Green

8 Constelação particular


Notas iniciais
Peço desculpas pela demora para postar um novo capítulo, estive bem ocupada...mas tentei caprichar bastante, espero que gostem!

Como de costume, Malcolm deixou Sofia um quarteirão antes de sua casa.Quando seguia até o portão, estranhou a movimentação, caminhões enormes e limousines estavam estacionados bem em frente.

_O que está acontecendo aqui?_Perguntou à sua mãe que estava parada olhando toda aquela bagunça.

_Nós estamos indo para a Alemanha.

_O que?Alemanha?

_Sim, saímos de lá quando você tinha dois anos, e agora é pra lá que vamos voltar.Você vai se adaptar.

_O que?Mãe, ouça...você não pode fazer isso comigo!_Disse chorando.

Mary tirou o bilhete deixado por Sofia e o jogou em seu rosto.

_Nem você podia ter feito isso comigo, mas fez_Deu as costas e entrou em casa.

Sofia saiu correndo.Não sabia ao certo para onde ia, ou se realmente tinha um destino, era como se quisesse fugir da própria realidade, que insistia em caçá-la onde quer que ela fosse.Só queria chorar e correr.Até que chegou à casa de Taylor, seu subconsciente a havia levado até lá, tocou o interfone e Sarah atendeu.Ela não conseguia dizer uma palavra sequer, apenas chorava, um choro alto com arfadas longas, como se não pudesse respirar. Sarah olhou pela janela e abriu o portão imediatamente, logo após, foi até a porta da frente.Sofia correu para seus braços e a abraçou firme.

_Se acalme, minha pequena, está tudo bem, está tudo bem...vamos entrar e você toma uma água.

_Não!Eu não...eu não quero...que ele...

_Respire fundo, vamos lá, inspire (e inspirou para que ela a acompanhasse), agora expire (e o fez novamente)_Após umas cinco tentativas Sofia finalmente se mostrou mais tranquila_Vem, vamos entrar.

_Não, Sarah, eu não quero que o Taylor me veja assim, eu prometi pra ele que tudo ficaria bem.

_Tudo bem, vamos nos sentar aqui no jardim_Sarah a conduziu até algumas cadeiras de palha em formato de concha.

_Vou te trazer um copo d'água.

_Não, não precisa, eu nem devia estar aqui te importunando.

_Você não me infortuna!Diga o que a deixou tão descontrolada assim!

_Meus pais vão se mudar para a Alemanha, e claro, vão me arrastar com eles_Lágrimas rolaram em seu rosto novamente.

_Alemanha?Mas por causa do seu namoro com o Taylor?Ele me contou sobre o que tem acontecido em sua casa, mas não imaginei que era tão sério assim.

_Não é só por causa do nosso namoro...eu não sou quem meus pais gostariam que eu fosse, por isso querem ver se, me mudando de lugar, eles conseguem o que querem.Eu odeio meus pais.

_Não, querida, não diga isso!Eles querem o que é melhor pra você, só não sabem que método usar!Olhe...eu posso tentar conversar com eles, quem sabe?

Sofia balançou a cabeça negativamente.

_Não quero te meter nisso.Tem uma coisa que eu herdei deles: quando enfiamos uma coisa na cabeça, ninguém tira.

_Tem certeza?Eu posso tentar te ajudar!

_Ajudar em quê?_Surgiu Taylor_Eu nem sabia que a Sofia ainda estava aqui...

_Bom, acho que vocês precisam conversar.Eu estarei na sala principal, qualquer coisa me chamem.

Sarah passou pela porta e Sofia voltou a chorar.Taylor se aproximou dela.

_Ei!O que aconteceu, meu amor? Sofia o abraçou e ele retribuiu.

_Meus pais...

_O que tem seus pais?

_Nós vamos nos mudar para a Alemanha.

_O que?Quando?

_Em breve, muito em breve.

_Não..._Disse em um sussurro_E...o que você pretende fazer?

_Eu sou menor de idade, Tay, não há muito para se fazer.

Sofia sentou no colo de Taylor e deitou a cabeça em seu ombro.Choraram Juntos.

...

Sarah se aproximava da residência dos Wickman.Caixas entravam e saiam da casa.Mary e Ernest estavam sentados na varanda tomando chá com semblantes preocupados.Sarah tocou o interfone e Mary foi atender.Quando viu Sarah, analisou suas roupas e cabelo.

_Olá, eu sou a mãe do Taylor_Disse estendendo a mão para um cumprimento que não foi correspondido.

_Mas é muita audácia...é bom que tenha vindo aqui, bom porque pode dizer para o seu filho esquecer minha filha, estamos indo para a Alemanha em três dias.

_Eu sei, sua filha chegou aos prantos em minha casa, mal podia respirar.

_Então mande-a para cá imediatamente.Ela ficou sozinha com seu filho??

_Não, meu marido está lá com eles...e escute, Mary, sua filha pediu para que eu não viesse aqui, mas eu tenho motivos maiores para ter vindo

_Pois perdeu seu tempo.

_Eu só peço que me escute.Uma conversa de mulher para mulher, pode ser?

_Contanto que conversemos aqui mesmo...

_Claro, não faz mal...escute, não vim aqui julgar seus métodos ou tentar te dizer o que fazer.Só peço que, enquanto sua filha estiver lá, você deixe que ela converse virtualmente com o meu filho, e que, quando completar dezoito, permita que ela faça as próprias escolhas.Eles se amam de um jeito que nunca vi antes.Se visse como eles se olham entenderia o que quero dizer.

_Seu filho é doente.Como espera que ele dê uma vida digna para a Sofia?Ela não poderá nem dançar com ele, ir a um parque, fazer sexo, engravidar...quer que eu continue a lista?

_Você está equivocada, senhora...?

_Mary.

_Mary, eles podem fazer tudo isso.Eles adaptam tudo ao modo deles, não há chance de dar errado.Sua filha é uma menina extraordinária!Ela foi capaz de se apaixonar pelas qualidades dele, e não é porque sou mãe, mas elas não são poucas.Deixe que sua filha viva esse amor, não tire isso dela...

_Eles nem sabem o que é "amor".Sofia tem dezessete anos, muito pra viver e eu tenho que salvar a adolescência dela, agora se me dá licença...

_Eu tenho câncer, Mary.

_Como?

_Descobri ontem, nem meu marido sabe.Taylor precisará da sua filha mais do que nunca.Tive câncer de mama a primeira vez logo depois de ter me casado e agora voltou.Não sei se sobrevivo a mais essa.Por favor, não vou conseguir suportar ver meu filho deprimido.

_Sinto muito, espero que se recupere.E traga Sofia para casa, sim?Tenha uma boa noite.

Mary fechou o portão e voltou para a varanda com postura intransigente que quase desabou com o relato de Sarah, enquanto uma lágrima rolou no rosto de Sarah.Havia sido a primeira vez que pronunciou "câncer" desde o seu diagnóstico.Virou-se, entrou no carro e desabou sobre o volante.Não conseguia cogitar a possibilidade de deixar Malcolm tomando conta de tudo.

...

Sofia e Taylor sentiam a grama roçar por debaixo de suas costas.Deitaram-se na praça, exatamente onde haviam dado o primeiro beijo de muitos.

_Taylor...

_Sim?

_O que vai acontecer depois?

_Eu gostava mais de quando você tinha todas as respostas, amor, principalmente quando a pergunta era essa, mas independente do que aconteça, nada vai mudar enquanto estiver fora.

_Eu não quero estar fora...

Sofia se sentou e esfregou o rosto.Taylor olhava suas costas segurando as lágrimas, mas quando Sofia o olhou com os olhos marejados comprimindo os lábios, ele as deixou cair.Ela se deitou sobre o corpo dele e foi a primeira vez que Sofia viu seu namorado realmente chorar, chorar pra valer.

_Eu vou entender se não puder me esperar_Ela disse.

_Te esperar?_Bufou_eu esperei por você a minha vida inteira, posso aguentar mais um tempo_Forçou um sorriso torto expondo uma de suas covinhas.

O celular de Sofia tocou.

_Oi mãe...

_Sofia, venha para casa.

_Mãe, por favor...

_Você precisa começar a encaixotar suas coisas.

Sofia já havia se conformado com o fato de que teria que ir, mas tinha certeza de que um dia iria voltar.Pediu gentilmente para que alguém a ajudasse a colocar Taylor na cadeira, sem as brincadeiras ou abordagens bem humoradas de sempre, apenas pediu.

Malcolm já os esperava no carro, dessa vez levaria Sofia em casa, não havia mais motivos para não ser visto pelos Wickman.Durante a carona Malcolm conversava animadamente, ninguém havia tido tempo para lhe contar tudo o que havia acontecido (ou ainda ia acontecer).

_Obrigada pela carona, Malcolm_Sofia se esquivou para que pudesse beijar o rosto de Taylor no banco da frente_A gente se vê, Taylor.

O chamamento "Taylor" provocou uma fisgada em seu coração e estômago, Taylor mal podia respirar.Sofia também lutava para que o ar entrasse em meio aos soluços e o choro contínuo enquanto caminhava rapidamente até o portão de casa, sem olhar para trás.

_O que está acontecendo?

Taylor apenas balançou a cabeça negativamente e abaixou-a franzindo a testa.Malcolm conhecia essa expressão do filho, e abraçou-o antes que a primeira lágrima caísse.

Taylor contou tudo a seu pai durante o curto trajeto até sua casa, com a voz mais baixa e grave que o habitual.

...

Sofia estava com expressão indiferente e encaixotava suas coisas com olhar distante, quase no automático, como um robô programado.

toc, toc_Mary bateu de leve na porta

Sofia não respondeu, não foi educada nem rude, apenas fazia o que ela havia pedido.Nem mesmo lágrimas rolavam em seu rosto agora.

_Escute, filha, sei que acha que o que estou fazendo é maldade, mas nada do que eu e sei pai fazemos é para te prejudicar.

Ela apenas deu uma bufada debochada.

_Estamos partindo em três dias, terá tempo o suficiente para se despedir das suas amigas e do seu...ãn...amigo.

_Do meu namorado.

_Que seja.Eu te amo, Sofia.

Mary saiu e encostou a porta.

E eu te odeio

Sofia não conseguia pensar em como seus pais pudessem querer o seu bem.Ela quase havia sido estuprada e eles não haviam feito nada a respeito, ou ao menos haviam tentado encorajá-la para fazer, faziam com que ela se sentisse tola para entender a vida noventa e nove por cento do tempo e agora a colocariam a cerca de dez horas de avião longe de seu amor.

Mais um dia de escola e Sofia olhava tudo ao seu redor, cada parede, cada mesa, cata goteira.Não conseguia imaginar-se longe daquilo em apenas três dias.Ainda faltavam alguns minutos para a primeira aula começar e Lindsay e Tiffany se aproximaram.

_Oi Sofiz...será que nós podemos conversar?_Começou Tiffany.

_Tiffy, Lindy, tá tudo bem quanto a tudo o que aconteceu, sério, apaguem tudo.

_Ai, sério?Ficamos tão felizes em ouvir isso!_Disse Lindsay com sua voz aguda e arrastada.

_Me mudo para a Alemanha em três dias_Disse rápido demais, como se a velocidade de sua fala diminuísse a dor de pronunciar aquelas palavras.

_Você o que??_Perguntaram incrédulas ao mesmo tempo.

_Minha mãe só disse ontem.

_Mas...por que?!

_Por uma série de coisas.Só queria agradecer a amizade de vocês todo esse tempo apesar de tudo.

As duas a abraçaram e choraram, mas Sofia só conseguia pensar em Taylor e em quando o veria.

O sinal da primeira aula tocou e as três foram para a sala.A cadeira de Taylor estava vazia, e assim ficou até a segunda aula.

_Desculpe pelo atraso, professora.

Ele estava com aparência abatida e olhos inchados, quase tanto quanto os de Sofia.

_Bom_Começou a professora_li e corrigi os poemas que vocês fizeram na última aula e fiquei intrigada com um deles.Taylor, poderia ler o seu poema para nós?

Taylor hesitou no começo, mas não foi preciso insistir muito para que ele levasse sua cadeira até a frente da sala.

_Pode posicionar a folha no meu colo, por favor?

_Ah!Claro, claro!

A professora parecia tão desajeitada e nervosa para lidar com Taylor, que isso fez Sofia sorrir, lembrando-se dela mesma no começo, quando o conheceu.Taylor olhou para ela e também sorriu sutilmente.

_Então_Pigarreou_pode começar a ler para nós, Taylor?

Taylor fixou os olhos em Sofia por pelo menos um minuto antes de começar, ignorando a todos que esperavam que ele começasse logo a leitura.Olhou para o papel e começou:

_Perambulei por esses corredores,

lotados e vazios, coloridos e incolores.

Venho perambulando desde que entendo o que sou.

Vejo corpos se movendo,

uma multidão de pernas

e apenas um anjo

que mudou o tom

da minha vida de poucos acordes.

Que percorreu por minhas cicatrizes,

deu a dança às minhas pernas que jazem caídas.

Peço que deixe-me acariciar seus cabelos com minhas palavras,

pois minhas mãos são plumas,

mas inertes como concreto.

Peço nada mais que sua constelação particular,

Ou o verde imergindo de sua alma

e olhos complacentes.

Peço nada mais que seu aceno feliz

E que sua doce irrupção seja perene,

Peço apenas que fique.

A sala estava muda.Alguns olhavam para Sofia, outros para Taylor, alguns alternavam.Sofia se levantou e foi até ele.Abraçou-o com todas as suas forças e saiu da sala, lágrimas rolavam pela sua face.Era como se soubesse que ela partiria quando escrevera o poema, mesmo que nem ele desse crédito a tal intuição.

Taylor não a seguiu, voltou para seu lugar, franziu o cenho, mordeu o lábio inferior e chorou baixo logo em seguida.

_Podemos continuar com a aula, por favor?_Disse se arrependendo logo em seguida, ao notar que ficou explícito seu choro.

Ninguém dizia uma palavra sequer, a professora olhava para Taylor com uma expressão que dizia "me desculpe".

...

Sofia saiu da escola e se sentou no banco da praça mais próxima.Abriu a mochila para pegar seu celular e ligar para Javier, mas encontrou uma pequena tela em um saco plástico com seu rosto perfeitamente pintado nela.

Voltou para a escola e abriu a porta de sua sala.

_Desculpe, professora, mas realmente preciso ir e Taylor precisa ir comigo.

Ela simplesmente assentiu.

_Eu te amo_Ela disse assim que o tirou de sala.

_Eu também te amo, minha Sofia.

_A tela, ela é linda...

_Então você viu...precisei de uma ajudinha da Tiffany para colocá-la lá.

_Você disse que não pintava rostos.

_Não pinto "rostos", pinto o seu rosto!

Ela sorriu.

Taylor e Sofia decidiram que os últimos três dias não poderiam ser desperdiçados na escola.Foram até a sorveteria e pediram um milk shake grande de kiwi.Apesar do clima triste, ambos riram bastante, como de costume.Sofia tirou o cabelo dos olhos de Taylor.

_Sabe, amor...

_Hm?

_Eu queria fazer amor agora.

_Agora?

_Sim, agora.

Malcolm demorou cerca de dez minutos para chegar até a praça e buscá-los.Como sempre, foram rapidamente até o elevador e Sofia subiu sentada no colo de Taylor.

Dessa vez já subiram de lábios colados em um beijo frenético.Sofia passou a mão por seus cabelos e ele as colocou em sua cintura.Diminuindo o ritmo, ela tirou a própria blusa e a dele em seguida.Ajudou-o a passar para a cama e então realizou a parte mais difícil, porém divertida, para eles: tirar as calças de Taylor.Sofia via tal hábito como um ritual, algo único, só dos dois.

Ele estava mais seguro de si e ela estava mais segura em relação ao forte "nós, adorava a conexão de corpos totalmente perfeita com o cara imperfeito, adorava estar ali, mas a realidade esperava por ela.

_Eu preciso ir_Disse sussurrando em seu ouvido.

_Tudo bem_E beijou-a novamente.

Vestiu suas roupas e foi em direção a porta.Quando saía hesitou um passo e virou-se novamente para Taylor.

_Taylor...

_Diga.

_O que você vê no futuro?

_Eu vejo você_Ele disse sem hesitar.

Ela sorriu e fechou a porta.Era estranho o modo como seu quarto parecia vazio quando ela ia.Ele quase podia ouvir o eco da própria voz, como se todos os móveis houvessem sido retirados.

Taylor sonhou com ela naquela noite.Sem sonhos conturbados, sem partidas e adeus.Eram apenas eles, com mais possibilidades, menos olhares tortos, menos limitações e, principalmente, mais tempo.