Notas iniciais
Desculpa pela demora. Começa o ano, junto com a chatice de cursos, e o blá blá blá de sempre. Espero que gostem.
A notícia que eu e Lucas estávamos juntos se espalhou pela escola como vírus de H1N1. Como? Começa com "Jú" e termina com ''lia". A garota me perseguiu o dia todo, dizendo que agora eu era parte de sua família e me chamando de "priminha". Me controlei para não gritar que estávamos namorando havia apenas algumas horas, e que não estávamos noivos ou algo do tipo. Mas, conhecendo Júlia como eu conhecia, isso provavelmente a deixaria magoada a ponto de me ignorar pelo resto do dia, então deixei-a devanear com o namoro estranho que nem mesmo eu havia assimilado. Era como se... a ficha não tivesse caído. Quer dizer, ele nem me perguntou se eu queria namorar com ele. Foi quase um "ah, a propósito, estamos namorando". Só que, infelizmente, não tão simples assim.
Além de que isso fazia com que eu me sentisse culpada pela... han, coisa com Vítor ontem. Quer dizer, qual relacionamento que não está fadado ao fracasso começa com uma traição? Mas... não. Preferia não classificar aquilo como traição. Bem... Vítor era meu irmão, não? Então não conta... conta? Fosse como fosse, afastei aquilo da cabeça.
Júlia estava contando a "grande novidade" a quem quisesse ouvir, que, eu admito, era um pouco mais de pessoas do que o esperado. Bando de gente que não tem o que fazer. Deveriam se preocupar mais com o próprio nariz.
Digo, se o Juan parasse de lançar piadinhas para mim e para Lucas, provavelmente já teria percebido o quanto a Natália estava a fim dele e chamado-a para sair. Mas, aparentemente, dizer que Lucas parecia uma bicha apaixonada tinha um destaque a mais em sua lista de prioridades. Não que Lucas se importasse, vale ressaltar. Ele dava risadinhas ou me roubava um beijo. Ele agia como se... não. Lucas não podia estar realmente apaixonado por mim. Bem... era o que deveria acontecer em namoros, mas, apesar de eu gostar bastante dele e seu sorriso ser bonito ao ponto de me aquecer por dentro, eu não amava o cara. Bem, achava que não, mas, como diria Nina, que experiência tenho eu pra fazer afirmações? Talvez eu só não soubesse o que estava sentindo. Como talvez não soubesse o que ele estava sentindo.
Isso tudo era mais confuso que a prova que fizera há minutos, e que, graças a Lucas, tinha bastante certeza que havia ido bem.
O sinal tocou anunciando a última aula, e, pela primeira vez, não fiquei feliz com isso. Nem com o fato de ser sexta. Quer dizer, eram dias de folga, sim, mas também significavam dias só com Vítor, e eu, sinceramente, não sabia com que cara olhar pra ele depois da noite passada. Se ele não tivesse saído da cozinha, até onde aquilo chegaria? Ele era meu irmão, pelo amor de Deus. Mas, mesmo assim, só lembrando daquelas cenas sentia-me... inquieta. Se é que você me entende.
Vítor dizia que gostava de mim. Isso é loucura! Digo, mesmo que não fôssemos irmãos... o que ele viu em mim? Ele é um homem, formado, tem um emprego e uma casa. Qual a chance de se interessar pela garota meio magricela que resgatou de um orfanato? Sim, sim. Zero. Sem chances. Nadinha de nada. E aí está ele, contrariando todas as probabilidades. Ou afirmando isso. Passara pela minha cabeça várias vezes se aquilo não havia sido uma brincadeira. Mas então penso que Vítor não é do tipo que faz brincadeiras, o que me deixou mais confusa ainda. E havia ainda a coisa de não ser recíproco. Bem... eu gostara de quando ele me beijou, mas porque ele sabia o que estava fazendo. Não que eu tivesse desenvolvido uma quedinha por ele ou algo assim, porque eu obviamente não tinha.
Só não pude deixar de reparar em como ele estava bonito quando saí pelos portões apinhados de gente e encontrei seu carro lá na frente. Ele não me buscava havia meses, e eu podia imaginar a razão de tê-lo feito. Aparentemente seu curto horário de almoço não o impediu de me torturar mais um pouco.
Vítor estava usando uma das camisas sociais do trabalho, e, como fazia quando não estava no escritório, havia dobrado as mangas, expondo parte de seus braços bronzeados. Me perguntei onde ele conseguia o bronze ou os músculos, já que se não estava no escritório, estava em casa, e eu nunca o vi tomando sol ou indo para a academia. Eu perguntaria depois. Naquele momento só conseguia olhar para ele, meio chocada, meio envergonhada, querendo esbofetear aquela cara até apagar o sorrisinho prepotente tão característico.
Quando não me movi, no alto dos degraus de concreto, ele ergueu uma sobrancelha e acenou com a cabeça, como quem diz "vamos logo!". Franzindo a testa, comecei a avançar em direção ao carro, me lembrando de que tinha que esperar a Júlia, como sempre fazia todos os dias na saída, mas ignorando isso. Já estava a menos de três metros de distância quando alguém agarra meu ombro. Me viro, achando que era a garota, e já com uma desculpa na ponta da língua, mas os olhos castanhos com os quais me deparo eram esverdeados demais para serem da minha segunda melhor amiga (ninguém supera a Nina, Salvadora dos Dias de Tempestade).
— Ei — sorriu Lucas — Esqueceu que agora tem alguém para se despedir.
— Ah, eu... — na verdade, naquele momento, nem estava lembrando de sua existência. Não que eu fosse dizer algo assim — Me desculpe — Sorri de volta, ciente do meu irmão atrás observando tudo.
— Quer sair hoje? — Ele perguntou, mas eu já estava balançando a cabeça.
— Sabe que eu não posso.
— Mas não vamos em um bar, ou coisa do tipo. Estava pensando em ir no cinema, no shopping.
— Meu irmão...
— Seu irmão não pode te tratar como criança, Mia — Lucas me cortou — Você tem dezessete anos, e é hora de ele perceber isso — Ah, vai por mim, criança acho que ele percebe que eu não sou, pensei. Novamente não era algo que eu diria.
— Eu posso pedir pra ele.
— Eu digo não! — Grita Vítor, de dentro do carro. Com o barulho e a distância, julgava ser impossível ouvir-nos, mas a audição dele parecia melhor do que o esperado.
— Vítor! — Censurei, me aproximando da janela e enfiando a cabeça lá dentro. Como Júlia, meses atrás, eu me lembrei.
— O que? Você lembra do que aconteceu da última vez que saiu sozinha, não lembra?
— Mas eu vou estar com ela — Lucas se abaixou ao meu lado.
— Grande coisa — ironizou Vítor — Você estava lá da última vez.
— É diferente! — Ele justificou, parecendo ofendido.
— Não vejo onde — meu irmão se esticou e abriu a porta — Vamos, Mia.
— Vítor, por favor... só vamos no cinema. Eu volto antes das onze.
— Nem antes das sete. Vamos, Amélia, precisamos ir em um lugar importante.
— Mas Vítor...
— Entre no carro — Sua voz estava tão imperativa que nem Lucas teve coragem de discutir.
— Você tem meu número — falou ele, se afastando do carro — Qualquer coisa me liga — Concordei com a cabeça, fechando a porta.
Estava irada. Uma coisa é você ter um irmão mais velho ciumento. Outra coisa, completamente diferente, é você ter um irmão mais velho ciumento, que te beija nas horas vagas, e de bônus é seu guardião legal.
— Que porra, Vítor — Resmunguei.
— Olha a boca.
— Que boca o que, caramba!
— Não estou entendendo o motivo da sua fúria, Amélia — Replicou calmamente, manobrando para sair de sua vaga bem na frente da escola.
— Ah, você não está? Então deixa eu esclarecer bem as coisas: eu tenho um namorado, com o qual você não deixa eu sair, logo depois de encher minha cabeça de lorota e me agarrar.
— Ainda se usa a palavra "lorota"? — Murmurou ele.
— Ah, vai se...
— Amélia, não sei onde anda escutando essas coisas, mas não tolero palavrões. Vamos conversar como pessoas civilizadas e não como garotos acéfalos que usam a calça abotoada lá no joelho e óculos mais coloridos que aquela sua amiga Júlia — depois do pequeno discurso, apenas cruzei os braços e revirei os olhos. Quem era ele para chamar alguém de acéfalo? — Mas, sobre sua simpática observação, eu não enchi sua cabeça de coisa alguma, meu bem. Eu falei a verdade. O que eu penso. O que eu sinto.
Não respondi.
— E, que eu me lembre, eu também não te agarrei, já que fui muito bem correspondido — senti minhas bochechas esquentarem, mas não tirei os olhos da rua a minha frente — Sobre seu namorado... o pobre garoto que você anda traindo?
— Eu não estou traindo Lucas.
— Não? Porque eu posso lembrar de algumas coisas que fizemos na cozinha que...
— Não, Vítor. Você é meu irmão. Isso não conta. Não é? — Arrisco um olhar em sua direção. Ele parece estar contendo o riso.
— Sabe que gostei muito dessa sua teoria.
— Me deixa sair com ele — Pedi, mais uma vez.
— Não — Qualquer vestígio de sorriso foi apagado de seu rosto.
— Por favor, por favor, por favor — fiz biquinho. Aquilo funcionava com as freiras, uns anos atrás, quando eu pedia mais um pedaço de bolo no orfanato — Eu quero muito ir. Sei me cuidar. É só no cinema de um shopping, Vítor.
— Não quero. Não gosto desse garoto. Vai saber que gracinha que ele vai tentar longe de supervisão, dentro de uma sala escura de cinema...
— O Lucas não é assim! — Garanti.
— Ah, não? Porque eu posso jurar que vi as mãozinhas dele enfiadas na sua blusa ontem mesmo.
— Ei! — Gemi, envergonhada.
— Tenho razões para não confiar — Disse, e virou a rua contrária do nosso apartamento.
— Onde estamos indo?! — Perguntei.
— Em um lugar importante, eu já falei — Acabou que o tal lugar era um restaurante. Todo bonitinho, mas não parecia nada demais. Arqueei uma sobrancelha para ele quando um manobrista parou ao lado de sua janela, cheio de pompa, esperando sua deixa.
— Você logo verá — Foi o que disse. Dei de ombros, saindo do carro, e, enquanto tentava desamassar o uniforme, envergonhada por não estar usando algo adequado para o ambiente aparentemente refinado.
— O nome da reserva?- Perguntou um homem na porta. Em sua cabeça era perceptível um círculo calvo, mas seu cavanhaque era bem cheio e negro.
Reserva? Desde quando temos dinheiro para comer em um restaurante que precise de reserva?
— Vítor Alvarenga — Meu irmão resmungou, olhando para o relógio como se repentinamente estivéssemos muito atrasados.
— Seu amigo o aguarda, senhor — Falou o homem, empurrando a barra de ferro na porta.
— Amigo? Que amigo? — Quis saber.
Ele não respondeu. Mas, após alguns segundos seguindo a recepcionista loira de farmácia, reconheci aquela barba cinzenta e mal cuidada, além d expressão de desdém. Era um rosto que não via há muito tempo, mas que reconheceria mesmo após anos. Por que? Eu simplesmente não esquecia quem não gostava. Desde estragar uma Barbie até dizer que não gosta de cachorros, qualquer coisa que considerasse ofensa seria guardada para sempre. E Joaquim tinha um lugarzinho especial. Ele me tirara da minha casa. Tudo bem, Vítor eu podia perdoar, o que consequentemente fez com que todo meu ódio caísse sobre ele. Bem feito.
— An... Vítor — ele se levantou quando chegamos, e apertou a mão de meu irmão — Amélia — Joaquim pegou minha mão, mas ao invés de somente sacudi-la, plantou um beijo que fez sua barba arranhar minha pele.
— Prazer em vê-lo — Como se Vítor não o visse todo dia. Quer dizer, era o patrão dele, não era? E o que o patrão do meu irmão estava fazendo conosco naquele restaurante chiquérrimo? E também, que diabos, o que nós estávamos fazendo ali?
— Vamos pedir — Riu Joaquim.
Deixei que escolhessem meu prato, não conhecia nada do que era servido. Observando-os, pude detectar uma troca de olhares suspeitos, quase que conspiratórios. Estreitei os olhos.
— Você deve estar se perguntando o que está acontecendo — Disse Vítor, muitos minutos depois, quando a comida (que não tinha uma cara nada boa) fora servida.
— Está mais do que na cara que não é um agradável almoço em família — Retruquei, remexendo em algo em meu prato que não tinha a mínima noção do que poderia ser.
— Vou ser direto. É a sua mãe, Mia — falou Joaquim, passando um guardanapo de pano sobre os lábios — A mãe de vocês.
— Ah, a que nos abandonou quando tinha meses? É, me lembro dela, sim. O que aconteceu?
— Bem... — ele olhou para Vítor, que acenou com a cabeça quase imperceptivelmente — Ela morreu.
— O que? — Saiu um pouco mais alto que o planejado.
— Ela está morta, Mia. Sinto muito.
A gororoba foi esquecida. Eu nunca fora próxima de minha mãe (nem sequer a conhecia), mas saber da morte de sua progenitora não é algo que se aceite naturalmente tomando suquinho (até porque eu havia pedido uma Coca).
— Eu... não sei o que dizer.
— Talvez queira saber que ela deixou uma herança — Vítor apertou meu braço.
— Herança? — Ele me passou um papelzinho com um valor escrito. A quantidade de zeros quase me fez cair pra trás. Onde diabos minha mãe havia conseguido tanto dinheiro?
Notas finais
É isso, espero que não esteja tão ruim. Beijos.
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