Grabor
7 Capítulo 07 - Decisão
Notas iniciais
POVOADO POMI, SUL DE NAFRA
A casa se deteriorava aos poucos: a parede externa frontal já havia desaparecido e o teto ameaçava cair. No chão, do lado de fora, próximos a ela, estavam Allie e Hila desacordados. Dentro da casa, Effort ainda estava inconsciente, deitado no sofá da sala cujo teto ameaçava cair a qualquer minuto. Próximo à saída do povoado, Grabor abraçava sua esposa e sua filha enquanto fitava Jorkin sumir a distância em seu corcel carregando o general Platos.
Maranda foi a primeira a esboçar uma reação. O chute tinha sido o forte o bastante para deixá-la inconsciente, mas acabara de se recuperar. Estava dentro da primeira loja do lado direito da avenida mal botou os pés para fora e notou a casa se deteriorando com o feitiço de Jorkin. Olhou para dentro e viu Effort deitado no sofá e correu o mais rápido que pode.
Por não existir mais a parede frontal, conseguiu entrar tranquilamente, pegar Effort no sofá e o levar para uma área segura, há poucos metros da casa. Hila e Allie estavam muito próximos da casa e quando o telhado ruísse, cairia por sobre os dois. Pegou-os pelos braços e os arrastou para uma região segura, próximo a Effort. Tornou seu olhar para dentro da casa: “O sinalizador”, pensou, e voltou a entrar na casa, dentro de uma pequena sala abaixo da escada. Ao entrar, o telhado cedeu levando consigo a casa.
Grabor ainda não havia se recuperado do choque, no entanto, despertou ao ouvir um estrondo ao fundo. Ao se virar, notou que a casa de Maranda havia desmoronado. Levantou-se e se pôs a correr. Felíxia não olhava para mais nada, não notava nada; somente Graxia desmaiada e com um leve sangramento no olho. Estava cega do olho direito, mas não corria risco de vida. No seu rosto, um misto de pena, por sua filha, e ódio profundo por Jorkin.
Dentro da casa principal, Maranda ainda respirava, mas estava presa por uma viga de madeira que caiu por cima de sua barriga. Felizmente tinha chegado ao sinalizador. Tratava-se de um pedaço grande de pano que enrolava algo. Ao abrir, um arco, duas flechas e dois frascos com líquido dentro apareceram. Mesmo com seus movimentos limitados, Maranda conseguiu manejar tudo o que precisava: abriu os dois frascos e misturou ambos os líquidos em um frasco só. Em seguida, arrancou um pequeno pedaço no pano e o amarrou em uma das flechas mergulhando a mesma no frasco da mistura em seguida. Após isso, pegou o arco e se preparou. Teria de ser rápida.
Raspou a flecha em uma das pedras que estava próxima a ela, incinerando a flecha com um fogo verde, originário da substância do frasco, colocou a flecha no arco e apontou para cima, em uma das aberturas do telhado desabado; puxou a corda e a soltou, em seguida. Repetiu rapidamente o movimento com a outra flecha e a colocou no arco: “cinco, seis, sete...”, puxou a corda, “...oito, nove, dez” e soltou a corda, lançando a outra flecha. Largou o arco e ficou ali, esperando pelo socorro. A viga era muito pesada e não poderia ser levantada sozinha. Após a casa ceder, o feitiço acabara.
Grabor viu as flechas sendo disparadas de dentro da casa, ou do que restara dela, e apressou o passo. Sabia o que significava: em caso de um ataque surpresa, os capitães da guarda do povoado deveriam levar a população até três refúgios pré-preparados e defendê-los até segunda ordem. Duas flechas verdes separadas por dez segundos indicava que tudo estava tranquilo e que a população podia ser liberada dos refúgios; Duas flechas vermelhas indicavam evacuação imediata da população até Nafra. Não demoraria até os capitães atingirem o centro da vila junto da população.
Após um minuto correndo, Grabor chegou até o centro do povoado. Allie, Hila e Effort estavam desacordados e sem sinal de Maranda. Foi até Allie e abriu seus olhos: junto da parte branca havia riscos pretos que pareciam partir da íris e se espalhavam por todo o olho. Em Hila a mesma coisa: “Magia negra!” concluiu Grabor. Foi até Effort e repetiu o procedimento, entretanto, Effort estava inconsciente devida à magia que usara para deter Platos.
Grabor posicionou sua mão na nuca de Effort, procurando a vértebra que ficava diretamente abaixo da boca. Ao encontrá-la, fez pressão na parte central ao mesmo tempo em que forçava a testa de Effort para o chão. Funcionou: o mago acordou tossindo e sentou-se.
–O que aconteceu? – Perguntou curioso.
–Longa história – respondeu Grabor com a voz pouco rouca – preciso que você acorde Hila e peça-a para estancrar o sangramento de Graxia – e apontou na direção de sua filha. Effort assentiu, indo até Hila. Enquanto isso, Grabor entrou nos destroços da casa, procurando por Maranda. A viga por sobre a sua barriga dificultava a respiração e Maranda já estava quase desmaiando. Ao ouvir movimentação, tentou gritar, mas não conseguiu falar mais alto do que o habitual:
–Aqui! Socorro! – Suplicava Maranda.
–Maranda, é o Grabor. Estou aqui, continue falando comigo, ok?
–Grabor... Aqui. Rápido – sua voz falhava a cada momento.
Grabor andava na direção da voz, seus cortes reclamando da movimentação, até que a voz de Maranda cessou, mas Grabor a tinha encontrado. Com muito esforço, Grabor conseguira remover a viga de madeira de cima dela e agora a carregava para fora dos destroços. Ao sair com Maranda, colocou-a ao lado de Allie que ainda estava inconsciente, Effort ao seu lado, murmurando o feitiço que o acordaria. Hila já estava correndo na direção de Graxia, a meio caminho.
Por entre as ruas secundárias de Pomi, os capitães avançavam rapidamente, tentando chegar ao centro do povoado. A população aos poucos voltava aos seus lares, avaliando os danos do ataque surpresa.
Após o feitiço, Allie acordara e Effort caiu exausto novamente, mas não apagou. Um brilho de luz começou a piscar na frente de Allie: uma mensagem da Guilda. Allie pôs a mão sobre a luz, falando:
–Mensagem aceita.
A luz se ampliou formando um círculo no ar. Quem estava aparecendo era uma moça ruiva, muito bonita: lábios carnudos, olhos vermelhos e marcantes. Tratava-se de Amber. Sua voz era doce e serena.
–Allie, finalmente a mensagem foi aceita. O que aconteceu ai? Iniciamos o protocolo nove, como sugerido. A população aqui não para de falar do ataque, mas ainda nenhuma notícia definitiva. No aguardo da resposta. Amber desliga.
Imediatamente, Allie desenhou um circulo quase perfeito no ar. Quando acabou, uma luz surgiu:
–Guilda de Nafra. Mensagem privada para Amber – a luz ficou amarela – Jorkin apareceu em pessoa, teve uma luta pessoal com Grabor e Graxia acabou por ter o olho cortado, acho que está cega. Não podíamos interferir você sabe o código de ética dos magos. No mais, está tudo tranquilo. Eu, Hila e Effort conseguimos dar conta do recado e Jorkin já foi embora, seguindo para o sul. Podem desativar o protocolo nove. Devemos estar de volta antes do almoço. Allie desliga – Allie tocou o círculo que ficou branco e desapareceu.
Maranda, já acordada por Effort, virou-se para Allie:
–Como assim código de ética dos magos?
–É um código passado entre os elfos durante o aprendizado. Uma das regras é a de que um mago não pode interferir em combates pessoais de outros magos, por isso eu e Hila não interferimos no combate – respondeu Allie, levantando-se.
–Mas Grabor não é mais um mago. Ele renunciou à magia, não é? – Tornou a perguntar Maranda.
–Uma vez mago, sempre mago, mesmo que recuse a energia primeva, ele poderá controlá-la novamente se desejar.
–Esse papo doido de magos é muito para mim – e virou-se, encarando o primeiro capitão que chegava a casa principal – Dyn! Tudo sob controle. Muito obrigado pelos seus esforços.
Um elfo totalmente em armadura de prata apenas se curvou, mostrando respeito aos agradecimentos.
–O refúgio funcionou perfeitamente dona Maranda. Os cidadãos foram protegidos. Agora, se me der licença, meus companheiros me aguardam para avaliar os danos.
–Tem toda a licença capitão. Já me junto a vocês. – Finalizou Maranda. Olhou para Grabor e abraçou-o – Obrigado!
Grabor apenas assentiu e se largaram em seguida. Allie quebrou o silêncio momentâneo:
–Devemos voltar para Nafra – virou-se para Maranda – talvez eu consiga alguns construtores para ajudar a reparar o povoado.
–Seria de grande ajuda! Se puder, faça isso, por favor.
Felixia, Graxia e Hila se juntavam ao grupo, no centro do povoado. Grabor, pego de surpresa, abraçou a filha, no colo da mãe, o mais que pode, sem machucá-la.
–Consegui estancar o sangramento e cicatrizar o olho. Ela deve acordar em breve – disse Hila.
Grabor largou sua esposa e abraçou Hila, em agradecimento.
–Muito obrigado Hila, muito obrigado! – Agradeceu e soltou-a em seguida.
–Aquele desgraçado vai pagar e muito caro! – Ponderou Maranda.
–Me certificarei disso – disse Grabor.
–Senhores, se me derem licença, tenho uma reunião com os capitães. Até breve – falou Maranda.
Apertando a mão de todos, se retirou.
–Effort – começou Grabor – consegue abrir um portal para a Guilda?
–Posso tentar, mas não garanto nada! – Respondeu Effort com cansaço na voz.
Dirigiram-se todos até uma das lojas da rua principal, onde houvesse uma parede que pudesse ser usada para realizar o portal. Effort posicionou sua mão na parede e tentou abrir o portal. Sem sucesso.
–Ainda não tenho energia suficiente para abrí-lo.
–Tudo bem. Conversaremos aqui então – começou Allie – Grabor, você precisa voltar!
–O que? – Felixia se pronunciou. Olhou para Grabor – Mas amor, você prometeu! Não... É perigoso Grabor!
–O que você quer dizer Allie? – Perguntou Grabor.
–Como você pretende matar Jorkin? – Foi a vez de Hila perguntar.
–Eu não sei... Eu!
–Grabor não! Você mesmo disse que era perigoso – falou Felixia.
Grabor estava sem reação. Tinha abandonado a magia há um bom tempo, pois sabia que utilizando a energia primeva seria rastreado, comprometendo sua família. Por isso renunciara.
–Você vai reaprender a usar uma espada? Grabor ele treina há sei lá quantos anos e você parou quando se mudou para Nafra. Você não tem chance alguma com armas – Ponderou Allie.
Effort estava calado, só guardando energia para abrir o portal.
–Falando em armas, Grabor, ao renunciar você destruiu todo o Makit que tinha criado, no ritual. Como explica a espada de Jorkin se você era o único que conseguia criar o Makit? – Perguntou Hila.
–Sim, eu destruí todo o Makit e certifiquei-me de não deixar nada.
–Bem, parece que não destruiu todo o Makit... – disse Allie
–...ou existe um mago tão poderoso quanto eu – concluiu Grabor.
* * *
Um pouco mais ao sul de Nafra, próximo à fronteira do pântano de Nafra com o deserto vermelho, um numeroso exército se reunia. Havia ali, facilmente, vinte mil homens que aclamavam freneticamente a chegada de seu líder: Jorkin.
Chegou montado em seu corcel, carregando em suas costas o general Platos. Parou o equino na frente de dois outros elfos negros, vestidos diferentemente dos outros guerreiros. Eram um elfo, Nun, e uma elfa, Mary, ambos vestidos com capas pretas por sobre uma couraça negra e calças longas de igual cor, finalizando um com bota por debaixo da calça. O elfo possuía cabelo curto e negro, tinha uma expressão séria e nenhuma cicatriz. Seu olhar era penetrante. Do seu lado estava sua irmã, Mary, com os cabelos castanhos que chegavam até a metade das costas, tinha olhos amarelos e um olhar tão penetrante quanto o do irmão.
Jorkin desceu de seu corcel, colocando Platos gentilmente no chão e sua espada por cima, olhou para Mary e disse secamente:
–Acorde-o!
–Como deseja comandante! – Respondeu Mary que, com o olhar, despertou Platos.
O general acordou confuso. Olhou para sua barriga e viu um belo buraco na armadura, mas não havia nenhum ferimento. A armadura tinha servido ao seu propósito. Platos levantou-se e seu olhar encontrou o de Jorkin que o fitava com raiva:
–O que eu lhe disse antes de lhe enviar até Pomi com dois mil homens, general Platos? – Perguntou Jorkin, ainda secamente.
–Que eu deveria encontrar esse tal de Grabor e não machucá-lo sob nenhuma hipótese! – Respondeu Platos, retribuindo o olhar!
–Pois bem, como explica a queimadura e os profundos machucados nas costas de meu velho amigo?
–Ele se queimou quando estava tentando escapar. O capturamos e depois, devido a um insulto, risquei as costas dele com um pedaço de vidro!
–E você acha que cumpriu com o acordo, general? – Perguntou Grabor ironicamente.
–Não senhor! Comandante.
Jorkin apenas olhou para Nun que entendeu o recado. Nun simplesmente fitou Platos que caiu no chão imediatamente tendo espasmos e gritando tão alto que o último homem naquele mar de guerreiros o escutou. Após cerca de trinta segundos, Jorkin assentiu para Nun que parou a ilusão!
–Que sirva de lição, general – e se aproximando do ouvido de Platos, sussurrou de modo que só ele ouviu – Desculpe-me amigo, mas você errou e devo puni-lo perante o exército para não me mostrar fraco!
–Mas ninguém sabia – comentou Platos no mesmo timbre.
–Eu sabia – respondeu Jorkin – é o que basta – e se afastou de Platos.
–Mary e Nun, podem ir na frente. Vou ter uma reunião com o exército e continuaremos em seguida! Encontro-os onde combinado – ordenou Jorkin e se dirigiu ao meio do exército.
* * *
–Não mudem de assuntou – cortou a discussão, Felixia – Grabor não irá usar magia novamente!
Effort tentou abrir o portal, dessa vez com sucesso.
–Todos entrem! Hila, faça as honras!
Como pedido, Hila foi a primeira, dando o destino do portal. Em seguida, Allie, Grabor, Felixia e Graxia e, por fim, Effort, fechando o portal. Somente Amber estava na sala da guilda, sentada na mesa central. O estrago feito anteriormente já havia sido arrumado. Mal cruzaram o portal e se juntaram a Amber à mesa.
–Onde está Tom? – Perguntou Effort a Amber.
–Olá para você também. Foi desativar o protocolo nove. Uma das defesas deu problema – olhou para Grabor e Felixia – Grab, Fel, bem-vindos – olhou para Graxia – ó, e essa criança linda?
–Olá Amber – cumprimentou Felixia – essa é Graxia, nossa filha – e deitou suavemente a cabeça no ombro de Grabor.
–O que os traz aqui? – Perguntou Amber. Quem respondeu foi Allie.
–Lembra-se do que conversamos na última reunião?
–Então é isso... Bem Grabor a real é que estamos perdendo feio as batalhas mais importantes. Pomi foi atacada agora, totalmente antes do previsto e certamente haverá outro ataque, só não sabemos quando. Nossa Guilda é poderosa, daremos conta por um tempo, mas não conseguiremos aguentar para sempre. Mantemos contato com a Guilda de Colossus e alguns ataques já estão ocorrendo no norte também. Grabor, você é nossa única esperança. Sem você, todos os elfos estão condenados!
–Se perdermos Nafra, eles terão uma perspectiva perfeita para irem a Colossus. Devemos evitar isso a todo custo. Grabor, precisamos da sua ajuda, mas não iremos te forçar a nada. Deve ser uma decisão sua e de sua família – completou Hila.
Todos ficaram em silêncio. Grabor apenas olhou para sua esposa e depois de um longo minuto, quebrou o silêncio.
–Preciso falar com Felixia por um momento, se nos dão licença – e levantou-se junto de Felixia que deixou Graxia com Hila. Foram até um local reservado no fundo da sala, próximo a biblioteca.
–Grabor, estou com medo. Se você partir para a guerra, não terei onde ficar. Meus pais morreram e temo pela segurança de nossa filha.
–Sei o que lhe prometi meu amor e diante dos fatos apresentados não terei outra escolha senão voltar e me juntar a Guilda novamente. Podemos pensar em algo, vamos ver!
–Grabor, tem certeza do que está fazendo?
–Jorkin machucou minha filha, uma criança inocente que não tinha nada a ver com nosso passado. Te machucou, a mulher que amo e que também não deve nada a ele.
Felixia apenas o abraçou, emocionada.
–Minha mãe está trabalhando no Hosital Mundial. Estão sempre precisando de trabalhadores e você estará a salvo lá por ser uma área internacional! Confie em mim, dará tudo certo!
–Pois bem, então que assim seja – e soltou seu marido. Ao se dirigir para a mesa, foi segurada pelo braço:
–Você precisa me liberar do juramento antes de prosseguirmos.
Felixia voltou e ficou de frente para seu marido, que se ajoelhou.
–Grabor Linconsin! Eu, Felixia Linconsin te libero do juramento de proteção, permitindo-lhe escolher o que proteger a partir de agora!
Garbor se levantou e a beijou em agradecimento. Voltaram ambos para a mesa, mas a única a se sentar foi Felíxia. Grabor apenas parou em pé diante de seu lugar, preferindo falar dali mesmo:
Tom tinha acabado de entrar no recinto e por mais que a porta fizesse um pouco de barulho, ninguém o havia notado.
–Antigos companheiros de Guilda. Em decisão conjunta com minha família a qual jurei proteger unicamente, como justificativa de afastamento, decidi por anular o presente juramento e me comprometendo novamente com a Guilda que fundei e a ajudar o planeta da melhor forma!
Todos esboçaram um enorme sorriso no rosto. Tom, de onde estava se pronunciou.
–E o que isto significa?
Todos olharam para o recém chegado. Grabor sorriu e respondeu à pergunta:
–Significa que serei atingido por um raio novamente!
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