Gostava tanto de você
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Aqui agradeço de coração as senhoritas Yuemia e Mary Winchester pelas m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a-s recomendações. Muito obrigada mesmo. E gostaria de dar os créditos da capa para a Yuemia, uma leitora que dedicou seu tempo à minha história, tanto na criação da capa quanto na elaboração de comentários que me inspiram a continuar escrevendo.
— Como? — Foi a primeira palavra que disse ao sair de meu estado de choque.
— Parece que ela se casou novamente com um homem bem rico — Joaquim deu um gole na sua taça, em um tom tão leve que poderíamos estar discutindo sobre a cor do meu cabelo, e não a morte de minha mãe — Ele morreu há uns anos. Assassinato — Acrescentou, o sorriso exalando cumplicidade, do tipo "você-sabe-o-que-estou-dizendo". Mas não, eu não sabia. Nem ele sabia sobre o que eu estava falando.— Não o dinheiro, seu imbecil — rosnei. Vítor soltou um "Mia" em tom de advertência — Como ela morreu? — Um tumor na cabeça — Meu irmão respondeu, franzindo os lábios.— E você não se sente nem um pouco mal? — Perguntei, com lágrimas nos olhos, diante de sua calma.— Ela nos abandonou — Respondeu simplesmente.— Mas no final foi uma boa mãe — se intrometeu Joaquim — Deixou uma herança bem gorducha pra vocês.— E o que ele está fazendo aqui? — Cruzo os braços.— Ele, por acaso, é seu advogado — O homem respondeu, coçando a barba.— Por que você mesmo não cuidou disso, Vítor? — me recusava a dirigir a palavra a ele — Que eu saiba você também tem um diploma.— Mia, por favor, não torne o momento mais difícil do que já é — pediu Vítor — Pare de chorar.— Pare de chorar? — gritei. Todos os clientes e funcionários me olharam espantados. Umas dondocas da mesa ao lado cobriram suas bocas e começaram a cochicha furiosamente — Você me traz para um restaurante mil estrelas com esse homem, me diz que minha mãe teve a porra de um tumor e que está morta, e ainda me pede para não chorar? — Porque isso era exatamente o que fazia no momento. Um burburinho encheu o ambiente. Podia imaginar o teor dos assuntos. "Oh, coitadinha, perdeu a mamãe", ou "o que essa louca pensa que está fazendo com um escândalo num lugar desses?!". Sinceramente, esperava que fosse a segunda opção. Não precisava que tivessem dó de mim de novo. Da primeira vez que perdi minha mãe já foi suficiente.— Amélia, o que conversamos sobre palavr... — Foda-se! — Me levantei, e, tentando em vão conter as lágrimas, corri para o banheiro. Evitei olha no imenso espelho em cima das pias de granito. Ver a minha (provavelmente) terrível aparência no momento só terminaria de ferrar com tudo. Sentei-me em uma daquelas poltronas de veludo do lado da porta, com as pernas cruzadas e secando meus olhos com barra da camiseta.— Amélia — a voz de meu irmão soava da porta. Não respondi — Amélia — Ele repetiu, desta vez com mais urgência, batendo na madeira — Mia, saia daí agora. Vamos conversar. Anda, Mia...— Deixe ela — era uma mulher falando. O seu timbre não me remetia ninguém na memória — Vou entrar. Escutei o barulho da porta abrindo e fechando e depois saltos de sapatos batendo contra o piso. Uma mulher de meia-idade, com cabelos castanhos, estava parada na minha frente em questão de segundos. Ela vestia um tailleur que parecia mais caro que nosso apartamento.— Oi, Amélia — ela disse — Meu nome é Ludmila. Dei de ombros. Não estava querendo parecer rude ou coisa assim, mas sabia que, se abrisse a boca, a choradeira recomeçaria.— Não consegui evitar ouvir sua conversa, me desculpe — Ludmila riu, mas era um riso triste. Fiz um biquinho involuntário com suas palavras — Que coisa, hein? Balancei os ombros novamente.— Eu perdi minha mãe bem pouco mais velha que você. Nós éramos bem próximas. Você e sua mãe eram muito ligadas?— Eu nunca a conheci — desabafei, as cachoeiras recomeçando a cair — Não a vi nem uma vez.— Como assim?! — Por um instante Ludmila se desequilibrou de cima dos saltos finos do seus scarpins. Felizmente ela se agarrou aos braços da poltrona, então todo o acidente rendeu pouco mais de uma careta.— Ela foi embora logo depois que eu nasci. Meu pai também está morto, nós batemos o carro anos atrás. Nem sei por que ela nos deixou alguma coisa — Meus lábios tremiam.— Oh, minha querida — ela apertou minha mão direita. As suas eram frias e macias — Sinto muito. Quem cuida de você, então?— O Vítor — Falei, ainda chorando.— Mas ele... — e então se interrompeu, parecendo pensar melhor — Acha prudente morar com seu namorado nessa idade, minha querida?— Ele é só meu irmão — Expliquei, puxando minha mão das suas. E depois senti as bochechas esquentarem, me lembrando da noite passada.— Ah, mas é claro que é — Ludmila franziu as sobrancelhas.— Está tudo bem? — Vítor perguntou, batendo na porta como um louco — Mia, é sério, venha falar comigo ou eu vou entrar aí.— Vamos lá — sussurrou Ludmila — Confortem um ao outro — Ela se levantou, e saiu rebolando em passos decididos. Se eu tivesse metade da autoconfiança que ela exalava minha vida seria bem mais fácil. Ela deixa a porta aberta, e fez a cópia exata da cara que a irmã Dora fazia quando alguém contrariava a ida à missa aos domingos. Apertei os lábios e me levantei. Minha camiseta já estava molhada de tanto que passara no rosto. Felizmente eu não usava rímel, ou estaria coberta de manchas pretas.
Vítor estava lá parado, exatamente na divisa entre o corredor e o banheiro feminino, como se houvesse uma linha intransponível. Assim que eu a atravessei, ele me puxou, envolvendo-me em algo que era meio abraço, meio uma prisão, como se estivesse se certificando que eu não fugiria mais. Ludmila piscou um olho e se afastou, provavelmente voltando para a sua vida normal sem adolescentes magrelas e descabeladas com olhos inchados que perdem os pais mais de uma vez. Sorte a dela. Eu que não iria querer uma Amélia na minha vida.— Está tudo bem, certo? — Vítor apertou meus braços, obrigando-me a desviar os olhos de Ludmila e fitar os seus — Ela nunca esteve conosco, não vai mudar nada, a não ser o fato de que agora temos uma boa quantia de dinheiro. — Como você pode ser assim, Vítor? — pisco com força, eliminando qualquer resquício de lágrima ali — Tão frio, mesquinho... tão idiota?— Mia, meu amor, não me compreenda mal — ele levantou meu queixo com um dedo — Estou tentando deixar tudo mais fácil para nós dois, certo?— Você nem parece triste — acusei — Agiu o tempo todo como se nada tivesse acontecido. Trouxe o Joaquim para dar a notícia de algo que você mesmo deveria ter me contado. Vítor, nossa mãe morreu.— A mãe que fugiu com outro cara e que depois assassinou ele enquanto dormia? — Meu irmão me encarava com tanta intensidade que chegava a ser algo bizarro.— O... o que?— Sim, essa é a suspeita. Supostamente ela teria chegado de um cansativo dia de trabalho e encontrado seu querido esposo com uma faca no peito em cima da cama. O homem era velho, estava morto há muito. Suas digitais estavam na faca.— Ela estava tentando arrancá-la dele, com certeza...— É, é, e esse é um dos motivos pelos quais ela não foi presa. Nada se podia provar. Mas, convenhamos, ele era um senhor de idade, e bastante endinheirado. Não lhe parece conveniente demais?— Isso não quer dizer nada — argumentei — E como você sabe de tudo isso?!— Eu trabalho em uma das maiores empresas de advocacia da região, Mia.— Mas isso não importa — concluo — Não quero saber o que ela fez em vida. O que importa agora é que ela não está mais aqui. Nossa mãe se foi, Vítor — Seu rosto se suaviza, e aquele aperto parece cada vez menos uma jaula.—_________________________________________________________Eu sou órfã. Era algo que repetia desde os seis anos de idade, mas que nunca fora tão verdadeiro até aquele momento. Bati a porta do quarto com um pouco mais de força que o necessário. Joaquim estava na sala, queria demonstrar minha revolta. Ela não podia estar morta. Primeiramente, porque ela nem parecia real o suficiente para isso. Sempre mantive uma ideia tão abstrata de minha mãe que não a imaginava como uma pessoa real. Uma pessoa que podia andar, comer, falar, amar, morrer... Não estava mais chorando, pelo menos. Só em um estado que choque em que, sempre que fechava os olhos, me faria lembrar o quão sozinha estava. E também dos fragmentos de memória do dia fatal, de quando tinha seis. Pensar na morte de um pai me remetia a outro, me deixando duplamente horrorizada. Podia ouvir buzinas frenéticas, e guincho de pneus cantando, e ver a luz dos faróis do enorme caminhão antes de ele colidir de frente com nosso carro. Minha sorte foi que papai era bastante neurótico com a segurança no trânsito. Do meu lugar no banco de trás, com o cinto afivelado, a caminho da festa de aniversário onde buscaríamos meu irmão, meu maior dano, além de fraturar o braço e uma costela, foi psicológico. A cada noite me lembrava da cena de papai sendo esmagado contra o volante, um estalo e seu pescoço pendendo para frente... Não podia me dar ao luxo de pensar no momento. Aparentemente, todos meus problemas recentes estavam sendo guardados em uma gavetinha dentro de minha cabeça, a qual não planejava abrir tão cedo. Infelizmente, nada na vida sai como planejado. Geralmente, como se o universo decidisse tirar uma com a sua cara, o contrário é que acontece.
Fale com o autor