Greco-romana: O Segundo Lado
23 Voltar a realidade
Notas iniciais
Acordei e estava na enfermaria, era noite. Aos poucos assimilei tudo e lembrei que tinha acontecido. Lutei com uma garota, na qual se chamava Amanda e que era o antigo amor de meu namorado, Tresh. Eu ganhei, mas fui ferida com uma facada do abdômen.
Eu ainda estava com o traje de luta. Parecendo uma lutadora sensual. Minha barriga não tinha nenhum sangue, ao contrário do material que o traje era feito, o traje havia sangue seco. Na onde eu sentia a dor da facada estava enfaixado. Apesar de estar com alguns arranhões e ter tido um corte, eu estava sem aparelhos
Peguei o controle da cama que estava ao lado, e coloquei no modo que eu ficava sentada. Escutei algumas vozes vindo em minha direção.
–Ela já deve ter acordado. Ela apagou mais ou menos as quatro. — Era a voz de Tresh.
–Mas isso não justifica vim incomodar. Ela tem que descansar. — Era Jay.
–A luta dela foi incrível, e eu quero ver ela. — Era Brayan.
–Vocês vão me prejudicar. — Jay retrucou.
Eles puxaram a cortina e me viram com os olhos abertos.
–Eu disse, ela ia estar acordada! — Tresh veio em minha direção.
–Não aperta ela! — Jay disse.
–Eu fiquei preocupado, achei que fosse te perder. — Ele pegou em minha mão.
–Não tão cedo. — Sorri.
–Sua luta foi demais! — Brayan colocou a mão em meu ombro.
–Obrigada. — Continuei a sorrir. — Como me trouxeram aqui?
–Na verdade, fui eu. — Jay disse. — Assim que você matou Amanda e ficou inconsciente, nós três fomos até você. No começo nos impediram, mas fomos coerentes e dissemos que íamos socar os guardas se eles não nos deixassem levar você até a enfermaria. Perdeu bastante sangue, mas eu cuidei de você.
–Obrigada. Mas e Octavian?
–Ficou morrendo de ódio que você sobreviveu. — Jay concluiu.
–O que é dele está guardado. — Falei.
–Nem pensa em pensar nisso. — Tresh me advertiu.
–Você está sem o gesso. — Falei quando reparei.
–Um outro enfermeiro tirou hoje a tarde, depois que você entrou aqui. Agora eu sei o que você passou quando eu fui ferido, é horrível saber que você está aqui dentro e não poder fazer nada.
–Eu sei. E já posso sair daqui?
–Amanhã. — Jay disse. — Lottie está vindo para colocar a camisola em você.
–A de hospital?
–A menos que queira dormir assim.
Não. Aquilo estava me incomodando.
–Minha Adaga? As armas de vocês?
–Eu peguei. Sua Adaga está em sua bolsa. — Brayan disse.
Conversei mais alguns instantes com eles até Lottie chegar e me ajudar trocar de roupa. Ficamos um tempo conversando, e depois Louis se juntou. Nós três, como nos velhos tempos.
–Boa noite. Nos vemos amanhã. — Eles se despediram e foram dormir.
Jay e Tresh voltaram.
–Vamos dormir. — Jay disse me colocando na cama. — Amanhã cedo venho te dar alta.
–Eu vou estar aqui de manhã cedo. — Tresh sorriu.
Eles saíram, Brayan voltou para dar boa noite e depois as luzes da enfermaria se apagaram. Não consegui dormir, então fiquei brincando com o controle da cama. Por fim deixei ela deitada, queria ver se conseguia dormir.
Escutei um barulho, que no começo ignorei. Escutei passos.
–Quem está ai? – Não obtive resposta, comecei a ficar nervosa.
Uma sombra grande se pois em minha frente me assustando.
–Seu idiota! Quer que eu morra do coração?
–Desculpe. – Era Tresh com um travesseiro, um cobertor, e seu shorts de dormir com uma regata.
–O que está fazendo aqui?
–Vim dormir com você.
–O que? Você não pode...
–Não posso se você dizer que eu não posso. Me deixa dormir com você?
Ele era meu namorado e por mais que ficássemos sempre juntos eu sentia saudades.
–Tudo bem. A onde arrumou essa coberta?
–No armário daqui. – Conseguia ver poucas coisas, pois estava escuro e só a luz da lua clareava.
Dei espaço para ele, que me colocou em seu peito e colocou seu braço em volta de meus ombros e segurava uma das minhas mãos.
–Obrigada por ter vencido. – Ele começou acariciar minha mão.
–Foi por vocês.
–Eu sei. Isso é importante. Se você tivesse morrido não sei o que faria, eu nem consegui passar uma noite sem você aqui nessa enfermaria. – Ele me deu um beijo no canto da testa.
–Pensei o mesmo quando ficou em coma. Foi ruim. – Me aninhei mais a ele.
–Temos uma ligação. – Ele riu. – Agora tenta dormir, já era para estar em seu sono.
–Eu não consegui.
–A gente mata o tempo. – Nós nos olhamos. Ele estava com um sorriso e os olhos alegres. – A lua é uma ótima lâmpada.
–Com certeza.
Ele se aproximou de mim e nos beijamos calmamente.
–Como depois do meu coma, o beijo. – Ele me de um selinho.
Fiquei quieta em seus braços e em alguns minutos consegui dormir.
É bem ruim sonhar com mortes. Sonhei primeiro com a minha mãe. Eu vivia meus momentos felizes e depois ela morria. Depois veio uma antiga colega de acampamento que morrera na primeira missão, a que era namorada de Tyler, Jessy. E por ultimo, Amanda.
Acordei assustada, ainda era madrugada. Tresh parecia uma criança dormindo depois de um longo dia no parquinho. Estava com a boca aberta, só faltava babar. Parecia tranqüilo e sem sonhos ruins. Virei para o outro lado e dormi.
De manhazinha, umas seis e meia acordei com a respiração de Tresh em meu rosto, ele estava com o rosto frente a frente com o meu.
–Bom dia! Eu disse que estaria aqui de manhã. – Ele sorriu. Sua voz era de sono, seu rosto também.
–Que horas são?
–Devem ser umas seis e pouco. Volte a dormir.
–Porque acordou cedo?
–Não sei, mas pode dormir. – Ele beijou a ponta do meu nariz. Voltei dormir assim que fechei os olhos.
Acordei com a cama balançando e Tresh gritando.
–Ai, ai! Eu entendi, eu estou saindo.
–Não podia ter dormido com ela! Você não entende? – Jay batia nele com uma toalha.
–Sei que não, Jay, mas ela concordou.
–Mas ela está em recuperação! Suma daqui. — Tresh me deu um sorrisinho e saiu.
Jay estava falando comigo, me deu uma bronca, mas meio que não prestei atenção. Tinha acabado de acordar, parecia que eu estava em transe.
Depois de ter minha alta, ter trocado de roupa e ter ido de volta para a primeira coorte, fui checar minhas coisas. Lá estava minha Adaga, dentro da bolsa. Peguei-a e fiquei a admirando, ela era linda, e muito boa. Coloquei dentro na cintura e me sentei na cama.
–Como vai campeã? Melhor? — Era Craig
–Muito melhor. — Sorri. — Sabe, é bom saber que você não morreu na frente do acampamento todo.
–Deve ser. E quando vai pegar sua medalha?
–Não sei. — Fique olhando para Craig, ele era um garoto bonito, mas tinha um ar de guerreiro com uma pitada de mistério.
–Foi bom você não ter morrido. Ia ser triste.
–Acho que sim. — Ele me deixava sem graça.
–Legal ter arrumado um namorado, queria que fosse eu no lugar dele.
–Craig, não começa.
–Mas é verdade. Eu gostava de você. Tenho uma quedinha ainda, confesso.
–Tem umas garotas legais aqui, sabe disso, né? A gente poderia ter dado certo, mas isso é passado. Craig, te vejo como um...colega.
–Sei que me vê como isso. Mas acho que se eu tentasse te beijar você não recusaria.
–Recusei tantas vezes...
–Quem sabe se eu tirar a blusa?
–Craig...
–É brincadeira. Mas tipo, eu poderia ganhar um beijo como despedida, não é?
–Não, você não pode.
–Pode o que? – Era Tresh entrando.
Sabia que se eu não fizesse nada eles iam começar a brigar.
–Nada de importante. – Falei. Tresh lançou um olhar nada educado a Craig, no qual retribuiu.
–Eu estava conversando com ela sobre ela me dar um beijo. Se você demorasse mais um pouco eu teria conseguido.
–É mentira! Craig, por favor... – Falei.
–Você fez o que? Perdeu a noção do perigo?
–O que vai fazer? Você é um simples grego e eu estou no meu território, certo?
–Vamos brigar, então! – Tresh se aproximou dele.
–Isso é um desafio?
–Galera, eu... eu estou me sentindo tonta... – Caminhei até Tresh que agora estava cara a cara com Craig.
–Porque se for, eu aceito. Tipo, valendo a vida? – Craig sorriu maldosamente.
–Gente... – E eu cai dura no chão.
–Romana! – Tresh esqueceu tudo e veio me acudir. – A culpa é sua. Saia daqui! – Ele disse a Craig.
–Temos que ajudá-la!
–Não, eu vou! Agora saia!
–Eu vou buscar ajuda! – Craig saiu correndo.
–Romana, acorda!
Abri meus olhos.
–Qual o seu problema? Quer se meter em encrenca? – Me sentei.
–Você não... não desmaiou?
–Claro que não, seu imbecil. Se fizer alguma bobagem de desafio eu termino com você. Fui clara? Se arrumar briga com Craig a gente termina, fui clara? Se você se pegar com ele por minha causa, a gente termina. Fui clara?
Tresh pareceu assustado.
–Mas Romana...
–É briga ou sua namorada!
–Certo, sem brigas.
Eu me levantei e sentei em alguma cama.
–O que Craig disse é mentira. Não ia o beijá-lo.
–Que bom. – Tresh disse sem reação.
–Desamarre essa cara feia.
–Não estou com cara feia. – Ele disse fazendo bico.
–Você parece uma criança. – Falei.
–Sou uma criança que tem ciúme do que é dela. – Ele deixou escapar e ficou todo vermelho.
Eu comecei a rir, o que deixou ele mais nervoso ainda.
–Esqueça isso. – Disse o abraçando. – Obrigada por passar a noite comigo.
–Foi legal. Espero passar muitas noites com você, só que da melhor forma possível.
–É. – Eu ri.
Um menino que era enfermeiro do acampamento entrou na primeira coorte, o que foi engraçado, pois Criag parecia nervoso. Dispensei os dois dizendo que estava melhor e que eles poderiam sair dali.
–Craig, não arrume problemas, ta? Saia daqui. – Falei.
Quando voltei ao meu lugar, Tresh disse:
–Vim te chamar a pedido de Reyna. Ela quer te entregar a medalha.
–É?
–É. Eu vou com você.
Quando cheguei no fórum Reyna estava a minha espera com uma almofada na mão e uma medalha de prata.
–Olha quem acordou. – Reyna sorriu. – Está melhor?
–Sim.
–Conseguiu a Adaga, né?
–Pois é. Sacada de mestre, Reyna. Parabéns. – Dei um sorriso pequeno.
–Você lutou bravamente, isso te faz mais ainda uma filha de Roma. Merece isso, e sua vida. – Ela colocou a almofada na mesa, pegou a medalha e colocou em meu pescoço. – Parabéns!
–Obrigada. – Tinha um elmo desenhada nela.
Meu julgamento estava demorando e isso me deixava curiosa.
–Pretora, meu julgamento, queria saber se foi adiado?
–Não foi adiado, temos uma data.
–Para quando?
–Amanhã. Queria esperar até semana que vem, a ultima semana de férias, mas mudei de ideia.
–Se quiser pode deixar para a semana que vem, sem problemas...
–É amanhã e minha palavra é oficial, não volto atrás.
Eu lutara até a morte com uma garota, acordo em uma enfermaria, tenho alta, recebo prêmio, para saber que no dia seguinte eu iria ter punição. Nada legal isso.
Sai do fórum, mas eu não tinha visto Tresh. Conclui que a quinta coorte teve que fazer algum tarefa.
Estava distraída descendo para falar com Jay sobre o julgamento quando vi uns campistas treinando. O que mais me chamou atenção foi ver dois meninos corpulentos rolando pelo chão. Eram tão familiares...Tresh e Craig!
Eu cheguei correndo onde estava acontecendo a briga. Naquele momento Tresh estava em cima de Craig batendo nele.
–Tresh, sai! – Dei um empurrão em Tresh, que não se moverá, pois era pesado. Quando ele me viu soltou o colarinho da blusa de Craig e abriu a boca de tão espantado.
–Romana... – Tresh estava com o nariz sangrando e a roupa com alguns respingos. Craig tinha um ferimento na testa e na boca.
–Sai de cima de Craig, agora! – Gritei pegando minha Adaga. – Qual o problema de vocês, seus jegues? Isso não é um treino! Você estavam se matando. Idiotas.
–Eu posso...
–Cala a boca, Slaterton! – Gritei para Tresh. – Estavam brigando por minha causa? Me digam que não, pois se for eu vou cortar o membro que fazem vocês terem filhos, prazer e dor ao mesmo tempo! – Berrei. – Dois panacas e idiotas! Querem se matar? Tudo bem, fiquem a vontade, mas que não seja por minha causa! Mas que merda! Tresh, você sabe o que eu te disse, e sabe que eu não minto, farei das minhas palavras verdade. – Eu me referi sobre largar dele se ele brigasse com Craig. Sai pisando firme e a voz de Tresh ficando longe enquanto ele gritava meu nome.
Não sabia o que fazer. Se eu terminava com Tresh, se ia atrás dele, se ia atrás de Craig. Não sabia. Estava na primeira coorte andando de um lado para o outro, muito nervosa.
–Escuta, você... – Era Tresh entrando.
–Sai daqui! – Gritei.
–Me ouve. – Tresh se aproximou. Seu nariz ainda sangrava, mas ele pareceu ignorar.
–Não! Por acaso eu falei romano com você? Porque grego sei que o senhor entende, seu retardado! – Acho que nunca xinguei tanto ele depois de nosso namoro.
–Pode me ouvir?
–Posso te bater? Não, então você também não pode.
Sai da primeira coorte e encontrei Brayan. Disse para ele arrumar gelo para Tresh.
–Preciso pensar. Vou para algum canto. – Falei para meu irmão.
Tresh realmente tinha me deixado brava ao se pegar com Craig, aquilo me deixou muito brava. Acho que descobri o porque ele sempre me chamava a atenção.
Subi o Campo Marte e fui para a parte mais alta, onde o vento batia de uma maneira fresca e sempre favorável. Me sentei e aquele vento tão bom bateu em meu rosto. Naquela hora eu não queria, mas eu só pensava em Tresh. Eu não queria terminar com ele, mas também não queria dar uma chance para ele.
–Nenhum de nós vai sair daqui enquanto eu não falar. – Como se meu pensamento tivesse o atraído, Tresh apareceu atrás de mim, com gelo dentro de uma sacola branca pressionando no nariz.
Fiquei sentada olhando para ele com cara de brava.
–Me escuta, depois que eu falar você tem direito de fazer o que quiser, ta?
Concordei com a cabeça.
–Olha, eu só arrumei briga com Craig pelo simples fato dele saber que você é minha namorada e ficar de enchendo. Eu não vou deixar nenhum menino dizer coisas de baixo nível para você. Eu sou seu namorado e tenho que te defender. Nos defender. Eu sei que disse a maioria das vezes para você sobre as brigas, mas sair no braço com ele foi idiota, eu sei! Eu não quis, mas enquanto eu tive que descer para a tarefa da quinta coorte ele disse coisas de você. Coisas de como você ficou super sexy com aquela roupa de gladiadora, e que quando eu me distraísse ele ficaria com você no estábulo. Mas não esse ficar, o de beijos. O ficar de tipo, nus. E simplesmente ele me provocou.
Tresh ficou quieto.
–O que acha que eu tenho que fazer com você? – Falei.
–Sinceramente? Me desculpar... Desculpe, mas eu tive que fazer algo.
–Sabe que eu fiz muito pior do que tudo que você fez. Eu faria pior se fosse outra menina, na verdade eu fiz. Não tenho direito de te julgar. Mas se tem algo que eu não vou aceitar é você brigando, se pondo em risco por mim, entendeu? Você sabe o que estamos enfrentando para ficarmos juntos, sabe, eu não quero perder você.
–E não vai, sabe que se depender de mim não vai me perder.
–Sei. Mas se brigar com Craig de novo...
–Eu não vou... Só se for em defesa, certo?
–Certo. – Falei. Me aproximei dele e sentamos. Peguei o gelo e pressionei em seu nariz. – Me desculpe pelos xingamentos.
–Ter a Romana namorada, é diferente de ter a Romana rude. Ainda sim são duas pessoas, sei que não me ofende por mal.
–Mas aquela hora foi.
–Vamos esquecer isso?
–Esqueci já. – Nós nos beijamos. – Tresh, preciso te falar algo.
–Sim? – Ele me beijou de volta.
–Amanhã é o julgamento final.
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