Googolplex - Volume 1

8 Ano 20: Autocontrole


Uma névoa espessa envolvia o ambiente. Enxergar algo mesmo a poucos metros de distância não era uma tarefa fácil. Pois as partículas suspensas no ar, além de encobrirem a visão, penetravam e irritavam os olhos, tornando impossível mantê-los abertos por longos intervalos. Logo, as trevas tomavam conta do local.

Pouco a pouco, os olhos foram se acostumando à condição hostil. Os objetos ao redor começaram a tomar formas reconhecíveis. E conforme ele caminhava, mais límpida a atmosfera se tornava. De repente, algo chamou sua atenção. Era um conjunto de silhuetas. Ele se aproximou então de onde elas estavam e mais contornos apareceram. Pareciam pessoas. Uma multidão, talvez.

Tentando enxergar melhor, ele arregalou os olhos. Escancarou-os o máximo que pôde, buscando identificar as figuras difusas. Mas o esforço foi em vão. As únicas formas que ele reconheceu foram as manchas do teto de seu quarto, acima de sua cama.

**********

Segunda-feira. A primeira vez que Fred a viu não foi uma ocasião muito especial. Ele andava apressadamente pelos corredores da faculdade, pois estava atrasado para uma aula. Em seu caminho até a sala, passou rapidamente por várias pessoas. E ela estava entre essas pessoas, mas Fred nem se lembraria de tê-la visto nesse dia.

Terça-feira. O segundo encontro foi bem diferente. Fred entrou novamente no meio de uma aula já iniciada. Um pouco envergonhado, ele se sentou discretamente em uma carteira e entregou imediatamente sua atenção ao professor. Buscou manter os olhos e os ouvidos abertos, disposto a ouvir as palavras que eram proferidas à classe. O esforço, contudo, encontrava uma forte resistência, já que a mente do garoto teimava em se dispersar. E assim se iniciou uma batalha desigual, em que a necessidade de concentração perdia cada vez mais terreno para a livre imaginação.

Cansado da luta inglória, Fred resolveu fazer um pausa e relaxou momentaneamente seu cérebro, sacudindo a cabeça e olhando para os lados. Foi nesse instante que seus olhos e sua mente foram atraídos e se concentraram em algo de uma maneira que nenhum professor jamais havia conseguido.

Fred nunca se lembraria do que exatamente chamou tanto sua atenção em primeiro lugar. Talvez fossem as belas bochechas rosadas pelo calor que fazia durante o dia. Ou o movimento cíclico e suave da mão esquerda, tentando enrolar um pequeno cacho de cabelos castanhos em torno do dedo indicador. Ou ainda a bela tatuagem no braço esquerdo, representando uma estilosa letra gê em tons avermelhados. Ou quem sabe a boca vermelha que mordiscava levemente a ponta da caneta que a mão direita segurava.

Foram apenas alguns segundos de contemplação. A garota mantinha o olhar perdido em algum lugar desconhecido, mas, como se soubesse que estava sendo vigiada, não demorou muito para que o rosto dela se virasse na direção de Fred. E, quando os olhares se cruzaram, o rapaz interrompeu imediatamente o contato visual. Parecia que um brilho ofuscante penetrou em seus olhos, fazendo com que, até o final da aula, ele evitasse focalizar tamanha fonte de luz novamente. O curioso era que a garota estava cinco fileiras à sua direita, de modo que a interação não foi apenas curta, mas também distante. O suficiente, porém, para causar uma forte impressão.

Quarta-feira. O terceiro encontro entre os dois foi tão breve quanto os anteriores, mas teve sua própria relevância. Assim como no primeiro, ele ocorreu em um dos corredores da faculdade. Fred estava apenas de passagem, mas parou por um momento ao se deparar com o rosto familiar: a alguns metros de onde ele se encontrava, com as costas apoiadas em uma parede, a garota conversava com alguns colegas. Não demorou muito e os olhares dos dois se cruzaram novamente. Contudo, diferentemente do contato anterior, Fred manteve seus olhos fixos. Desse modo, foi ela quem desviou o olhar primeiro, depois de apenas dois ou três segundos, para em seguida franzir a testa. Talvez por ter se sentido incomodada ao ser encarada. Ou simplesmente por não ter gostado do que viu. Ou quem sabe era apenas um sinal de desprezo, diante da visão ordinária de algo que não merecia sua atenção. De qualquer maneira, essa suposta indiferença só aguçou ainda mais o interesse de Fred.

Quinta-feira. Era o horário de almoço de Fred. Ele estava em um refeitório, aguardando tranquilamente em uma fila o momento de se servir. Foi então que um rapaz o avistou e se aproximou: era Pedro, o colega com quem dividia um apartamento próximo à faculdade.

— E aí, Fred?

— Ei, mas que honra. Resolveu arranjar um tempo pra almoçar?

— É bom comer direito de vez em quando. O problema é isso virar rotina e o estômago se acostumar com a mordomia...

— Bom, então é melhor tomar cuidado pra não exagerar. — Fred sorriu. — E aí, muita aula ruim hoje?

— Até que não. Mas o mais legal foi o que aconteceu antes das aulas.

— Ah, é? O quê?

— Um maluco do segundo ano entrou no estacionamento dirigindo a uns cem por hora. Não tinha ninguém no caminho na hora, mas o cara escapou por pouco de bater com tudo nos carros estacionados. Achei até que não iria conseguir parar, mas ele teve muita sorte. Escapou de bater por uns dois palmos.

— Sério?

— Sério. Putz, além de se matar, quase que ele destrói um monte de carro enfileirado. Ainda bem que os freios dele tavam em ordem.

— Ah, é... É mesmo...

— E sorte que existe gente atenta pra evitar esse tipo de desastre.

— Hã? Como... como assim?

— O pessoal que fabrica automóveis sabe que o motorista pode fazer besteira. Então eles levam isso em conta na hora de projetar os componentes dos carros, dando uma margem de segurança pra compensar uma ou outra barbeiragem.

— Ah, entendi... É, acho que sim... Bom, mas o importante é que não aconteceu nada.

— Tirando o cheiro de borracha queimada... Mas diz aí, o que você vai fazer hoje depois da aula?

— Não sei. Eu preciso ler uns livros...

— Eu nem vou chamar você pra jogar bola, porque você não vai mesmo... Mas, olha só, o pessoal vai lá pro bar depois do jogo. Dá uma passadinha, se tiver a fim.

— Tá... Vou ver se dá...

Pela resposta, Pedro sabia que o colega não estaria lá. O que não era nenhuma surpresa, já que, apesar de considerá-lo um ótimo companheiro, era inegável que Fred tinha um comportamento extremamente fechado e até meio antissocial. Ele evitava, por exemplo, falar com muitos detalhes sobre sua vida e nunca contava exatamente o que fazia em seus momentos de folga. Ou seja, era um sujeito bastante misterioso, mas isso não impedia Pedro de simpatizar com ele. Pois, por outro lado, Fred era um sujeito tranquilo, atencioso e que gostava de uma boa conversa. Por esse motivo, seu companheiro sempre insistia em tentar tirá-lo de seu enclausuramento, mesmo sendo tão frequentes as recusas.

Portanto, levando-se em conta esse histórico, Pedro não pôde deixar de se surpreender quando viu Fred responder positivamente ao convite. A justificativa dele era que precisava arejar a mente, já que estava com dificuldades para se concentrar em seus estudos. Mas a saída parecia não estar causando o efeito desejado, pois ele se mantinha disperso e com uma expressão vaga e distraída. O rapaz não conseguia prestar atenção nas conversas paralelas, apesar do grupo de pessoas bem animadas que rodeava a mesa de bar. Sua mente estava em outro lugar, com outra pessoa. Uma pessoa que inesperadamente surgiu em carne e osso na frente dele.

Ele já a havia visto em outras oportunidades, mas era a primeira vez que os dois se encontravam de verdade. Ela chegou acompanhada por uma amiga que era a irmã da namorada de um colega de futebol de Pedro. Amiga que a encontrou enquanto se dirigia ao bar e a intimou a se juntar a ela. Porém, antes dessa pequena explicação, os desconhecidos foram rapidamente apresentados ao restante do grupo. E assim o nome dela foi finalmente revelado: chamava-se Dara. No processo, ela cumprimentou Fred de longe e aparentemente não o reconheceu. Por outro lado, o sorriso que lançou não indicava que havia uma indiferença proposital.

O comportamento de Fred se transformou a partir desse momento. Sua atenção, até então ausente, passou a estar totalmente concentrada na mesa. Ele falava pouco, ria bastante e por diversas vezes lançou olhares na direção de Dara, que estava sentada ao lado oposto da mesa. Ela, por sua vez, comportava-se de maneira semelhante, sendo que seus olhos inevitavelmente encontraram os de Fred em certos momentos. Em muitos momentos, na verdade. Mas fora a quantidade, as reações dela se mostraram bem comuns, sem que desviasse o olhar de maneira envergonhada ou incomodada. Tão comuns que pareciam forçadas, fingidas.

Sexta-feira. O quinto e derradeiro encontro se deu no final da tarde, na biblioteca da faculdade. Fred percorria um dos corredores entre as estantes de livros, quando se deparou inesperadamente com a garota. Ele ficou paralisado por um momento, sentindo o olhar de Dara analisar suas feições. Em seguida, para seu alívio, a garota sorriu e se aproximou. Ela se lembrava dele.

Fred a ajudou a encontrar o livro que estava procurando. Ela pediu também algumas dicas de leituras, oferecendo outras em troca. Foi descoberto que Dara estudava Geografia, enquanto Fred cursava História. Ela lidava com o espaço e ele com o tempo. Mas Dara sabia que, para entender as condições geográficas, era preciso conhecer os efeitos da passagem do tempo sobre o mundo. E Fred tinha consciência de que, para compreender os eventos históricos, era necessário se informar sobre as características territoriais do planeta. Ou seja, o campo de um estava diretamente conectado ao do outro.

O súbito encontro com Dara pegou Fred de surpresa, de modo que ele não parecia muito à vontade e poucas palavras saíam de sua boca no início. Contudo, cerca de uma hora de conversa depois, os dois já aparentavam ser velhos conhecidos. O diálogo fluía naturalmente, embora falassem bem baixo, por estarem em uma biblioteca. Assim, para compensar a restrição de intensidade na voz, Dara gesticulava bastante enquanto se expressava. Gestos que incluíam, por diversas vezes, tocar e segurar o braço de Fred.

Eles descobriram ter interesses comuns, como o de transmitir suas ideias a outras pessoas e tentar melhorar o mundo com tal postura. Por esse motivo, embora frequentassem cursos diferentes, dividiam a mesma sala durante as aulas de uma disciplina que tratava de ensino e pedagogia. Logo, a ideia inicial era de que ambos seguiriam a mesma carreira, em áreas complementares. Mas isso não significava que eles não tinham suas diferenças, o que era naturalmente inevitável. Dara, por exemplo, não era muito fã de histórias em quadrinhos de super-heróis e muito menos de batata-frita, um petisco que considerava extremamente calórico.

Quando o sol começava a se pôr, os dois deixaram a biblioteca e Dara convidou Fred a ir até seu apartamento. Ela queria lhe emprestar um livro que, segundo suas palavras, mudaria completamente a vida dele. A resposta foi afirmativa e veio rápida e sem hesitação. Parecia um fim de dia perfeito, tanto que o garoto não conseguia parar de sorrir enquanto caminhava pela rua ao lado de Dara. A alegria, entretanto, foi interrompida e se dissipou após um evento infeliz.

Dara morava em um pequeno e simpático apartamento. Os objetos espalhados pelo chão da sala indicavam que a arrumação não era uma prioridade muito alta, mas até que conferiam um certo charme ao local. O casal entrou um pouco apressado pela porta e Dara rapidamente conduziu seu convidado até uma poltrona. Ele estava cabisbaixo e sua expressão era bastante sombria.

— Tá tudo bem? — perguntou Dara.

— Sim. Quer dizer, mais ou menos. Eu... hã... Desculpa, mas acho que é melhor eu ir pra casa. Você vai ficar bem?

— Vou. Mas não precisa ir tão cedo, você... Caramba, que susto, hein?

— É...

— Parece que esses caras surgem do nada. A gente tá andando e eles sempre aparecem de repente.

— Arrã...

— Hã... — Dara se agachou na frente de Fred e colocou as mãos sobre os joelhos dele. — Por acaso... foi a primeira vez que você foi assaltado?

— Hein? Não... não foi, não...

— É que parece que você ficou muito abalado. Muito mesmo. É uma situação horrível, mas... hã...

— É que... eu tenho um... problema com assaltantes. Quer dizer, ninguém gosta de ser assaltado, mas eu não... hã... ah, deixa pra lá.

— Tudo bem...

— Olha... me desculpa, tá? Eu devia ter sido mais... você sabe... homem e tal... Putz, eu fiquei paralisado, não conseguia dizer nada. Isso que é herói...

— Ei, não precisa ficar desse jeito. O cara disse que tava armado, o que você podia fazer? Olha só, todo mundo tem medo de alguma coisa. Tem gente que tem medo de altura, ou de aranhas, ou de ficar velha... Eu, por exemplo, tenho medo de voar. E você tem medo de assalto. É normal, o ser humano é assim mesmo.

Fred abriu a boca para dizer algo, mas não conseguiu. Então Dara se levantou e comentou, sorrindo:

— Acho que eu sei como animar você.

A garota deixou a sala e voltou pouco tempo depois carregando duas latas de cerveja. Passados alguns minutos, elas foram esvaziadas e os sorrisos estavam de volta aos rostos dos dois jovens. Depois disso, mais duas latas se esgotaram e a conversa se tornou bem solta. Por fim, outras duas latas foram consumidas e as roupas também ficaram soltas.

Fred tocava gentilmente o corpo de Dara. Ele nunca esteve antes tão próximo de outra pessoa como nesse instante. Seus movimentos eram suaves, delicados. Ele segurava o ritmo de suas ações e isso contrariava os instintos e desejos de seu corpo, que urgiam por aceleração. Mas manter o controle era algo importante que ele teve de aprender desde sua adolescência.

Contudo, em certo momento, Dara assumiu a iniciativa dos movimentos. E o ritmo dela era bem mais intenso, fora que aumentava gradativamente com o passar do tempo. Dessa maneira, totalmente entregue, Fred não comandava, apenas obedecia. Envolvido por sensações inebriantes, ele abdicou de seu autocontrole. Estava completamente submisso à situação e, algum tempo depois, notou que sua mente também estava subordinada ao seu corpo, não o contrário. Logo, o controle sobre as partes de seu organismo não era tão perfeito como imaginava. Pelo menos não nesse momento.

Alguém poderia culpar o álcool. Ou simplesmente os hormônios. De qualquer forma, como em inúmeros casos, o resultado foi uma ocorrência totalmente indesejável para um casal de jovens. Mas, diferentemente do que seria provável em uma situação como essa, não houve uma gravidez acidental como consequência. Aliás, muito pelo contrário.