Editorial

Há cerca de um mês este jornal completou um século de existência. Foram cem anos descrevendo diversos capítulos da História não apenas deste país, mas também de todo o mundo. Foram cem anos lutando contra uma série de adversidades, incluindo os períodos de guerras mundiais, os anos de repressão, censura e perseguição política contra os órgãos da imprensa, e até mesmo as incertezas com a recente revolução midiática proporcionada pelo desenvolvimento tecnológico. Porém, mesmo com tais dificuldades, este veículo de informação continua ativo depois de tantos anos por um motivo simples, que pode ser resumido em uma única palavra: credibilidade. Uma credibilidade alcançada através da postura autêntica, justa e responsável deste jornal durante toda sua existência.

Nos últimos meses, entretanto, a confiabilidade deste veículo vem sendo contestada por um volume crescente de mensagens enviadas por leitores. E a crítica em questão se refere ao posicionamento editorial adotado perante o chamado efeito GoogolpleX. Este fenômeno, iniciado há cerca de três anos, teve como ponto de partida um site criado por um estudante universitário que alegava acompanhar os feitos de um misterioso super-herói atuando na capital. A criação então se expandiu rapidamente e angariou um público considerável, formado inicialmente por fãs de histórias em quadrinhos e partidários de teorias de conspiração, mas que logo passou a incluir simpatizantes de diversos perfis, indivíduos à procura de algo em que acreditar ou simples curiosos. Assim, hoje em dia, o efeito consiste em uma rede social formada por centenas de milhares de internautas e não é exagero dizer que se inseriu em nossa cultura popular.

Em relação às críticas recebidas pelo jornal, o conteúdo fundamental contido nelas era a cobrança de uma cobertura mais incisiva das ações do suposto super-herói. Pois, mesmo sendo propriamente relatada grande parte dos estranhos acontecimentos, as críticas condenavam o teor genérico e superficial das matérias apresentadas. Em outras palavras, questionava-se a ausência de qualquer referência à existência do super-herói, mesmo que de maneira hipotética, nas páginas deste jornal. E então surgia a recorrente pergunta: por que ocultar um fato de tamanha importância dos leitores? Resposta: porque seria uma irresponsabilidade relatar uma inverdade. E neste ponto cabe comentar que o site citado acima, com seu inquestionável sucesso de público, pode servir como fonte de comunicação e entretenimento, mas não como exemplo de postura jornalística. Pois falta-lhe responsabilidade de publicar fatos concretos sem incluir meras suspeitas. Afinal, embora grande parte dos eventos relatados apresentassem de fato características incomuns, dar como definitiva a existência de um agente sobrenatural (e na forma de um homem) atuando pelo mundo era distorcer a realidade. Porque, se por um lado não existia nenhuma prova que pudesse contrariar tal hipótese (além do compreensível ceticismo em relação a tão fantástica ideia), por outro não havia garantia de que os acontecimentos não passaram de ilusões, coincidências ou lances fortuitos.

Sim, não havia provas e garantias, mas apenas até o dia de ontem. Na manhã passada, uma cratera se formou em uma das principais vias da capital enquanto eram realizadas obras subterrâneas do sistema de metrô. Logo surgiram suspeitas de instabilidade do terreno, de modo que foram executados procedimentos de evacuação dos prédios comerciais mais próximos da região. Era apenas uma medida de segurança, já que as estruturas dos edifícios aparentemente não revelaram ter sido afetadas. As condições, entretanto, se mostraram diferentes para uma enorme grua presente no canteiro de obras do metrô. E para tornar a situação ainda mais dramática, helicópteros de emissoras de televisão já se encontravam no local quando a torre metálica começou a tombar lentamente na direção de um dos prédios. Ou seja, imagens ao vivo iriam transmitir um desastre iminente e inevitável. Foi então que surgiu um milagre. Um milagre na forma de um homem vestido todo de preto e com o rosto encoberto. Era um sujeito que tinha uma aparência semelhante a de um ninja, e que pairava no ar segurando a parte superior da grua apenas com as mãos.

Para resumir a história, já que a reportagem completa pode ser encontrada nas páginas seguintes, a grua foi cuidadosamente colocada sobre o leito de um rio próximo ao local e o misterioso herói ainda auxiliou os bombeiros no resgate das vítimas do acidente. Para terminar, diante da insistência dos repórteres que estavam no local, ele deu algumas declarações antes de partir. Entre elas, uma frase simples mas significativa: “Eles precisavam de ajuda”.

Não é exagero dizer que ontem foi um dia histórico. Os incríveis acontecimentos serão com certeza lembrados por muito tempo. E também é certo que eles desencadearão uma nova leva de mensagens de leitores destinadas a este veículo de comunicação, cobrando o suposto equívoco cometido devido à sua descrença e à sua teimosia em aceitar os fatos que estavam bem em sua frente. Mas não haverá arrependimentos ou desculpas pela postura adotada pelo jornal, pois não foi detectado nenhum erro de avaliação. Afinal, mesmo que se mostrem verdadeiros posteriormente, boatos só se tornam fatos após surgirem evidências concretas que os comprovem. E foi exatamente o que ocorreu no dia de ontem, pela primeira vez. Somente na manhã passada a existência de um provável super-herói se tornou informação real. Assim, sem o menor constrangimento, este veículo está relatando os acontecimentos em suas páginas e relatará os que vierem a ocorrer posteriormente, sempre com sua postura inalterada. Porque este é seu papel: escrever a História de maneira autêntica, justa e responsável.

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