que queriam.
_Ah, então você já deixou que eles conseguissem assim?Entregou o que nós temos, ou tínhamos, de mãos lavadas?
_E como você pretende que continuemos isso?
_Que tal parar de responder minhas perguntas com outras perguntas?
_E que tal parar de perguntar?
Taylor respirou fundo e olhou nos olhos de Sofia.
_Olha o que nós estamos fazendo...nunca falamos um com o outro nesse tom e estamos fazendo isso justamente no último dia que ainda temos juntos!
_Eu tenho medo, Taylor_A voz de Sofia oscilava.Não demonstrava mais raiva, estava baixa e embargada.
Ele se aproximou dela e fez sinal para que se sentasse em seu colo.Ela o fez.Javier buzinou e ambos sentiram um frio intenso na barriga.
_Vai_Disse ele_vou ficar um pouco aqui e passo em sua casa antes de você sair.
_Tudo bem..._Disse dirigindo-se a porta.
_Sofia...lembra daquelas dores que te falei?
_A dos números primos?_Perguntou com um sorriso forçado.
Ele assentiu.
_Não sinto mais elas.Desde que te conheci não tenho dores.
_As minhas dores também passaram quando te conheci.
Sofia virou de costas e ele olhou em sua direção até que não conseguisse mais vê-la.Assim que ela saiu de seu campo de visão, Taylor gritou, grito que já estava entalado há muito tempo.Girou bruscamente sua cadeira e a roda menor, da esquerda, prendeu-se na quina da mesa de centro enquanto a da direita se chocou contra o sofá, fazendo com que seu corpo se impulsionasse para frente.Seu corpo chocou-se contra o chão e ele sentiu cada uma de suas fragilidades: seus ombros doíam, suas pernas pareciam estar sendo arrancadas, e então pensou no dia em que Ben o batera, a sensação havia sido basicamente a mesma.
_Porra, Taylor, alcança esse celular!_Dizia para si mesmo.
O celular estava em cima da mesa de centro, onde ele mesmo havia deixado, mas agora, há pelo menos meio metro de altura, parecia inalcançável.Taylor tentava rastejar até a porta para pedir ajuda, tentava alcançar o telefone fixo, todas as tentativas em vão.Ouviu, então, um barulho vindo da parte de trás da casa.
_Quem está aí?
...
_Sofia, suas malas já estão todas no carro, minha filha?
_Sim, mãe..._A raiva era eminente em sua voz.
_Pois bem, nosso vôo parte em vinte e cinco minutos, acho que seu namoradinho está chegando aí.
Sofia olhou para trás com o coração nas mãos, mas logo desapontou-se ao ver que era o carro de Tiffany, que, junto de Lindsay, escutava uma música melosa, adolescente e ensurdecedoramente alta no iPod conectado ao veículo.
_Sofiiiiiz!
Sofia sentira saudade da voz arrastada de Lindsay e dos cabelos cor de fogo de Tiffany, tinha que admitir, mas daria tudo naquele momento para que suas amigas fossem substituídas por um par de olhos azuis e uma franja lisa entrando em ambos.
_Amiga, vamos sentir tanto a sua falta!_Havia sinceridade na feição das duas, Sofia também sentiria saudades.
_Eu também, meninas, eu também...
As três fizeram uma espécie de cumprimento de líder de torcida que só elas sabiam fazer.
_Tiffany, Lindsay...como vão?_Perguntou Mary.
_Bem, obrigada_Respondeu Tiffany.
_Tô legal, tiazona!_Disse Lindsay, antes de ser repreendida pela amiga com uma cotovelada.
Mary apenas revirou os olhos e voltou a observar a bagunça da mudança.
Sofia esboçou um sorriso.
Droga, Taylor, cadê você?
...
E mais um barulho surgiu do fundo da cabana.
_Merda...quem está aí?
Um espasmo se iniciou em sua perna esquerda quando Ben surgiu.
_Como você é patético_Começou_quando fica com medinho sua perninha treme, é?
_Escute, Ben, não precisa ser assim, ok?Me ajude a levantar desse chão e vamos conversar como duas pessoas civilizadas.
Ben agachou- se ao seu lado deu uma gargalhada debochada permitindo que Taylor sentisse o forte cheiro de bebida, maconha e mais outras coisas que não pode identificar.
_Você acha mesmo que eu vou perder minha namorada para um aleijado, cara?Fala sério, eu tenho uma reputação a zelar...
_E o que pretende fazer agora?Por que não vai se despedir dela ao invés de tentar algo contra mim?
A voz de Taylor era serena e confiante como sempre, o que motivou Ben a fazer ainda mais do que havia planejado.
_Por que eu não posso tê-la de volta, mas ainda posso ter um pouco de dignidade acabando com quem tirou ela de mim.
_Foi você quem tirou-a de você mesmo, Ben...
Ben levantou-se, cambaleou algumas vezes e deu um chute no rosto de Taylor.
_Isso faz você se sentir mais homem?_Perguntou Taylor em meio ao sangue que escorria de seu nariz.Então bate mais, Ben, bate mais em quem está em desvantagem em relação a você e se sinta mais homem.
_Cale essa boca!_Vociferou_eu vou acabar com a tua raça, agora somos só eu e você.
Antes que Taylor pudesse dizer mais qualquer coisa, Ben o golpeou com um chute no estômago e o jogou contra o aquário, que estilhaçou-se em milhares de pedaços.
...
_Sofia, está na hora!
_Não, mãe!Por favor...espera só mais um pouco, eu tenho certeza de que ele vem!
_Sofia, você transou com ele, já fez o que ele queria, acha que não está sendo um alívio sua partida?
_Entre nesse carro imediatamente, Sofia_Disse Ernest.
_Mãe, pelo amor de Deus, deixe que eu ligue mais uma vez!
_Pro carro, A-GO-RA!
Sofia agarrou-se no portão e Mary pediu ajuda dos seguranças para retirá-la de lá.Ela esperneava, gritava e chorava mais a cada segundo, até que Mary deu um forte tapa em seu rosto.
_Ele não vem, lide com isso.Coloquem-na no carro, por favor.
Paralisada pelo tapa e conformada com o fato de que Taylor não iria se despedir, Sofia entrou no carro e manteve o olhar fixo e distante na janela.
_Eu lhe disse, minha filha, eu lhe disse que eles são todos iguais.
Ernest olhava de vez em quando pelo retrovisor e partia-lhe o coração ver as lágrimas silenciosas no rosto da filha, mas manteve-se firme.
...
Taylor estava inconsciente.
_Sabe por que você me irrita?_Falou ofegante enxugando o suor da testa_Talvez seja porque ela nunca tenha olhado pra mim do jeito que olha pra você.Eu espero..._deu um riso histérico com a arma apoiada na própria testa_eu espero que seja olhar de pena.Mas agora nem importa, porque você está aí quase morto, e eu estou aqui, quase morto também.A diferença é que em você o sangue está do lado de fora.Eu tô morrendo, cara_Benjamin se sentou ao lado do corpo imóvel de Taylor_Já ouviu falar de uma droga chamada Krokodil?Não, eu sei que não...foi em uma festa!Disseram que dava maior barato e eu usei.Eu e todo mundo, mas eu não consegui parar.A minha pele está se abrindo, Taylor, a minha carne está exposta bem aqui, na porra da minha barriga!_Ben continuava seu “diálogo” com Taylor, que não podia mais sentir nem as batidas do próprio coração_Eu comecei com a maconha, depois cocaína...acho que a Sol percebeu quando comecei a me alterar.Ela já te falou que eu costumava chamá-la de Sol?ELA FALOU?_E golpeou seu estômago mais uma vez_Eu tenho apenas uma bala aqui, Taylor, apenas uma.Eu ia atirar diretamente no seu cu e te ver agonizar até a morte.Acontece que do jeito que você está, lutando para respirar e, o mais importante, sem a Sofia, não vejo motivos para isso.A não ser que tenha muita sorte, ninguém vai chegar aqui a tempo.Se com um soco eu te mandei pro hospital acho que sua estadia, depois de uma porrada dessas, vai ser em um necrotério.Vou usar essa bala sim, mas vai ser por uma causa melhor.
Ben colocou o cano da arma em cima de seu ouvido e apertou o gatilho.As gaivotas que pousavam na areia da praia voaram com o barulho que ecoou e foi muito além daquelas paredes de madeira.O corpo de Benjamin e o corpo de Taylor.Os sangues se misturavam, os quatro olhos cerrados.
...
Sofia tentava conter as lágrimas.Ao abrir a bolsa para pegar os fones de ouvido, sentiu um gosto amargo em sua boca e um arrepio anormal em sua nuca.Uma folha de árvore entrou pela janela e grudou em seu cabelo.Sofia nunca havia visto folha assim, era roxa e ressecada em sua maioria, mas havia um ponto verde em seu centro, tão verde e centralizado que parecia ter sido feito a mão.Sentiu todos os seus pelos se arrepiarem e sua boca amargar.
“O verde é esperança, Taylor.”
_Parem o carro!_gritou_Parem!Eu preciso descer agora!
_Que susto, Sofia!_reclamou Mary com uma mão sobre o coração_pensei que já tivesse entendido que nós estamos indo e pronto!
_Mãe...tem alguma coisa errada, eu posso sentir!
_Ah, não me venha com essa de pagar de sensitiva, não agora!
_Se vocês não pararem eu sumo assim que chegarmos ao aeroporto.
_Não seja ridícula!Coloque essa droga de cinto e pare de gritar nos nossos ouvidos!_Gritou Ernest.
O carro parou no sinal e, sem pensar duas vezes, Sofia saltou para o lado de fora.Ernest e Mary gritaram em vão.Sofia tirou os sapatos caros de salto fino e os jogou na calçada antes de adentrar a mata densa que ficava logo ao lado da rodovia.
_Vá atrás dela, Ernest!
_Como?!Tem carros buzinando atrás de mim e não tem como encostar!
_Mas que droga!Por que ela sempre tem que estragar tudo?
_Ora, cale a boca, Mary, ela é só uma garota!E é sua filha!
_Essa não é a hora de me dar sermão!Siga e pare quando der, vou ligar para os nossos seguranças.
Sofia correu o máximo que podia.Checou para ver se ninguém a havia seguido e sentou-se recostada a uma árvore.Seus pulmões e costelas doíam, ela não fazia ideia de onde estava e nem para onde deveria ir, mas ainda podia ouvir o barulho de civilização, então deduziu que ainda deveria haver sinal em seu celular.
Atende, Sarah, atende!
_Alô
_Graças a Deus!Sarah, eu não tenho muito tempo até que me encontrem, o Taylor está aí?
_Sofia?Do que você está falando?Pensei que ele estivesse com você!
_Merda!
_Você está aí?
_Estou, desculpe, olha, você precisa me escutar!Ele me levou até a cabana de vocês no State Park e ficou por lá, acho que tem alguma coisa errada, você precisa ir até lá!
_Alô?Sofia?A ligação está cortando, não consigo te ouvir!
_ASHLAND STATE PARK, VÁ ATÉ A CABANA PERTO DO ASHLAND STATE PARK!
_Sofia, onde você está?Está chorando?
_O Taylor pode estar em perigo, por favor, vá até lá!Alô?Sarah?SARAH!
Sofia checou o celular, havia acabado a bateria.Com raiva, jogou-o contra uma das árvores e se levantou, preparada para correr novamente, mas alguém segurou seus dois braços para trás, imobilizando-a.
_Não lhe farei mal, senhorita Wickman, se acalme, sou um dos seguranças do seu pai.
_Por favor, me deixe ir!_Sua súplica saiu mais baixa do que ela desejava.
_Só preciso te levar para casa em segurança.
Sofia esperneava enquanto o homem, negro e robusto, comunicava atravéz de um rádio que a havia encontrado, segurando-a apenas com uma braço, sem nenhum esforço aparente.
Em poucos minutos ela estava de volta a estrada.Uma limousine preta e blindada a aguardava junto a um homem careca de terno e óculos escuros de pé ao lado da porta.Sofia já havia parado de chorar ou demonstrar qualquer tipo de emoção, era guiada como uma marionete pelos policiais.Não falava, não contestava, não piscava.
...
Sarah pegou sua bolsa e as chaves do carro apressadamente.
_O que foi, amor?
_Te explico no carro, Malcolm, vem comigo!
_O que?Você está se sentindo mal?!
_É o Taylor.
Malcolm se levantou e seguiu-a até o carro.Sarah dirigia rápido e mordia o lábio inferior.
_O que está acontecendo, Sarah?O que houve com o nosso filho?
_Eu não sei!
_Como assim!?
_A Sofia me ligou, a ligação estava ruim, mas ela me pediu para ir até o Ashland State Park, que alguma coisa aconteceu com o Taylor.E não é só isso, minha intuição de mãe não falha, eu estou sentindo um aperto no peito desde de manhã!
_Querida, me deixe dirigir, você está muito nervosa!
_Eu tô bem!Eu tô bem...
Sarah apertou seu colar com a imagem de Buda sobre o peito.
Proteja o meu menino!Proteja o meu menino!
Nos quilômetros seguintes não disseram sequer uma palavra.Malcolm tentava manter a calma, mas mordia o interior da própria boca e gritava por dentro.
Chegaram até a cabana e tudo parecia bem pelo lado de fora.Malcolm saltou do carro e nem sequer fehou a porta, Sarah tentou correr mas sentiu uma forte pontada na parte de trás de sua cabeça.Não deixou que Malcolm percebesse e foi atrás, em passos mais vagarosos.Malcolm abriu a porta e ficou paralisado, quando Sarah se aproximou, segurou em seus ombros e pediu para que ela não entrasse.O coração de Malcolm batia mais rápido que nunca, suas mãos suavam.Nunca havia visto cena como aquela.
_Me solte_sua voz era baixa e trêmula_me solte e me deixe ver meu filho.
Antes que pudesse contestar, Sarah adentrou a cabana e pisou em uma densa poça de sangue.Antes que seu cérebro pudesse processar o que via, gritou um "Não!" alto e carregado de dor.
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