Googolplex - Volume 1
1 Prólogo (Menos 9 meses)
“Tac...”
“Tac...”
“Tac...”
O silêncio no ambiente era quase absoluto. O som do relógio consistia no único ruído que se ouvia. Cada movimento do mais fino dos ponteiros era separado por um intervalo de tempo que parecia durar uma vida. Uma vida contida em apenas um segundo. Sendo assim, o mais comprido dos ponteiros levava sessenta vidas para se mover. E o mais curto, então? Quantas vidas poderiam estar contidas em uma hora, em um dia, em um ano? Quantas vidas existiriam dentro do período de... uma vida?
Sentado em um sofá, um homem sacudiu a cabeça, como que despertando de um transe e buscando afastar pensamentos estranhos de sua mente. Ao lado dele, uma mulher se encontrava de braços e pernas cruzadas e balançava freneticamente o pé suspenso no ar. Sem conseguir mais se conter, o homem resolveu se levantar e passou a andar de um lado para o outro, ao mesmo tempo em que roía as unhas de suas mãos.
O tempo continuava a passar, embora o casal tivesse a sensação de que o ponteiro dos segundos demorava cada vez mais para se mover. E a ansiedade durou até os outros dois ponteiros se alinharem em um ângulo de noventa graus, marcando o horário das quinze horas. Pois nesse exato momento a porta sob o relógio de parede se abriu e a figura de um homem surgiu. Imediatamente, ele se aproximou do casal.
— Senhor e senhora Luz?
— Sim! — responderam os dois simultaneamente.
— Eu sou o Doutor Ernesto Nunes Dantas. Muito prazer. — Ele estendeu a mão para cumprimentar ambos. — Vamos entrar, por favor.
O casal foi introduzido em um escritório bem discreto e pouco iluminado. O doutor entrou logo atrás de seus clientes e, enquanto fechava a porta, indicou dois assentos em frente à sua mesa. Instantes depois, após todos se acomodarem, o doutor perguntou:
— Bem... vocês vieram em busca de ajuda, certo?
— Hã... é isso mesmo — respondeu a mulher. — Como meu marido disse ao telefone, nós vimos seu anúncio na revista e resolvemos fazer uma tentativa. Afinal... o pior que pode acontecer é o senhor dizer a mesma coisa que os outros médicos disseram...
— Entendo. Bem, vou direto ao assunto. Felizmente, as primeiras notícias são positivas. Eu analisei os dados que vocês me enviaram e, ao que tudo indica, sua condição é plenamente compatível com o nosso programa. Podemos começar hoje mesmo, se quiserem.
A mulher baixou o rosto e o escondeu entre as mãos, mas não conseguiu conter os soluços. O marido a abraçou forte e olhou para o teto, como que agradecendo aos céus.
— Hmmm... eu não gostaria de interromper a alegria de vocês, mas preciso lembrar algo importante: realizar o tratamento não significa que a gravidez será um sucesso. Há muitos fatores a se considerar, é possível que ocorram complicações...
— Sim, sim, a gente sabe. Mas é que... — A mulher respirou fundo, para recuperar o fôlego. — Bom, nós já procuramos outros médicos e, como todos os diagnósticos foram negativos, acabamos perdendo as esperanças. E... nós combinamos que essa seria a última tentativa...
— Hã... doutor? Preciso perguntar uma coisa — disse o homem. — O programa é mesmo de graça? Porque... hã... a gente guardou algumas economias...
— Não se preocupem, não há custo algum para vocês. Vejam bem, o tratamento é novo e ainda não está disponível em larga escala no mercado. Mas se tudo correr bem, vocês serão os porta-vozes do programa, o casal que irá alavancar nossa imagem e divulgar nosso procedimento pelo mundo inteiro. Agora, só para lembrar: mesmo sendo uma novidade, isso não significa de maneira alguma que haverá riscos desnecessários. Não existe espaço aqui para irresponsabilidades.
— Entendi — respondeu o homem. — Bom... tudo parece maravilhoso, mas acho que... é melhor... hã... Olha, doutor, não quero parecer ingrato, mas... sabe como é... nós precisamos saber direito no que estamos nos metendo...
O doutor levou uma das mãos ao rosto e ajeitou seus óculos sobre o nariz. Então disse, sorrindo:
— Claro, entendo perfeitamente. Compartilhem comigo as suas dúvidas, terei o maior prazer em respondê-las. Eu desejo apenas o melhor para vocês. Para vocês e para o mundo...
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