Googolplex - Volume 1

6 Ano 14: Anormalidade


Não era a primeira e nem seria a última vez que ele vivenciaria tal sensação. Um sentimento de poder e confiança, como se qualquer coisa que desejasse estivesse ao seu alcance. O mundo estava, literalmente, aos seus pés.

O vento percorria seu rosto, proporcionando frescor e uma sensação inebriante de liberdade. Era como uma limpeza de corpo e alma, em que todos os problemas e pecados pareciam ser deixados para trás, sob a forma de um rastro que logo se dissiparia. O que ficava pelo caminho era rapidamente esquecido, somente o que se via pela frente importava.

Em meio ao céu azul, o sol se tornava cada vez mais próximo. Subitamente, ele interrompeu o voo e pairou no ar. Os olhos se fecharam e ele inspirou profundamente. Quando suas pálpebras se abriram, Fred estava de volta ao seu quarto. A sensação de prazer ainda o acompanharia por alguns minutos, mas sua origem seria esquecida. Céu, sol e vento ficaram para trás e não seriam lembrados. Não dessa vez.

**********

Fred caminhava pensativo. Era fim de tarde e ele estava a caminho de casa após mais um dia de escola. Um dia conturbado em que ele refletiu longamente até chegar a uma decisão, que seria comunicada à mãe durante o jantar. E sua mãe aceitaria a situação tranquilamente, sem objeções, já que parecia não existir nenhum motivo concreto que impedisse seu desejo. Ou seja, tudo ocorreria perfeitamente. Por outro lado, se o fato já era consumado... por que Fred não conseguia afastar as preocupações em seus pensamentos?

O garoto chegou em casa. Ao abrir a porta, disse:

— Cheguei.

— Oi, Fred. Estou aqui na cozinha.

Fred se dirigiu até o local de onde vinha a voz e encontrou a mãe abrindo uma sacola. Enquanto guardava algumas compras em um armário, Márcia perguntou:

— Está com fome? Vou preparar um lanche.

— Não, não precisa...

O garoto se sentou em uma cadeira e ficou olhando para o chão. A ansiedade dominava completamente seus pensamentos e suas ações. Sabendo que não conseguiria se concentrar em outro assunto, ele resolveu adiantar a conversa que havia ensaiado mentalmente para o jantar:

— Mãe, posso falar um pouco com você?

— Claro. O que foi?

— Bom, eu... andei pensando... Pensei muito mesmo... e acho que vou... hã... eu quero... hã...

— Pode falar de uma vez, Fred. O que você quer?

— Eu... eu vou me inscrever na olimpíada de matemática da escola.

Márcia ficou quieta por alguns segundos. Então disse:

— Tem certeza?

— Hã... tenho.

— Você vai ter que estudar bastante.

— Eu sei.

— Você não disse uma vez que isso era coisa de nerd?

— Eu disse? Bom... ser nerd hoje em dia é uma coisa legal.

Márcia se sentou em frente a Fred com uma expressão pensativa. Pouco tempo depois, ela disse:

— Olha só, Fred... Acho que não é uma boa ideia.

— Por quê? — perguntou o garoto instantaneamente.

— Você sabe por que. Você tem... hã... Você não é igual aos outros...

— Mas é uma competição de matemática! A gente só usa a cabeça! Não precisa de força, como no futebol. Se bem que força no futebol nem é o mais importante...

— Ah, de novo o futebol! Esquece isso, Fred. É muito perigoso.

— Não é, não. Já faz um ano que eu venho conseguindo controlar os meus poderes direito. Ninguém iria se machucar.

— Você não pode ter certeza disso. Futebol é um esporte que envolve muita emoção. E se, no calor de uma partida, você entrar em uma dividida com mais força do que deveria? Ou, pior ainda, se você se estranhar com um jogador do outro time e perder a cabeça?

— Isso... isso não vai acontecer.

— Não dá para garantir.

— Mas... e a olimpíada de matemática? Como é que eu iria machucar alguém?

— O problema não é só machucar os outros. Tem a ver também com... justiça. E se, no futebol, o jogo estiver no fim e seu time estiver perdendo? Você não poderia, inconscientemente, correr mais rápido do que deveria? Chutar mais forte? A competição fica injusta desse jeito. É trapaça.

— Mas...

— Em uma competição de matemática é a mesma coisa. Se estiver acabando o tempo de uma prova e ainda faltarem muitas questões para responder, você não ficaria tentado a escrever mais rápido? E se você não souber resolver um problema, não passaria pela sua cabeça dar uma olhadinha rápida na prova de um colega, sem ninguém perceber? Competição é uma coisa complicada de se lidar, Fred. Fora que... hã...

— Fora que o quê?

— Bom... quando você era menor, não era tão bom em matemática quanto agora. Talvez seja um tipo de... hã...

— Ah, dá um tempo, mãe! Se for assim... Olha só, eu consigo comer três pacotes de batata-frita antes do jantar. Você acha que isso também é algum tipo de... poder mutante?

— Não, Fred. Foi só uma ideia que passou pela minha cabeça...

— Isso é sacanagem. Eu não pedi pra ser assim...

— Eu sei. É injusto. Não só para os outros, mas para você também. Mas não tem como você competir em pé de igualdade com os outros.

— Mas... mãe, eu nunca me meti em confusão. Nunca briguei com ninguém e nunca roubei ou trapaceei. Eu sei me controlar. E vou me esforçar ao máximo pra não sair da linha. Você não confia em mim?

— Não é questão de confiança. O problema é que esse negócio de competir envolve muita pressão emocional. Lembra a final da Copa do Mundo entre a Itália e a França? Quem iria imaginar uma coisa daquelas? Só que todos nós somos seres humanos e fazemos algumas bobagens.

— Mas... eu não sou humano.

Márcia não soube o que responder. Então Fred continuou:

— Você iria gostar mais de mim se eu fosse normal?

— Que besteira é essa, Fred? Eu gosto de você do jeito que você é.

— Então por que você nunca me deixa fazer nada que eu quero?

— E desde quando gostar de alguém significa fazer todas as suas vontades? Querer bem é saber dizer não mesmo quando é difícil. Como está acontecendo agora.

— Meu pai não achava isso.

— Claro que achava. — Márcia levantou a voz. — Só que, na relação entre pais e filho, ele ficava mais com os momentos divertidos e eu acabava tendo sempre que assumir o papel de mãe chata. A verdade é que ele sempre tentava evitar ao máximo suas responsabilidades como pai.

— Por que você tá falando mal do meu pai? — perguntou Fred, também elevando a voz.

— Falando mal? O que você está dizendo? Eu amava o seu pai, eu era casada com ele!

— Amava, né? Amava tanto que, se pudesse escolher, teria preferido que eu tivesse morrido no lugar dele.

Márcia se levantou da cadeira e, tremendo, apontou um dedo para o rosto do filho:

— Olhe aqui, nunca mais fale isso, ouviu?

— Ou teria preferido que eu tivesse deixado você morrer, pra não precisar aturar sozinha um filho anormal.

Márcia ficou sem reação por alguns instantes. De repente, algumas rugas surgiram em sua testa, ao mesmo tempo em que seus olhos se comprimiram, e fizeram com que ela deixasse apressada a cozinha. Márcia, como muitas mães, não se sentia bem em chorar na frente de um filho. Principalmente quando ele era o motivo do pranto.

Fred continuou sentado por alguns minutos, com a cabeça baixa. Seu olhar não trazia nenhum traço de deleite ou de irritação, apenas um vazio sem brilho. Em determinado momento, o garoto se levantou e se dirigiu até a sala, parando em frente à porta de entrada da casa. Em seguida, ele pousou uma das mãos sobre a maçaneta e disse em voz alta:

— Mãe, vou dar uma saída... Mãe, tá me ouvindo? Droga...

**********

Fred caminhou por cerca de uma hora. Sua mente parecia não estar muito certa do local para o qual ele se dirigia, mas suas pernas trataram de levá-lo ao seu destino. Pernas que, por sinal, poderiam tê-lo conduzido muito, muito mais rapidamente se fosse necessário. Mas o tempo gasto foi importante para que ele colocasse seus pensamentos em ordem. De qualquer modo, em determinado momento, o garoto acabou se deparando com a porta de uma casa que lhe era bem familiar.

Ele tocou a campainha. Sem grande demora, a porta se abriu.

— Fred? Tá tudo bem?

Naira conduziu o amigo para dentro de casa. Entrando na adolescência, os traços infantis ainda predominavam no rosto da garota. A exceção era um toque de ironia presente em seu sorriso e em seu olhar que a tornava bem parecida com a mãe, embora não tivesse herdado o mesmo tom loiro dos cabelos.

— Sua mãe não tá em casa? — perguntou Fred, ao entrar na sala de estar da residência.

— Não, ela saiu pra um jantar de negócios.

— Legal...

— Legal? Legal por quê? Você ainda tá com aquela ideia maluca de que ela não gosta de você?

— Não. Quer dizer... sei lá. Eu disse que é legal porque... hã... Ah, nem sei o que tava pensando.

— Hã... você tá legal?

— Tô. Só... preciso ir ao banheiro.

— Hmmm... tudo bem.

Fred se dirigiu ao banheiro e Naira se sentou no sofá da sala, voltando à posição em que se encontrava antes de ouvir a campainha tocar. A garota já estava meio que acostumada com as esquisitices do amigo: o ar preocupado que ele apresentava certas vezes, alguns hiatos que chegavam a durar semanas sem que houvesse uma visita por parte dele, ou ainda os encontros inesperados como este último. E havia também a tal sensação de desconforto que ele dizia sofrer diante da mãe de Naira. Porém, essa suposta implicância era algo que a garota podia compreender, já que ela também compartilhava a impressão, apesar de jamais ter admitido para o amigo.

Bem evidente, por outro lado, era o fato de que houve um certo distanciamento entre as mães deles após a morte de Jonas. E a origem do estremecimento da relação entre as duas foi uma dura discussão ocorrida poucas horas após o falecimento. Um desentendimento que teve como base um raciocínio por parte de Márcia que era tão lógico quanto incorreto. Afinal, Jonas morreu porque foi baleado por um ladrão, que atirou nele por causa da briga em que se envolveram, que foi iniciada após o bandido agredir Márcia, que foi atacada após sua hesitação em entregar a pulseira de sua mãe, que ela usava porque Nara insistia para que a amiga não deixasse seus objetos prediletos escondidos em um armário. Assim, de certa maneira, Jonas ainda estaria vivo se não fosse pela opinião de Nara. Era um fato aparentemente incontestável, mas Márcia cometeu um equívoco injusto: confundiu dolo com culpa.

Como em muitos casos em que opiniões sem fundamento são emitidas em momentos de carga emocional elevada, o resultado após algum tempo foram arrependimentos e retratações. Entretanto, a discussão entre as duas amigas foi bastante áspera, estimulada também pela personalidade forte de Nara, que, apesar do momento delicado da companheira, não foi capaz de se conter diante das acusações. Assim, foram trocadas algumas frases contendo palavras como invejosa, falsa e incapaz, fazendo referência a temas delicados como relacionamento amoroso, sexual e até mesmo familiar, o que acabou por penetrar fundo em ambos os corações. Dessa maneira, a consequência foi que as duas passaram a se reunir em encontros mais curtos e esporádicos do que anteriormente. Era como se a relação entre elas tivesse perdido a inocência mantida desde a época em que se haviam conhecido, praticamente crianças.

Mas Naira não acreditava que a suposta animosidade de sua mãe em relação a Fred tivesse uma conexão direta com o relacionamento com a mãe dele. Pois transferir culpa não era do feitio de Nara. Com esse pensamento em mente, a garota julgava, no início, que a postura de Nara talvez refletisse algum tipo de ciúme ou preocupação de mãe em ver a filha pré-adolescente convivendo com um rapaz. Mas não parecia ser apenas isso. E, justiça seja feita, animosidade era uma palavra muito forte para descrever o modo com que Nara tratava Fred. Afinal, apesar de os dois adolescentes sentirem um certo desconforto transparecer, ele era mascarado por cortesia e simpatia, que nunca deixaram de estar presentes no comportamento da mãe de Naira. Ela oferecia um tratamento bastante atencioso, mas tal atenção talvez não fosse necessariamente motivada por afeição. Podia ser por receio, como o de uma pessoa lidando com um cavalo selvagem ou com um reator nuclear.

— O que você tá assistindo?

A pergunta interrompeu o mergulho de Naira dentro de sua própria mente e a trouxe de volta à sala de sua casa. Nesse instante, ela percebeu que Fred estava em pé ao seu lado, olhando para a televisão ligada.

— Hã... acho que é o discurso de posse do novo presidente.

— Ah, é hoje que ele assume o governo? Mas... por que você tá assistindo isso?

— Sei lá. Porque ele é a pessoa mais importante do país? O sujeito que é responsável pelo futuro da nação? O cara que tem mais poder entre todos nós?

— Ah, é? Se o presidente tem tanto poder assim, por que ele não acaba com os crimes? Com os assaltos? Com os assassinatos? — perguntou Fred, com uma expressão sombria.

— Fred...

— Entra presidente, sai presidente e tudo continua igual. Ninguém liga se há um monte de gente sendo morta...

— Não, eles não ligam. Eles só querem o poder pra terem vantagem sobre os outros e serem paparicados como se fossem superiores. Eles se acham grandes autoridades, se esquecendo de que foram as pessoas comuns que colocaram eles onde estão. As mesmas pessoas comuns que eles desprezam. Eles não passam de um bando de arrogantes e egoístas. E covardes, porque usam o poder que têm pra intimidar e pisar nas pessoas, pensando que assim vão ser respeitados. Como se respeito fosse conquistado através do medo.

— Caramba... — Fred arregalou os olhos. — Deixa eu adivinhar: sua mãe anda falando de política com você?

— Um pouco. — Naira sorriu. — Ela fala que não acredita em política, que é tudo um ciclo sujo sem fim que continua eleição após eleição. E que os poucos políticos responsáveis que entram no governo não conseguem mudar nada, porque eles são muito poucos.

— Mas...

— Então eles ou acabam desistindo e se juntando à maioria no sistema ou acabam sozinhos e sem apoio. Esses aí não são pessoas normais.

— Por quê?

— Porque os políticos em geral só pensam neles mesmos. É tão rara uma pessoa que ganha poder e tenta usar ele do jeito certo, ajudando as outras pessoas, que ela não deve ser humana. Deve ser um mutante, um ET ou algo parecido. E... hã... que cara é essa?

— Hein? — Fred piscou forte os olhos, desfazendo uma expressão misteriosa. — Não é nada. É que... hã... tá ficando tarde e é melhor eu voltar pra casa.

— Hmmm... tudo bem. Vai demorar pra gente se ver de novo?

— Acho que não.

— Fred?

— Que foi?

— Você não tá pensando em ser político, né?

— Não... não é isso. Juro que não.

— Sei... Mas se mudar de ideia, não se esquece das pessoas, viu? Das pessoas normais.

Fred sorriu e se despediu.