Grabor

6 Capítulo 06 - Nostalgia


Notas iniciais
Gostaria de agradecer novamente ao leitor Gabriel Nunes pelos comentários e pelo apoio. Miss M, ainda está ai? Matheus, meu xará, você continua ai, não é? Comente rapaz. Sem mais enrolação, boa leitura!

POVOADO POMI, SUL DE NAFRA

Grabor não pensava em mais nada, não via mais nada, somente sua filha, Graxia e sua esposa, Felixia que vinham em sua direção e no perigo que corriam com Jorkin logo atrás delas, com a espada em mãos e pronto para atacar. Ao começar a correr chutou algo: a espada de Platos. Esteve ali o tempo todo como se fosse um sinal, como se fosse para Grabor enfrentar seu antigo amigo e salvar sua esposa. Não pensou duas vezes: pegou a espada e correu o mais rápido que pode.

–Felixia – gritou o mais alto que sua voz permitiu – cuidado!

Felixia olhou para trás compreendendo o perigo. A espada de Jorkin estava a poucos metros do seu corpo. Não tendo outra opção, se jogou para o lado, caindo no chão junto com Graxia no momento certo, salvando seu rosto de um corte fatal.

Grabor corria o mais rápido que podia, estava ainda longe de Jorkin que parava seu corcel após o golpe frustrado e descia do mesmo. Indo na direção da moça que se jogara no chão.

–Fique longe dela – gritou Grabor novamente, o que atraiu a atenção de Jorkin limitando-se a sorrir, um sorriso maligno.

Enquanto Grabor corria, Allie ameaçava correr também para ajudar, mas Hila o conteve, segurando em seu pulso na hora em que começou a correr:

–Não devemos... – disse Hila – isso é entre os dois – completou.

Maranda se juntou a eles, na frente de casa e olhou para Allie e Hila com uma cara de quem pergunta “Não vamos ajuda-lo”, mas conteve seu pensamento ao ver Hila segurando Allie, impedindo-o de avançar. Maranda entendeu o recado e ficou apenas observando. Effort jazia no sofá da sala de Maranda, adormecido, exausto, após usar um feitiço de transposição.

Grabor já tinha corrido uma boa distância, mas estava longe ainda. Suas costas não doíam mais, na verdade doíam, mas ele a ignorava completamente. A adrenalina já estava pelo seu corpo, não percebia nada ao seu redor senão elas: Felixia e Graxia.

Jorkin caminhava até a mulher e a criança enquanto, no chão, Felixia, com Graxia no colo, lutava para se afastar de Jorkin até que encontrou a parede de uma das lojas e não pode fugir mais. Sua expressão era séria, decidida. Estendeu sua mão até a criança e a pegou pelo braço, fazendo força para tirá-la dos braços da mãe que resistia a todo custo.

Grabor continuava correndo. Chorava enquanto observava a cena, estava perto de Jorkin, mas não o suficiente. Chegaria até em ele em segundos. Por enquanto não lhe restava nada senão chorar e gritar.

–Saia de perto delas seu verme – gritava o mais alto que podia.

Felixia resistia o quanto podia, mas o elfo era mais forte.

–Larga ela, larga ela – falava Felixia, chorando. Graxia também chorava em seu colo enquanto mantinha o olhar fixo em Felixia.

–Mamãe, não deixa mamãe... – dizia Graxia.

Felixia aguentou o máximo que pode, mas depois de Jorkin fazer um corte no seu braço, soltou a filha que com a força da puxada do elfo, foi direto para o colo do mesmo.

–Não! – Gritou Grabor. Só podia gritar, não dispunha mais da magia.

Graxia chorava enquanto tentava se soltar. Felixia levantou e avançou na direção do elfo, as lágrimas corriam pelo seu rosto.

–Largue-a seu monstro, largue-a! – Com as mãos por sobre o braço que segurava Graxia, tentou puxá-los, sem nenhum sucesso.

Jorkin deu um chute na barriga de Felixia, jogando-a contra a parede de onde se levantou. Ao atingir a parede, gritou, não pela dor, mas por não conseguir libertar sua filha. A pancada tinha sido forte, certamente tinha rompido alguma artéria o que se pôde concluir pelo sangue que saia de sua boca.

–Então essa é sua filha Grab? – Jorkin falava com Grabor pela primeira vez em trinta e seis anos. Sua voz era grossa, impotente. Sua face era também séria.

Jorkin estava parado, a frente de seu Corcel com as pernas levemente abertas. Tronco ereto. Na mão direita segurava sua espada feita totalmente de Makit, um metal que só pode ser criado por um mago; é a materialização pura da energia mágica. Com o braço esquerdo segurava Graxia no colo que lutava para se libertar. Estava vestido com uma armadura negra, idêntica a de Platos, mas não usava o capacete. Na sua face, a cicatriz no olho direito se destacava, junto do olho quase todo branco que destoava do esquerdo, verde. Carregava mais uma cicatriz, abaixo da boca, no sentido horizontal.

–Solta ela. Como se atreve Jorkin! – Gritou novamente Grabor. Já estava a menos de cem metros de distância.

–Você me tirou uma das coisas que mais amava – e apontou com a espada o olho direito, cego – Sinto que devo retribuir – e apontou para Graxia.

Felixia somente chorava, observando a cena. Olhou rapidamente para o céu, já era dia, o sol iluminava Pomi. Havia poucas nuvens, seria um dia agradável. Encarando essa beleza, fez uma súplica mentalmente “Divindade, ajude-nos, por favor,” e voltou a olhar para frente. Seu marido já estava perto o suficiente e armava a espada para o combate.

Grabor tentou um ataque de cima para baixo do lado direito de Jorkin, evitando acertar Graxia. O elfo se limitou a ir para o lado direito, posicionando Graxia na direção do ataque do elfo. Grabor, percebendo o movimento, parou a espada e fitou Graxia, suspirando. Quase acertara sua filha. Em meio à reflexão, recebeu um chute na barriga, sendo arremessado para trás e caindo. Como estava sem armadura, recebeu todo o dano do chute.

–Não machuque sua filha Grabor – disse Jorkin ironicamente, mas sem esboçar nenhum sorriso no rosto – a Divindade não gosta!

Grabor se levantou e atacou de novo, um ataque lateral, novamente na direita de Jorkin.

–Solte-a! – gritou Grabor enquanto executava o golpe. Estava sem prática com a espada. Usara uma pela última vez há muito tempo.

Jorkin se limitou a bloquear o ataque, criando uma abertura e chutando Grabor novamente na barriga, fazendo-o cair e cuspir sangue desta vez. Felixia tentou esboçar outra reação e correu na direção do elfo.

–Larga minha filha! – gritou enquanto corria com ambas as mãos esticadas na direção de Jorkin.

O elfo apenas deu um passo para trás e estendeu um dos pés, fazendo Felixia tropeçar e cair, rolando levemente até o outro lado da rua, de onde não se levantou. Apenas chorava e gritava, fitando o céu.

Ao voltar sua atenção para Grabor, recebia outro ataque que fora facilmente bloqueado. Após bloquear o ataque, Jorkin abriu alguns dos dedos que segurava a espada, apontando a palma da mão na direção de Grabor, mas sem deixar a espada cair. Fitou-o com o olhar e executou um feitiço. Uma bola negra se formou próximo à barriga de Grabor e explodiu em seguida, arremessando o elfo na rua, na direção da casa de Maranda, por alguns metros.

–Grabor, onde você esteve esses anos todos? Você disse que iria me visitar em Cordol! Fiquei te esperando, mas você não foi. Onde esteve? – Jorkin perguntou com o ódio tomando conta de seu corpo, exaltando cada veia da sua face.

Grabor ficou sem resposta, apenas deixou o choro tomar conta de seu rosto, fitando Jorkin e Graxia.

Na casa de Maranda, Hila, Allie e Maranda observavam o que acontecia. Hila estava em lágrimas, abraçando o mais forte que podia seu noivo. Maranda apenas encarava a situação deixando a raiva tomar conta de seu corpo. Queria fazer alguma coisa, mas não podia interromper. Allie estava firme, vibrando para seu velho amigo. Dentro da casa, Effort continuava adormecido e não acordaria tão cedo.

–Você não sabe o quanto eu sofri Grab – continuou Jorkin – Você não tem ideia do que aconteceu depois que eu sai daquele hospital! – gritou Jorkin.

–Me... Me... Me desculpe – sussurrou Grabor.

–Não ouvi Grab, o que disse? – Perguntou Jorkin novamente irônico, mas sem sorriso no rosto.

–Me desculpa! – gritou Grabor entre lágrimas.

–Desculpa? Você está me pedindo desculpa? Desculpas não vão consertar o que você fez. Você arruinou minha vida e agora eu só quero que você sinta um pouco do que você me fez passar. – Disse Jorkin com um desprezo na voz. Após a fala, deixou Graxia cair, segurando-a pelo braço e mantendo sua face virada para onde Grabor estava.

–Papai! – Gritou Graxia, fazendo Grabor levantar e correr na direção de Jorkin, pronto para o ataque, mas parou quando Jorkin colocou a espada no pescoço de Graxia que ficou paralisada.

Grabor caiu de joelhos, suplicando em lágrimas.

–Não! Não! Seu débito é comigo, não com ela! Solte-a, por favor – pediu Grabor com um aperto no coração.

–Como ordena! – disse Jorkin e sorriu.

Jogou Graxia na direção de Felixia puxando seu ombro levemente antes de soltá-la, fazendo com que se virasse, deixando sua face visível tanto para Jorkin quanto para Grabor. Posicionou a espada na maça direita, no mesmo local onde Grabor havia posicionado involuntariamente a espada em seu rosto trinta e seis anos atrás e fez o mesmo corte, passando pelo mesmo olho, cegando a menina no olho direito.

Graxia gritou como nunca havia gritado na vida e caiu na direção de Felixia que a abraçou só como uma mãe sabe fazer. Grabor se levantou prontamente e avançou na direção da filha, no entanto, foi interrompido por um chute de Jorkin que o jogou para trás novamente, fazendo-o cair.

Da casa de Maranda, o espanto tomou conta dos três rostos. Maranda novamente esboçou uma reação, mas se conteve. Hila virou o rosto, escondendo-o no peito do noivo. Não queria ver a cena. Allie apenas deixou as lágrimas caírem, fazendo um cafuné em sua noiva.

Felixia segurou sua filha que acabara de desmaiar. Olhava indignada com a situação, fitando sua filha e murmurando:

–Por quê? Por quê?

Jorkin mantinha sua expressão séria, encarando Grabor.

–Vamos, levante-se. Quero lutar com meu velho amigo.

Sem pensar duas vezes, Grabor levantou e avançou na direção de Jorkin. Fez um ataque lateral, da esquerda para a direita. Jorkin bloqueou, levantando a espada de Grabor e finalizando com um corte na perna direita de Grabor.

–Depois que eu sai do hospital – começou Jorkin – o primeiro a me ignorar foi o enfermeiro. Zafir! Aquele imundo. Disse-me que pagaria a conta de bom grado, mas acabou por me odiar o resto de sua vida por ter perdido o emprego, colocando a culpa em mim – continuou.

Grabor investiu novamente com um ataque de baixo para cima, gritando. Jorkin apenas firmou sua espada, bloqueando o ataque, livrou uma das mãos e segurou firme no pescoço de Grabor.

–Zafir me tratou como lixo! Após sair do hospital, fiquei vagando pelas ruas de Cordol, mas não era mais como antes. A notícia de um ataque iminente dos elfos negros fez a população de Cordol ter a imagem errada de nós, elfos negros. Nem todos somos violentos e eu não era! Injustamente, acharam que você tinha tentado me eliminar, antes que eu prejudicasse a pequena cidade, como se você já soubesse de tudo. E sua partida contribuiu ainda mais para minha desgraça! – Continuou Jorkin, com raiva e ódio no rosto.

Jorkin soltou sua espada, deslizando-a pela de Grabor até cortar a mão do elfo, desviando seu corpo para o lado em seguida. Grabor apenas ouvia a tudo, investindo contra Jorkin. Tentou um ataque frontal, mas sem força devido a sua mão estar machucada. O elfo negro nem bloqueou, apenas desviou o corpo do ataque e usou a própria força da investida para derrubar Grabor no chão, fazendo outro corte em suas costas em seguida. Observando o ferimento prévio, pensou: “Platos tocou nele. Eu fui bem claro... Foco Jorkin, se entenda com Platos depois”.

–Não tive outra opção senão fugir da cidade – continuou Jorkin – fui para o leste, evitando o norte a todo custo. Fiquei dois anos fugindo, sobrevivendo somente com migalhas, indo de cidade em cidade. Até que encontrei Platos, na mesma situação que eu, mas não com o mesmo passado.

Grabor levantou e atacou de novo. Jorkin bloqueou de cima para baixo, fazendo Grabor perder o equilíbrio. Deu uma joelhada em seu rosto e se afastou, deixando-o cair onde estava.

Há poucos metros, Felixia pressionava o olho de Graxia, tentando estancar o sangramento e ainda estava em lágrimas. Na casa de Maranda, Hila olhava atenta novamente ao que acontecia. Ela e Allie choravam. Maranda ainda estava indecisa sobre o que faria, mas as lágrimas tomavam conta de seu rosto também. Até os fortes choram.

–Então, construímos uma bela amizade. Crescemos juntos, sobrevivendo, sendo atacados injustamente pelo mundo. Não havíamos feito nada, absolutamente nada. Enfim, chegamos a uma fazenda, no extremo sul do continente, era uma fazenda até grande onde uma família de elfos negros vivia: os Freneti. Foram tão acolhedores e tão amorosos conosco.

Grabor novamente se levantou e tentou outro ataque. Estava exausto e provavelmente seria seu último. Não havia mais o que fazer. Sem a magia, não tinha chance alguma contra Jorkin. Pegou a espada firmemente e tentou um ataque de cima para baixo. Jorkin novamente bloqueou com a espada. Com uma das mãos livres, segurou as mãos de Grabor que seguravam a espada e chutou o abdômen do elfo, com força, fazendo-o largar a espada que fora segurada por Jorkin e caiu no chão, as mãos protegendo o local no chute. Jorkin parara a sua frente, segurando sua espada na mão direita e a de Platos na esquerda.

–Eram eles: Otawa Freneti a mãe, Wilson Freneti o pai, Nun Freneti o filho e Mary Freneti a filha. Vivemos, eu e Platos, com eles por cinco anos, aprendi muito, até a guarda élfica chegar lá e dizimar tudo. Mataram a senhora Otawa e o senhor Freneti. Conseguimos, eu, Platos, Nun e Mary fugir por pouco, mas muito pouco mesmo.

–Acabe logo com isso – pediu Grabor – me mate!

–Ah não. Te matar aqui? Sua família está aqui assim como seus amigos – olhou para a casa de Maranda – mas e meu exército, onde está? – olhou ao redor – Vês algum exército? Pra que tem matar se meu exército não pode presenciar minha glória?

Grabor, ainda chorando, observou cautelosamente a espada de Jorkin pela primeira vez. Tinha um tom lilás e runas por toda a sua extensão. “Makit! Mas como?”

–Onde conseguiu essa espada? – Grabor perguntou, entre lágrimas e confuso.

–Essa aqui? – Perguntou Jorkin enquanto levantava levemente sua espada – Não interessa. E não me interrompa novamente! – Finalizou Jorkin e logo retomou sua fala.

–Por fim, chegamos ao centro da rebelião dos elfos negros, onde recebi um devido treinamento. Alguns anos mais tarde, com a morte no nosso líder em combate, fui selecionado para tomar seu lugar através de um torneio interno e estou onde estou Grab.

Jorkin não gaguejou em nenhum momento. Manteve sua voz firme, impotente.

–O que fará com o povoado agora que o tem? – Perguntou Grabor com timidez na voz.

–Absolutamente nada – respondeu Jorkin – meus homens não foram capazes de mantê-lo. Aliás, era só um teste mesmo. Meus planos são outros. Agora me responda: vocês mataram Platos? É que eu preciso dele.

Grabor não disse nada.

–É claro que não mataram. Se o tivessem, teriam o exibido como troféu! – completou. Embainhou sua espada e encaixou a de Platos em um compartimento na sela do corcel. Montou-o e avançou na direção da casa Principal

Maranda, percebendo o movimento, adentrou a casa na busca de uma lança. Assim que encontrou, voltou à rua e avançou na direção Jorkin que se aproximava com rapidez. Hila soltou Allie e preparou uma bola de fogo nas mãos. Allie preparava uma bola de plasma.

Jorkin chegou a casa rápido, parou a uns trinta metros e desceu do corcel. A bola de plasma já tinha sido lançada, com as bolas de fogo logo atrás. Maranda avançava pela frente, armada com uma lança. Com um movimento da sua mão direita, criou um escudo de magia negra. Os feitiços, ao tocarem, foram neutralizados, como se fossem o vento batendo nas rochas. Olhou para os magos e pensou “durmam” e em seguida, os corpos de Hila e Allie caíram. Não estavam prontos para um ataque de magia negra.

Maranda pulou a fez um ataque de cima para baixo. Jorkin desviou o corpo, fazendo a lança cravar no chão. Ao tentar uma cotovelada, Maranda recebeu um chute no rosto com uma força espetacular. Foi jogada contra uma das lojas, quebrando a parede e ficando inconsciente. Jorkin caminhou tranquilamente para a casa principal. Ao entrar, notou um corpo deitado no sofá, inerte, vestido em preto. Mais adiante, perto da porta que levava a cozinha, o general Platos amarrado e inconsciente. Sacou sua espada e o livrou das cordas, colocou-o por sobre seus ombros e se retirou da casa, embainhando a espada novamente.

Ao sair, tocou na parede externa e murmurou:

–Darka: vazio.

Retirou sua mão em seguida e se dirigiu para o corcel. De onde retirou sua mão, a casa começou a se desintegrar, sumindo aos poucos. Após ajeitar a si e ao seu amigo no corcel, deu a ordem para que o equino acelerasse. Parou ao lado de Grabor que abraçava Felixia e Graxia. Grabor se limitou a somente olhá-lo, com a cara fechada.

–Nos vemos por ai Grab! – Despediu-se Jorkin e seguiu com o corcel a toda velocidade, na direção de onde viera.

–Com certeza! – Concordou Grabor.

Notas finais
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