Grazie.
1 Um rosto na multidão
15 de junho. Sete horas. O despertador toca, já estou acordada há mais de uma hora encarando o teto. Levanto-me, preparo o café, como e saio de casa. Mais um dia, mais uma consulta semanal, dessa vez talvez um pouco mais interessante. O caminho até o consultório é longo e belo, passando por todos os pontos mais bonitos desse pequeno povoado e chegando até o vilarejo mais próximo, o único com um psicólogo calmo o suficiente para aguentar um paciente como eu.
No caminho, penso na visão da última noite, visão qual não me permitiu descansar e roubou meu sono a noite inteira. O rosto dela na multidão, seus longos cabelos negros caindo sobre sua face e ombros, aquilo tudo me deixou paralisada. Relembro de como corri em sua direção, chamei seu nome, até que a vi se perder em meio às outras pessoas.
Perdida em meus pensamentos, quase como um choque percebo que já cheguei ao ponto final. Encaro a placa no prédio, dando um suspiro profundo antes de entrar. "Dottoressa. Carla Pecini", Carla é uma antiga conhecida desde a época que ainda morava no Brasil, nós duas nos conhecemos no colégio e, coincidentemente, tínhamos os mesmos interesses.
—Bom dia, Louise! Como vai?
Ela me cumprimenta com um sorriso, sentada em sua cadeira e pronta para me ouvir e anotar tudo. Sorrio de volta e digo que está tudo bem.
—Como foi sua semana?
Respiro fundo, tentando não manter contato visual e procurando as palavras exatas que não me façam parecer louca
—Eu a vi, Carla.
Seu sorriso sumiu, e no lugar dele agora eu via um semblante assustado e curioso, como se me pedisse para explicar o ocorrido
—Foi ontem. Perto das barracas do festival da primavera, eu estava conversando com uns amigos e a vi...Primeiro ela estava de costas, mas eu já sabia, até que se virou e eu tive certeza.
Carla anotou tudo o que eu disse
—Você falou com ela?
—Eu a chamei, mas ela não ouviu...Apenas sumiu em meio à multidão, havia muitas pessoas lá.
—Como você se sentiu?
Até o momento daquela pergunta, eu não havia pensado em como realmente me senti ao encontra-la após tanto tempo. Talvez com medo, talvez apreensão ou talvez, apenas com saudades.
—É difícil dizer. Descrever um sentimento desses não é tão fácil quanto parece, sabia?
Ela sorriu novamente, sem tirar os olhos de suas anotações
—Nunca disse que parecia fácil, Louise. Mas então, o que te faz ter tanta certeza de que era realmente ela? O que ela estaria fazendo por aqui se quando vocês terminaram ela continuou no Brasil?
—Eu não sei, Carla...Não faz sentido, mas eu sei que foi ela. Eu não estou ficando louca! Minha mente não está me pregando peças novamente, eu só sinto que ela está por perto...
Carla parou de anotar. Agora ela só me encarava, não mais como doutora, mas como amiga. Até que ela pegou a minha mão.
—Eu me preocupo com você, Louise. Sei como esses meses têm sido difíceis e tudo que eu quero é que você melhore o mais rápido possível, mas procurar uma garota brasileira em todas as italianas morenas de uma cidade pequena não vai te ajudar. Ela não está aqui e você sabe que essa possibilidade seria pequena, então por que não tentar focar nas coisas mais importantes? Como, por exemplo, sua carreira. Como está a sua nova exposição e as idas a Florença?
Sorri de volta e tentei entender tudo que Carla estava dizendo como uma grande amiga, contei sobre minha nova exposição, como tudo estava sendo cansativo e corrido e que eu mal tinha tempo para respirar. Falamos sobre diversos temas nos próximos minutos da sessão, depois dali ainda seria um dia cheio e eu não poderia me preocupar tanto com os problemas que minha imaginação inventava.
—Até a próxima semana, Carla.
—Fique bem, Louise. Tome cuidado e sempre desconfie. Sempre.
Sai do consultório e fiz uma pequena caminhada até a estação de trem, chegando lá corri o máximo para pega-lo, mas não cheguei a tempo. Sentei-me nos bancos da estação e o vi passando, acelerando aos poucos, até que minha mente resolveu brincar comigo novamente.
Mais uma vez, lá estava ela, em um dos últimos vagões do trem, procurando um lugar usando um laço em seu cabelo. Tudo parecia estar em câmera lenta, enquanto eu apenas a via desaparecer junto com o trem. Aquilo com certeza não era minha imaginação.
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