Good Riddance

29 Pra mim é natural


Notas iniciais
Agradecendo do FUNDO do coração à bii devon e à Pâmela Garcia pelas recomendações, mesmo eu tendo colocado a fic antes em hiatus. Bem, as boas notícias é que o hiatus acabou :)

André acordou com um cutucão que, ao ignorar, transformou-se em um carinho suave em seu abdômen e depois em sua bochecha. Abriu os olhos pesados, apreciando aquele carinho. Deu de cara com o Fabrício, já arrumado, vestido e de cara lavada, sorrindo sapeca.

“Bom dia, Bela Adormecida.” O moreno provocou.

Maldito! Jamais esqueceria aquele apelido infame?

André resmungou constrangido e se virou de lado, querendo voltar a dormir. Talvez não estivesse realmente preparado para encarar – sóbrio – os fatos da noite anterior. Não que se arrependesse, pelo contrário, mas ainda tinha muito sono e era difícil pensar. E acordar daquela maneira, com Fabrício lhe fazendo carinho... Era estranho, e bom, mas estranho. Estava com vergonha.

“Me deixa dormir. Estou de ressaca.” Murmurou com a voz arrastada e preguiçosa.

Fabrício se deitou e o abraçou pela cintura, beijando-lhe a nuca.

“É 9h45min agora. Daqui 45 minutos tem o jogo de vôlei.” Fafá o lembrou, também se sentindo preguiçoso ao se levantar de novo. Acordara mais cedo por acaso e resolvera ir ao banheiro tomar um banho, escovar os dentes e aliviar a bexiga. Se voltasse a dormir agora, ambos acabariam perdendo o jogo. Fafá também estava de ressaca, mas tomara um paracetamol, era tudo que tinha. E era bom que André tomasse um uma meia hora antes do jogo, para ter efeito até lá.

“Joga tu. Eu quero dormir.” André voltou a resmungar, soando bastante mimado e manhoso. Fafá revirou os olhos e mordeu a nuca do loiro, causando-lhe um arrepio que lhe eriçou os pelos. André tentou acotovelá-lo, mas Fabrício previu isso e o impediu.

“Essa semifinal é contra a UFSC. Vai ser dureza, eles parecem que são bons no vôlei e estão em primeiro lugar na classificação geral atualmente, o time vai precisar de ti. Tu é o técnico, além de titular!” Fabrício o lembrou, voltando a cutucar-lhe o abdômen e causando cócegas. André se virou de barriga para cima com uma interjeição insatisfeita e risos mal reprimidos.

“Para!” Pediu já mais acordado, e corou parando de se mexer quando o moreno descansou os cotovelos sobre o colchonete, André entre eles. Fafá roçou o nariz no do loiro, que fechou os olhos e manteve a boca bem cerrada. Ainda não havia escovado os dentes, oras. Estavam ‘juntos’ há muito pouco tempo para que já trocassem um beijo matinal. “Tu não acha nem um pouquinho estranho estarmos assim?” Murmurou com cuidado, espiando-o através de uma das pálpebras semiaberta.

Fafá parou e pensou sobre aquilo. Suspirou.

“Eu te disse ontem que pra mim é mais natural, mas é porque cresci achando isso natural, tão natural quanto um guri e uma guria namorando. Convivi bastante tempo vendo o Diogo e o Rique trocando carinhos e alguns beijinhos.” Fafá explicou. “Eu fico um pouco nervoso com isso... É meio inacreditável que tu tenha aceitado...” Corou de leve, a pele bronzeada disfarçando. André adorou vê-lo um pouquinho constrangido, para variar. “E ‘tava agora pouco pensando nisso, e senti um pouco de insegurança que tu acordasse e voltasse atrás... Mas eu sou grude, abusado e meio mala, tu vai ter de me aturar.”

André sentiu-se melhor com o que moreno disse, mas fez uma careta com a parte final.

“Meio mala?” Perguntou irônico, com um sorrisinho no canto da boca, roçando os dedos no peito do Fabrício. Novamente Fafá se lembrou de Cherry, raspando as patinhas em sua roupa. “Eu já te aturo há bastante tempo. Acho que consigo suportar.”

“Acha? Olha que eu posso ser um mala completo mesmo.” Fafá ameaçou sorrindo, e tentou roubar um beijo do loiro. Este porém o empurrou e se levantou, querendo um banheiro.

“Sem beijos enquanto eu ainda estou com bafo matinal.” Disse constrangido, mas resoluto. Queria parar logo de se sentir encabulado perto do moreno, ou ao menos perto do moreno com segundas intenções, mas isso provavelmente só viria com o tempo. Pulou para fora da barraca.

“Mas eu não me importo!” Fafá tentou dizer, porém André já dera no pé.

Fafá jogou-se no colchonete e colocou os braços atrás da cabeça, olhando para o teto da barraca. Um sorriso iluminou-lhe o rosto. Estava feliz, era inegável, finalmente parecia ter saciado um desejo que tivera por anos. Talvez por isso seu namoro de quatro anos houvesse sido meio morno, apesar de ter amado a ex-namorada. Talvez houvesse namorado por tanto tempo justamente pelo comodismo. Começava a ver as coisas numa nova ótica, e muitas atitudes faziam mais sentido agora do que antes.

Queria aproveitar ao máximo o namorado.

Namorado?

Fafá novamente pensou por alguns minutos. Pensou que era óbvio que o André era seu, ninguém mais podia tocá-lo, beijá-lo e outras intimidades, além de si. Só não pedia em namoro porque era cedo, André teria um treco, e o melhor mesmo era deixar rolar. Mas não mentira sobre ser grude e, às vezes, até carinhoso demais.

Teria de se segurar pra não agarrar o loiro o tempo todo, ou acabaria apanhando.

XxxX

A cabeça do André estourava enquanto ele jogava, mas ele jogou bem, esforçou-se ao máximo e até incentivou o time, para perplexidade de todos, que estavam acostumados ao seu jeito mais sério. O loiro, apesar da ressaca, parecia de bom humor. Justo ele, que tinha mau humor matinal desde que se entendia por gente. A sorte foi que no outro time também havia rapazes de ressaca. Fabrício sentia vontade de jogar; porém, os titulares eram todos melhores do que ele, então não ajudaria de verdade. Mas, como das três outras vezes, era ótimo ver o André jogar. Ele poderia ter nascido para aquilo.

Gabi apareceu no último set, sentando-se ao lado do Fabrício. Fafá, na crueldade, não falou nada, e Gabi não aguentou nem um minuto antes de perguntar pelo que a corroia internamente.

“E aí?! Vocês se acertaram?” Ela perguntou ansiosa, desviando a atenção do jogo. Só faltava roer as unhas. Fabrício sorriu apoiando os cotovelos na arquibancada.

“Não sei. Será?” Deixou no ar. E por isso levou um tapa no braço da amiga. Gabi soltou um gritinho insatisfeito.

“Idiota! Com esse sorrisão, é óbvio que se acertaram! Fala a verdade!” Mal dormira naquela noite de tanta curiosidade. “Não vejo a hora de implicar com o André sobre isso!”

“Pelo amor de Deus, não. Ele já quis arrancar fora minha língua quando soube que tu, a Fran, o Rique e o Diogo já sabiam que eu era a fim dele.” Fabrício passou a mão pelos cabelos, preocupado. Gabi sabia ser implicante quando queria. E ela até que queria com bastante frequência.

“Porra, Fafá, mas é um monte de gente mesmo. Pra quem mais tu contou? Pra toda a torcida do Grêmio?” Gabi falou, esquecendo-se de que quem havia contado para a Fran havia sido ela. Fafá revirou os olhos, experimentando uma pontada de dor de cabeça.

“Claro que não né. Não contei pra mais ninguém.” Se defendeu.

“’Tá, então eu conto pro Rafael.” Gabi se voluntariou.

Fafá a olhou admirado. Depois ele era o cara de pau do grupo.

“Será que dá pra tu manter a boca caladinha uma vez na vida? Sério, o André vai ficar puto.”

“E desde quando eu tenho medo de um loiro magrelo daqueles? Ora, faça-me o favor, o Rafael iria descobrir cedo ou tarde mesmo, ele ‘tá sempre com a gente. É até mais confortável pra vocês e eu já sondei ele, e ele disse que não tem preconceito também! Que até tem um primo gay lá de Bento!” Gabi contou empolgada. Fafá ficou aliviado por isso, seria triste descobrir mais um homofóbico entre os amigos. “’Tá, mas afinal, vocês se acertaram? Se beijaram? Fizeram nheco-nheco na barraca?”

Fafá gargalhou.

“Sério, Gabi, esse Intermed ‘tá te fazendo mal.”

“Fala logo, Fabrício!” Gritou.

O moreno colocou o dedo indicador sobre os lados e pediu por silêncio. Como se alguém fosse escutá-los na baderna que eram aquelas arquibancadas: pessoas gritando, pulando, tocando tambor e cantando as músicas de suas respectivas universidades. O barulho era até irritante, mas animava o pessoal em quadra.

“Nos entendemos. Nos beijamos. Mas não fizemos nheco-nheco na barraca não.” Fafá comentou, rindo ainda da amiga e da expressão. Nheco-nheco? Sério mesmo? “Só dormimos.”

“Abraçadinhos?” Gabi juntou as mãos em frente ao peito.

“Abraçadinhos.” Fafá confirmou meio sem jeito, coçando o cabelo. Esperava não ter de dar futuramente detalhes de tudo que ele e o André faziam. Seria constrangedor, principalmente quando Gabi saía fofocando tudo para todo mundo.

Gabi soltou uma exclamação de vitória e abraçou o amigo, dependurando-se em seus ombros.

“Own, que fofinhos!” Ela falou num ar implicante. “Awn, preciso de detalhes, conta!”

“Não mesmo, já tem o suficiente por hoje.” Fafá redarguiu tentando tirar os braços da morena de cima de si.

Ela deixou o queixo cair.

“Não digo! Conta! Conta mais, Fafá! Como foi? O que tu disse pra ele? O que ele te disse? Como vocês acabaram se beijando? Como que ele aceitou isso? Vai, vai, conta!” Implorou quase o sufocando, apertando-lhe o pescoço e ainda o puxando para baixo, deixando-o todo torto.

“Socorro! Tem uma tarada me agarrando!” Fabrício gritou. Conseguiu se soltar dela e os dois, da maneira mais infantil possível, começaram a brincar de pega-pega ao redor da quadra, tendo de se desviar de várias pessoas pelo caminho, que os olhavam feio após quase serem atropeladas.

André, da quadra, após enterrar a bola no lado adversário, viu-os correndo em sua visão periférica. Desviou a atenção para eles, seguindo-os com o olhar por alguns segundos. Revirou os olhos para aquilo, contente por não ser associado a nenhum dos dois naquele momento. Se lhe perguntassem, diria que aqueles dois loucos eram da UEL.

Era sua vez de sacar e faltava apenas um ponto para ganharem o set e a partida. Então se posicionou, jogou a bola para o alto e para frente e correu alguns passos antes de saltar e bater na bola, jogando-a rasgante para o outro lado da quadra. Quando seus pés pousaram na quadra, o ponto para a UFRGS já era marcado, e o juiz anunciava a vitória.

Não demorou nem um minuto para que Fabrício entrasse correndo na quadra, na direção do André, e ainda seguido pela Gabi. O loiro nem teve para onde fugir antes de ser erguido pela cintura pelo moreno, em comemoração. O time vibrava, e Gabi gritou do chão, pulando perto deles:

“Agora beija! Beija!”

André usou o pé para empurrar a morena pela cintura, e Gabi tropeçou para o lado, insatisfeita. Fafá soltou o loiro, parabenizando-o, e dessa vez André aceitou os cumprimentos com um sorriso tímido, bastante faceiro com a vitória sobre um time difícil. Talvez agora estivessem em primeiro lugar na competição!

“Own.” Gabi soltou ao ver os dois próximos, olhando-se como se desejassem se beijar.

“Acho melhor sairmos daqui, ela ‘tá ficando assustadora.” Fabrício sussurrou para o loiro, que assentiu enfaticamente. Os dois começaram a sair de fininho da quadra, mas Gabi soltou uma exclamação de ultraje e os seguiu.

Acabaram pegando o ônibus juntos, e dessa vez André teve de aguentar as perguntas indiscretas da morena.

“’Tá, mas assim, no futuro, vocês já pensaram sobre quem será o passivo da relação? Porque nenhum dos dois deu a bunda, eu imagino, e dizem é que dolorido no início. Ou vocês serão total-flex? Mas como vocês não fizeram nada além de beijar ainda, vou ter de esperar. Mas admito, estou curiosa-“ E continuou tagarelando com ela mesma, enquanto os dois olhavam para os lados, querendo pular do ônibus, se esconder ou encontrar uma rolha para enfiar goela abaixo da morena.

Até mesmo o Fafá estava constrangido com aquele papo.

“Eu juro que ainda me vingo por isso, Fafá.” André murmurou para o Fabrício, que apenas sorriu culpado e coçou a barba que começava a dar discretos sinais de vida. “Juro que me vingo.” Enfatizou.

Fafá rezou para que a Fran não fosse tão indiscreta; no entanto, sabia que com o Diogo seria ainda pior.

Que o loiro fosse duro na queda, era tudo que humildemente pedia.

XxxX

Até às 15h30min, horário que seria o jogo de futebol, houve tempo para tomar um banho, almoçar e dar uma cochilada. André deitou na barraca e apagou. Já Fabrício continuou com os colegas e amigos jogando conversa fora, arrancando umas músicas no violão e bebendo umas cevas. É, o pessoal parecia beber o tempo todo no Intermed. Mas cuidou para não acabar alcoolizado, pois precisavam ganhar no futebol, e um bêbado em quadra ajudaria apenas o time adversário.

Quando chegou a hora do futebol, André acordou sozinho, e a turma toda rumou para o estádio, ao lado do alojamento. Dessa vez André e Fabrício estavam bem mais sincronizados e deram um show em quadra, dominando o jogo, tornando-se o delírio da gurizada. Fafá umas duas ou três vezes deu tapinha na bunda do loiro, que sempre o fuzilava com o olhar. Isso nunca mudaria.

O jogo foi apertado contra os moicanos da UEL. Foi agressivo e cheio de faltas, André recebera um cartão amarelo por dar um carrinho num jogador que, antes, sem que o juiz visse, lhe dera uma cotovelada que lhe tirara o ar dos pulmões. Fafá teve de segurá-lo e acalmá-lo, antes que o loiro caísse em cima do idiota, pavio curto como era. Houve outras faltas, os ânimos terminaram quentes, e houve briga entre alguns guris e gurias da torcida.

Quando enfim ganharam, foi aquela festa, e o pessoal da UEL saiu ou xingando, ou desolados demais para qualquer implicância. Fabrício e André, suados e exaustos, abraçaram-se em comemoração. André não gostou de, pelo canto do olho, ver a Gabi e a Fran cheias de risadinhas e tititis enquanto os observavam. Soltou o Fabrício com um resmungo infeliz, sentindo-se envergonhado.

“Preciso de um banho.” Comentou, quando saíam da quadra. “Mas não quero pegar o container lotado de gente.”

“Vamos um pouco mais tarde.” Fafá falou, apesar de, após uma fungada rápida na axila, achar que gostaria de um banho o mais breve possível. André riu e lhe empurrou a cabeça. “Ou não?” O moreno perguntou.

“Vamos esperar um pouco. Eu-“ André foi interrompido pela aproximação do Beto.

“André! Parabéns pela vitória. Vocês dois jogaram um bolão!” Beto sorriu e bagunçou os cabelos do loiro. André fugiu do contato, sentindo-se zonzo com aquilo. “Vim aqui convidar vocês para algo diferente hoje à noite. Vai ter a última festa lá no mesmo lugar das duas últimas noites, eu sei. Mas eu consegui as chaves do ginásio com as piscinas, e pensei em fazer uma festinha particular por ali. Não vai ter muita gente, e não espalhem muito, tragam os amigos que realmente interessam. Teremos um ônibus para levar até lá às onze da noite.”

“Ok, ahn... Vou falar com o pessoal, e te aviso, ok?” André falou, curtindo a ideia, pois realmente não estava lá muito a fim de ir no mesmo lugar pela terceira noite seguida. “Ah, e obrigado por cuidar da Vanessa, vi ela hoje inteira e bem.”

“Que isso, cara, de boa. A loirinha ‘tava na pior mesmo.” Beto comentou condolente, dando dois tapinhas no braço do André. “Qualquer coisa ‘tô por aí, mas é só chegar no ônibus às onze, ali na ruazinha perto do quiosque, se não nos toparmos antes.” Falou e olhou pro Fabrício, cumprimentando-o também com uns tapinhas nas costas, reafirmando o convite e parabenizando pelo jogo.

Depois retornou o olhar pro loiro, exibindo o aparelho num sorriso cúmplice enquanto piscava um olho, e se afastou para junto de outra galera.

“Esse carinha é o de ontem, né? Bem simpático ele, hãn?” Fafá perguntou. Logo gostara do Beto. Mas também, de quem ele não gosta? André se perguntou. Fafá era do tipo ‘sociável até demais’. Mas era uma sorte que o moreno não soubesse que Beto havia recentemente dado em cima do loiro.

André voltou a andar, indicando que falaria sobre aquilo num lugar mais calmo, e Fafá o seguiu. Foram até as arquibancadas que começavam a ser desocupadas, receberam mais cumprimentos, tiveram de parar para conversar com uns colegas, e só então se sentaram nuns degraus mais acima, olhando para o lugar que esvaziava gradativamente.

“É, ele... Bem, ele é o cara que eu destratei na festa da matrícula, não sei se tu se lembra, já que ‘tava podre de bêbado.” André comentou, sentado com os antebraços sobre as pernas, e passou uma toalhinha pelo rosto e cabelos para afastar o suor. “Reencontrei com ele aqui e tomei um susto quando ele me pediu desculpas. Obviamente era eu quem deveria pedir desculpas por aqui, e eu pedi. Foi bom poder reparar isso. Conversamos um tempo ontem de noite, ele é tri legal na verdade.” Mordeu o lábio.

Deveria contar que o Beto sabia de tudo? Aí Fafá iria chamá-lo de hipócrita e sairia espalhando pra mais gente. Ok, no caso, mais gente queria dizer o Rafael. Tudo bem que o Rafael mal deveria conversar com a própria mãe, mas ainda assim... Era muita gente pra saber em tão pouco tempo! Fabrício notou o desconforto do loiro e se aproximou um bocado, colocando uma mão nos costas delgadas, mesmo que a camisa, como a sua, estivesse encharcada de suor.

“Isso é bom, não é? É bom quando podemos nos desculpar por alguma coisa e tirar esse peso das costas. Ele parece legal mesmo, então o que ‘tá te incomodando?” Perguntou sem entender. André desviou o olhar para o lado oposto ao do moreno.

“É que... Eu ‘tava meio bêbado, entende? E ele tem esse jeito simpático de ‘quero ouvir teus problemas e ajudar’, e aí acabei contanto tudo pra ele... Ele me aconselhou a ir conversar contigo, e eu ia, mas aí a Vanessa apareceu bêbada e eu fiquei preocupado, fiquei tentando encontrar alguém pra cuidar dela, mas não achava.” Explicou ficando com o rosto vermelho, parecendo pisar em espinhos enquanto falava.

Fafá franziu a testa, impressionado.

“Sério que tu contou tudo pra um desconhecido, e reclamou que eu contei pra Gabriella?”

“Foi sem querer, ok!? Eu ‘tava confuso!” André achou que estava sendo acusado, porém perdeu a expressão divertida no rosto do moreno. Fabrício não se importava, seus tios eram assumidos, e ele não tinha medo do preconceito alheio. Claro que seria mais fácil se pudessem ter certa paz num primeiro momento, sem sofrer com esse tipo de coisa, principalmente porque seria muita dureza pro André já lidar com isso tão rápido.

“Calma, loiro. Eu não ‘tô reclamando.” Fafá apertou-lhe a bochecha, fazendo o André virar o rosto para olhá-lo, meio apalermado, meio indignado por ter caído na ‘pegadinha’. “Mas espero que ele não espalhe nada ainda. É mais fácil se mantivermos segredo por enquanto.”

“S-Sim.” André sentiu arrepios só de imaginar a história caindo na boca do povo. Não conhecia muito bem ainda todos os setenta colegas de classe, e obviamente alguns preconceituosos deveriam existir dentro da universidade, ele próprio fora um. “Mas o Beto é gay também, e parece confiável. Não sairia espalhando.” Garantiu. Não sabia por que estava confiando tanto quando isso nunca fora de sua natureza; talvez porque não tivesse outra opção que não confiar.

“Se tu diz, eu acredito!” Fafá garantiu, empolgado. “Então vamos nessa festa na piscina mesmo? Eu curti a ideia!”

“Eu também.” André sorriu, e o moreno teve vontade de agarrá-lo ali mesmo. Era dureza ter de se segurar – não poder simplesmente abraçar e beijar em público como outros casais. “Depois falamos com a Gabi, a Fran e o Rafa. Eu bem que queria comer alguma coisa agora, estou podre de fome.”

“Erm... Sabe quem nos convidou para jantar hoje?”

André estranhou, apertando os olhos em confusão. Quem os convidaria para jantar? Estavam no Intermed, a única janta era a oferecida no evento. Mas pela expressão de ‘não me bata quando ouvir isso’ do moreno, André ficou preocupado, e perguntou cautelosamente:

“Quem...?”

“O Diogo e o Rique!” Fafá exclamou rápido, com uma risada descarada. “O Diogo tem um apartamento aqui em Torres, e ele e o Rique decidiram vir passar o final de semana na praia. Ele falou que poderia passar aqui e nos pegar. Também ofereceu o apartamento dele para que tomássemos um banho, depois que contei que aqui anda tendo problemas de falta de água em alguns lugares. E aí sairíamos para jantar. Depois ele nos largaria aqui.” Riu mais uma vez, agora meio nervoso à espera da resposta do loiro. “O que acha?”

Como se um aviso do destino, Gabi gritou lá de baixo:

“Guris! Parece que faltou água no campus todo! A previsão é que volte só de madrugada!”

André não poderia viver sem um banho, como aguentaria até de madrugada? Uma coisa era esperar uma hora até o movimento no container diminuir, outra era aguentar mais de sete horas! Apoiou o rosto nas mãos, escondendo-o. Só de imaginar o que o Diogo iria falar...

“Tu já contou para ele, né? Era com ele que tu ‘tava trocando mensagens de madrugada.” André acusou, mortalmente envergonhado. Por isso também, provavelmente, Diogo decidira vir a Torres. O homem não era capaz nem de esperar mais dois dias pra conferir essa história!

Fafá soltou uma risada forçada e culpada, coçando os cabelos negros.

“Tu ‘tava acordado?”

“Eu acordei uma hora, vi que tu ‘tava mexendo no celular, mas logo voltei a dormir.” Disse e se ergueu, meio nervoso, meio sem jeito. “Que seja, eu preciso de um banho, e também seria bom comer em algum lugar decente pra variar. Por mim, aceitamos o convite.” Falou, e já sentiu uma pontada de arrependimento nem meio segundo depois; algo que só piorou ao notar toda a empolgação do Fabrício, que só faltou beijá-lo cinematograficamente depois de abraçá-lo pela cintura e erguê-lo no chão.

Fafá e Diogo eram mais como dois irmãos arteiros e muito ligados, do que tio e sobrinho.

Tenho medo desses dois juntos, André percebeu.

Notas finais
Dona Mila, como assim o hiatus acabou? Tu falou que não ia mais escrever e mimimi. Pois é, até eu estou surpresa com isso, e antes que vocês me olhem desconfiados, a notícia completa é que eu TERMINEI a história, sim, a tenho completa no computador e agora vou ir apenas postando os capítulos. O ritmo não sei, vai depender de vocês, e também de mim e meu tempo livre. Infelizmente minhas aulas retornam segunda-feira! Mas essa história, ao menos, novo hiatus não terá. Cap. pequeno e simples para vocês, mas espero que tenham gostado, o próximo é maior! BEIJOS E OBRIGADA A TODOS QUE ESPERARAM E COMPREENDERAM!