Gravity
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Luísa
Eu não acreditei no que estava ouvido. Sinceramente, não. Parei por alguns segundos — que mais pareciam anos — e fitei Caio.
— O-o quê? — Tenho certeza que pisquei os olhos algumas vezes — Você está gostando de... hm... garotos? — Ele assentiu — Desde quando?
Ele pareceu estudar minhas expressões antes de sentar-se no sofá de minha casa. Segurou um de minhas mãos, e acariciou o dorso.
— Desde sempre, eu acho. — Sorriu sem mostrar os dentes — Quer dizer, eu não sei. Eu tentava negar. Mas não deu. E agora... eu já me senti mais a vontade para falar sobre com você, minha melhor — e única amiga que posso confiar.
Minha cabeça estava girando. Eu não conseguia assimilar tudo. Ok, meu amigo assumiu para mim que gosta de garotos. E isso é a coisa mais normal. Mas... eu não consigo lidar com isso.
— E então? — Seus olhos brilhavam em expectativa. Ele esperava que eu dissesse algo?
— Er... bom... eu estou surpresa, claro. — Falei um pouco baixo, desviando o olhar dos seus olhos, que me encaravam atentamente — Nunca imaginei. Logo porque você até ficou com uma garota na minha frente, e... sei lá. — Sorri, nervosa. Eu não sabia o que falar. E nessas situações, só saiam palavras erradas.
— É. Eu cansei de querer negar algo que sou. Estou muito feliz que você não tenha surtado, ou algo do tipo. — Eu estava surtando por dentro. Isso conta? — Claro que não foi um grande passo, mas já é algo, sabe? Eu me aceitar. E isso merece uma comemoração. Ainda têm aquelas vodkas aqui? — soltou minha mão e levantou-se animado do sofá. — Se não tiver, não tem problema. Eu compro uma cachaça barata pra gente.
— Quando ia me contar? — Interrompi-o.
— Bom... quando eu me sentisse a vontade. — Ele parou um pouco e seu sorriso desfez. — Algum problema, Lu?
— Não. Claro que não. — Levantei-me também e passei a mão pelo cabelo — Bom, as vodkas estão aqui! — sorri.
— Seus pais são de boas. Isso é o melhor.
— Contanto que não toquemos fogo no Luke...
Luke é nosso chihuahua. Ele é meio abusado de vez em quando. Mas gosta de Caio.
— Vamos lá, então. — o segui até a cozinha, onde pegamos o suco, copos e a bebida. — Você vai dormir aqui hoje?
— Posso?
— Sabe que sim.
Estávamos deitados na cama, comendo doritos e bebendo do nosso suco batizado, bem de boas, quando uma dúvida surgiu em minha mente.
— E os seus pais?
— Quê que tem? — ele mastigava o salgadinho enquanto fitava a TV.
— Você contou, ou...?
— Não. E nem vou. — Caio suspirou soltando o pacote. — Você sabe como meu pai é. Alice nem pode levar os amigos dela em casa, direito. Quanto mais eu, contar. Fora de cogitação.
Tomei um gole da minha bebida e o fitei sem ele perceber. — Desculpa, mas teu pai é tão...
— Insensível? Ogro? Brutamontes? — Ele sorriu desgostoso — Isso eu sei. Mas, por hora, não há nada a fazer.
— Ah...
— Vamos mudar de assunto, hã? — Virou-se para mim e recolheu o salgadinho da cama, junto com a bebida, pondo-os no criado-mudo.
Eu adoro o jeito de Caio quando quer contornar as situações. Faz tudo parecer mais fácil do que realmente é. Na verdade, adoro Caio por si só. Ele é bonito, educado, porte físico não deixa desejar. Algumas muitas garotas babavam por ele na escola, ele nunca deu moral. Isso explica muita coisa. O conheci na oitava série, no último dia de aulas das férias do meio do ano. E depois não nos desgrudamos mais. Ele sempre frequentou a minha e eu a sua casa. Trabalhos escolares juntos, filminhos e até encontros — o que servi de vela para ele e uma garota que uns amigos dele arranjaram. Ele não tinha muito interesse em ir, mas os caras quase o obrigaram. Depois, ele nunca mais falou da garota.
— Vem cá. Tava sentindo falta do seu abraço. — Deitou ao meu lado e passou o braço por meu corpo. Beijou minha nuca, fazendo-me arrepiar com o toque, passou a mão livre pelo meu cabelo — Você é a melhor amiga que alguém poderia ter. Te amo.
— Também te amo, Caio. — Sorri.
Porque ele tinha de ser tão.. carinhoso e gostoso? Porque? Mesmo com gestos inocentes, Caio me faz arrepiar e querer beijá-lo. Porque teria de ser assim? Porque eu tinha que ser apaixonada logo por meu melhor amigo, que acabou de contar que é gay? E bem complicado assimilar que o cara no qual eu gosto, é gay. Talvez posso estar sendo egoísta, mas poxa, me dêem um crédito! Porque até então, pensei que nós nunca tínhamos nos pegado pela amizade. Mas agora via que era algo a mais. E que nenhum de nós tinha escolha, infelizmente.
Isso não é justo. Não quando ele está coladinho comigo, numa conchinha, beijando minha nuca.
Já haviam passado dias depois da revelação de Caio, e agora ele vinha com um papo estranho para cima de mim. Onde já se viu, eu fingir de namorada para os pais dele?
— Por favor... nunca te pedi nada. — Caio falava, ao meu encalço, enquanto andávamos pelos corredores do Colégio -
— Não. E adivinha... não! — Sorri debochada enquanto entrávamos na sala de aula. Caio sentou atrás de mim — Isso é... uma bosta, Caio. Você não precisa disso.
— Preciso, sim. E você tem que me ajudar. — Ele suplicou com o olhar. — Olha, eu te pago pizza, açaí, sorvete... o que você quiser.
Peguei meu caderno enquanto meu amigo continuava tagarelando atrás de mim, e fingi não escutar nada. Mas era bem difícil isso. Quando fiquei sabendo do tal ''plano'', me recusei de primeira a prestar esse papel, literalmente. Mas Caio faltou beijar meus pés. Mandou mensagens — umas trezentas em apenas cinco minutos -, ligou, e esperei o sinal de fumaça também.
Tudo isso por causa do idiota do Alberth, seu pai. Meu Deus! O que custava ele ser um cara mais legal? Aposto que seria mais bem visto na família, tendo em vista que nem os filhos o suportam. As vezes que ia dormir na casa de Caio, ou almoçar, ele estava lá, resmungando sobre vários nadas, ou perguntando das "gatinhas" para Caio. Chegou até a insinuar que tínhamos um casinho. Ok, isso não seria tãããão ruim, admito. Mas ele é muito, mas muito chato. Meu amigo que me perdoe. Joana, a mãe, é a típica dona de casa que segue tudo a risca. E me desculpe, mas só sendo uma santa para aguentar o porre que o marido é. Ela tem meu respeito.
— Lu, você é muito ruim!
— Minha especialidade. Agora, pensa no que você quer fazer para agradar seus pais, depois fala comigo. Vou assistir à aula. — virei-me para ele e mandei um beijinho — Beijos de luz.
¤
— Por que eu aceitei mesmo?— perguntei pela milésima vez desde que entramos no táxi a caminho da casa de Caio.
— Porque você me ama. Agora caladinha, que estamos chegando em casa. E vou oficializar nosso namoro a meus pais.
— Oh, shit.
Agora minhas habilidades de atriz seriam postas em prática. Vamos lá. Afinal, o que pode dar errado?
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