Grabor

2 Capítulo 02 - Ataque a Pomi


Notas iniciais
Boa leitura!

ELIF, PATAKO, VIA LÁCTEA

POVOADO POMI, SUL DE NAFRA — PRESENTE

A vida em Pomi, um povoado com pouco mais de trinta mil habitantes localizado ao sul da cidade de Nafra, era perfeita. Ali, Grabor morava com sua esposa, Felíxia, e sua filha, Graxia, em uma casa de madeira de dois andares. Era tarde da noite, todos dormiam.

Pomi não era grande, possuía quinhentos quilômetros quadrados. Todas as casas eram simples, feitas de madeira, umas com dois andares, outras com somente um. A única casa que se diferia das demais era a que ficava no centro do povoado, um sobrado de dois andares feito de pedra e que abrigava a líder do povoado, Maranda Jill.

A casa de Grabor se localizava a sudoeste da casa central, em um bairro muito tranquilo. A cidade, assim como o bairro, foram escolhidos por Grabor por ser um local onde ele poderia viver em paz com sua família, ou pelo menos assim pensava. Vivia de comércio por mais que a principal atividade do povoado fosse a pesca. A família conseguia do comércio mais do que suficiente para sobreviver, motivo pelo qual não deixou o povoado.

Nessa noite, no entanto, o povoado estava inquieto. Nas ruas, vultos se moviam rapidamente enquanto todos dormiam. A quantidade dos vultos aumentava cada vez mais. A única casa que possuía luzes acesas era a de Maranda que quase nunca dormia, pois preferia vigiar o povoado. As sentinelas estavam pelas ruas também, mas os vultos as evitavam como se soubessem onde estavam. O silêncio reinava na noite.

Até que os vultos começaram a agir. Com muita destreza e velocidade, atacavam e matavam as sentinelas que não tinham a menor chance de defesa. Uma sentinela conseguiu ver um dos vultos antes de dar adeus à vida: eram altos, estavam todos vestidos de preto. Na face, estavam com uma máscara que só deixava visível os olhos e carregavam adagas e lanças que descobriu estarem muito afiadas da pior maneira possível.

Devagar, as sentinelas eram mortas. Ao fundo, observava-se uma movimentação estranha: clarões de luz amarela se erguiam e acabaram por despertar a atenção de Maranda. Por mais que a casa ficasse no alto de um morro, no centro do povoado, sua visão estava obstruída.

—O que é aquilo? – Perguntou Maranda a um de seus guardas enquanto espiava pela janela do segundo andar.

—Não tenho a menor ideia. Vou pedir a alguém para verificar o mais rápido possível... – falou o guarda quando Maranda o interrompeu.

—Não há mais necessidade... – falava Maranda enquanto uma bola de fogo cortava o céu escuro vindo de onde as luzes estavam.

—São catapultas – mudou seu semblante imediatamente – rápido palermas, código vermelho, código vermelho – exclamou janela afora enquanto saia da janela e pegava uma lança.

Pelas ruas do povoado, as sentinelas que ainda não haviam sido mortas, faziam uma movimentação coordenada, buscando posições estratégicas para defender o povoado. No entanto, ainda não se sabia contra o que lutavam.

Enquanto se moviam, a primeira bola de fogo atingiu o povoado, caindo sobre uma casa perto da casa central. Logo, outras bolas em chamas enchiam o céu e as catapultas já se faziam visíveis ao sul do povoado:

—Acordem o máximo de elfos que puderem e mandem procurarem abrigo. – gritou Maranda às sentinelas que conseguiu ver – ainda não sabemos quem é o inimigo.

Aos poucos os elfos foram acordando, uns pelos gritos de outros, outros avisados pelas sentinelas e ainda outros os quais tiveram suas casas atingidas pelas bolas de fogo. A sudoeste, Grabor acordava assustado com os gritos que ouvia.

Ao levantar, foi até a janela da quarto e a abriu, observando o que via: casas em chamas, bolas amarelas cortando o céu, elfos gritando e correndo, alguns em chamas. Não entendeu o que acontecia. Ao longe, enxergou Maranda lutando contra uma sombra, pelo menos parecia uma sombra até que o corpo caiu no chão quando Maranda atravessou a lança em seu peito.

Coçou os olhos, incrédulo. "O que estava acontecendo? Pomi nunca havia sido atacada antes", pensou. Ao reabrir os olhos, olhou para cima e algo chamou sua atenção: uma das bolas amarelas estava vindo na sua direção. Prontamente, se virou para o quarto, o mais rápido que podia:

—FELIXIA, FELIXIA – gritou Grabor enquanto tirava sua filha, Graxia, do berço – ACORDE, RÁPIDO – continuou gritando – POMI ESTÁ SENDO ATACADA.

Felixia levantou da cama em um pulo:

—Como? – Perguntou ainda meio sonolenta.

—VEM COMIGO AGORA, SEM TEMPO PARA EXPLICAR... VEM – e saíram os três correndo do quarto, pegaram a direita para um corredor e correram até seu final.

Enquanto corriam, um estrondo os surpreendeu. Felixia olhou para trás e viu parte da parede e do teto caídos enquanto chamas se espalhavam. Sem parar de correr, virou seu rosto para frente novamente:

—O que foi aquilo Grabor?

—Não tenho ideia, tudo o que sei é que Pomi está sendo atacada!

Graxia acabará de acordar:

—Papai o que está acontecendo? – Perguntou visivelmente sonolenta e assustada.

—Nada meu amor, se segure – e viraram à esquerda no final do corredor onde havia uma escada que levava ao primeiro piso.

Ao se aproximarem da porta, uma viga desabou à frente dos três. Grabor quase derrubou Graxia que deu um berro.

—AH, O QUE É ISSO?

—Não é nada meu anjo – disse Felixia – Grabor, o porão! – exclamou ao seu marido.

Grabor assentiu e foram ao porão cujo acesso ficava atrás da escada. Desceram mais uma escada e ao tocarem o solo, a porta de acesso externo do porão se mexeu. Alguém estava tentando abri-la.

—Rápido, aqui – sussurrou Grabor enquanto entrava em uma sala na lateral do porão, sua esposa o seguiu – façam o mínimo de barulho possível – continuou sussurrando enquanto o porta abria com um estrondo.

Cautelosamente, Grabor espiou a entrada e notou um elfo vestido em preto, segurando uma lança na mão direita de pele azul escuro: era um elfo negro. Trazia na cara algumas feridas abaixo da boca e nenhuma outra cicatriz visível. Pensou que o elfo era inexperiente no campo de batalha. Voltou sua atenção a sua esposa e filha:

—Fiquem aqui e não façam barulho – sussurrou.

—O que você vai fazer, Grabor? Perguntou sua esposa visivelmente aflita.

—Ainda não sei, mas fiquem aqui, vai dar tudo certo.

Lágrimas escorriam pelo rosto de Graxia, mas não chorava. Sua esposa assentiu e cobriu a boca de Graxia com a mão enquanto se encolhiam em um canto da sala. Grabor deu uma nova espiada e o elfo negro estava a altura da sala onde estava.

Olhou rapidamente ao redor e a única coisa que avistou foi uma pá que se encontrava do outro lado da porta, na sala onde o elfo negro estava. Como não encontrou nenhuma outra arma, a pá teria que servir. Em um movimento rápido e único, saiu de seu esconderijo, pegou a pá e avançou no elfo negro.

Por pouco o elfo desviou. Ao frear o corpo, Grabor imediatamente girou e abaixou, escapando da investida frontal do elfo e atingindo o mesmo nas pernas com uma quantidade considerável de força, fazendo o elfo negro cair. Imediatamente levantou e bateu com a face da pá em sua barriga com a maior força que encontrou. Tamanha foi a dor que o elfo largou a lança depois de fazer um audível grito de dor, se retraindo em seguida colocando ambas as mãos para proteger a área do ataque.

Grabor se afastou na direção da sala em que estava, levando consigo a lança. Quando concluiu que o elfo não oferecia perigo, se aproximou e colocou a ponta da lança em sua garganta:

—Um movimento errado e perde a vida – disse Grabor sério e com uma voz autoritária.

O elfo não fez nada a não ser engolir saliva.

—O que vocês estão fazendo aqui? Pomi nunca fez nada a vocês.

O elfo novamente só engoliu saliva. Estava visivelmente assustado.

Grabor pressionou a ponta da lança pouco mais, mas não o suficiente para cortá-lo:

—Não vou perguntar de novo, o que vocês estão fazendo aqui?

Após a pergunta, o elfo não esboçou mais reação nenhuma, não piscava, não tremia nem nada. Cuidadosamente Grabor se abaixou, deixando a lança escorregar em sua mão, mas sem tirar a ponta do pescoço do elfo. Tocou o pescoço com o indicador e o dedo médio, procurando por alguma pulsação. Não a encontrou. Levantou, trocou a lança de mão e chamou por sua família.

Já é seguro, podem sair.

Felixia saiu correndo e abraçou seu marido:

—Você está bem? Não está ferido? – Perguntava preocupada.

—Estou bem! Onde está Graxia? Ah, ai está você. Venha cá abraçar o papai. – abraçou sua filha e a entregou a Felixia que a pegou no colo – Temos que chegar na casa de Maranda, ela vai saber o que fazer. Fiquem atrás de mim o tempo todo, vamos! – E com essas palavras saíram até a casa de Maranda, andando cautelosamente.

Lá fora, as bolas continuavam a atingir a vila, no entanto, já não eram mais tantas. Andavam por ruas estreitas, evitando as principais onde certamente haveriam elfos negros os esperando. Em um momento de descuido, uma bola em chamas quase os acertou:

—CUIDADO! – Gritou Grabor enquanto dava um leve salto para trás – Temos que voltar um pouco. Não podemos passar por cima disso.

Felixia e Graxia assentiram. Os três regressaram um pouco, pegaram uma via alternativa e continuaram. Cerca de dez minutos que deixaram a casa, encontraram outro elfo negro, aparentemente sozinho. Como estavam encobertos por sombras, não foram notados:

—Grabor! Olhe! – Exclamou a esposa em cochichos.

—Fiquem aqui, quando acenar venham, e feche os olhos dela – sussurrou Grabor a sua esposa enquanto se movia lentamente com a lança em mãos e armada para um ataque.

Assim que saiu das sombras o elfo negro percebeu Grabor e se preparou para um confronto. Usava máscara então Grabor não pode avaliar sua habilidade. Só o que sabia era que o elfo se movia rápido. Seus ataques eram regulares e cautelosos. Grabor tinha dificuldade em desviar.

Pelo que se lembrava de seu treinamento com lança, se o adversário fosse melhor, o que estava se provando verdade, tudo o que tinha a fazer era desviar e esperar por uma abertura. Em meio a um desvio, Grabor acabou sendo atingido pela lança fazendo um corte na lateral de seu corpo. Foi superficial, mas fundo o suficiente para sangrar.

—Vejo que não é habilidoso com lança. Vai morrer logo! – Disse o elfo confiante.

—Então vocês falam – retrucou Grabor – Me diga, o que querem aqui? Perguntou enquanto desviava de outro ataque

—Nada que seja de seu interesse – respondeu o elfo – Pare de ser chato vovô. Tenho mais o que fazer, deixa eu te acertar vai, não prolongue seu sofrimento – dizia o elfo ainda mais confiante enfrentando alguém que não atacava.

—Vai ter que fazer mais do que isso pra me atingir – disse Grabor com muita atenção.

Depois de mais alguns desvios, a abertura que esperava apareceu. O elfo relaxou porque sabia que seu adversário não atacaria. Em uma investida, o elfo levou demais o corpo para frente, deixando as costelas desprotegidas. O trabalho que Grabor teve foi o de levar seu corpo para o lado da abertura, desviando da investida, armar a lança na altura na cintura e perfurar seu oponente, na altura do peito e na lateral do corpo.

Parte do cabo entrou junto com a ponta. O elfo negro caiu no chão e não esboçou nenhuma reação. Grabor largou a lança e pegou a que seu adversário usava, para poupar tempo. Acenou para sua esposa que o seguiu.

Levaram mais cinco minutos até que atingiram a casa central. Maranda estava do lado de fora da casa, analisando a situação. Ao se aproximar, os três fizeram um barulho indesejado, despertando a atenção de Maranda:

—Ali, a esquerda... – ordenou Maranda aos guardas para que atacassem. Quando Grabor se revelou as sombras, mudou seu semblante – PAREM – gritou – é Grabor. Voltem às suas posições.

E assim foi feito. Grabor então acenou para sua esposa, a qual sai das sombras com sua filha:

—Dona Maranda – falou Grabor – o que está acontecendo?

—Me pergunto a mesma coisa Grabor. Tudo está acontecendo tão rápido. Vamos entrar, sim? – Sugeriu Maranda.

—Por favor – agradeceu Felixia.

Maranda entrou seguida de Grabor, Felixia e Graxia. Os guardas permaneceram no lado de fora, guardando a casa.

—Minha casa foi destruída, assim como a de muitos, suponho – Grabor quebrou o silêncio momentâneo.

—Exato. Faz seis minutos que não vejo mais as catapultas, mas os elfos continuam a atacar e não posso fazer nada para proteger a vila, Grabor, nada. As sentinelas estão todas mortas suponho. Nenhuma relatou nada. Quanto à população, ou estão mortos ou são agora reféns. Não sei o que fazer – Falou Maranda quase chorando.

—O ataque eu entendo, mas porque Pomi? Porque não Nafra? –Perguntou Grabor.

—Talvez queiram nos enfraquecer para então atacar Nafra – sugeriu Maranda.

—Não faz sentido. Não temos poderio militar. Mal temos o suficiente para nós, quem dirá para a metrópole – rebateu Grabor.

—Ah, por favor, diplomacia agora não – falou Felixia – Temos que ir para algum lugar seguro.

Tudo lá fora acabara de se silenciar. Pela porta via-se os guardas de Maranda caídos, mortos. Na tentativa de avançar até a porta, Maranda parou, surpreendida por uma voz grossa e autoritária:

—Maranda Jill. Renda-se ou ouça os gritos de sua população se sacrificando por sua teimosia! – Falou a voz.

No andar superior se ouvia vidro quebrando: estavam invadindo a casa. Felixia se desesperou:

—O que faremos? O que faremos?

—Grabor, cozinha. Sabe o que fazer, vou segurá-los o máximo que puder. Vá, agora! Exclamou Maranda.

—Maranda Jill – a voz se pronunciou novamente – se renda ou ouça os gritos de sua população se sacrificando por sua teimosia!

—Estou aqui seus miseráveis – rebateu Maranda – podem vir me pegar! Desafiou-os Maranda que atenderam prontamente ao pedido.

Na cozinha, Grabor tentava arrastar um pesado fogão, no lado oposto ao da porta, no fundo da cozinha. Ao arrastar um pouco, o fogão revelava uma passagem secreta, um buraco na parede. Estreito mas grande o suficiente para entrar um de cada vez no túnel.

Na sala, os elfos invadiam sem pensar duas vezes. Mais de dez elfos entraram no ambiente. Maranda com sua agilidade conseguiu derrubar dois antes que a imobilizassem. Três se dirigiram para cozinha onde estava Grabor e sua família.

Ao chegarem na cozinha, Graxia e Felixia já tinham entrado no túnel. Em um ato de desespero pela aproximação dos elfos, Grabor pegou a caixa de fósforos que estava sobre o fogão e abriu as bocas que conseguiu alcançar. Entrou no túnel e observou os elfos se aproximando. Quando os elfos atingiram uma distância mais curta, Grabor acendeu o palito e o jogou na direção dos elfos, se pondo a correr imediatamente na direção do túnel.

Ao ver o palito acesso, os elfos negros entenderam o que o elfo planejava. Tentaram frear, mas era tarde de mais: ao encontrar o gás da fogão, a combustão foi instantânea e por mais que tenha sido por pouco tempo, a quantidade de gás que fora liberada causou uma pequena explosão que teve parte de suas chamas desviadas para dentro do túnel.

Grabor tentou correr, mas não foi a tempo. As chamas atingiram suas costas em cheio, queimando a roupa e o deixando com queimaduras de primeiro grau em grande parte de suas costas.

—AH – gritou de dor e caiu no chão do estreito túnel. Sua esposa parou imediatamente e retornou ao marido.

—Grabor você está bem?

—Não há tempo de conversas – disse Grabor – pegue Graxia e vá agora para Nafra, é onde dará o túnel. Procure a guilda. É nossa única esperança no momento. Vá antes que os guardas cheguem.

—Que a Divindade o ajude meu amor – e saiu apressada pelo túnel, em lágrimas.

Deitado no chão, Grabor sussurrou:

—Que a Divindade a ajude!

Em menos de um minuto os guardas chegaram e tiraram Grabor de dentro do túnel. O amarraram em uma cadeira, e o colocaram na sala, ao lado da cadeira de Maranda. Suas costas latejavam mais do que qualquer coisa estando em carne viva e tocando a madeira da cadeira. Na cozinha, o líder do ataque falava:

—O ataque foi bem sucedido. Quero que você entre neste túnel e descubra sua saída e se alguém conseguiu escapar. Seja rápido e só volte quando seu serviço terminar. É meu melhor soldado, volte vivo!

—Sim, Platos! Como desejar – e o elfo negro entrou no túnel, sem questionar a ordem do líder.

Notas finais
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