O trem parou em frente à plataforma de embarque. Quando as portas do veículo se abriram, um rapaz saiu apressado do interior de um dos vagões. Ele se dirigiu às escadas rolantes e logo começou a subir os degraus, sem paciência para se deixar levar pelo ritmo próprio do mecanismo móvel. Depois de alguns passos, contudo, ele foi obrigado a se deter, já que um casal ocupava tranquilamente toda a extensão de um dos degraus, impedindo sua passagem. Com uma expressão de incômodo, o rapaz observava ao seu redor os cartazes colados de “mantenha-se à direita” e “deixe o lado esquerdo livre para circulação”.

Ao sair da estação de metrô, o ritmo de seus passos se acelerou ainda mais. E mais. E mais, de modo que, pouco tempo depois, o rapaz estava praticamente correndo pela rua. Mas a corrida durou cerca de cinco minutos apenas, até ele chegar à porta de um prédio. Atravessando o portão de entrada, porém, uma nova correria se iniciou. E assim, pouco tempo depois, ele já se encontrava no segundo andar do edifício, após subir alguns lances de escada saltando de dois em dois degraus. Nesse instante, ele resolveu colocar as mãos nos bolsos de sua calça, enquanto se aproximava da porta de um dos apartamentos.

No exato momento em que parava em frente à porta, suas mãos foram retiradas dos bolsos e um conjunto de chaves caiu sobre o capacho. A reação do rapaz foi soltar um palavrão, ao mesmo tempo em que se abaixava para pegar as chaves. Mas elas não eram mais necessárias, pois, enquanto ele se levantava, a porta se abriu. E por trás dela apareceu Fred, com os cabelos molhados e uma expressão confusa:

— Pedro? Tudo certo aí?

— Certíssimo. Mais certo do que nunca.

Pedro entrou rapidamente no apartamento e sumiu de vista. Fred, por sua vez, ficou parado em frente à porta, tentando entender a situação. Poucos segundos depois, uma explicação plausível lhe ocorreu, trazendo inclusive um sorriso ao seu rosto. Contudo, quando foi atrás do amigo, ele logo percebeu que o que estava acontecendo não era o que havia imaginado. A pressa de Pedro não teve como destino o banheiro, mas sim o quarto. Mais especificamente, a mesa de seu computador, em cujo teclado ele digitava freneticamente.

Com certa desconfiança, Fred perguntou:

— Ei, pra que tanta pressa?

— Eu vi ele! Tenho certeza que vi!

— Ele?

— Sim. Ele.

Fred deu um longo suspiro.

— Ah, ele... E... hã... em que lugar foi isso? Onde você acha que viu ele?

— Eu não acho que vi — respondeu Pedro, com certa irritação. — Eu vi. Foi lá no centro. Um ônibus parou em um semáforo e abriu a porta para uma garota descer, mesmo fora do ponto. E bem nessa hora um motoqueiro tava passando colado ao ônibus, do lado direito. Iria ser um desastre... Uma senhora até chegou a dar um grito, mas parecia tarde demais. Só que não pra ele. Porque ele apareceu do nada, segurou a moto e impediu o atropelamento.

— Mas... hã... você tem certeza? — Fred arregalou os olhos. — Quer dizer, será que o motoqueiro simplesmente não brecou a tempo?

— Não, não foi isso. Foi tudo muito rápido, mas tenho certeza do que eu vi.

— Bom... talvez o motoqueiro tenha visto a porta do ônibus se abrir e por isso já tinha começado a brecar. E... você disse que tinha um semáforo logo em frente, né? Isso quer dizer que ele já devia estar desacelerando.

— Cara, eu falei com o motoqueiro. Ele tava assustado, mas disse que parecia um milagre, porque não era pra ter freado a tempo. E eu também troquei algumas palavras com aquela senhora que gritou e com o motorista do carro que tava atrás do ônibus. Os dois disseram que viram um vulto aparecer e parar a moto.

Fred quis retrucar, mas não conseguiu encontrar argumentos convincentes. Se por um lado as evidências não eram definitivas, por outro as suspeitas não soavam infundadas. Algo inusitado realmente aconteceu e atraiu atenções. Principalmente a de Pedro, um sujeito que, como Fred veio a aprender com o tempo, nunca desistia de suas convicções sem alguma prova contrária concreta. Seu lema era acreditar enquanto houvesse possibilidade e desistir somente quando as chances se esgotassem completamente.

Os dois colegas de apartamento dividiam a moradia desde que se conheceram, logo que Fred se mudou de cidade. Calouro de faculdade na época, o recém-chegado estava ali para estudar História, carreira que optou por acreditar na importância de compreender os eventos que moldavam o mundo e suas origens. Entender, por exemplo, os motivos das conquistas e das perdas, a sucessão de eras de domínio e de ruína, a evolução das religiões e das ciências, a criação de relações de diplomacia e de conflito armado, e as razões da alternância entre períodos de desenvolvimento e de crise por que passou a humanidade. Além disso, para conhecer a história de diversas civilizações, Fred precisava entrar em contato com uma gama extensa de pensamentos, visões e culturas. Uma necessidade que, de alguma forma, podia ter influenciado sua escolha por um colega de apartamento tão diferente de si.

Pedro cursava o segundo ano de Ciências da Computação quando conheceu Fred. A escolha da carreira, no ano anterior, havia sido realizada de maneira quase que automática, já que ele sempre nutriu uma grande fascinação por computadores. Desse modo, o curso seria uma ótima oportunidade para se aprender e se desenvolver uma série de algoritmos e ferramentas úteis no universo digital. Mas havia um problema fundamental: seu interesse não era produzir tais ferramentas, e sim utilizá-las. Ele via a computação como um método, não um fim. Foi por esse motivo que o rapaz decidiu trocar de curso, passando a estudar Física.

Pedro ficou bastante animado diante da possibilidade de desvendar e analisar uma série de fenômenos da natureza que lhe eram desconhecidos. Entretanto, ele percebeu depois de algum tempo que tal objeto de estudo soava muito abstrato para sua mente. Foi então que surgiu a decisão de se concentrar em um assunto que lhe era mais palpável, um outro campo de interações igualmente fascinante e complexa: as relações humanas. Afinal, grande parte das longas horas que gastava com o computador eram usadas justamente para se comunicar com outras pessoas. Portanto, essa ânsia de comunicação o levou a entrar no curso de Publicidade, onde aparentemente se acomodou. Pois, pelo menos até esse momento, mantinha-se como o mais duradouro entre todos os que ele frequentou.

Vários caminhos diferentes foram percorridos em sua vida universitária, e ao mesmo tempo diversos projetos foram elaborados paralelamente com o auxílio de seu computador. Um dos primeiros que chegaram realmente a empolgar o autor foi a criação de um grupo de ajuda on-line visando combater o vício em redes sociais. A ideia era reunir internautas obcecados que enfrentavam problemas de ordem profissional e familiar devido ao excesso de tempo gasto e de exposição pessoal em sites de relacionamento. Dessa maneira, com o compartilhamento de experiências similares e o anonimato dos integrantes do grupo, o objetivo era oferecer uma forma equilibrada de auxiliar as pessoas sem expor suas vidas privadas.

Contudo, com o passar do tempo, o número de participantes da iniciativa aumentou progressivamente. O que implicou em um volume considerável de ideias sendo continuamente geradas, de modo que era necessária uma quantidade de tempo substancial para que cada integrante se mantivesse atualizado. Além disso, começou a surgir um número crescente de discussões relativas a temas que extrapolavam o tópico fundamental. Em seguida, não demorou muito para que os embates se tornassem acalorados e desrespeitosos. Pedro, portanto, não encontrou outra alternativa que não fosse encerrar as atividades do grupo.

O fracasso de suas boas intenções o deixou insatisfeito, mas não o impediu de buscar novos desafios. Assim, algum tempo depois, em uma época em que sua condição financeira não era das melhores, ele resolveu investir seu tempo em algo que lhe oferecesse um retorno rentável. Para tanto, contando com sua rede virtual de contatos e a disponibilidade de várias ferramentas sociais, o rapaz julgava necessitar apenas de algo especial que retivesse a atenção das pessoas e as fizesse espalhar a notícia entre seus amigos. Dessa maneira, a consequência seria um número considerável de seguidores, que por sua vez significaria uma quantidade proporcional de patrocinadores. Com isso em mente, Pedro acabou por encontrar uma ideia que considerou brilhante, inspirada ironicamente em um sonho que havia vivenciado: ele passaria um mês sem dormir.

Logo, com o auxílio de instrumentos de divulgação como página pessoal, sites de relacionamento e compartilhamento, blog e portal de vídeos, ele documentaria toda a experiência e forneceria ao público informações detalhadas sobre os efeitos da privação de sono em um indivíduo comum. Era uma ideia no mínimo excêntrica, mas que, comprovando sua intuição inicial, atraiu realmente um número considerável de visitas aos seus meios de divulgação. Contudo, um sério problema ocorreu uma semana depois do início da experiência: Pedro não conseguiu mais resistir e acabou adormecendo.

Apesar do fracasso, ele não desistiu de seu intento e, dez dias depois, anunciou que iria reiniciar sua investida. Além disso, visando assegurar ainda mais seus esforços, resolveu aumentar a carga de café e a quantidade de energéticos a serem consumidos. Mas isso não o impediu de cometer um grave erro, apenas dois dias depois do início da nova tentativa: ele estava sozinho em casa quando resolveu assistir a um programa esportivo de debates na televisão. Conclusão: o sono foi inevitável. E assim, após o segundo fracasso, a credibilidade de seu experimento se esvaiu.

Mas se por um lado o objetivo proposto por Pedro se mostrou difícil de ser cumprido, por outro ele ainda acreditava no sucesso da estrutura de negócios que tinha em mente. Bastava, portanto, apenas descobrir um novo objeto a ser explorado. O que acabou se realizando enquanto o rapaz acompanhava um noticiário local no computador, sem saber que seria o ponto de partida de sua ideia mais bem-sucedida até então.

Entre as notícias, a nota que mais chamou sua atenção relatava um estranho episódio em que um senhor de meia-idade, sofrendo uma parada cardíaca, havia aparecido na entrada de um hospital. Depois de ser atendido, ele felizmente se restabeleceu e contou que praticava sua corrida semanal em um parque, quando sentiu subitamente uma forte dor no peito. Instantes depois, um rapaz o amparou e disse algumas palavras, mas sua lembrança seguinte era a de somente estar deitado em uma cama de hospital.

O detalhe mais intrigante da história era o estado surpreendentemente satisfatório do sujeito quando os médicos o encontraram, considerando que o parque se localizava a vários quarteirões do hospital. Logo, não se sabia como o paciente foi transportado tão rapidamente e, o mais estranho de tudo, por que seu salvador desapareceu antes da chegada dos atendentes. De qualquer maneira, a matéria encerrava com um agradecimento emocionado do socorrido para o desconhecido samaritano.

O inusitado relato sobre esse herói anônimo era algo tão bizarro que despertou um curioso interesse por parte de Pedro. Tanto que ele resolveu realizar um rápida pesquisa sobre possíveis casos semelhantes. Assim, o que começou como uma distração casual se tornou uma busca cada vez mais profunda conforme ele descobria e se surpreendia com as informações encontradas. Motorista alcoolizado invade praia, mas não causa feridos. Ônibus permanece intacto mesmo após avalanche sobre estrada. Suicida salta de ponte e é encontrado a salvo em uma das margens do rio. Criança perdida em enchente reaparece de maneira surpreendente. Muitas das notícias foram publicadas por veículos jornalísticos tidos como sensacionalistas. Porém, se olhos céticos classificavam as informações como improváveis, um nariz curioso lembrava que mesmo as mais ínfimas e desprezíveis possibilidades não eram completamente nulas.

Pedro começou a reproduzir as notícias relacionadas em sua rede de comunicações, o que trouxe um rápido crescimento no número de acessos recebidos. As manifestações dos visitantes eram bem variadas, trazendo inclusive desconfianças, discussões e zombarias. Com o passar do tempo, começaram a surgir também relatos de pessoas que presenciaram situações semelhantes às noticiadas. Foi então que Pedro se viu obrigado a tornar seu trabalho de divulgação mais seletivo, já que muitas das informações recebidas eram falsas, fosse por chacota, ilusão ou simplesmente desejo de atenção.

Em determinado momento, ele passou a se concentrar em situações que seguiam um padrão específico. Um padrão cuja figura central era um agente com um certo tipo de comportamento, aparência (por mais vagas que fossem as informações neste caso) e habilidades sobre-humanas. Ao mesmo tempo, autointitulados especialistas começaram a contestar as hipóteses e a providenciar explicações alternativas para os fenômenos observados. A validade dessas soluções, contudo, mostravam-se pouco convincentes, pois era simplesmente impossível encontrar respostas lógicas para certos detalhes dos relatos. Afinal, as leis básicas da Física pareciam não estar sendo respeitadas. Diante disso, o que restava a Pedro era divulgar os fatos. Contar a história.

Foi criado para o agente um perfil hipotético que passou a ser alimentado com cada nova descoberta. As evidências pareciam apontar a existência de um indivíduo de aparência humana, homem ou mulher, com força e velocidade extremamente elevadas em relação a uma pessoa comum. Além disso, pelo padrão dos acontecimentos, tratava-se provavelmente de um benfeitor, com comportamento semelhante ao dos super-heróis da ficção. Pedro, entretanto, ainda não estava totalmente convencido de suas próprias crenças. Ele sentia que pesquisar e reproduzir não era suficiente, faltava observar com seus próprios olhos. Precisava ver para crer. Um desejo que foi finalmente atendido.

— O.k... como ele era, então? — perguntou Fred, desconfiado.

— Bom... tudo aconteceu em... hã... um segundo, no máximo. E ele tava de costas pra mim. Mas tenho quase certeza de que era um homem. Ele tava todo de preto e o engraçado é que ele parecia... molhado?

— O que foi?

— Incrível! Olha só essa notícia, saiu agora há pouco. — Pedro apontou para a tela do computador. — Um bêbado segurando uma garrafa foi visto mergulhando no lago de um parque. Segundo testemunhas, um objeto caiu do céu para dentro do lago e saiu voando logo em seguida. Alguns minutos depois, o bêbado apareceu no posto médico do parque dizendo que havia sido raptado por um ET e que ele havia levado sua garrafa. Coincidência?

— Bom...

— Isso só ajuda a comprovar que existe mesmo um sujeito por trás de todos esses salvamentos misteriosos. E agora que eu vi ele com meus próprios olhos, não preciso mais falar de modo impessoal. Percebeu a importância do que aconteceu hoje? Em vez de escrever que uma mulher foi misteriosamente salva de um atropelamento, vou poder dizer que ele impediu a tragédia. A partir de hoje, não vou precisar mais escrever sobre fenômenos, mas sobre feitos, ações. Sobre uma pessoa, um personagem.

— Você não acha que é... muito cedo? Não é melhor esperar mais um pouco pra ter... hã... certeza de tudo?

— Eu nunca tive tanta certeza quanto agora. Pra que perder mais tempo enrolando? A vida é curta... A única coisa que tá faltando agora é... um nome.

— Nome?

— É, nome. Porque, em primeiro lugar, este é um momento histórico e criar um nome de impacto é importante como forma de registro. E em segundo lugar, como vou contar a história de um sujeito sem nome? É uma necessidade... sei lá, literária, jornalística, legal... Eu preciso de um nome pra usar nos textos...

— Hmmm... e que tipo de nome?

— Não sei... Tem que ser um nome forte, poderoso, que combine bem com a imagem dele.

— Que tal... Super-man? — perguntou Fred, sorrindo ironicamente.

— Claro que não, né? Além de ser uma marca registrada, é um baita clichê.

— Então... Ultra-man?

— Também já existe.

— Mega-man?

— Também.

— Já sei: Giga-man?

— Giga-man? — Pedro sorriu. — Então por que não Tera-man, Peta-man, Exa-man...?

— Hein?

— São potências de dez. Um mega é o equivalente a um milhão, certo? Um megabyte, por exemplo, vale um milhão de bytes. E um giga vale mil megas, ou seja, dez elevado a nove. É o número um seguido de nove zeros.

— Não precisa ter cursado Ciências da Computação pra saber o que é uma potência... — disse Fred, de maneira irônica.

— Tá bom, eu não quis ofender. Mas continuando: um giga vale dez elevado a nove. Já um peta vale mil gigas, ou dez elevado a doze. E por aí vai.

— E qual é a maior potência de dez que tem nome?

— Hmmm... eu sei que existe o googol, que vale dez elevado a cem. E o googolplex, que vale dez elevado a um googol. É zero que não acaba mais...

— Googolplex?

— Isso, googolplex. Hmmm... googolplex? Googolplex, googolplex, googolplex...

— Saúde.

— É um nome interessante. Um termo que pouca gente conhece. É misterioso, sonoro, dá uma sensação de poder...

— Soa estranho. Parece... sei lá... marca de geladeira? Acho que é meio ridículo.

— Então é perfeito. Você conhece algum super-herói famoso que não tem um nome meio idiota?

— Bom...

— Vai ser um sucesso, pode apostar. Já tenho até um título pro meu texto. Deixa eu escrever, senão vou esquecer. Mistério resolvido: GoogolpleX está entre nós.

— Hmmm... então você tá mesmo decidido. Vai ser isso?

— Não. Isso é apenas o começo.