Gravity
1 O plano
Notas iniciais
As pessoas sempre tiveram, desde os primórdios da humanidade seus conflitos internos. E era contra isso que eu lutava diariamente. Contra meu eu interior desde que me reconheci como um adolescente que sentia-se atraído por pessoas do mesmo sexo. Pena que esse não era o conflito maior. A maior barra que eu segurava era em não ser eu mesmo, por medo dos meus progenitores, que eram extremamente conservadores e meu pai, sendo homofóbico, a ponto de não deixar minha irmã mais velha ter amigos gays. Isso parece ser um absurdo? Parece, mas não é nem a metade do que passo morando numa casa onde pessoas como eu, são consideradas abomináveis por pessoas como meus pais.
Minha criação não foi muito diferente da que a maioria dos jovens têm. Criado num lar em que se preza a família tradicional, composta por pai (a autoridade maior), mãe e filhos, fui ensinado que um homem de verdade jamais baixaria a cabeça para receber ordens de uma mulher, que o lugar da mesma era na cozinha e nunca onde machos alfas estavam e que se você, sendo filho de um como ele, não pegasse umas quatro ou cinco mulheres e as descartassem em segundos numa festa, não seria respeitado. Cresci complexado por não conseguir gostar de mulheres em trajes minúsculos sendo tratadas como objetos por maior parte dos homens, e pensando que o problema seria eu, o diferentão. E foi por isso que obriguei-me a praticar um ato humilhante para eu mesmo, para provar que era uma coisa que não sou.
— De novo isso, Caio? — Luísa, minha melhor amiga perguntou-me pela nonagésima vez ao ouvir o "absurdo" que eu a propus fazer.
Eu já havia conversado com ela por semanas, e ela sempre vinha com esse papo de que era um absurdo, que era cruel comigo mesmo e o blá blá blá de sempre.
E agora estávamos numa lanchonete, em plenas cinco horas da tarde, debatendo sobre meu plano, que tinha tudo para dar certo. A não ser a relutância de uma certa garota de cabelos lisos e negros de dar inveja e pele jambo, em aceitar participar.
— Lu, por favor...
— Sério que você vai fazer isso? Não estou acreditando! — a garota pôs as mãos no rosto e sorriu incrédula — Por causa do seus pais?
Suspirei e fitei seus olhos amendoados.
— É. Por causa deles e da sociedade em geral.
Luísa revirou os olhos e fez uma careta. — Caio, você não precisa dar satisfação da sua vida para ninguém, sabia? Quer dizer, logo mais você faz 18 anos e daí vai responder pelos seus atos.
Sorri de lado. Ela sempre botava esse assunto em pauta quando se tratava de algo relacionado a nossa independência. Desde os nossos 14 anos, onde ainda fazíamos a oitava série, que ela falava de maioridade. E eu achava meio engraçado, pois ela nunca precisou ser maior de idade para fazer certas coisas. Mas resolvi não falar mais nada, para não prolongar a mini discussão.
— Acontece, senhora responder pelo seus atos, que eu ainda dependo do meus pais para tudo na minha vida. Não trabalho, não vivo sozinho numa casa e devo que seguir o que eles mandam, da merda do jeito que eles querem. Apesar de eu odiar tudo.
Luísa nunca entendeu o porquê de eu ser tão "baba ovo" da minha família. Isso porque seus pais eram totalmente o contrário dos meus e ela nunca precisou fingir ser algo que não era por causa disso.
— Tá. Tá. — Ela soltou o ar pela boca num gesto desdenhado. — Você sabe que eu acho isso muito cruel o que quer fazer consigo mesmo.
— Sei.
— Mas, como boa amiga que sou, vou te ajudar. Eu preciso basicamente trocar carícias com você na frente da sua família, frequentar sua casa quase todo dia, e mostrar para todos como sou atenciosa. — ela sorriu, piscando o olho para mim — Isso eu já faço desde que a gente se conheceu.
— É. Mas... têm os beijos, sabe?
— Claro que eu sei. — Ela sorriu de canto — Pensando bem, seria bem interessante explorar esse seu lado.
— Quê? — A fitei com curiosidade -
Luísa de vez em quando me dava medo, a julgar por suas expressões faciais. A menina, como boa atriz que era, sabia muito bem como ser dramática quando queria, mas também bem maliciosa.
— Você já ficou com garotas, certo? — assenti para ela, que alargou o sorriso — E, agora, sentiu-se atraído por homens. — assenti novamente, não sabendo onde ela queria chegar com essas perguntas — Me diz, Caio, você já se sentiu atraído por mulheres?
— Olha, já. Mas não ao ponto de querer algo sexual com alguma delas. — pensei um pouco — Mas, se me agradar e eu me sentir atraído, por que não?
Franzi o cenho. Sabia muito bem onde ela queria chegar com isso. E chamava-se rotular eu mesmo, com esse negócio de ser hétero, homo ou bissexual. E não, eu não daria a resposta como ela queria.
— E só pra constar, dona Luísa, não vou me rotular como você quer que me persuadir para que eu o faça. — falei, um tanto quanto debochado.
— Hm. Você sabe que não queria te rotular, mas é que você pode ser bi, sabe?
— Lu, não quero conversar sobre isso... — olhei para os lados — Pelo menos não aqui.
Meu celular vibrou com uma mensagem, acendendo a luzinha, e voltando nossa atenção para ele.
— É o Rafael?
— É. — bloqueei a tela do celular ao ver que realmente era o rapaz — Ele não entende que acabamos. Mas enfim... o que quero saber é se você de fato aceita ou não o plano.
Luísa bebericou o suco que já deveria estar quente a esse momento, e olhou para o teto, como se tivesse em dúvida de algo.
— Sim. Aceito.
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