Notas iniciais
Hello hello.

Não sei, acho que estava ficando mais experiente. Quando Vítor me beijou, seus movimentos estavam carregados de calma, me orientando a cada passo. Bem, Lucas não fez isso. E eu não senti que precisei.
Após alguns segundos se inclinando para frente ele me puxa para si, o que teria me rendido um tombo não fosse suas mãos em minha cintura. Desgrudei nossos lábios pelo tempo suficiente para dar uma risadinha antes que me acomodasse em seu colo. Pensando sobre o acontecido, sozinha no meu quarto horas depois, achei a posição meio vulgar, mas no momento essa era a última coisa que me passava pela cabeça.
Com uma mordida no meu lábio inferior, e as mãos apertadas na curva de minha cintura, passou a beijar meu pescoço, o que me deixou sem fôlego e com a pele arrepiada. Talvez, se eu não estivesse respirando com tanta dificuldade, ou se meu coração não batesse tão forte nos ouvidos, eu teria escutado o barulho de chaves ou da porta abrindo. Então, teria saído de cima de Lucas e sentado na minha cadeira com a expressão mais inocente possível.
Mas não. Estava tão absorta que a única coisa que eu ouvi foi o berro do meu irmão.
— Mas que porra está acontecendo aqui?
Me levantei mais rápido do que você poderia dizer "arroz", com as bochechas queimando. Lucas parecia em choque, encarava Vítor com os olhos arregalados e os lábios ligeiramente entreabertos.
— Olha... eu... nós... Vítor — Ergui as palmas das mãos, em um gesto de rendição.
— Quieta, Amélia. Você — Lucas finalmente ficou de pé — Fora daqui.
— Espera, Vítor...
— Calada. Não está vendo que ele só está se aproveitando da sua inocência, Mia?
— Ei! — Protestei. Não era tão inocente assim. Era? E se fosse, quem teria se aproveitado era Vítor, quis lembrá-lo, mas, felizmente, contive as palavras. Ninguém precisava ficar sabendo dessa nossa pequena aventura.
— Mas é claro que não — garantiu Lucas — Não tô tentando me aproveitar de ninguém, até porque ela não é uma criança, não é? Só estava beijando a minha namorada- Falou, num ataque súbito de coragem.
— Namorada? — Dissemos eu e Vítor, em uníssono. Eu parecendo espantada, e meu irmão meio incrédulo.
— É, namorada — depois olhou em minha direção, um pouco mais nervoso — Não é?
— Eu... é — Respondi, um tanto chocada. Uau. Isso foi meio rápido.
— Não seja estúpida, Amélia. Ele é bem o tipo que quer trepar e sair fora.
— Vítor! — Me espantei. Ele não costumava ter um vocabulário tão... vulgar.
— Eu não quero sair fora coisa nenhuma! — Rebateu Lucas. Minhas bochechas esquentaram quando notei que ele não negou também a coisa de trepar. Ai, Deus. Acho que sou meio neurótica.
— Ah, mas você vai — Vítor cruzou os braços — Vamos, fora daqui.
— Vítor... — Repeti, frustrada. Que pelo menos tivesse algum argumento formado. Não me sentia muito útil repetindo o nome do meu irmão.
— Amélia — respondeu ele, sem se deixar abalar — Vamos, vamos. Fora.
Lucas revirou os olhos, mas depois de beijar minha bochecha saiu pela porta, que já estava aberta.
— Mia — meu irmão se encostou no batente da porta, com os braços ainda cruzados. Eu estava em pé, sem saber como proceder. A verdade é que estava envergonhada. E confusa. Quer dizer, namorada? Nina, com toda sua experiência com garotos, dizia que eles odeiam assumir compromisso. E agora isso, depois de um beijo, e já estamos namorando? Pelo que sabia de Lucas, ele não era do tipo galinha, então não recorremos ao clichê do ai-meu-Deus-vou-mudar-por-ela, mas, mesmo assim... — Quer me explicar o que foi isso?
— Um beijo — Dei de ombros.
Ele suspirou, revirando os olhos. Sei lá... fazendo isso ele parecia tão... jovem. Não que ele não fosse, mas sempre agindo de modo tão adulto e responsável, por um minuto, com aquela camisa com as mangas dobradas e os primeiros botões abertos, revelando um pouco de seu peito bronzeado, ele parecia ter quase a minha idade.
— Amélia, por favor. Não se faça de boba.
— Ah, mas eu não sou mesmo "inocente"? Lucas não quer se aproveitar de mim? — Estreitei os olhos.
— Ele quer sim. Só que inocência não é sinônimo de burrice, querida.
— ... se aproveitar de mim como alguém fez? — Continuei, como se ele não tivesse falado nada.
— Aquele cara, no Chaplin, só fez de uma forma difere... espera. Você está falando de mim? — Quando Vítor finalmente entendeu o que eu queria dizer, sua postura ficou toda ereta e os braços voltaram para o lado do corpo.
— Não sei — Falei, arrastando a última palavra e colocando na fala o máximo de sarcasmo possível.
— Você acha mesmo que me aproveitei de você?
— Ei, essa palavra está perdendo o sentido na minha cabeça, de tanto que estamos usando ela. Aproveitar, aproveitei, aproveitou...
— Amélia — Rosnou ele.
— Ai, tá bom. Acho, acho sim. De mim e do meu "medo de tempestades". Não tenho culpa se você nunca sai de casa; nunca pedi pra fazer isso. Mas Vítor, o que foi aquilo?
— Um beijo — Parafraseou ele, com um sorrisinho convencido, mas ainda com um restinho de irritação nos olhos.
Sentei na cadeira onde estava Lucas minutos atrás, cruzando e descruzando as pernas. Não estava confortável com a conversa, mas, pelo menos, o foco havia sido desviado do recente "flagra".
— Mas é sério, Mia. Acha mesmo que esses foram meus motivos?
— E quais mais seriam? Depois ainda agiu como se nada tivesse acontecido — Ele se sentou na cadeira ao meu lado, com a expressão presunçosa ainda presente.
— Agi como se nada tivesse acontecido porque você ficou louca com a situação. Saiu correndo e evitou me olhar nos olhos por dias. Tentei te dar um pouco de espaço.
— E agora, depois de meses, você aborda o assunto?
— Não se esqueça que quem abordou o assunto foi você.
— Mesmo assim, Vítor, sua história não faz sentido. E, se não foi por estar sozinho, e por minha "inocência e infantilidade", por que diabos você fez aquilo? — Perguntei.
— Aquilo o que? — Seu sorriso pareceu aumentar.
— Pare de ser idiota. Você sabe.
— Mas quero ouvir você falar.
— Vítor! — Repreendi.
— Tudo bem... talvez seja porque, por trás de toda sua "infantilidade", eu não veja uma criança.
— Hein?
— Vamos lá, Mia, acompanhe. Não crescemos juntos. Não consigo te ver simplesmente como minha irmã.
— Uou, espera aí — Que? Eu conseguia total vê-lo só como irmão. Bem, quando ele não estava com a camiseta aberta até a metade, mostrando todas as curvas dos músculos do abdômen...
— É que você é tão... bonita — ele abriu um sorrisinho de lado — Não é só isso, não sou tão fútil assim. Talvez... seja seu jeito. Tão delicada, divertida... inocente.
— Vítor, você está se ouvindo? — perguntei, em choque. Tudo estava acontecendo meio rápido demais. O namoro, a... o que era aquilo? Uma declaração? — Eu sou sua irmã. Você não pode estar falando sério. É isso, não é? Uma brincadeira de mal gosto por causa do Lucas. Vítor, eu...
— Não, Mia — Vítor me interrompeu — Não é uma brincadeira. Naquela noite, a luz de velas, você estava tão assustada... tão menininha. Acho que foi a primeira vez que percebi que o que sinto não é tão... fraternal.
— E o que você sente? — Quis saber, meio sem fôlego.
Ele hesitou um pouco, antes de responder:
— Desejo — Com certeza meus olhos se arregalaram. Aquilo era tão... filme americano.
— Mas olha, eu... eu não sei o que dizer. Sinceramente.
— Então não diga nada — Vítor pediu, e, embrenhando as mãos no meu cabelo (as pessoas não devem fazer isso, sério. A bagunça que ele é, não seria surpresa se nunca mais conseguisse tirá-las de lá), ele me beijou. Pela segundo vez, meu irmão me beijou. Meu. Irmão. Me. Beijou. Tem noção do quanto isso soava estranho?
E dessa vez não foi com calma e suavidade, como fora da primeira. Sua língua se movia com ferocidade, e, por impulso... não, inferno, por desejo, mesmo, a minha o acompanhava. Havia garantido a mim mesma que não sentia nada além de amor fraterno pelo meu irmão, mas era impossível negar o quanto estava excitada com aquilo.
Ele não me puxou para si, como Lucas fizera, mas nos levantou e me prensou contra o pequeno espaço entre o fogão e a geladeira, colando nossos corpos. Suas mãos agora passeavam pelo meu corpo (ele conseguira libertá-las, afinal!), apalpando tudo pelo caminho. Passou uma por uma nádega, e segurou minha coxa de modo que enlaçasse sua cintura. Meu coração pulsava... bem, tudo pulsava. Vítor colocou as mãos por dentro da minha camiseta, e, diferentemente de quando aquele cara nojento no bar fez isso, não senti asco. Bem pelo contrário. Meu Deus, o que estávamos fazendo?
— Que pena — ele sussurrou em meu ouvido, com as unhas curtas arrepiando a pele das minhas costas — Que agora você tem um namorado.
E, sem mais, se desenroscou de mim, e saiu da cozinha, abotoando a camisa que de algum modo estava aberta (não olhe para mim), de um modo que, caso fosse necessário, definiria como saltitante. Ele me deixou sozinha, ofegante, e mais frustrada do que já havia me sentido em toda a vida.
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O homem se senta na poltrona atrás de sua mesa, em uma das maiores salas do andar. Seu pai, parecendo desconfortável na cadeira de espaldar reto, alisava a barba mal feita com um ar distraído.
— Bem. Bem, muito bem. Pelo visto a reconquistou.
— Nunca a perdi.
— Você entendeu, Antônio.
— Sinto falta desse nome — Confessou o homem, ajeitando as mangas do paletó.
— Logo terá ele de volta. A papelada será liberada dentro de dias — o senhor sorriu, com os olhos apertados — E colocaremos um fim nisso.
— Você fala como se fosse me ajudar em algo.
— Ah, eu vou, meu filho. Eu vou.

Notas finais
Esse Vítor... hahahaha