Googolplex - Volume 1
7 Ano 18: Encobrimento
Márcia estava sentada no sofá de sua sala, assistindo à televisão. Ou melhor, ela apenas observava as imagens em movimento, sem prestar atenção ao conteúdo transmitido. Pois somente o corpo dela se encontrava ali, seus pensamentos se aventuravam em locais distantes. Em épocas afastadas, na verdade. Em momentos espalhados por vários anos no passado, mas que eram lembrados como se tivessem ocorrido apenas alguns dias antes.
O conturbado nascimento de Fred. Sua primeira palavra (algo semelhante a Mamaira, que Jonas julgou ser uma mistura de mamãe e Nara. Márcia, naturalmente, ficou bastante enciumada). Seu primeiro dia de escola. Sua primeira noite em casa após a morte do pai. Seu primeiro garfo entortado. Sua incompreensão após um colega de escola ter a perna quebrada durante uma dividida em uma partida de futebol. Seu medo quando seus poderes começaram a se manifestar de maneira frequente e descontrolada. Seu cansaço e sua frustração durante os longos, monótonos e repetitivos exercícios (criados por Márcia com certa ajuda de Nara) que teve de executar até aprender a controlar sua força e sua velocidade. Sua confiança e sua satisfação quando o domínio sobre seu corpo praticamente se consolidou. Este momento, por sinal, foi a parada em que a mente de Márcia mais se demorou nessa sua viagem ao passado.
**********
Fred estava quase encerrando a última sessão de um exercício de controle proposto por Márcia. Ele consistia basicamente em fincar um conjunto de pregos e alfinetes em uma grossa tábua de madeira. A tarefa exigia equilíbrio de força, precisão e paciência, para que as hastes não entortassem e a tábua não rachasse (ou até queimasse, como ocorreu em uma oportunidade). Obviamente, não foi permitido o uso de um martelo ou outro tipo de instrumento.
— Muito bem, Fred — disse Márcia, logo que o filho terminou. — Parece que você não precisa mais treinar.
— Ufa, ainda bem. Quer dizer que não vou nem precisar despregar?
— Não, não precisa. Eu quero que você faça só mais uma coisa...
— Ah, não, mãe! Você disse que esse era o último exercício...
— Não é mais um exercício, é... um tipo de teste. Uma prova final.
— Hmmm... tá bom, então. O que eu tenho que fazer?
— É uma coisa bem fácil. Acho que você não vai achar muito ruim. — Márcia sorriu. — Eu quero que você me abrace. Me dê um abraço... um abraço bem forte. Tudo bem?
A expressão de Fred se tornou bastante séria. Então a mãe dele comentou:
— Não precisa ser agora se você...
— Não... tá... tá tudo bem. Espera só um pouco...
Fred sacudiu os ombros e deu um longo suspiro. Depois disso, ele abriu os braços e se aproximou lentamente da mãe, até sentir o contato do corpo dela. Os braços dele agarraram as costas de Márcia, gesto que ela imitou logo em seguida. O garoto apertou então o corpo da mãe com firmeza. Ele fechou os olhos e sentiu algumas lágrimas escorrendo pela sua nuca. Fred sorriu. Um sorriso que logo se tornou uma gargalhada, quando o garoto curvou seu corpo para trás e os pés de Márcia deixaram de tocar o chão. Ela, por sua vez, apenas acompanhava as risadas do filho, enquanto sentia seu corpo ser carregado e rodopiado no ar.
Parecia que o dia seria de alegria. Mas tal ilusão foi desfeita durante o jantar, após Fred abordar um certo assunto:
— Que bom que agora eu consigo controlar os meus poderes. Tava louco pra voltar a jogar bola na escola.
— Fred... — Márcia apertou os olhos. — Você não vai poder jogar futebol com seus colegas.
— Por que não?
— É muito perigoso. Lembra o que aconteceu na última vez?
— Mas agora é diferente. Eu aprendi a tomar cuidado, não vai acontecer de novo.
— Vai, sim. É o tipo de coisa que acontece mesmo sem a gente querer. É só ver os jogos na tevê, tem sempre alguém se machucando. E olha que eles são profissionais... Desculpa, Fred, mas não dá. É muito arriscado, seria um desastre se acontecesse algum acidente.
— Então... vou ter que contar pra todo mundo que eu sou perigoso demais pra jogar com eles?
— Fred, eu já falei várias vezes — disse Márcia, muito séria. — Você não pode contar para ninguém sobre os seus poderes.
— Mas agora não tem mais perigo de alguém se machucar.
— Não tem nada a ver com isso. É que as pessoas não vão entender. Elas vão ficar com medo...
— Que nada! Vão ficar é com inveja. Eu vou ser o cara mais legal da turma.
— Você não entende... Se você contar, vão lembrar de quando você quebrou a perna daquele garoto. Vão ficar com medo. Vão chamar as autoridades. Vão querer fazer exames e você vai acabar preso em um laboratório ou coisa pior, como se fosse um monstro. É isso que você quer?
— Claro que não. Mas você tá exagerando...
— Você é muito novo para entender. Você não conhece o mundo, não sabe como as coisas são complicadas... Fred, você não vai contar para ninguém sobre os seus poderes. Entendeu?
— Mãe...
— Para ninguém. Eu estou mandando. Aliás, você vai esquecer que tem poderes. Você está proibido de usar eles, até mesmo dentro de casa.
— Mas que droga!
— Não fale desse jeito! Eu sou sua mãe e sei o que é melhor para você. Você vai me obedecer até ser dono do seu nariz.
— E quando vai ser isso?
— Quando... você completar... sei lá, vinte e um anos. Aí você pode fazer o que quiser.
— Vinte e um? Com dezoito eu já vou ser adulto!
— ... certo, tudo bem. Com dezoito anos, então.
**********
Anos se passaram desde aquele dia, mas Márcia não se sentia ainda preparada para o que viria a seguir. Ela se perguntou se devia ter insistido com os vinte e um anos naquela conversa, mas logo percebeu que isso não faria diferença. Primeiro, porque não seriam três anos adicionais que a deixariam mais conformada com o inevitável. E segundo, porque o número de anos não importava na verdade. Pois não era algo que podia ser agendado, o momento chegaria independentemente do combinado. Como acabou chegando.
Márcia desligou a televisão e se levantou. Visivelmente apreensiva, ela subiu a escada até o andar superior da casa, caminhando em direção ao quarto de Fred. A mãe não queria incomodar o filho, que provavelmente estava ocupado com seus próprios questionamentos. Contudo, como a ansiedade era mais forte que a paciência, ela resolveu bater na porta do quarto.
— Pode entrar.
Fred estava em um dos cantos do quarto, parado em frente a um espelho. Após abrir a porta, Márcia se deteve por alguns segundos, apenas observando seu garotinho. Garotinho que tinha tantos centímetros a mais de altura quanto anos a menos de vida do que a mãe.
— Tudo pronto? — perguntou Márcia, aproximando-se do filho.
— Acho que sim. Pelo menos por enquanto.
— E você já vai?
— Ainda não. Eu tenho que... hã... me despedir da Naira.
— Ah, sim, claro... Bom, nunca é fácil dizer adeus, mas as coisas vão ficar bem. Vocês vão continuar se vendo nas férias, nos feriados...
— Mãe... — Fred ficou de costas para Márcia. — Eu... acho que vou contar tudo pra ela.
Márcia permaneceu em silêncio por um momento. Então comentou:
— Você tem certeza?
— Sim. Quer dizer, mais ou menos... Hã... o que você acha?
— Bom, você já tem dezoito anos e...
— Mãe... — Fred se virou e se aproximou de Márcia, fitando os olhos dela. — O que você acha?
— Eu... acho que é um risco. Isso iria mudar a vida dela. A amizade de vocês não continuaria do mesmo jeito.
— Tem certeza que a mãe dela não contou nada?
— Tenho. Nós duas... já não conversamos tanto quanto antigamente, mas a Nara sabe guardar segredo. Fora que... hã...
— Fora que ela tem medo de mim e meio que protege a filha por causa disso.
— Fred...
— Tudo bem, eu entendo. Mas é que... eu sinto que devo isso pra Naira.
— Eu entendo...
— Ela tem uma mente aberta. E sabe guardar segredo.
— Sim....
— E o mais importante é que... não sei explicar, mas tenho a impressão de que, se eu continuar escondendo a verdade, a gente não vai mais se ver de novo. E se isso acontecer, eu... hã... Caramba, ela é a única amiga que eu tenho de verdade...
— Fred... isso é uma frase feita, mas a verdade é que você só vai saber o que fazer quando se encontrar com a Naira e olhar nos olhos dela. Acho melhor deixar as coisas apenas seguirem seu rumo.
— É... acho que sim.
**********
A noite estava nublada. A lua crescente aparecia no céu durante pequenos intervalos, como que espiando o mundo sem desejar encará-lo de frente. Porém, mesmo encoberta em seu esconderijo, ela continuava brilhando no espaço e todos sabiam disso. A natureza, afinal, não podia ser ocultada.
Fred encarava a imensidão celeste acima de sua cabeça e sua mente viajava por ideias desconexas, sem se deter em nenhuma em especial. Com o sol posto havia já algumas horas, o parque estava praticamente esvaziado. A presença de crianças, então, era inexistente, o que tornava a região dos brinquedos infantis quase deserta. Dessa maneira, sentado em um dos balanços, Fred se encontrava totalmente só. Em determinado momento, contudo, seu isolamento foi interrompido pela aproximação de uma garota, que se sentou no balanço ao lado dele.
Se a adolescência deu a Fred um corpo alto e forte, o mesmo não ocorreu com Naira. Baixa e magra, não era raro alguém comentar que ela parecia ter uma idade menor do que realmente possuía. Por outro lado, era possível perceber em seu olhar e em seu sorriso uma certa aura de maturidade, o que de certa forma equilibrava sua aparência.
Os dois permaneceram lado a lado, em silêncio, por mais de um minuto. Foi Naira quem iniciou o diálogo:
— Você vai embora hoje, então?
— Vou.
— Que horas?
— Daqui a pouco.
— Certo. Eu... você sabe... vou sentir sua falta...
— Não precisa. Eu vou aparecer de vez em quando. Lembra que você reclamava que às vezes eu sumia por uns tempos? Que eu ficava semanas sem dar sinal de vida?
— Era diferente. Mesmo quando você não dava notícias, eu sentia que você tava por perto. Agora, eu sei que você vai estar em outra cidade...
— Não importa. Sim, eu vou estar meio longe, mas não é por causa disso que vou deixar de voltar. A distância não vai ser problema, pode acreditar.
— É?
— É.
Alguns segundos de silêncio.
— Ei... — disse Fred. — Dependendo do rumo das coisas, quem sabe você não vai parar na mesma universidade que eu? Aí ano que vem a gente pode... hã... sei lá... até morar junto.
— É, pode ser...
Mais alguns segundos de silêncio.
— E a sua mãe? — perguntou Naira. — Como ela tá?
— Ah, você sabe... Ela finge que não tá acontecendo nada, mas dá pra ver que ela tá triste.
— Sei... Lembra de quando você reclamava que ela não deixava você fazer nada?
— Claro. Vendo agora, eu acho que ela tinha razão na maioria das vezes. Mas ela sempre se preocupou demais...
— Nem sempre, na verdade...
— É, nem sempre. Aumentou bastante depois que... ficamos só ela e eu.
— Aconteceu uma coisa parecida comigo quando os meus pais se divorciaram. De repente, eu me tornei o centro das atenções, paparicada por todo lado. Parecia que queriam compensar por não estarem mais juntos.
— Hã... na verdade, o meu caso é diferente porque...
— Eles se sentiram culpados — continuou Naira. — Culpados por me enganarem por quase um ano. Dava pra ver que ele já não se davam bem, mas quando eu perguntava se tinha algum problema, eles sempre diziam que não. Uma vez minha mãe até falou que eu era meio paranoica e tava vendo tevê demais. Aí passou um tempo e eles resolveram se separar de vez. E em vez de pedirem desculpas por terem mentido, começaram a me paparicar. Que raiva! Pois é, em vez de ficar triste, eu fiquei com raiva! Por que não falaram a verdade desde o começo? Eles não confiam na própria filha?
Passaram-se outros segundos de silêncio. Foi então que Fred se levantou, gesto que Naira logo imitou. Eles estavam frente a frente, e o garoto mirou o fundo dos olhos da companheira para dizer:
— Naira, preciso falar uma coisa.
— Pode falar...
— Uma coisa muito importante.
— Eu tô ouvindo...
— E-eu... Eu não sou... Eu tenho...
Os olhos de Naira brilhavam, assim como os de Fred. A lua havia surgido no céu e lançava seus raios por uma fresta entre as nuvens. Entretanto, pouco tempo depois, ela se escondeu novamente, de modo que seu brilho foi encoberto. E os olhos de Fred se tornaram então sombrios.
O garoto desviou o olhar, afastando-o dos olhos de Naira. Em seguida, ele a abraçou e disse:
— Eu tenho que ir. Eu nunca vou esquecer você. Pode apostar.
O tempo parecia congelado. A eternidade do abraço durou longos dez segundos, e então os dois se separaram. Quando Fred se preparava para ir embora, Naira disse:
— Fred?
— Pode falar — disse imediatamente o garoto.
— Boa viagem.
Fred sorriu levemente e partiu, deixando a garota sozinha. Quando ele já se encontrava fora de vista, algumas lágrimas escorreram pelo rosto de Naira. Mas ela não estava triste. Estava com raiva.
**********
Márcia preparava o jantar na cozinha, quando ouviu sons de passos na escada da sala. Alguns segundos depois, Fred apareceu diante da mãe, segurando uma mochila nas mãos.
— Você já vai? — perguntou ela.
— Vou.
— Não vai jantar?
— Não. Desculpa... eu não tô com fome.
— Sei... E como foi a conversa com a Naira?
— Normal, eu acho... Eu... não contei pra ela.
Márcia apertou os olhos e deu um longo suspiro.
— Fred... eu sinto muito. Sinto muito mesmo.
— Tudo bem...
— Bom... talvez seja melhor assim. Poderia ficar perigoso no futuro.
— É, talvez...
Fred abriu a porta dos fundos da cozinha, saindo em direção ao quintal da casa.
— Bom, então é isso. Eu venho no fim de semana pegar mais algumas coisas.
— Tudo bem.
O garoto colocou a mochila nas costas e deu um abraço na mãe. Ela disse:
— Filho...
— Mãe?
— Hã... tem uma coisa que você não deve esquecer. Você é jovem e tem toda a vida pela frente. Não precisa fazer as coisas com pressa. Isso pode soar estranho para alguém capaz de... você sabe. Mas acho que é importante você ter calma, dar um passo de cada vez. E quando estiver preparado, tudo vai acontecer naturalmente.
Fred sorriu. Em seguida, dando um leve aceno, ele subiu. Ele se elevou até o céu e desapareceu por trás das nuvens.
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