Googolplex - Volume 1
4 Ano 7: O Melhor Amigo
O dia estava bastante calmo. O céu nublado bloqueava os raios de sol, mas a ausência de ventos garantia um clima abafado. Nada disso, porém, importava para Fred, que se mantinha sentado no sofá dentro de casa. Sua atenção, por outro lado, estava direcionada para o exterior, de modo que ele observava o movimento na rua e na calçada com o rosto colado na janela da sala. Ou melhor, ele não assistia a movimento algum, pois a passagem de carros e pedestres era bem rara nesse momento. Mas mesmo assim o garoto permaneceu imóvel por um bom tempo, com os cotovelos apoiados no parapeito e as palmas das mãos sob as bochechas. Ele somente voltou a se mover quando Márcia decidiu se aproximar para conversar:
— Fred, não adianta ficar aí o dia inteiro... Você não quer comer alguma coisa?
— Não.
— Então... que tal a gente ir até o parque? Vamos tomar um sorvete?
— Não quero.
— Filho... desse jeito, você vai ficar doente. Aí, se ele voltar, vocês não vão nem poder brincar...
— Mas... e se ele voltar pra casa e não tiver ninguém aqui?
— Ele espera a gente chegar. Ele sabe que será bem-vindo em seu próprio lar.
— É... acho que sim.
— E então, vamos até o parque?
— Não... acho que não.
Márcia passou a mão sobre a cabeça do filho, antes de deixá-lo sozinho novamente. Ela não sabia o que mais poderia fazer para animá-lo, e isso a entristecia muito. Assim, era natural que ficasse ainda mais triste que Fred, já que a aflição da mãe pelo filho se somava à preocupação inicial, proveniente do estranho desaparecimento que havia ocorrido em sua casa. Além disso, talvez a inesperada ausência fosse ainda mais sentida por ela do que pelo filho, pois, se Fred o conhecia desde que nasceu, a mãe já o tinha como companheiro anos antes de ficar grávida. O mais estranho era que ele sempre foi muito leal e carinhoso com todos, de modo que causava muito espanto sua súbita saída, sem o menor aviso. Mas era essa a realidade: Quinzinho havia partido.
A família Luz morava em uma casa aconchegante situada em uma pequena cidade do interior. Não havia grandes luxos no local, mas a vizinhança era tranquila e os moradores se mostravam bem amistosos. Na rua da família de Fred, em especial, os vizinhos eram em sua maioria casais aposentados, o que talvez explicasse os paciente e cuidadosamente tratados jardins de frente das residências. Fora isso, a idade deles também indicava uma explicação razoável para a ausência quase completa de outras crianças nas proximidades.
Nesse clima de grande tranquilidade, que incluía pouquíssimo trânsito de automóveis e raríssimas ocorrências criminais, sempre pareceu natural para Márcia e Jonas criar seu cão sem nenhum tipo de restrições e amarras artificiais. Ele era livre para sair e voltar para casa a qualquer hora, embora sempre permanecesse nas redondezas e retornasse rapidamente quando ouvia o chamado de seus donos. Além disso, era bastante inteligente (inclusive quanto aos locais apropriados para suas funções fisiológicas) e tinha um temperamento dócil, o que fazia com que todos os vizinhos o adorassem. Ou seja, ele era realmente tratado por todos como um membro da família.
E quando a família se tornou maior com o nascimento de Fred, Quinzinho pareceu rapidamente ter percebido que o ambiente em seu lar se transformaria. Mas ele acolheu seu novo companheiro com alegria e afeto, além de total paciência com as estripulias do menino. Fred, por sua vez, também criou um sentimento bastante especial pelo cão, mesmo sendo um companheiro de um tipo sereno e não muito brincalhão. Afinal, a figura de Quinzinho, juntamente com as de Márcia e Jonas, esteva presente em todas as lembranças que o garoto construiu em seu lar.
Além disso, conforme crescia, Fred foi aos poucos percebendo e aceitando as características da personalidade do cão. Que Quinzinho, por exemplo, não era do tipo que o acompanharia em correrias pela casa ou pelo jardim, por mais que insistisse. Ou que ele era completamente fascinado pelas batatas POTABA, o que fazia com que Jonas as lhe oferecesse em quantidades bem acima do que seria recomendado por qualquer veterinário. O pai de Fred, inclusive, brincava com o desenho de cachorro estampado na embalagem das batatas, dizendo que o produto havia sido criado especialmente para cães.
Mas como tudo que segue a ordem natural do universo, a tranquilidade que reinava na casa da família Luz subitamente se encerrou. Pouco tempo depois de completar quinze anos de vida, Quinzinho abandonou seu lar, para nunca mais retornar. Preocupados, seus donos o procuraram pelos arredores, questionaram os vizinhos e até pediram ajuda à polícia. Os esforços, contudo, foram em vão: ele não foi visto por ninguém nas redondezas.
Alguns dias depois, sem conseguir obter nenhuma informação relevante, Jonas e Márcia começaram a se resignar. Sem saber mais o que fazer, eles tentaram imaginar algum fato ocorrido que pudesse justificar a fuga do cão, mas não se lembraram de nada anormal. Não houve nenhum gesto incomum, não lhe foi direcionada nenhuma forma de violência e ele nem sequer foi repreendido com uma bronca. Assim como também não houve nenhuma despedida.
Mas se o casal desistiu de encontrar o cão, a postura não foi compartilhada por seu filho. Ao chegar o primeiro sábado após a data do desaparecimento, Fred se viu livre das atividades escolares de seu cotidiano e passou quase o dia inteiro em casa sentado em frente à janela, na esperança de ver o cão retornar. Preocupados, os pais do garoto tentaram convencê-lo da inutilidade de seu gesto, mas o apelo à razão não foi um argumento capaz de dobrar a cega obstinação. E houve ainda uma outra tentativa, uma cartada desesperada, um convite infeliz de Márcia:
— Fred, que tal a gente arranjar um outro cachorro?
O garoto não disse nada, mas o olhar triste que lançou à mãe respondeu por ele.
— É, eu sei... — disse Márcia. — Eu também não quero isso.
O sábado deu lugar ao domingo e a situação permanecia inalterada. Márcia realizou então uma última investida para animar o filho: convidou sua melhor amiga para uma visita. Nara e Naira chegaram no começo da tarde, logo depois do almoço.
— Alguma novidade? — perguntou Nara.
— Não — respondeu Márcia. — E ele não sai daquela janela...
— Coitado. Sabe, a pior coisa que pode acontecer com uma pessoa de quem a gente gosta é ela sumir.
— Tem certeza de que é a pior coisa?
— Sim, porque a gente não tem a mínima ideia do que acontece com ela. Se alguém morre, por exemplo, é bem triste, mas depois de um tempo a gente junta os cacos e toca a vida. Agora, se alguém simplesmente some, não dá para saber se morreu, ficou doente, está se divertindo em outro lugar ou mesmo se vai topar com a gente mais dia ou menos dia. Fica uma nuvem de incerteza, com o passado sempre atormentando. E o pior é que a gente não consegue nem saber se deve sentir tristeza, raiva ou culpa.
— Tem razão. Mas o pior de tudo é ver o Fred tão desanimado...
— É, eu sei. Hmmm... tive uma ideia. — Nara se abaixou em direção à filha, que estava ao seu lado. — Naira, você não vai falar com o Fred? Pergunta se ele não quer ir ao parque tomar sorvete.
— Tá bom.
— Não adianta — disse Márcia. — Eu tive a mesma ideia de manhã e não funcionou.
— Ah, mas a minha filha sabe pedir com jeitinho. Não é, Naira?
— Arrã.
Naira se aproximou da janela e se sentou ao lado de Fred, apoiando os cotovelos sobre o parapeito de modo a imitar a postura do amigo. Ela permaneceu imóvel por alguns segundos, até que resolveu romper o silêncio:
— Oi.
— Oi — respondeu Fred.
Mais alguns segundos de silêncio.
— Você tá triste, né?
— É.
Novo silêncio.
— Vamos no parque tomar sorvete?
Breve silêncio.
— ... tá bom — respondeu Fred.
Imediatamente, as duas crianças saíram da janela e se voltaram para o interior da casa, deixando Márcia de boca aberta.
**********
O parque que Fred costumava frequentar com seus pais se localizava a algumas quadras de sua residência. O local não era muito amplo, mas as árvores bem-cuidadas, o gramado regularmente aparado e as vias limpas costumavam atrair um bom número de pessoas. Desse modo, e considerando que a tarde de domingo estava quente e com o sol encoberto, parecia estranha a presença de poucos visitantes. Mas talvez a maioria estivesse receosa diante da perspectiva de uma tempestade, prevista pelos meteorologistas.
Márcia, Nara e as crianças entraram no parque e foram imediatamente atrás do carrinho de um vendedor de sorvetes. As mães compraram os doces e, em seguida, o grupo se dirigiu até uma área de recreação, onde se localizavam alguns brinquedos. Chegando ali, Fred e Naira subiram em balanços, enquanto as duas mães preferiram se acomodar em um banco a poucos metros deles.
Márcia comentou, observando o casal de crianças:
— Sabe, fiquei um bom tempo pensando em um motivo para o Quinzinho ter sumido...
— E chegou a alguma conclusão? — perguntou Naira.
— Não exatamente. Mas tem uma coisa interessante que algumas pessoas dizem. Que alguns cães e outros animais domésticos, depois de passarem a vida inteira com os donos, abandonam eles quando sentem que a morte está próxima. Isso porque estão velhos, doentes e dão muito trabalho, meio que se tornando um fardo para seus companheiros. E eles não querem atrapalhar a vida dos outros.
— Sei... E não deixam nenhum testamento ou pelo menos uma carta de despedida?
— Estou falando sério! É meio que um instinto natural. Quando um grupo de animais tinha que se deslocar de um lugar para outro, para procurar alimento ou fugir de predadores, os doentes e feridos ficavam para trás. Para não atrasar o bando e tal.
— Sei lá... Eu não acredito muito nisso. Ainda acho que é Alzheimer. O cachorro se esqueceu de onde mora e está perdido, vagando pelas ruas.
— Mas não pode ter esquecido. E o faro dele? É só seguir o cheiro de volta para casa...
— Pode ser mais um problema da idade. O faro não funcionar mais como antigamente.
— Bom... isso até que tem alguma lógica. Hmmm.... velho... aos quinze anos... Ele é só um debutante.
— É mesmo...
— Isso é bem irônico... A natureza cria um bicho que é considerado o melhor amigo do homem. Mas como nem tudo são flores, a vida média de um cão é muito menor que a de um ser humano. Ou seja, durante a nossa vida inteira teremos que sofrer perdendo vários e vários melhores amigos... Por que o melhor amigo do homem não é... sei lá... uma tartaruga, que vive bem mais?
— Hmmm... talvez a natureza tenha consciência de que o ser humano não é capaz de manter uma amizade leal e verdadeira por muito tempo. Quinze anos é o limite, antes que venham as intrigas, as mentiras, as traições...
— Nara! Que coisa horrível! E... quanto a nós duas? Nós não somos amigas há mais de quinze anos?
— Bem, talvez a gente seja uma exceção da espécie. — Nara sorriu. — Ou uma anormalidade, se você prefe... Ei, o que está acontecendo?
Enquanto falava, Nara viu sua filha e o filho de Márcia se agitarem em sua frente. Fred abandonou repentinamente seu balanço e começou a correr pelo gramado, com Naira atrás dele. Logo em seguida, Márcia apontou uma direção e a razão da correria das crianças se tornou evidente: era Quinzinho, que apareceu subitamente no parque e se dirigia ao encontro de seu jovem dono.
A reunião entre cão e dono trouxe lágrimas aos olhos de Márcia e Nara. Os dois companheiros se abraçavam deitados sobre o gramado, com Fred gargalhando enquanto Quinzinho lambia seu rosto. Alguns instantes depois, ambos se ergueram e ficaram sentados um em frente ao outro. Extremamente feliz, Fred abraçou seu cão. Bem forte. Muito forte. Forte até demais...
O que se ouviu em seguida foram dois ruídos abafados. Primeiro, um som seco, como o de galhos de uma árvore se partindo. Imediatamente depois, um ganido leve e agudo, talvez de dor. Ou de medo. Ou simplesmente de aceitação.
Anos depois, Fred ouviria de sua mãe que, nesse momento, Quinzinho finalmente achou o que estava procurando quando resolveu sair de casa. E que encontrou nos braços de seu melhor amigo.
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