A manhã estava em suas últimas horas e o sol brilhava em pleno céu azul, na companhia de algumas nuvens brancas. Nuvens que lembravam visualmente a textura de algodão, como as que os românticos gostam de comparar com formas de animais ou objetos. Não eram como aquele outro tipo de nuvem, cinzento e intimidante, que geralmente corresponde a um prenúncio de grandes tormentas. Por sinal, uma tempestade havia ocorrido durante a noite anterior, o que contribuiu ainda mais para a bela paisagem do novo dia que nasceu. Afinal, ela ajudou a dispersar uma outra espécie de nuvem, também ameaçadora, formada por fuligem e outros tipos de partículas nocivas. Mas tudo isso era passado, a noite chuvosa deu origem a uma bela manhã, quente e ensolarada. Uma nova manhã, com novas possibilidades. Um belo dia para... um sepultamento.

Como era de se esperar, os ânimos no cemitério estavam bastante abalados. Rostos tristes, cansados e molhados de suor eram sintomas do calor que ao mesmo tempo penetrava e irradiava das almas envoltas por trajes escuros. Inconsolável, uma mulher soluçava enquanto era abraçada por sua mãe. Um homem, extremamente exausto, ouvia algumas palavras de conforto que seu irmão lhe sussurrava.

Todos os rituais envolvidos no sepultamento foram cumpridos após alguns minutos. Logo, as pessoas começaram a se afastar lentamente do local de descanso final do jovem guerreiro. Entre elas se encontrava uma mulher morena, de meia-idade, que caminhava bastante pensativa olhando para o chão. Enquanto ela seguia a saída do cortejo, uma outra mulher se aproximou e passou a acompanhar seus passos. O olhar dela estava fixo no rosto da outra e um sorriso se mantinha em seus lábios, mas nenhuma palavra saía de sua boca.

Depois de quase um minuto, a primeira mulher abandonou seus pensamentos e virou sua cabeça, percebendo finalmente a presença ao seu lado.

— Nara? Nossa, nem percebi que você estava aí...

— Oi, Márcia. — Naira aparentava ter a mesma idade de Márcia. Seus cabelos eram louros e curtos. — Atrapalhei sua concentração?

— Hã? Ah... é que eu estava pensando no que aconteceu. É tão... injusto.

— Como assim?

— Você sabe... uma mãe enterrar o próprio filho. Não é a ordem natural das coisas.

— Hmmm... na verdade, a morte de filhotes é bem comum na natureza. Como eles ainda são pequenos e inocentes, viram presas fáceis para os predadores.

— Que horror!

— Ou seja, sob esse ponto de vista, a morte de um filho até que é algo natural.

— Olha... isso até tem alguma lógica, mas nós, seres humanos, não vivemos em uma selva, no meio de predadores.

— Tem certeza?

— O que eu quero dizer é que o menino não morreu por causa de... predadores.

— Talvez não... Agora me responda uma coisa: o que você chama de ordem natural das coisas? Todos nós morrermos apenas de velhice?

— Pode ser.

— Já pensou como ficaria o mundo, se fosse desse jeito? Com o desenvolvimento da medicina, as pessoas estão vivendo cada vez mais. É triste dizer isso, mas, se não existissem acidentes de trânsito, assassinatos e doenças, não haveria espaço no planeta para acomodar tanta gente.

— Nara!

— Mas não é só isso. A iminência de uma possível morte é importante também para uma vida plena. Se a gente não pudesse morrer no dia a dia, deixaria de fazer várias coisas, como ir a um bom restaurante, passar mais tempo com a família ou simplesmente dizer aos outros como nos sentimos. Afinal, por que fazer hoje o que pode ser feito amanhã? Ou depois de amanhã, ou na semana que vem, ou daqui a uma década... Por isso, a incerteza de se vai ou não haver um futuro é essencial para vivermos o presente.

— Bom, acho que você tem razão.

— Imagine se uma pessoa fosse imortal. Ela perderia toda a perspectiva do que realmente se trata a vida. Por isso, a morte é parte fundamental da ordem natural do universo.

— Certo, você me convenceu. Mas é que... ela precisa acontecer tão cedo, como neste caso?

— Talvez não. Por outro lado, o que é melhor, uma morte prematura ou uma vida que nunca existiu? Será que uma mãe trocaria a dor e a alegria dos poucos mas valiosos anos que teve com seu filho pelo vazio de nunca o ter conhecido?

Márcia olhou para baixo e colocou as mãos sobre sua barriga protuberante, acariciando-a suavemente. Então disse:

— Não, não trocaria... Ah, o Jonas vem vindo.

Um homem alto de cabelos castanho-claros deixou o grupo de pessoas que acompanhava e alcançou as duas mulheres. Ele tinha feições duras, mas sua expressão era bastante sorridente.

— Olá. Tudo bem com você, Nara?

— Oi, Jonas. Eu estava conversando com a sua mulher sobre o papel da morte na vida das pessoas.

— Pois é. Uma morte tão sem sentido de uma criança e um dia tão bonito desses... Parece até uma piada de mau gosto da natureza.

— Ai, meu Deus, haja paciência! — exclamou Nara. Márcia levou uma mão à boca para segurar uma risada, enquanto Jonas olhava curioso para as duas, sem entender.

Com o fim da cerimônia de sepultamento, os presentes ofereceram mais uma vez suas condolências aos pais do menino falecido. Além disso, despediram-se dos demais conhecidos, para então seguirem com suas vidas. Caminhando em direção ao estacionamento do cemitério, Jonas e Márcia continuavam acompanhados por Nara.

— Nara? — disse Márcia. — A conversa que a gente teve sobre a morte... Onde você ouviu tudo aquilo?

— Ah... passa muita besteira na televisão, você sabe. — Nara sorriu. — Mas vamos falar de vocês. Quando mesmo chega o bebê? Acho que não tem mais espaço para crescer nessa barriga...

— Faltam três semanas. Acho que vou sentir falta de tudo isso, sabe? Quer dizer, é lógico que estou bastante ansiosa, mas a sensação de ter um filho crescendo dentro de mim é maravilhosa. Ainda mais no meu caso, em que a gravidez foi bem tranquila. Bom... sem contar aquele probleminha.

— Probleminha? Caramba, Márcia, você chegou a desmaiar de dor! Eu fiquei muito, muito assustada. Cheguei até a pensar no pior...

— Mas deu tudo certo no final, né? E o doutor disse que o bebê não sofreu nenhum problema, isso é o mais importante. Eu... não sei se suportaria se tivesse perdido...

Márcia colocou as mãos sobre sua barriga, ao mesmo tempo em que fechava os olhos e sorria levemente. Jonas apoiou um braço nas costas da esposa e disse:

— Hã... acho melhor a gente ir embora. Você vai almoçar com a gente, Nara?

— Bem, já que me convidaram... Vai ser óti...

— AHHH!

O grito de Márcia causou espanto, mas Jonas se recuperou a tempo de amparar a esposa antes que ela desabasse sobre o chão. Enquanto ele a acomodava cuidadosamente sobre o solo, Nara perguntou, aflita:

— O que foi? O que você está sentindo?

— Meu filho! M-meu filho!

Márcia chorava bastante, segurando a barriga e encolhendo o corpo. Alguns segundos depois, um líquido vermelho e espesso tingiu a saia que ela vestia e começou a molhar o chão.

— Meu Deus! — exclamou Nara, assustada.

Algumas lágrimas começaram a brotar dos olhos de Jonas, mas ele logo se recompôs e, com uma expressão decidida, disse:

— Nara, cuida dela enquanto eu trago o carro. — Ele beijou o rosto da esposa e sussurrou em seu ouvido: — Não vou deixar nada acontecer com vocês dois. Eu juro pela minha vida.

Jonas se levantou rapidamente e se pôs a correr em direção ao local em que havia estacionado seu carro. Ao mesmo tempo, ele retirou seu celular do bolso e fez uma ligação.

— Vamos, doutor... Atende logo... Alô? Doutor, é o Jonas. Jonas Luz. Precisamos do senhor! Sim, é urgente!

**********

— Não, não vi. O que aconteceu?

— As duas se encontraram e começaram um papo meio estranho.

— Sobre o quê?

— Sobre a morte. Sobre o papel da morte no equilíbrio cósmico do universo ou algo parecido. Depois disso fiquei cansada e fui dormir.

— Sei. Mas me conta mais sobre esse papo que...

O diálogo foi interrompido pela entrada impetuosa de uma mulher no recinto. As duas jovens uniformizadas a viram correr na direção delas, no balcão de recepção. Bastante nervosa e ofegante, Nara disse:

— Por favor! Minha amiga... Lá fora, no carro... Ela está sangrando e... Com muitas dores... Ela está grávida...

Uma das recepcionistas pegou imediatamente o telefone, enquanto a outra disparava pelo largo corredor à esquerda do saguão principal em que se encontravam. Cerca de vinte segundos depois, um médico e uma enfermeira apareceram no saguão e se aproximaram de Nara, que já respirava com menos dificuldade.

— Onde está a sua amiga?

— No estacionamento. O marido dela parou o carro lá.

— Obrigado.

O médico e a enfermeira deixaram o local, seguidos por dois homens que carregavam uma maca. Nara pensou em acompanhá-los, mas, com seu corpo ainda tremendo pelos estresses físico e emocional, resolveu aguardar. “Não posso fazer mais nada. Pelo menos, não atrapalho”, resignou-se.

Alguns instantes depois, o grupo retornou acompanhado por Jonas e Márcia, esta última deitada sobre a maca. Enquanto ela era carregada ao longo de um corredor, Nara se juntou ao grupo.

— ... assim, de repente. Pegou a gente de surpresa — disse Jonas, perturbado.

— É algo que pode acontecer — disse o médico. — Mas pode deixar tudo em nossas mãos, vamos fazer o possível.

— Hã... não me leve a mal, mas eu esperava que o nosso médico, o doutor Ernesto Dantas, estivesse aqui.

— Eu sei. Eu o conheço, nós já trabalhamos juntos. Aliás, estava conversando com ele pelo telefone quando vieram me avisar que vocês chegaram aqui. Não se preocupe, ele já deve estar chegando.

A maca de Márcia foi conduzida para o interior de uma sala de atendimento. O médico disse a Jonas e Nara:

— É melhor vocês dois irem para a sala de espera.

— Mas...

— Por favor, deixem tudo conosco. Ficar aqui só iria atrapalhar.

Jonas ainda tentou argumentar, mas Nara o segurou e o convenceu a seguir a orientação transmitida. Eles voltaram então ao saguão de entrada e sentaram lado a lado em um sofá colado a uma parede. Jonas colocou as mãos sobre a cabeça e ficou com os olhos voltados para o chão, enquanto Nara olhava fixamente para o vazio. As duas recepcionistas, de volta a seus postos, continuavam a conversa que havia sido interrompida:

— E quando a morte está próxima, as pessoas se lembram de como a vida é frágil.

— Entendi. Mas depois que uma pessoa morre, não dá mais para recuperar o tempo perdido longe dela.

— Isso é verdade. Tem um livro que diz que a morte é o alto custo da vida. Então o segredo é aproveitar ao máximo as oportunidades para que o preço a pagar no final seja justo.

Nara baixou o olhar e disse baixinho:

— Mas também não é justo pagar tão adiantado. Não é justo mesmo...

**********

Segundos se tornaram minutos. Minutos pareceram durar horas. Ou dias. O tempo se confunde quando a ansiedade predomina. Jonas se levantou pela décima vez em um período de dez minutos para arejar a mente e afastar pensamentos nebulosos. Ele pretendia tomar um pouco de ar fresco na entrada do hospital, quando avistou o doutor Dantas caminhando até ele. Nara também se levantou e, juntamente com o marido da amiga, interrogaram silenciosamente o médico, ambos com olhares suplicantes.

— Podem relaxar por enquanto — disse o médico. — Mãe e filho passam bem.

— Não tem mais perigo? — perguntou Jonas.

— Bem, creio que já vieram lhes comunicar que houve a necessidade de realizar uma cesárea de emergência.

— Sim, já sabemos.

— O bebê está em condição estável, embora seja necessário que permaneça algum tempo no hospital. Em relação à mãe, ela se debilitou bastante e está descansando, mas deve se recuperar bem. Posso dizer que nenhum dos dois sofre risco significativo de vida.

Nara se deixou cair sentada no sofá, ainda em choque. Jonas, por sua vez, colocou as mãos sobre o rosto e derramou algumas lágrimas. Alguns segundos depois, mais recomposto, ele disse:

— Obrigado, doutor. Muito obrigado.

— Espere um pouco, preciso dizer mais uma coisa. Houve um... problema.

— O quê? Mas o senhor não disse que tudo correu bem?

— Eu disse que sua esposa e seu filho estão fora de perigo. Mas houve complicações durante o parto. A senhora Luz sofreu uma severa hemorragia e perdeu muito sangue. Não conseguimos controlar a situação, então tivemos que tomar uma decisão para salvar a vida dela. Resolvemos realizar uma histerectomia. Nós retiramos o útero de sua esposa.

Jonas não continuou o diálogo. Ele se sentou novamente no sofá ao lado de Nara, que soluçava de maneira contida, e assim permaneceu por algum tempo, com uma expressão perplexa.

**********

Ernesto Dantas entrou na sala de descanso dos funcionários e encontrou o médico com quem havia trabalhado durante o parto de Márcia. Ele tomava um café e, quando percebeu a chegada do colega, perguntou:

— E então, falou com os familiares?

— Sim. Eles ficaram um pouco receosos, mas devem ficar bem.

— Espero que sim. E espero que a mãe também se recupere bem. Os traumas físico e psicológico podem ser complicados.

— Tudo se ajeitará quando ela vir o filho.

— Pode ser. Ernesto... aquilo que a gente viu ainda não saiu da minha cabeça.

— A que você se refere?

— Como assim? Às marcas no útero dela, lógico! Elas não são normais...

— E o que você supõe? Que o marido a trata com violência?

— Não, não pode ser isso. Se fosse assim, o bebê não estaria tão saudável. Na verdade... bem, isso vai soar muito estranho, mas é como se... como se os ferimentos tivessem sido feitos de dentro para fora. Mas para ferir com essa gravidade, teria que... Ah, sei lá. Não sei o que pensar...

Doutor Dantas ajeitou seus óculos no nariz e respondeu:

— Sim. É algo muito estranho.