Good Riddance
43 Somos o que há de melhor
Notas iniciais
André bem que tentou escapulir de casa bem cedo pela manhã. Pegaria seu carro, em vez da moto, pois seria melhor para viajar até a serra, considerando também que estava bem frio, e então passaria na casa dos tios do Fabrício. O moreno havia dormido lá aquela noite, porque um prédio estava sendo construído bem ao lado do dele, e dormir se tornara impossível em seu minúsculo apartamento. O plano de sair despercebido, no entanto, foi cruelmente frustrado por Cíntia, que acordara bem cedo e o abordou antes que conseguisse atingir seu destino, a garagem.
Ela frequentemente sofria de insônia, André perdera a conta de quantas vezes ela o flagrou chegando em casa tarde, na ponta dos pés.
“Filho.” Ela chamou, e o loiro congelou antes de dar meia volta, sorrindo amarelo para a mãe. “Já está indo! Combinou tão cedo com teus amigos... Quem vai mesmo?”
“Quem acordou cedo para um sábado foi tu, mãe.” André comentou, e foi dar um beijo nela. “Vai o pessoal de sempre: Nati, Leo, Davi, Tati, Lucas...” Mentiu deslavadamente, algo que se tornara uma constante nos últimos tempos.
“Estão todos solteiros?” Cíntia riu. “A Tati não tinha namorado?”
“Ah, eles vivem brigando.” André deu de ombros, passando desconfortavelmente uma mão pelos cabelos jogados para trás. A outra segurava a alça da mochila atirada displicentemente às costas. “Iremos aproveitar que estamos solteiros e passar esse tempo juntos. A Tati sempre reclama que nunca viu neve, então...”
“E teus amigos da faculdade? O Fabrício? Gabi o nome da menina, não? Teu pai veio me perguntar do Fabrício, se eu já sabia. Eu disse que sim, tu sabe que ele não gostava dele pela situação financeira, mas eu falei que isso era coisa do passado. Os dois serão futuros médicos, colegas de profissão, eu sempre achei bobagem essas coisas de ‘classes sociais diferentes’. Ainda lembro de como vocês dois se davam bem quando pequenos, sempre juntos...” Cíntia comentou, com certo ar saudoso. “Tu parecia um anjinho naquela época.”
“Mãe...” André revirou os olhos, mas sorriu. Era bom que ao menos a mãe não tivesse nada contra seu namorado, apesar de, claro, ter noção de que ela não gostaria nadinha quando e se descobrisse que eram justamente namorados.
Mas, realmente, ela sempre acobertara a amizade dos dois.
Cíntia riu e segurou-lhe o rosto para beijá-lo na testa. Era alguns centímetros mais baixa e, sem seus costumeiros saltos altos, teve de ficar na ponta dos pés, enquanto o André se abaixava um pouco para receber o carinho.
“Sempre será meu menininho.” Cíntia garantiu, ajeitando as roupas do filho, mesmo que elas estivessem perfeitamente alinhadas. “Mas agora vá, não queremos deixar teus amigos esperando.”
“Valeu, mãe. Até domingo!” André a abraçou rapidamente e praticamente correu para a garagem, afinal, assuntos envolvendo o namorado sempre poderiam acabar de maneira perigosa. Não queria acabar falando nada que deixasse a mãe, ou o pai desconfiados, então vinha evitando falar sobre a faculdade, preferindo comentar apenas sobre seus amigos mais antigos.
“Te amo!” Ainda ouviu a mãe gritar quando já entrava na garagem.
Mães... No fundo, todas iguais. Pensou, com certo pesar enquanto entrava no carro e novamente sentia aquele aperto no peito por saber que, eventualmente, iria decepcioná-la. Suspirou com certa tristeza mas, como muito vinha fazendo, afastou tais pensamentos. Tinha todo um final de semana pela frente com o namorado e não queria estragá-lo com suas preocupações.
As colocaria na gaveta, já que, em relação aos pais, o armário estava bem ocupado.
XxxX
Cherry acabara de dar uma patada no focinho do Sascha, fazendo o cachorrinho ganir baixinho e se afastar magoado, quando o Fabrício jogou-se no sofá com a mochila pronta, bastando agora esperar o namorado. Diogo e Henrique estavam acordados, eles costumavam acordar cedo aos finais de semana. Henrique pelo costume, Diogo porque gostava de aproveitar bem o dia, afinal, durante a semana, Henrique saía cedo e voltava tarde.
Henrique pegou o Sascha no colo, e este, carente, encheu-lhe de lambidas na bochecha.
“Entendeu, Fafá?” Diogo perguntou. Acabara de lhe explicar o caminho até Gramado. Fabrício já havia ido até lá com os pais, mas poucas vezes e de carona, portanto, sem a preocupação de saber o trajeto. Além disso, pegavam outro caminho, pois saíam da cidade do interior, não de Porto Alegre.
Fabrício coçou distraidamente a barba.
“Pegar a estrada de Petrópolis, sei, sei.” Dispensou, acariciando os pelos branquinhos de Cherry quando esta veio se acomodar manhosamente em seu colo. O André, que iria dirigindo, provavelmente sabia o caminho. A realidade era que o Fabrício não confiava muito em suas noções de direção e espaço. Talvez, se tentasse, arruinaria a famosa Lei da Relatividade do espaço-tempo.
“Pegou o presente de dia dos namorados, Fafá?” Henrique perguntou. Havia ajudado a comprar, pois se dependesse do moreno, ele acabaria sem a mínima noção de com que presentear o loiro. E, claro, ainda havia a chance de ele se esquecer de levar o presente.
Fabrício, no entanto, concordou.
“E camisinhas? Lubrificante? São mais importantes que qualquer presente. Tente sem lubrificante, e na manhã seguinte nenhum presente, flores ou mimos recompensarão o ódio do loiro pela dor que tu deixará nos fundilhos.” Diogo alertou sabidamente. “Teve uma vez que eu e o Henrique-“
“Diogo, ninguém precisa saber sobre nossas peripécias sexuais, muito menos o teu sobrinho.” Henrique o impediu de contar alguns fatos nada desagradáveis de quando eram mais novos, menos experientes, e mais impacientes. Bem verdade que Henrique nunca fora dos mais afobados, porém se hoje em dia o Diogo ainda era, há uns dez anos atrás então...
“Só estou tentando ajudar.” Diogo murmurou, parecendo-se momentaneamente como o Sascha após levar a patada da Cherry. Henrique revirou os olhos com um sorriso leve, comentando que iria preparar um chimarrão.
Fabrício riu da situação, esticando um braço sobre o encosto do sofá enquanto mantinha as carícias atrás da orelha da gatinha. Cherry já tinha o tamanho de uma gata adulta, magra e esguia, ocupava boa parte de seu colo, ronronando feito um trator. Continuava carinhosa apenas com o dono, mas já era bem menos arisca com os tios do moreno.
Nesse momento, Sascha reapareceu e correu até o sofá, tentando pular para o colo do moreno também, porém falhou miseravelmente e caiu de bunda no chão, com um latido descontente.
“’Tá tudo cedo, tio. Eu ‘tô indo precavido.” Fabrício assegurou, movendo o pé para que Sascha tentasse mordê-lo. Cherry o observava de cima com uma expressão do mais puro desagrado, seus olhinhos oblíquos de gata fixos nos movimentos do filhote. “Eu quero que tudo seja perfeito!”
“Bom garoto! Mas então, quais são os planos para o final de semana?” Perguntou, milagrosamente sem nenhuma malícia na voz. Gramado era uma cidade interessante, havia muito que fazer, e também se podia visitar Canela, a cidade vizinha que também possuía muitas atrações turísticas.
“O André reservou um quarto no hotel Bangalos da Serra-“
Diogo concordou com a escolha, era um dos dez melhores da cidade.
“Parece que não só tu quer tudo perfeito, hein?” Riu-se divertido. “O hotel fica num lugar lindo, perto do Lago Negro, e pertinho de Canela e do Parque do Caracol. E ainda tem umas hidromassagens...” Beijou a ponta dos dedos, em um cumprimento culinário. Obviamente a malícia não ficaria tanto tempo ausente, e logo Diogo já sorria cheio de sugestões em cada um de seus dentes brancos.
Fabrício coçou a barba.
“As fotos do lugar são mesmo lindas. Só que ele quis pagar tudo, disse que depois eu pago o que gastarmos no passeio, se eu quiser.” Fabrício, quando namorava a Thaís, ex-namorada, costumava pagar tudo. Se fizesse qualquer mínima sugestão de ela pagar alguma coisa, Thaís se ofendia e desistia de sair. Logo ter um namorando querendo pagar tudo era um tanto inusitado e diferente.
“Ah, mas é assim mesmo. Ele tem mais dinheiro que tu, por enquanto, se ele quer pagar e não se importa, não precisam discutir por isso. Vão fazendo um balanço, ele paga aqui, tu paga lá, e assim vai indo. Ou dividir igualmente, quando possível.” Explicou, puxando o Sascha para suas pernas quando este, cansado de morder os tênis do Fabrício, recorreu-lhe atrás de algum carinho.
“É, eu sei. Só é diferente mesmo. Mas sei lá, até gostei. Vou ficar mal-acostumado.” Soltou uma risada junto com o tio. “Sabe, tio, eu ‘tô muito feliz mesmo. Às vezes fico pensando que eu e ele estaríamos juntos há muito mais tempo, já que até falar que ia me casar com ele quando era moleque, eu falei. Engraçado que eu nem me lembrava disso, mas ele lembrava.”
“Lembrava?” Diogo soltou uma gargalhada. “A memória daquele moleque vale ouro.”
“Ele admitiu antes de nos acertamos no Intermed.” Fabrício sorriu bobamente com a lembrança, suspirando em seguida. “Eu ‘tô mesmo apaixonado.” Riu de si mesmo, acompanhado do tio. Já se apaixonara antes, mas sentia que agora era diferente das outras vezes. Queria grudar naquele loiro e não perdê-lo nunca mais.
Não cometeria o mesmo erro novamente.
“Isso é ótimo. Estar apaixonado é ótimo!” Diogo exclamou, extremamente contente pelo sobrinho. É claro que ele sabia que, não fosse pelo traste que era o pai do loiro – o qual tivera o desprazer de conhecer no passado –, os dois teriam continuado juntos, e teriam, conforme havia previsto há dez anos, começado a namorar muito mais cedo. Mas o importante é que estavam juntos agora. Diogo até poderia começar a acreditar um pouquinho em destino depois dessa.
“É verdade, não há nada como estar apaixonado.” Henrique, sorrindo, retornou com o chimarrão em mãos, e entregou a cuia para o tatuado, sentando-se na ponta da poltrona. Sascha tentou meter o focinho no chimarrão, mas o Diogo o impediu. “Aproveitem bastante esse primeiro dia dos namorados. E cuidado na estrada, sem altas velocidades, ok?”
“Pode deixar, vou controlar aquele loiro.” Fabrício afiançou divertido, colocando também certa dose de malícia na frase, a qual foi imediatamente aprovada pelo tio.
Culpa da convivência, obviamente.
XxxX
Quando o André chegou, primeiro agarrou-se ao Sascha e não o soltou por um bom tempo. Parecia-se com uma criança que reencontrava seu bichinho de pelúcia favorito. Sascha se esganiçava, latindo, lambendo-o, balançando o rabo. O loiro ficava extremamente aliviado com o fato de o labrador, além de não se esquecer de si, ainda demonstrar saudades. Depois disso, aceitou um chimarrão e uns bolinhos de queijo ofertados pelos tios do namorado.
André, no entanto, parecia mais nervoso que o normal. Henrique entendeu o que se passava quando, antes de os dois garotos pegarem a estrada, o loiro tê-lo ‘encurralado’ na cozinha, apertando o Sascha em seus braços como faria com um brinquedo, enquanto mordia ansiosamente os lábios. Henrique ergueu as sobrancelhas, momentaneamente preocupando-se com o que estaria afetando o loiro. Pensou ser nervosismo de virgem, mas não era assim tão simples.
“O que houve, André?”
“E se meus pais descobrirem?” perguntou baixinho, piscando os olhos. “Eu... Eu tentei desligar os pensamentos disso, mas como vou aguentar se minha mãe me olhar com nojo e desprezo? Se eu nunca mais ouvir dela um ‘eu te amo’, ou que eu ‘sempre serei o menininho’ dela? Como tu lidou com isso?” Apertou mais o filhote em seus braços, e o Sascha mirou o psiquiatra com um olhar dengoso e brilhante, como se esperasse também por uma resposta.
Henrique suspirou, com uma contração no peito. Era um assunto delicado e complicado.
“Eu nem sei dizer como que lidei com isso, André. Até hoje, isso é uma ferida. Infelizmente eu tive de escolher entre ser aquilo que meus pais queriam, fazê-los feliz, mas que me faria infeliz, ou decepcioná-los e encontrar minha felicidade. Se eu pudesse escolher, escolheria um terceiro caminho, mas esse caminho não se abriu para mim. Se eu sinto falta da relação que eu tinha com meus pais antes de tudo? Sim, eu sinto. Mas se para ter essa relação eu precisava fingir ser algo que não sou, então eu prefiro não tê-la. Mas, André, tu não sabe como será em relação aos teus pais. Talvez tua mãe te aceite.”
André balançou a cabeça, soltando o ar com desprezo para a ideia.
“Tu não diria isso se visse o desprezo que ela demonstrou ao descobrir que meu primo é gay. O desprezo de ambos. Sabe, eu já esperava isso dos meus pais, esperava até da minha mãe... Mas foi a primeira vez que a vi realmente falando mal de um homossexual. Talvez porque fosse da família, pois ela parece ser indiferente a outros homossexuais, ela trabalha na área de decoração, então chega a ter relações profissionais com alguns. Mas imagine se ela souber que o filho dela...”
Sascha lambeu a bochecha do loiro, que respirou fundo, tentando se acalmar enquanto segurava um espirro. Ainda era meio alérgico ao filhote.
“Ela aceitar outros homossexuais já é alguma coisa, não? Talvez tudo que ela precise seja se acostumar com a ideia. Mas não adianta ficar se mortificando com isso agora. O momento certo de contar tudo a ela virá, acredite em mim.” Henrique colocou uma mão sobre o ombro do loiro e, para surpresa deste, puxou-o para um abraço. Sascha latiu ao ver-se quase esmagado entre os dois, mas na verdade pareceu gostar, pois tentou lamber ambos. “Pode sempre contar comigo quando precisar conversar, ok?”
“Obrigado, Henrique.” André agradeceu, com um sorriso fraco, mas agradecido.
“Que isso. Agora, por favor, desligue-se dos problemas e aproveite esse final de semana que será só de vocês, e também porque o Fabrício só faltava flutuar nas nuvens desde ontem com esse passeio.” Brincou, piscando-lhe um olho. André riu, com certo constrangimento. Fafá idiota, pensou enquanto suas bochechas se pintavam levemente de vermelho.
“Eu vou, até porque, acredite ou não...” Aproximou-se conspiratoriamente do de cabelos compridos, erguendo a mão para esconder parcialmente os lábios e sussurrar praticamente inaudível: “Eu também estou nas nuvens.”
Largando o Sascha no chão, praticamente correu para fora da cozinha antes que escutasse qualquer comentário sobre isso. E, claro, foi interceptado por certo moreno assim que chegou à sala. Fafá o abraçou e ergueu do chão, com um sorriso largo antes de beijá-lo na bochecha, para completar com um brinde o constrangimento do loiro.
“Tudo pronto, Bela Adormecida?”
“Para de me chamar assim!” André reclamou, aborrecido. “Já não basta me chamar de Santa? Maldito apelido que se alastrou por toda faculdade!” Simplesmente todos os colegas de turma, e até alguns de outras turmas, passaram a chamá-lo de tal maneira.
Fabrício apenas riu, falando algo sobre ‘Santa’ ser bonitinho e combinar com ele.
Maldito Fabrício.
XxxX
A viagem até Gramado estava estranhamente longa. André franziu a testa após algum tempo, com o sexto sentido cutucando-lhe o cérebro. Fabrício batucava ao seu lado, acompanhando uma das músicas que tocava no rádio.
“Diga a verdade ao menos uma vez na vida–” Fabrício cantou, inclinando-se para perto do loiro para provocar-lhe a orelha. André se arrepiou inteiro, quase derrubando o chimarrão. Dirigia com uma mão e, com a outra, segurava a cuia. “Você se apaixonou, pelos meus erros!”
“Para com isso, vou acabar saindo da estrada!” Reclamou. “E tem algo de errado. Tem certeza que não tínhamos de ter entrado em Petrópolis e ido pela estrada dentro da cidade?”
“Não lembro, pensei que tu sabia.” Fabrício falou distraidamente, e continuou a cantoria. André adorava a voz do moreno, porém naquele momento queria que ele calasse a boca e prestasse atenção no que estava falando. Mas não, no lugar disso, ele cantou: “Diga a verdade, ponha o dedo na ferida, você se apaixonou, pelos meus erros!”
“Me apaixonei o caralho, tu falou que não era pra entrar lá e seguir a estrada, e agora me diz que não lembra e que eu deveria saber? Por mim a gente tinha entrado!” André exclamou, estressado. Era incrível como o loiro se tornava ainda mais estressado que o normal quando dirigia e, ainda assim, afirmava que adorava dirigir.
Depois eu sou o louco, Fafá pensou, infantil e momentaneamente emburrado.
“Desculpa...?” Pediu com um sorriso deslavado, movendo as sobrancelhas negras.
André bufou e entregou a cuia do chimarrão para o moreno. Depois procurou o celular no bolso, abrindo o aplicativo de mapas. Santa paciência, se o caminho certo fosse o outro, a viagem se prolongaria por mais umas duas horas.
“Caramba, nós já estamos quase em Caxias!” Exclamou ao olhar para o mapa, e deu um tapa na cabeça do Fabrício quando este começou a gargalhar, principalmente da expressão espantada do namorado.
“Bah, nós fomos longe!” Falou o moreno sem perder o bom humor. “Calma, loirinho, é só dar meia-volta e logo estamos lá de novo, nem faz tanto tempo que passamos do caminho certo.”
“Mas se nos atrasarmos, podemos acabar perdendo as reservas do hotel, moreninho.” Replicou, utilizando o apelido com uma entonação debochada e ácida. Respirou fundo, olhando rapidamente no mapa onde era o lugar mais próximo para inverter o caminho. “Na nossa próxima viagem, tu não abre a boca pra dar opinião na estrada, ok?”
“Já pensando na nossa próxima viagem? Assim eu apaixono mais.” Brincou, dando um apertão na bochecha do loiro. Carinhoso, André quase o mordeu, e o Fafá puxou a mão rapidamente para não acabar com um dedo a menos.
Nada abalado, Fafá apenas voltou a acompanhar a música que seguia para os finalmentes:
“Feitos um pro outro, feitos pra durar! Uma luz que não produz... Sombra! Vai tu também, loiro!”
“Me lembre também de te colocar no porta-malas na próxima viagem...” André resmungou baixinho, revirando os olhos e empurrando novamente a cabeça do moreno quando este tentou beijar-lhe a bochecha. “Sai, vai nos matar assim! Toma esse chimarrão e fica quieto, peste!” Reclamou, acabando por deixar escapar uma risada que acompanhou à do namorado.
Somos o que há de melhor
Somos o que dá pra fazer
O que não dá pra evitar
E não se pode esconder...
XxxX
Gramado não é o terceiro destino mais desejado do Brasil por nada.
Tem um ar europeu, com ruas floridas – os jardins de hortênsias que percorriam as beiras das estradas, as casas de arquitetura germânica, algumas lembrando chalés; as praças arrumadinhas, as lojinhas e várias atrações, tudo deixando a cidade ainda mais encantadora. A temperatura caía bastante ali na serra. Como estavam atrasados, André seguiu direto para o hotel, que ficava um pouco distante da cidade, mas o simples caminho até lá, entre as árvores, por uma estradinha de areia tosca, já era de admirar.
“Uou, é lindo aqui!” Fabrício exclamou enquanto saía do carro. “E ‘tá frio!” Tremeu inteiro, já que estava mal agasalhado, com apenas uma camiseta de mangas compridas sob um casaco de meia-estação. André, que estava bem entrouxado, afinal não queria que sua rinite alérgica atacasse, foi até o moreno, tirando o cachecol que usava e colocando-o ao redor do pescoço do moreno.
“Idiota, te avisei que ia estar bem frio, ainda mais aqui no meio de todo esse mato. Vai acabar gripado.” Resmungou, arrumando o cachecol no pescoço do namorado. Fabrício sorriu com a preocupação do loiro e o abraçou de supetão, afundando o nariz gelado no pescoço aquecido e branquinho do André. Este se arrepiou e piscou aturdido com o beijo que recebeu ali.
Torceu os lábios.
“Se alguém iria desconfiar que somos um casal de gays curtindo o dia dos namorados, agora não há dúvidas.” Falou, um tanto desconfortável. Era inevitável. Ainda não conseguia agir como namorado em lugares públicos, sentia-se oprimido pelos olhares e repreensões silenciosas nas expressões das outras pessoas. Algumas, talvez, apenas na sua imaginação.
“Desculpe.” Fabrício pediu pela segunda vez no dia. “Às vezes me esqueço das outras pessoas.”
“Tudo bem...” André murmurou, pois, no fundo, gostava desse jeito despreocupado do namorado. Talvez devesse mandar tudo à merda e sair andando por aí de mãos dadas, abraçar e dar beijinhos rápidos publicamente, assim como o Davi e o Guilherme faziam. Mas... Era difícil. “Vamos entrar.” Falou, puxando-o consigo para dentro do hotel.
Não queria estragar o clima com tais inseguranças.
O hotel era composto por vários bangalôs próximos. Não era extremante sofisticado, mas era organizado, simples e aconchegante. Haviam chegado atrasados e, por conseguinte, perderiam as reservas, mas antes que o André fizesse terrorismo psicológico com a moça da recepção, Fabrício o interrompeu, apoiando um braço no balcão e inclinando-se um pouco para frente com um sorriso sedutor.
“Hei, eu acredito que uma moça bonita – com um sorriso desses” emendou quando a garota sorriu abaixando o olhar “vai dar um jeito de ajudar dois desesperados patetas que erraram o caminho na estrada e chegaram meia horinha atrasados, certo?” Sorriu mais largamente, seu sorriso bobo que, no entanto, era de um charme impecável.
A moça, corada, reabriu o caderno de reservas.
“Bem... Eu acho que posso dar um jeito sim.” Sorriu docemente, olhando com um interesse indisfarçado para o Fabrício.
André tinha as orelhas vermelhas enquanto observava aquilo e, além de apertar os punhos, tinha a mandíbula travada. Aquela guria só faltava comer o seu namorado com os olhos! Tudo bem que o cara de pau do Fabrício tivera o disparate de flertar com ela bem na sua cara, e agora ainda tinha o descabimento de lhe piscar descontraidamente o olho, junto com um sorrisinho cúmplice no canto do lábio.
André apenas pegou as chaves e seguiu para o bangalô reservado a eles, pisando duro.
“O que foi?!” Fabrício perguntou ao entrar no quarto, seguindo-o. Era um cômodo bastante aconchegante. Possuía uma cama de casal e um pequeno espaço para o jantar, próximo a uma lareira que já estava acesa, deixando o ambiente extremamente agradável.
André largou as malas em cima da cama, ainda sem dizer nada, mas sentiu um arrepio quando percebeu o moreno atrás de si. Ele lhe segurou os braços e roçou os lábios em sua nuca, beijando-o de leve. O arrepio aumentou.
“Não vai falar nada?” Perguntou baixo, aspirando o perfume do namorado.
André respirou fundo, tentando se acalmar.
“Precisava ter flertado com a recepcionista?” Perguntou, tentando – mas falhando – não parecer tão ciumento. Fabrício riu e circulou o corpo do loiro com os braços. Algumas pessoas não gostavam, porém em seu caso, achava fofo e engraçado o ciúme do André. Quem diria que, após tanta negação, o loiro faria justamente o tipo possessivo.
“Só estava conseguindo nossas reservas de volta, loiro. Apenas fui educado, falei com jeitinho.” Sorriu contra o pescoço do namorado e o mordeu no pescoço. “Está brabo comigo? Achei que seria melhor do que rodar a cidade atrás de outro hotel, perderíamos mais tempo do nosso dia...”
“Ela estava te comendo com os olhos!” André não escutou a razão, continuava desejando a morte da garota. Ok, isso era forte demais. Que ela ao menos fosse demitida por comportamento inapropriado.
“Vem cá.” Fafá falou virando-o para si. André resmungou, mas apenas apertou as mãos na gola do casaco do namorado quando ele o beijou, fazendo uso de uma tática muito, muito baixa para distraí-lo de sua raiva. André suspirou com o contato quente, que o fazia esquecer completamente o frio do lado de fora.
Fafá se afastou com um sorriso tão bobo apaixonado, que o André, ao mesmo tempo em que se esvaíra completamente da raiva, quase se irritou de novo, simplesmente por amar todos os sorrisos que apareciam naquele rosto bronzeado e bonito.
“Melhor?” Fafá perguntou.
“Sim...” André admitiu, envergonhando-se um pouco de seu ciúme exagerado. Mas crescera assim, oras. O que era seu, era seu, e ninguém tinha direito de pôr a mão e meter o olho. Achava bastante coerente sentir-se da mesma forma em relação ao namorado. “Tu sabe que em algum momento teus beijos vão perder o efeito e tu vai precisar mais do que isso para me acalmar, não sabe?”
“Sei,” Fafá o abraçou. “Mas, quando isso acontecer, eu vou dar um jeitinho...” Murmurou sugestivo contra a orelha do loiro, que voltou a se arrepiar inteiro como se uma rajada de vento frio houvesse invadido o quarto.
Pelo jeito, o tal efeito ainda demoraria a passar...
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