Greco-romana: O Segundo Lado
24 O Julgamento
-Já tenho uma decisão. — Reyna disse por fim. — Foi uma decisão coerente. Vou anunciá-la depois do intervalo.
Depois do terceiro intervalo que teve aquele julgamento. O julgamento final, sobre minha sentença.
De manhã, logo que acordei e tomei o café da manhã, fui avisada que as nove teria que estar no fórum. Foi o que fiz.
Ficamos confinados lá dentro por três horas. Apenas eu, Reyna, Octavian e os soldados que ficaram na porta.
Foram debates, opiniões que Reyna considerava de alguns campistas, foram também Octavian dando chilique e dizendo a todo momento que iria ser morta.
-Mas você quer um quarto intervalo só para anunciar a sentença dela? — Octavian disse.
-Sim. Caso contrário não se manifeste. — Reyna disse.
Eu fui espiar algo pela a janela, e ao longe vi Jay lutando. Isso me fez sentir melhor, ver um amigo.
Tomei um pouco de ar, ali mesmo, naquele local. Fiquei pensando em tudo que fiz, e de tudo, não me arrependi de nada. Fiz tudo o que tinha feito por ser necessário. As mortes causadas propositalmente também não me deixaram com consciência pesada, e isso eu não sei o porque. Mas eu estava com medo. Medo de ter uma sentença que afetasse todos a minha volta.
-Vamos voltar a parte final do julgamento. A sentença. – Reyna anunciou.
Fui para meu respectivo lugar e fui analisada pelo o olhar de Reyna. Octavian, como sempre me fitava com o maior desprezo do mundo. Nem ligava.
-Diante de todas as sessões já feitas sobre seu destino, diante algumas pessoas que falaram coisas sobre você, acabei apurando um resultado. Horas de julgamentos no dia de hoje me levou a pensar e repensar minha decisão. Então, ela será anunciada.
-Graças aos deuses! – Octavian falou, mas a Pretora lançou um olhar para ele, que se calou no mesmo tempo.
-Romana, sua pena será... A morte!
Eu não sabia se ficava surpresa ou conformada. Por um lado eu esperava isso, mas pelo outro, não. Eu estava confusa.
-Mas...mas...e a defesa? Eu disse que foi por defesa...
-Eu tentei ser coerente. – Reyna falou.
Octavian estava mais que satisfeito, pois não parava de olhar para mim com cara de deboche.
-Enfim você vai pagar pelo que fez, traidora.
Como eu estava surpresa com meu destino nem me importei com as porcarias que Octavian falava.
‘E Tresh?’ Pensei. ‘Tem Jay, tem Brayan. O que vou dizer a Brayan?’.
Eu pensava neles. Eu fiquei uma parte de minha vida sozinha achando que nunca ia ter uma família, e eu arrumei uma. Mas por causa de minhas atitudes, eu ia os perder.
-Reyna, tem que ter um jeito de...de reverter isso! Me expulse do acampamento. Me mande lutar pela minha vida, me deixe ter uma chance!
-Guardas, — ela me ignorou – chamem os dois gregos que vieram com ela ao acampamento. Também chame Louis e Lottie. Claro, o irmão também, o Brayan. Quero o clã todo vendo o destino da líder.
Sempre achei Reyna uma boa líder, e também uma boa pessoa. Eu não consegui sentir raiva dela, mas só de Octavian. Ele podia ser tão manipulador quanto eu conseguia. Mas achei que a coerência de Reyna me tiraria dessa.
-Não somos um clã. – Disse com a voz vaga.
-Sim, vocês são. – Ela me devolveu. – Tropas escoltem ela, iremos ir lá para fora.
Antes que o soldados me escoltassem me dirigi rapidamente para Octavian.
-Enfim, eu irei morrer. Está feliz homem espantalho? Sim, você está. Mas saiba que minha alma vai vagar pelo templo em que você assassina ursinhos e lhe assombrarei!
-Você teve o que merecia, traidora.
-Aproveite enquanto tem voz aqui. – Falei.
-O que você quer dizer com isso?
Os guardas se fecharam em minha volta nos separando. As portas do fórum se abriram e estávamos indo lá fora.
O meu pessoal estava lá fora. Eles tinham sido retirados de suas atividades e isso se via pelo estado deles. Os olhares eram de toda atenção voltada para mim.
Olhei para cada um deles, e já estava com o coração apertado. Ver a expressão de tensão e de curiosidade de cada um deles me dava um nervosismo. E o pior, me dava tristeza. Uma coisa que eu não sentia. Isso mudou desde de quando comecei a ter uma família novamente. Era triste ter de deixá-los.
-Pedi para que subissem para eu dar um recado. – Reyna disse.
-Muito bom por sinal. – Odiava Octavian tanto quanto o sorriso maluco dele.
-Venho anunciar o destino da amiga de vocês. – Reyna disse.
-E namorada. – Ouvi Tresh dizer.
‘Ele vai ficar sem chão. Eles vão.’ Pensei. E foi o que aconteceu.
-O que? Pena de morte? – Lottie disse espantada.
-Isso é uma lei acatável para os romanos? – Jay perguntou.
-Deve haver algum engano. – Tresh disse se aproximando de Reyna.
-Não há. Ela vai morrer! A amiguinha de vocês, e a sua namoradinha, a mesma garota, irá morrer! – Octavian disse em um som provocativo.
-Não! Tem de ter outro jeito! – Tresh gritou.
-Sim, Pretora. Tem de ter outro jeito. – Os olhos de Brayan eram quase suplicante.
-Vocês irão ver a morte dela. Daqui dez minutos. – Reyna disse.
-Não! Isso é inaceitável! – Tresh começou a derrubar lágrimas. Ponto fraco ver ele chorando.
Um filho de Afrodite tão sentimental. Tresh deveria ser proibido de chorar. Dói muito o ver em desespero. Ele não era forte o bastante para controlar o que sentia.
-Reyna, nós não trabalhamos com pena de morte, e você sendo líder sabe. – Louis disse.
-Você disse a uma coisa certa. Sendo líder. Guardas, escoltem eles até o salão do fórum.
Eu não tive voz para nada. Eu fiquei vendo todo o desespero deles calada e com os olhos marejando. Não ousei soltá-las até o momento certo.
Quando entramos Reyna não estava na sala. Ainda assim estávamos cercados por guardas.
Vi Tresh agredir um guarda que estava ao seu lado com o cabo da espada e partido para cima do outros.
-Me larguem! – Ele gritou quando o seguraram. – Ela é minha namorada, me deixem abraçá-la! Me larguem!
Reyna estava vindo com uma bandeja e uma taça sobre ela. Coloco-a em cima da mesa e sorriu.
-Pobre grego. Abram caminho, deixe ele falar com ela. – Ela ordenou.
E assim os guardas fizeram.
-Sabe que podemos acabar com eles. – Ele estava segurando meu braços e eu com os olhos no chão. – Você consegue, eu consigo. Nós conseguiríamos. Podemos fugir depois disso. Sabe que temos chance!
‘Sim, eu sei que temos.’ Pensei, mas não respondi.
-Não se entregue para eles, por mim. Por nós. Por todos nós. – Tresh estava derramando lágrimas. Não olhei, eu corria risco de soltar as minhas. – Olha para mim.
‘Não’.
-Romana, fale comigo. Olhe para mim, me dê um sinal.
‘Se eu fizer isso eu vou chorar’.
-Olhe para mim! – Ele segurou me queixo e o levantou. – Eu... eu não posso suportar te perder!
‘Você acha que não, mas consegue. Eu achava que não iria suportar a perda de minha mãe.’
-Porque você está com os olhos fechados? Porque não olha para mim?
‘Porque eu vou chorar se te ver derramando lágrimas. Se eu ver todos com cara de velório. Não vou chorar e dar esse gosto a Octavian’.
-O tempo estava acabando. – Alertou Reyna.
-Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. – Senti o rosto molhado de Tresh colar nos meus, e depois os lábios em minha boca. Logo senti todos me abraçando.
Ouvi eles chorando, e ouvi-los dizer o quanto eu sou algo para eles...
-Guardas. – Reyna estalou os dedos e eles nos separaram.
Ela pediu para que dois deles ficassem ao meu lado. Ela ficou no meio de nós e prosseguiu:
-Isso é um veneno. Efeito instantâneo de dez segundos...
-Isso é perfeito. – Octavian riu escandalosamente.
-A menos que queira outra forma de morrer. – Reyna disse.
Neguei com a cabeça.
-Ótimo.
Reyna se dirigiu até a mesa e pegou somente a taça deixando a bandeja.
-Beba, e de uma só vez.
Os guardas colocaram as espadas em meu pescoço e vi de relance Tresh tentando me alcançar, Brayan fez a mesma coisa, mas os guardas os impediram.
Olhei pela ultima vez os cabelos bagunçados de Tresh, a feição élfica de Brayan, os olhos azuis de Jay, Lottie e o olhar preocupado e Louis com a expressão de tristeza.
Bebi o líquido da taça, bebi tudo.
-1,2,3,4,5, — no cinco Octavian sorriu.
O líquido parecia estar queimando e sentia meu coração acelerar.
-6,7, — Octavian continuou – 8,9...10!
Meu olhos já estavam fechados e quando a voz de Octavian contou 10 o pressionei com força. Dez.
Nada aconteceu.
-10! – Octavian repetiu. – 10! – Ele olhou para Reyna. – Mas o que está acontecendo? Eu disse 10!
Já aviam se passado quinze segundos e nada me aconteceu. Abri os olhos com calma. Octavian estava vermelho.
-O que está acontecendo? Porque não teve efeito? – Ele berrou.
-Romana? – Tresh levantou a cabeça no meio dos braços dos guardas.
-Eu...Eu não morri? – Falei olhando para Reyna que estava com o braço cruzado e um sorriso no rosto. – Porque eu não morri?
-É! Porque ela não morreu? – Octavian estava muito irritado.
Eu olhei por volta da sala e havia guardas em todo os cantos.
-Podem sair de perto dela. – Reyna disse.
-Alguém me explica porque eu não estou morta?
-Agradeça por isso! – Lottie estava sorrindo.
-Cale a boca. – Octavian disse.
-Talvez faça efeito amanhã, hoje, quem sabe nunca. – Reyna abriu um sorriso maior.
-Nunca? O que você fez senhorita Reyna? – Octavian disse.
-Romana, isso foi apenas um susto. Sua pena não será a de morte.
-Porque não? – Falei.
-Porque não? – Octavian não estava se contendo.
-Não temos provas que você realmente matou as pessoas, mesmo que você confesse. Também temos testemunhas que você fez isso a seu favor.
-Reyna, você está bem? Ela te ameaçou? Temos testemunhas que ela matou!
-Foi só uma testemunha, Octavian. De qualquer forma, você está livre da pena de morte.
-Isso é ótimo! – Jay fritou e abraçou Brayan.
Tresh estava com os olhos inchados de tanto chorar. Os guardas que estavam do lado dele acabaram se distraindo. Tresh acertou o cotovelo no queixo de um, que dessa maneira o soltou e veio correndo para meus braços. Nem um guarda interferiu por ordens de Reyna.
-Graças ao deuses! – Ele me abraçou com toda sua força. – Você está viva! – Ele sorriu com o rosto cheio de lágrimas.
-Vaso ruim não quebra. – Sorri com os olhos marejando.
-Boba. Eu achei que dessa vez não teria volta, e você iria mesmo. – Os lábios dele encostaram o canto de minha testa.
-Isso é um absurdo! – Octavian berrou. – Guardas, matem ela e os gregos!
Por um minuto achei que iriamos ser mortos pelos guardas.
-Mas nenhum passou! — Reyna berrou. – Minhas ordens são minhas ordens e ninguém vai desacatá-las. Se eu disse que ela fica viva, ela fica. E os gregos não vão ser punidos.
-Obrigada, Reyna... Mas qual é minha pena?
-Você terá que fazer um serviço simples.
-Mas e eu aqui no acampamento?
-É de sua opção, Romana. Ou você fica, ou você vai. Mas não podemos ficar com dois gregos aqui, me desculpe.
O acampamento meio sangue nunca me negará, mas o Júpiter sempre teve um receio por seus próprios campistas. Era de se pensar que os romanos não aceitariam os gregos.
-Você escolhe se vai ou fica. Tem até o dia do Festival da Fortuna. – Que era dia 24 de Julho. – Eu declaro minha sentença dada. Romana está livre e é oficial. Não ousem passar por minha palavra. – Ela olhou para Octavian. – Dispensados.
-Vamos sair logo daqui. – Tresh me pegou pela mãos e saiu comigo, o pessoal estava logo atrás.
O susto fora muito grande, achei que fosse morrer, mas estava ali, na grama com meus amigos do meu lado. Eu estava aliviada de não ter ido ver as pessoas que eu matara tão cedo.
Não sei porque Reyna tinha feito aquela brincadeira, afinal ela era a líder e toda regrada. Achei que fosse para descontrair, mas de qualquer forma, eu cheguei a conclusão que era melhor ela ter feito a brincadeira e eu ter saído viva.
Só sabia que mais tarde iria ver aquela cara de pão embolorado de Octavian por estar com raiva do meu julgamento. Ainda tinha que me vingar dele.
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