Got My Heart In Your Hands
141 Rastros
Notas iniciais
A rua estaria completamente deserta, se não fosse pela enorme e luxuosa casa que ocupava todo o quarteirão. Também os postes já haviam se apagado e o vento gélido da noite percorria o local sem obstáculos. O rapaz, sentado no sofá desta casa, olhava o relógio, já passava da meia-noite e o silêncio predominaria na sala se não houvesse o tic-tac. Seus olhos castanhos percorreram a mansão na qual crescera, os empregados já estavam dormindo e não mais havia crianças.
Uma luz, que vinha de fora, iluminou onde estava, fazendo aquela solidão ainda mais assustadora. Pierre, que estava preocupado, saiu de casa para visitar David novamente. A brisa noturna tocava o rosto dele de maneira violenta, arrepiando o seu corpo. Ficou observando a luxuosa casa, e o rapaz que antes estava no sofá, levantou-se e foi até a janela, encarando Pierre, que se apavorou e acelerou seus passos.
“É o irmão do Nemours”, disse ele, enquanto caminhava até a delegacia. Ele queria encontrar uma maneira de livrar o David, mas estava com pouco dinheiro para a fiança.
Quando chegou, finalmente à delegacia, foi de encontro à cela de David assim que o carcereiro liberou a visita.
─ Você está bem? — Perguntou Pierre preocupado, segurando as mãos de David que estavam frias e trêmulas. Ele fechou os olhos, para disfarçar as lágrimas que estavam escorrendo por seu rosto.
─ Eu quero sair daqui. — Foi a única coisa que David conseguiu dizer. Sua voz saiu abafada por causa do choro.
─ Vou arrumar um jeito de pagar a fiança.
─ Quanto você tem?
─ Duzentos dólares, o resto está no banco.
─ Teria como pagar a fiança? Por favor, me tira daqui.
Pierre movimentou a cabeça positivamente, concordando, e procurou o carcereiro. Pagou a fiança e David saiu, mas a polícia ainda estava desconfiada, e David estava com medo. Afinal, foi ele que matou Marcela? Acreditava-se que não, pois ele nunca seria capaz de fazer mal a uma mosca. Garganta cortada? O quê?
─ David, você está sangrando. — Disse Pierre olhando para o corte em seu braço. Um profundo corte, e estava sangrando muito.
─ Ah, devo ter passado a faca no braço.
─ Vamos pra casa, eu cuido do sangramento. — Pierre disse e foi em direção à sua casa.
Girou a chave na maçaneta assim que chegaram a casa. Quando entraram, David foi até o sofá e Pierre correu pegar o curativo no armário de sua suíte, voltando para a sala instantes após e colocando o curativo no braço de David.
─ Espero que esteja bem agora. Eu te amo tanto, e me preocupo com você... — Pierre empurrou-o para um abraço, um abraço grande e forte. Seus olhos estavam fechados e seu rosto expressava um 'Eu queria fazer isso há muito tempo’.
─ Eu te amo desde a primeira vez que te vi. Eu não posso acreditar que eu finalmente encontrei você. — David respondeu sussurrando no ouvido de Pierre enquanto seus olhos permaneciam fechados. Ele sorriu de canto. Um sorriso doce, ao inalar o cheiro de David, o que o fez suspirar baixinho, porém profundamente.
─ Onde está a Melanie agora, hein? — Pierre voltou a ficar preocupado.
─ Vou só tomar uma água e sair novamente.
David pegou um copo do armário e bebeu um gole de água. Saiu de casa logo em seguida, com um casaco grosso, pois estava caindo camadas de neve finas, e uma pequena chuva. A temperatura estava cinco graus negativos, mas não havia vento, portanto, o frio não estava tão congelante como nos dias anteriores.
Acionaram a polícia, e eles saíram em busca de Melanie, mas ela estava desaparecida.
─ Ela não veio pra casa conosco?
─ Veio, David. Mas eu não sei o que aconteceu.
Estava tudo tão confuso, tão obscuro... A polícia ainda estava à procura da Melanie, e encontraram alguns rastros de sangue pela casa onde eles estavam, e um colar que pertencia à garotinha.
“Deixastes-me assim, sem aviso. Fostes embora sem se importar comigo… Eu sei que tu já não suportavas tanto sofrimento. Sei que a aflição era grande e você estava cansada. Acredite, se eu pudesse tomar todas as tuas dores pra que tu não sofreste, assim eu faria… Alguns apenas dizem ‘Aconteceu, não podíamos evitar’… Tolice! Eu sei a verdade, eu era o único que sabia. Mas nada pude fazer… Enquanto agonizavas completamente sozinho, eu sorria e bebia com os amigos sem sequer imaginar que nunca mais veria você novamente. E tu… Fostes embora sem nem sequer se importar comigo. Em como eu iria me sentir, o que seria de mim. A dor da perda é grande, mas eu não te julgo. Só queria ter mais uma chance de te fazer mudar de idéia. Tomar você em meus braços e te fazer sentir-se amada. Mas tu... Fostes embora, e me deixastes aqui… Com o coração pesado e completamente sozinho.”
“Eu mudei. Não precisa dizer que se importa só porque me olhou devagar, e percebeu que meus olhos não tinham mais o mesmo reflexo quando encontraram o seu. Não tente mentir pra si mesmo, que dessa vez, por obséquio, as coisas poderiam ser diferentes, não me venha com palavras rapaz, porque desse assunto eu entendo mais que você. Eu vivo delas, são elas que me acolhem e acalmam o meu coração quando sem mais nem menos você resolve dar as caras. De verdade, tá precisando de um repertório de desculpas novo, porque pra todas essas, a minha própria consciência desenvolveu um método pra toda vulnerabilidade que antes fazia parte de mim quando se tratava de você. Aconselho-te uma aventura passageira, como foi a nossa, como você fez questão de transformá-la, mas que fique claro, pra mim nunca havia sido apenas mais um caso passageiro, de iludida eu te levei a sério, ingenuidade tamanha que hoje me causa repulsa. Não sei se você se importa, pra mim não faz diferença, mas vou dizer assim mesmo, e que você está totalmente aberto a questionamentos, porque dessa vez, o que se passa aqui comigo você não pode mudar, nem se quer alterar, o mínimo que for. Não tenho pena de você, afinal de contas você não teve de mim enquanto eu morria todos os dias desde que resolveu que iria partir, é justo, a vida é um bumerangue, e não tenha duvidas que na volta o estrago é muito maior. Mas apesar de tudo, eu ainda me pego pensando se você irá suportar, ou se isso te afeta pelo menos um pouco. Não sei onde você se encontra agora, mas também como poderia saber, você tratou de fazer um trabalho bem feito quando se foi, eu apenas me desliguei também, não na mesma moeda, talvez até um pouco menos, mas de forma eficiente, posso garantir. E que dessa vez quando você ligar, não vai ouvir o meu ‘Alô, (silêncio) […]’, quando eu disse que havia mudado, eu queria dizer literalmente, e assim como a minha vida, o meu número também mudou, e você agora já pode apagar aquele velho contato que você havia salvado com qualquer coisa com a letra Z, só pra aparecer no final da sua lista onde ninguém iria ver em algum deslize seu e rir da sua cara por ter o número da sua ex otária que você tanto esnobou. Já transbordei inúmeras vezes, de amor, de esperanças e de tantas outras coisas que já taparam meus olhos do óbvio, do que estava na cara e que só eu não conseguia ver, porque estava ocupada demais envenenada por aquilo que você me fez construir pra você dentro de mim, e quando eu paro pra pensar, e pra colocar tudo na balança, vejo nitidamente, quanto tempo desperdiçado, tempo do qual eu poderia ter aproveitado comigo, sorrindo, vivendo. Mas o tempo passou, percebi então que eu estive fechada durante todo esse tempo pra toda e qualquer pessoa que tentasse se aproximar de mim, eu destruí por tanto tempo oportunidades de ter me curtido, assim como você tentou fazer, porém no seu caso é perceptível que o resultado não foi o esperado por você, a queda foi grande. Mas quanto a mim não se preocupe, eu consegui abrir as portas do meu coração outra vez, pro que me faz bem é claro, por tanto, não inclui você. Demorou, não foi fácil, reforço, mas já tava passando da hora de deixar você sair, pode sorrir agora, pode ir devagar, mas também pode correr se quiser, porque nossos caminhos não irão mais se cruzar, e mesmo que você tente pegar um atalho qualquer, não vai mais funcionar, porque doeu muito, mas hoje eu acordei e simplesmente não sentia mais, a dor havia sumido, eu senti cheiro de recomeço, caí fora numa boa, com cicatrizes é claro, mas melhor, muito melhor.”
“É muito triste perder alguém que a gente ama. Dói, tortura, parece que aquele buraco nunca vai cicatrizar. E realmente, não cicatriza. Cada dia que passa essa dor aumenta e saudade fica cada vez maior. A única coisa que pode ‘consolar’ é saber que a pessoa não está sofrendo e não pode morrer de novo. E para enganar a saudade, é só lembrar-se dos momentos alegres e tentar reviver em pensamento. É triste, mas infelizmente faz parte da vida.”
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