Green

10 Lullaby


Malcolm correu até o corpo gelado do filho enquanto Sarah ligava para uma ambulância, lágrimas escorriam nos rostos de ambos.O rosto de Taylor estava coberto pelo sangue que jorrava de sua testa aberta.Sarah colocou uma das mãos em seu peito e cantou algo maternal que costumava acalmá-lo quando era criança.

_Malcolm_falou em meio as lágrimas_cheque a pulsação do outro garoto.

_Eu já chequei, querida.

Pelos soluços incontroláveis de Malcolm e seu rosto vermelho, ela não precisou perguntar o resultado.

_E como está a pulsação do nosso filho?_Perguntou quase em um sussurro.

...

A limousine preta parou ao lado ao carro dos pais de Sofia, que esperavam por ela encostados na porta.Ernest começou a bater palmas teatrais com expressão decepcionada.

_Parabéns, Sofia!Parabéns mesmo!Conseguiu terminar seu teatrinho antes do nosso avião partir.

_Por favor, eu só preciso saber se ele está bem..._Disse sem demonstrar emoção.

_Entre nesse carro agora!Olhe só o tanto de mosquitos nesta droga de estrada!Ah, minha nossa, vão deixar minhas pernas cheias de calombos...

_Tudo bem, mãe, eu já estou aqui.Podemos ir para a Alemanha agora, lá você vai ter bastante tempo para passar loção em suas pernas.

Mary apenas a olhou com desdém e entrou no carro abanando-se com um leque e ajeitando os óculos escuros.
Um dos seguranças foi no banco de trás com Sofia e ela manteve os olhos fixos na folha que grudara em seu cabelo.

_Chegamooos!!_O entusiasmo na voz da mãe lhe causava náuseas_detesto esse aeroporto, mas só de pensar que em breve estaremos longe dessa gentinha...sangue do cordeiro, é um livramento e tanto!

Ernest, como sempre, não demonstrava o que sentia, mas Sofia pôde notar um traço de condescendência por trás de seu olhar carrancudo.Mary usava o óculos prendendo seu corte de cabelo loiro, curto e moderno, calças nude, porém justas, e uma blusa igualmente nude, acompanhadas de um salto marrom enorme e fino.Sofia não entendia, e jamais poderia entender, como sua mãe havia conseguido se tornar pastora e, muito menos, como havia conseguido ganhar tanto dinheiro com isso, pois apenas se lembrava de que a mãe era evangélica quando proferia seus falsos discursos, ou quando utilizava expressões da igreja.Era dela, sem dúvidas, que a filha havia herdado tanta beleza.No auge de seus cinquenta anos, Mary ainda possuía um corpo escultural e olhos magnificamente verdes.Ernest, por sua vez, era franzino, com uma barriga protuberante, olhos castanhos e cabelos brancos quase inexistentes, nada de especial.Era óbvio o motivo pelo qual Mary havia se casado com ele: o que não tinha de beleza, tinha de dinheiro.Por isso, Sofia sempre pensava no quanto gostaria de parecer-se mais com seu pai, pensava no quão fácil seria abdicar de seus longos cabelos loiros e curvas sinuosas pelo simples fato de não querer parecer-se nem um pouco com aquela pessoa que a havia gerado.

Sofia sentou ao lado de seu pai e Mary logo a frente do lado de um desconhecido.Três horas de voo e Sofia tornou a chorar.Não sabia se já era de saudades, ou pelo quanto sentia-se tola por ter ligado para Sarah sem nenhuma prova de que Taylor realmente estava em perigo, por uma simples intuição, mas seu coração dizia que algo estava completamente errado.

_Querida, tenho certeza de que você será feliz.

_Como posso ser feliz, mãe?_não havia rispidez em sua voz, ela estava cansada de lutar contra o irremediável_você está me levando pra um país que eu não conheço, para morar com uma avó que eu não conheço e, o pior de tudo, me levou para longe do meu melhor amigo, da melhor pessoa que já conheci em toda a minha vida.

_Oras, ele não era seu namorado?

A menina revirou os olhos.

_Mas antes de ser meu namorado ele era meu melhor amigo, e isso é uma coisa que você e o papai nunca vão entender.

_Mas não dá mesmo para conversar com você...

Sofia deu de ombros e continuou olhando pela pequena janela do avião com os fones no ouvido.

_Sofia..._Chamou Ernest.

_O que é?

_Filha, eu sei o quanto isso está sendo difícil pra você, por isso acho melhor conversarmos.

_Eu não quero conversar.

_Não estamos fazendo isso por sua causa, nem para te afastar do seu namorado.

_Ernest!_Repreendeu Mary.

_Não aguento mais ver essa menina sofrer, Mary!

_O que vocês estão me escondendo?

_A empresa está falindo, filha, estamos com dívidas até o pescoço.

_E por que não me contaram?Por que me deixaram acreditar que era tudo para me afastar das pessoas que eu amo?

_Tem uns caras atrás de mim, Sofia.

_Então...é isso que estamos fazendo?Estamos fugindo?

_Bom, é só até que eu tinha o dinheiro necessário para cobrir os gastos que tivemos nos últimos anos...nós não economizamos, a empresa já teve seus momentos ruins antes, pensei que ela iria se reerguer novamente, mas não foi o que aconteceu.

_E que "caras" são esses?

_Isso não importa!_Disse Mary repreendendo Ernest com os olhos.

_Agiotas...

_O QUÊ??_O grito de Sofia foi alto e atraiu a atenção de todos_QUE TIPO DE PESSOAS VOCÊS SÃO?

_Eu disse que ela arrumaria um escândalo, Ernest!Droga!

_Pai, da minha mãe eu esperaria qualquer coisa, mas de você?Eu sinceramente tenho vergonha de vocês...

Ernest esfregou a têmpora.

_Não me julgue, Sofia, quando tiver sua família vai entender os meus meios.

_Inacreditável...

_Não ficaremos com você, Sofia.

_Como assim, mãe?

_Combinamos de contar tudo quando chegássemos lá, mas já que seu pai já se adiantou_olhou severamente para ele_acho melhor falar tudo.

_Não é possível...tem mais?

_Você ficará com sua avó paterna, te garanto que gostará dela, tem uma casa tão grande e sofisticada quanto a nossa.

Sofia bufou.

_E vocês ficarão aonde?

Mary e Ernest se entreolharam.

_Em Ohio_Disse Ernest.

_Fantástico...vou ficar na casa de uma estranha.

_Eles são perigosos, filha, só estamos tentando te proteger!E sua avó não é nenhuma estranha, você não se lembra, mas você a adorava quando era pequena.

Sofia não proferiu mais nenhuma palavra, ainda não havia conseguido assimilar tudo o que lhe fora dito, em sua mente apenas um nome ecoava, cada vez mais alto: Taylor.

...

_Eu não posso perder vocês dois...não posso!_Repetia Malcolm.

Sarah estava com a cabeça recostada em seu ombro e não conseguia parar de chorar.A sala de espera estava lotada, médicos e enfermeiras andavam de um lado para o outro, crianças choravam e os pais as repreendiam.Um misto de sons enchia os ouvidos do casal, mas em horas de espera, ainda não haviam ouvido nada parecido com: "seu filho ficará bem".Até que um médico se dirigiu a eles com a expressão tensa e braços cruzados.

_Senhor e senhora Evans?

_Sim!_Disseram ao mesmo tempo, levantaram-se de prontidão.

_Onde está meu filho?_Perguntou Sarah em tom mais alto que o normal.

Malcolm a envolveu com um dos braços.

_Bom, por sorte não houve traumatismo craniano, mas por conta da fragilidade muscular, tivemos que realizar algumas cirurgias no estômago, esôfago e fígado.

_Meu Deus...

Sarah não conseguia falar, o choro havia lhe tomado a capacidade de formar qualquer frase que fizesse sentido.

_O que aconteceu com ele, senhor Evans?

_Nós não sabemos, doutor, a polícia já está envolvida.

_Achamos algumas marcas no corpo do seu filho, me parece espancamento.

Sarah já sabia o que o doutor queria insinuar.Olhou para ele incrédula.

_Sabe o que eu vi, doutor?Quando entrei em nossa cabana de praia meu filho estava caído em meio a um monte de cacos de vidro.Havia outro garoto lá também, e tinham miolos dele grudados até na parede, com uma arma bem ao seu lado.Eu nunca tive dia pior em toda a minha vida, e o pior de tudo, não faço ideia de quem pode ter feito isso, então não venha insinuar nada, por favor, só não insinue nada.

_Me desculpe, senhora Evans, não foi minha intenção, faz parte do protocolo perguntar.

_Desculpe minha esposa, doutor, nós estamos muito abalados.

_Eu entendo...bom, vocês poderão vê-lo quando ele sair do CTI.Aviso quando isso acontecer, com licença.

Malcolm esfregou o rosto e olhou para sua esposa, que nem sequer se movia.

_Eu vou lutar contra esse câncer, Malcolm, eu juro que vou lutar_Disse sem olhar diretamente para ele.

_Eu sei que vai, eu sempre soube.

Abraçaram-se por um longo tempo.

_Eu te amo.

_Eu também te amo.

...

A casa era realmente deslumbrante, não que isso importasse para Sofia, mas ela não sabia que a renda de seu pai vinha de outras gerações.

_Seja simpática com sua avó, ela está amando a ideia de te receber.

_Mais alguma instrução sobre como devo agir, mãe?

Mary bufou e Ernest fez sinal para que os empregados entrassem com a bagagem.Uma senhora ainda mais baixa que Sofia de aparentemente setenta e tantos anos surgiu sorridente na porta.Seu rosto era rechonchudo, assim como o resto de seu corpo e seus olhos se sobressaiam como duas pedrinhas muito azuis por entre as rugas.Sofia gostou dela logo de cara, não sabia se a simpatia imediata devia-se ao fato de suas roupas serem tão simples quanto as de um cidadão comum, de classe média, ou ao seu sorriso franco e escancarado.

_Meus queridos!_Correu de braços abertos e a fala coberta de sotaque.

Ernest se prontificou para abraçá-la e ela retribuiu com o mesmo fervor.Ao ver Sofia seus olhos encheram-se de lágrimas.

_Sofia, minha pequena...quanto tempo!Sou sua avó Madeleine e você não se lembra de mim, é claro, afinal, saiu daqui quando não tinha nem dois anos, mas eu me lembro muitíssimo bem de você!Como está linda...

Sofia apenas retribuía os sorrisos e abraços sinceros da avó.A saudação seca direcionada a Mary fez a garota perceber que não eram o que se podia chamar de "amigas".

_Entrem, entrem!Pedi à Frida que preparasse uma mesa de café da tarde magnífica para vocês!

Mary e Ernest se sentaram.A extensa mesa de madeira maciça estava lotada de pães, patês e frios.

_Me desculpem, mas eu...eu não estou com fome, será que pode me dizer onde é o meu quarto?

_Não vai comer nem um pãozinho, minha pequena?

_Desculpe, vó, eu...

_Sente-se agora, Sofia, não vai fazer essa desfeita com a sua avó_Disse Mary.

Sofia já se dirigia a mesa, sem forças até mesmo para retrucar, quando sua vó disse com um dos dedos para o alto:

_Niet!Se ela precisa descansar, vai descansar.Mais tarde tem toda a liberdade para vir aqui até a cozinha e comer o que quiser.

Sofia gargalhou por dentro.

_Eu mesma faço questão de te acompanhar.

_Ah, não, não precisa, é só me dizer onde é.

_Eu faço questão!

Madeleine pegou um chaveiro que continha pelo menos vinte chaves e seguiu as escadas junto com ela.Era um quarto um tanto infantil, mas ainda assim, lindo.

_Está do jeitinho que era quando você morou aqui.A não ser pela troca de um berço pela cama, claro.

_É perfeito!

_Que bom que gosta!

_Ah, muito obrigada por aquilo, eu realmente preciso descansar.

_O que é isso!Eu nem gosto muito de Mary mesmo.

Madeleine deu uma risadinha meiga e rapidamente corou, colocou uma das mãos na bochecha como se houvesse acabado de proferir algum tipo de blasfêmia.As covinhas que se formaram em seu rosto faziam Sofia se lembrar de Taylor.Sofia realmente gostava dela.
Assim que sua vó saiu, deitou-se na cama e, pela primeira vez em dias, se permitiu chorar de verdade, soluçar de verdade, sem usar nenhum travesseiro para abafar seus gritos.

...

Malcolm se aproximou da cama de Taylor e segurou sua mão.O garoto mal conseguia falar por conta da morfina, mas ainda assim um som saiu formando a palavra já esperada: "Sofia".

_É seu pai, filho, tá tudo bem agora.

Sarah cobria a boca com uma mão e com a outra acariciava o braço do filho.

­_Eu quero...

_O que você quer, filho?_Perguntou Sarah.

O cérebro de Taylor estava envolto por um turbilhão de pensamentos, mas seu corpo não correspondia e sua boca só conseguiu formar as seguintes palavras:

_Eu quero ver a Sofia.

_Querido, você sabe que a Sofia se mudou para a Alemanha...

_Ben...

_Ben era o garoto que estava com você na cabana?Ele era seu amigo?Taylor?

A morfina tomou conta de seu corpo e de todos os seus sentidos.Sarah se sentou na poltrona ao lado de sua cama e apoiou a cabeça nas nãos.

_Espera...

_O que foi?

_Eu lembro daquele garoto, Sarah, foi ele que deu um soco no Taylor!Caramba, era ele!

_Você tem certeza?

_Absoluta.É o ex namorado da Sofia!

_Como um relacionamento pode trazer tanta alegria em um dia, e tanta tristeza no outro?

_Não é culpa dela, amor...

_É claro que não é culpa dela!Eu amo aquela menina, Malcolm, só estou dizendo que as coisas mudam rápido demais.

_Sim, e isso significa que tudo vai passar e mudar para melhor em um piscar de olhos_Disse ajoelhando-se ao seu lado na cadeira e acariciando sua perna.

_Acha que ele vai esquecê-la um dia?

_Quer minha opinião sincera ou a mais reconfortante?

Ela sorriu.

_Não, não acho que ele vai esquecê-la um dia.Mas também não acho que isso seja ruim.

_Como não?

_Isso faz com que ele não perca as esperanças...eu teria esperado mil anos por você.Não é todo mundo que pode experimentar um amor assim.

Ela o abraçou e assim ficaram por muito tempo.

...

_Sofia, querida, acorde!

As mãos mornas e leves de sua avó não lembravam, nem de longe, o jeito de Mary, ou mesmo de Ernest.Piscou algumas vezes antes de abrir por completo os olhos inchados.

_Que horas são?

_São oito e meia, você está dormindo desde a tarde de ontem, já estava preocupada!

_Ah, não se preocupe, foi só cansaço.

_É que seus pai já estão indo e querem se despedir...

_Tudo bem, eu já vou descer_Disse o mais educadamente possível.

Quando olhou-se no espelho viu o quanto estava explícito que havia chorado a noite toda.Se sua avó reparou, não comentou nada a respeito, e ela era bastante grata por isso, não queria falar uma palavra sobre naquele momento.Colocou o primeiro vestido que viu e os primeiros chinelos.Seus cabelos eram tão lisos e belos que mal precisavam ser penteados, mas ainda assim estavam demasiado oleosos.Fez uma trança embutida e cobriu as olheiras com um pouco de base.Desceu as escadas dando graças a Deus por não ter que viver mais com seus pais.Odiava se sentir assim, mas não podia evitar.

_Filha..._Disse a mãe com voz embargada_eu te amo.Me desculpe pelas vezes que não soube demonstrar, mas acho que ninguém muda aos cinquenta anos.Espero que um dia nos perdoe por tudo isso.

Os olhos de Sofia ficaram marejados, apesar da raiva que sentia, mas não disse nada, apenas abraçou a mãe.Quando olhou para o pai, retorcendo o bigode como sempre fazia quando ficava tenso, lágrimas também ameaçavam a cair.Sempre teve dificuldades em expressar suas emoções, por isso, apenas abraçou Sofia firmemente e disse um "Eu te amo".Sofia sabia que esta podia ser uma despedida permanente, não duvidava de mais nada.

A vó pigarreou e colocou ainda mais leveza em seu tom de voz:

_Então, minha menina, vamos tomar café?

Sofia queria dizer que preferia tomar banho primeiro, mas não queria fazer outra desfeita.

_O que você deixou para trás de tão valioso?_Perguntou Madeleine enquanto passava patê em uma torrada.

_Como?

_Uma mocinha não chora tanto porque deixou o país onde morava.

Sofia sorriu ao pensar no que a fazia chorar nos últimos dias.

_Eu deixei algo bem valioso sim.Talvez tenha sido o que uma pessoa pode ter de mais valioso nessa vida.

_Uma amizade?

_Também.

_Um amor!

O sorriso de Sofia acompanhado pela lágrima que rolou em sua bochecha deixavam a resposta evidente.

_Eu sabia...ele devia ser muito bom e bonito para merecer seu coração.

Apesar de sua vó ser extremamente agradável, Sofia ainda se sentia desconfortável ao conversar sobre algumas coisas com ela, principalmente pelo fato de suas bochechas corarem de vergonha sem nenhum motivo, e pela sua voz infantil, mais fina e suave que a de Sofia.Parecia que ela havia saído direto do século dezoito, quando as mocinhas eram direitas e os rapazes as cortejavam com flores e poemas.

_Ele é ótimo sim_Foi o que conseguiu dizer.

_Conte-me, como ele é?

_Ele tem os olhos tão lindos quanto os seus.

_Ah, que doçura!_E mais uma vez levou uma mão até a bochecha.

_Ele escreve muito bem e me olha como se eu fosse a última garota do universo.E também tem um tom misterioso na voz, aquela voz...acho que se eu nunca mais o ver, é a última coisa da qual irei me esquecer.Ele sabe fazer piadas inteligentes e sempre faz de tudo o que pode, e às vezes o que não pode, para me ver sorrir.É centrado, tem uma risada tão contagiante que nos dá vontade de rir junto, e também um choro tão silencioso que nos arranca lágrimas.É uma pessoa intensa, cheia de vida, esconde as inseguranças melhor do que ninguém e nunca se dá por vencido sem tentar mais de pelo menos mais de duas vezes.Odeia o próprio corpo, mas não se deprecia por ser quem é, fala quando sabe que as palavras são necessárias, e não fala quando não são.Acho que Taylor foi o grande amor luz da minha vida, chegou tão rápido quanto se foi.

Quando Sofia terminou estava morta de vergonha.Falar sobre Taylor era tão fácil e reconfortante que mal se lembrava com quem estava falando.Apenas deixou que as palavras e pensamentos a levassem para longe, e quando viu a expressão sonhadora e maravilhada da avó, corou.

_ Tive apenas um amor luz, minha querida...eu o deixei escapar, você não pode fazer o mesmo.Ele tem condições financeiras para lhe visitar?

_O problema é muito maior que apenas dinheiro, vó.

_E qual é o problema?

_Uma cadeira de rodas de, pelo menos, cem quilos.

_Ah, ele é...

_Sim.

_Entendo, sinto muito.Por que não liga para ele?_Disse apontando para um telefone.

Sofia sorriu e dirigiu-se até ele.Ligou mais de cinco vezes e ninguém atendeu, socou o telefone.

_Eu...eu preciso ir pro quarto.

_Querida, querida!_Chamou quando ela já sobia as escadas_desculpe, mas você não pode se deitar agora...sua mãe pediu para que eu não deixasse seu talento para a música se perder, portanto, contratei as aulas do senhor Valentin Kügelgen, um rapaz muito bem apessoado.A aula começa em meia hora, você tem tempo para se trocar.

Sofia sentiu que se dissesse qualquer coisa, um choro alto e incontrolável escaparia de seus lábios.Fez sinal afirmativo quase imperceptível com a cabeça e subiu até o banheiro.Enquanto a água do chuveiro escorria em seu corpo, Sofia pensava que talvez fosse a hora de seguir em frente, afinal, ele não ligaria e nem atenderia suas ligações.Uma aula de canto talvez a fizesse bem.Apesar de tentar programar uma nova vida sem Taylor, lágrimas escorriam e misturavam-se com a água.

Você disse que podia imaginar um amor assim.

Foi para seu quarto e encarou o próprio reflexo no espelho.Perguntava-se se um pouco de maquiagem resolveria o estrago que noites em claro provocaram.Secou os cabelos e os prendeu em um coque no alto da cabeça, deixando à mostra um par de pérolas nas orelhas, vestiu um vestido de veludo vermelho de mangas compridas e sapatos tipo boneca.E sim, um pouco de maquiagem deu jeito no rosto que na verdade nunca estivera feio.Desceu as escadas e viu que a avó conversava com um rapaz na mesa de chá enquanto Frida, a empregada, ficava em pé ao lado da mesa com as mãos para trás, pronta para a próxima ordem, mas não tirava os olhos de quem ela havia imaginado ser Valentin Kügelgen.

A menina pigarreou e todos os olhos da sala voltaram-se para ela.O rapaz levantou-se rapidamente para cumprimentá-la.

_Prazer, senhorita Wickman, sou Valentin Kügelgen_Disse estendendo a mão enorme, proporcional aos seus um metro e noventa de altura e com a voz carregada de um sotaque ainda mais forte que o de Madeleine.

_O prazer é todo meu.

Não se via aquele tipo de beleza em sua velha Massachusetts.Valentin tinha olhos quase incolores de tão claros, os cabelos ainda mais loiros e lisos que os os de Sofia.Pontos de luz constituíam sua barba curta e uniforme, que contornavam sua boca desenhada.Nem mesmo os bíceps de Ben eram comparáveis àqueles.Pensou por um momento que talvez fosse armação de sua mãe para fazer com que ela esquecesse Taylor, e então sentiu raiva, mas não sabia exatamente do quê.


De qualquer forma, nunca vai funcionar_Pensou.