Googolplex - Volume 1
3 Ano 4: Cinco Minutos
Não era possível saber em que lugar ele se encontrava. Aliás, tudo ao seu redor seria esquecido algumas horas depois. A única imagem que resistiria em sua memória era a de um objeto semelhante a uma folha de papel amarrotada. Folha que foi esticada suavemente por alguns dedos até que assumisse uma forma retangular (embora ele não tivesse ainda aprendido que aquela forma geométrica era denominada retângulo). Na superfície dela se destacava o desenho de um simpático cão estilizado, sendo esta figura o que mais chamou a atenção dele. Mas acima do desenho se destacava também uma palavra escrita em letras gigantes: POTABA (o que não despertou muito interesse nele, provavelmente porque não sabia ainda ler).
Quando sua atenção já estava totalmente envolvida pelo curioso objeto, um clarão ofuscou sua visão e a figura retangular simplesmente desapareceu. Surgiram, em seu lugar, algumas formas com que ele já estava acostumado. No centro, um planeta azul rotacionava em torno de seu próprio eixo. Em torno dele, outros corpos se movimentavam em círculos: uma lua branca, uma estrela amarela, uma nave espacial e um homem com uma capa às costas e os braços erguidos para cima.
Enquanto ele observava o móbile colorido pendurado em seu quarto, um rosto bastante conhecido surgiu em sua frente. Sorrindo, Márcia se aproximou ainda mais dele e lhe deu um beijo, antes de dizer:
— Bom dia, Fred. É hora de acordar, meu dorminhoco.
**********
O dia seguiu normalmente até o final da tarde. Márcia estava em casa, sentada em frente à mesa de jantar, e cuidava de algumas tarefas domésticas. Bem próximo a ela, Fred brincava sozinho, sentado sobre o chão. Além dos dois, em um canto da cozinha, dormia mais um importante e estimado integrante da família: Quinzinho, um vira-latas que já vivia na casa quando o garoto nasceu.
Fred segurava dois bonecos em suas mãos. Um deles era de plástico e tinha a aparência de um homem de máscara, capa e roupas coloridas. O outro possuía a superfície coberta por um tipo de tecido e a palavra monstro talvez fosse a que o descrevia de modo mais fácil. Ele tinha olhos grandes, nariz comprido, cores que variavam entre roxo e cinza e um corpo disforme de onde brotavam dois braços esticados, as únicas formas que guardavam alguma semelhança com um corpo humano. Segundo a imaginação de Fred, os dois personagens lutavam arduamente e o monstro estava em grande vantagem, embora uma reviravolta de cenário parecesse iminente. Contudo, a batalha pelo futuro do planeta (ou do chão da sala de jantar) foi interrompida por um toque de campainha.
Márcia foi atender à porta, acompanhada por um recém-desperto Quinzinho. Quando a abriu, encontrou sua amiga Nara segurando uma menina no colo. As duas visitantes disseram simultaneamente:
— Oiiiiiii!
— Olá! Quer dizer que a minha menina mais querida veio me visitar? Tudo bem, Naira?
— Tudo.
— E a mamãe, como está?
— Levando — respondeu Nara. — Levando a filha para a escola, para o parque, para o shopping...
Márcia conduziu as visitantes para dentro de sua casa. As três seguiram até a sala de jantar, onde foram recebidas pelo olhar curioso de Fred. Nara colocou a filha no chão e foi cumprimentar o filho da amiga:
— Olha só, se não é o meu menino preferido de todo o mundo!
— Ah, então é assim? — perguntou Márcia, sorrindo. — O.k., vamos fazer o seguinte: Naira, sua mãe quer ficar com o Fred e levar ele para casa. Então você vai ter que ficar aqui comigo no lugar dele. Tudo bem?
— Não! — responderam as duas crianças ao mesmo tempo.
As duas mães gargalharam e se sentaram à mesa de jantar. Quinzinho, que também havia recebido seus cumprimentos das visitantes, estirou-se no chão próximo às cadeiras. E Naira, por sua vez, aproximou-se de Fred para (tentar) entrar e participar do mundo que ele havia criado em sua imaginação para servir de palco para seus bonecos.
Márcia sorriu ao observar as crianças conversando, mesmo não entendendo muito bem o que diziam. O diálogo entre elas, infelizmente, extrapolava certos limites de compreensão da grande maioria dos cérebros que, convencionalmente, eram chamados de adultos.
— Eles se dão muito bem — comentou a mãe de Fred. — Que bom que você teve a Naira menos de um ano depois que o Fred nasceu.
— É verdade. Acho que fiquei com inveja da sua felicidade — disse Nara, sorrindo.
— Como assim?
— Bem, a gravidez não foi algo que a gente discutiu ou planejou. Mas depois de ver você e o Jonas tão felizes, acho que nós pensamos a mesma coisa, apesar de nem termos tocado no assunto. Tanto que, quando descobrimos que eu estava grávida, não foi nenhum choque. Foi meio que natural. Uma felicidade esperada.
— Sei. Nem precisa me agradecer, então — riu Márcia.
— Mas como estão as coisas? A gente não está atrapalhando, né? Você disse ao telefone que não tinha nada importante para fazer.
— Não tenho mesmo. Só estava arrumando algumas coisas da casa.
— Estou vendo — disse Nara, enquanto reparava no conjunto de talheres dispostos em uma elegante caixa sobre a mesa. — Isso é prata?
— Sim. Eu estava... hã... limpando.
— Você nunca me disse que tinha talheres de prata. Quando você comprou?
— Foi presente de casamento.
Nara ficou com uma expressão desconfiada. Então perguntou:
— E por que eu nunca soube disso em todos esses anos? Você nunca quis que eu usasse?
— Não, não é nada disso. É que... nós não... hã... nunca houve uma...
— Já sei. O conjunto é novo, vocês nunca usaram ele. Ficaram esperando uma ocasião especial para estrear, que ainda não aconteceu. Ou melhor, vocês acham que ainda não aconteceu.
— É... mais ou menos...
— E você acha que a pessoa que presenteou vocês ficaria feliz se soubesse disso?
— Nara...
— Márcia, de que adianta ficar guardando isso dentro de um armário? São apenas garfos, colheres e facas... As pessoas usam isso para comer. Não é uma utilidade maravilhosa? Olha... todo mundo possui algumas coisas que têm forte valor sentimental. E que é um pouco difícil expor essas coisas, porque existe o receio de que possam se estragar ou se perder. Mas de que adianta guardar isso para sempre? Se temos algo especial, o melhor que podemos fazer é compartilhar ele com o mundo, com as pessoas de quem gostamos. Caso contrário, além de ser um desperdício, é um tremendo egoísmo.
— É... acho que você tem razão — disse Márcia, ainda observando as crianças. Naira segurava o boneco monstro, mas não atacava o boneco herói de Fred. Provavelmente, os dois poderosos inimigos resolveram fazer as pazes.
Nesse momento, a porta da casa se abriu e um homem entrou, carregando um saco de papel em seu braço. Era Jonas.
— Ah, o papai chegou! — disse Márcia.
As duas crianças se levantaram e foram correndo até a porta. Chegando ali, Fred abriu um largo sorriso e abraçou o pai. Naira, por sua vez, ficou com uma expressão desapontada (a razão era que não encontrou a pessoa que esperava quando ouviu Márcia mencionar a palavra papai), mas ganhou um beijo de Jonas da mesma forma. E Quinzinho também se aproximou de seu dono, recebendo seus próprios afagos. Depois da calorosa recepção, Jonas disse:
— Olá! Tudo bem, Nara? Que bom que você resolveu aparecer.
— Olá. Pois é, não tinha nada para fazer hoje, então vim gastar um pouco do tempo da sua mulher.
— Vou cobrar por hora da próxima vez, hein? — disse Márcia, sorrindo. Então perguntou ao marido: — O que é isso que você trouxe?
Jonas colocou o saco que carregava sobre a mesa e retirou de dentro dele três pequenos pacotes plásticos. Eles eram coloridos e tinham o desenho de um cão estampado.
— POTABA? O que é isso? — perguntou Márcia.
— É uma marca nova de batata-frita. Estavam distribuindo amostras na entrada do mercado e eu experimentei. É bom demais! Não sei que tipo de tempero eles usam, mas é a melhor batata que já comi. Por isso resolvi comprar alguns pacotinhos.
— Batata-frita, Jonas? — desapontou-se Márcia. — Você não vai dar isso para as crianças, né? Se elas ficarem acostumadas a comer essas porcarias...
— É bem possível. Acho que eu fiquei viciado nessas coisinhas...
— Ai, meu Deus... É melhor eu preparar um lanche decente para todos nós. Você me ajuda, Nara?
— Claro.
— Obrigada. Fica de olho nas crianças, Jonas.
— Pode deixar.
Jonas pegou um dos pacotes de batatas que estavam sobre a mesa e o abriu. Ao começar a comer, ele percebeu que Quinzinho o observava sentado, com a boca aberta. Jonas lançou então um olhar em direção à cozinha, antes de cochichar com o cão:
— Bom, para você não me proibiram de dar...
Se a tal batata havia causado uma impressão bastante positiva em Jonas, o mesmo ocorreu com Quinzinho quando ele a experimentou. Uma, duas, cinco lascas... O apetite do cão parecia não ter fim. Sentar, levantar a pata, deitar... Sua disposição em realizar truques em troca de batatas também era imensa.
A brincadeira entre cão e dono durou cerca de cinco minutos. Uma quantidade de tempo pequena para quem se divertia, mas grande para alguém que ansiava por algo. Um período curto para uma pessoa com muitos anos de vida, mas comprido para quem estava apenas dando os primeiros passo no mundo.
Quando adultos evitam tratar de algum tema na presença de crianças, a justificativa é que elas são jovens demais para entender assuntos delicados e complexos. Por outro lado, se muitas vezes as crianças são incompreendidas pelos adultos, um dos motivos é a inocência de sua visão particular do mundo, apesar de ser o mesmo em que vivem os mais velhos. Trata-se de uma concepção que os adultos já tiveram algum dia, mas que foi perdida no fluxo do tempo. Por essa razão, Jonas não foi capaz de perceber que a embalagem colorida das batatas havia atraído completamente a atenção de Maira, por algum motivo que ele jamais compreenderia. Entretanto, se ele não estivesse tão entretido com Quinzinho, talvez deduzisse o interesse da menina pelo olhar curioso que ela lançava aos dois pacotes deixados na beirada da mesa de jantar.
Em um primeiro momento, a curiosidade levou a garota a simplesmente mirar seu objeto de desejo. Mas o passo seguinte já mostrava alguma iniciativa de sua parte, pois ela esticou os braços para cima na direção dos pacotes de batatas. Em seu caminho, contudo, surgia o primeiro obstáculo, a altura da mesa, que a impedia de alcançar o que desejava. Foi então que a engenhosa mente de Naira começou a trabalhar, quando sua atenção se desviou para a comprida toalha que cobria a mesa, cujas extremidades quase tocavam o chão. E ela logo percebeu que, ao puxar o tecido, os pacotes se aproximavam mais e mais da borda da mesa.
Se por um lado as crianças são incompreendidas pelos adultos, por outro elas são também muitas vezes subestimadas, seja por seus poucos anos de vida ou por seu físico ainda não muito desenvolvido. Entretanto, não foi por menosprezo pela mente ainda inexperiente de Naira que Jonas não notou que a menina começou a puxar a toalha para baixo. E também não houve desdém pela força da garota, considerando que ao lado das batatas se encontrava uma caixa de talheres cujo peso não era desprezível. O único detalhe que Jonas realmente subestimou foram os cinco minutos de desatenção às crianças, que lhe pareceram durar apenas um piscar de olhos.
**********
Márcia e Nara conversavam na cozinha sobre as últimas descobertas de seus filhos em suas peripécias diárias pelo mundo à sua volta. Mas o diálogo foi interrompido por três estrondos consecutivos: o som de objetos metálicos se chocando, o latido característico de Quinzinho e o choro desesperador de Naira.
As duas mães correram até a sala e, por um momento, paralisaram-se com o que viram. De um lado da mesa de jantar, Jonas estava com um expressão confusa, enquanto Quinzinho parecia se esconder entre suas pernas. Aos pés das duas mulheres, Naira chorava deitada de costas no chão, agarrada à toalha que deveria estar cobrindo a mesa de jantar. E do lado posterior da mesa, o mais afastado de onde todos estavam, o conjunto de garfos e facas de prata se encontrava caído sobre o chão.
Enquanto Nara confortava a filha, Márcia tentava entender a situação. A toalha nas mãos de Naira indicava que ela a havia puxado para baixo. Mas por que então a caixa de talheres foi atirada do outro lado da mesa? As reflexões da mãe de Fred, contudo, não duraram muito tempo, já que ela se deparou com uma dúvida mais relevante: onde estava seu filho?
Márcia olhou para os lados e se deparou com Fred sentado em silêncio sobre o sofá. Sofá que se localizava colado à parede dos fundos da sala, a alguns metros do local em que se encontrava a mesa de jantar. A mãe se aproximou do filho e percebeu que ele estava bastante entretido com os dois objetos que segurava. Dois pacotes de batatas POTABA, ainda fechados. Pois não era seu conteúdo que atraía a curiosidade do garoto, e sim as figuras impressas nas embalagens.
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