Notas iniciais
Atenção: Essa história se passa no Rio Grande do Sul, então obviamente a linguagem usada pelos personagens é adequada ao lugar, ou seja, eles falam "tu" em vez de você, entre outras gírias gaúchas.

Todo dia era a mesma coisa. A mesma rotina, a mesma brincadeira. Mas nem por isso a vida era monótona. Pode-se se fazer a mesma coisa todos os dias, e mesmo assim viver vários momentos diferentes, inesquecíveis. Só é necessário ter a companhia certa.

Tudo que André precisava era de sua bicicleta, e ele estaria feliz. Ele dormia até tarde e, quando acordava, era obrigado a engolir algumas garfadas de comida no almoço; depois dava um beijo em sua mãe e saía para brincar. Era uma das vantagens de morar numa cidade interiorana, as crianças podiam sair na rua, curtirem a liberdade de andar de uma lado para o outro com os amigos, e não preocuparem tanto os pais com seus passeios.

“Tu não está indo naquela lomba de novo, não é mesmo, André?” – Cíntia, a mãe do garoto, perguntava desconfiada e preocupada para o filho de apenas dez anos de idade.

André negava enfaticamente, balançando os fios loiros em todas as direções. É claro que estava sempre mentindo. Mas Cíntia não precisava saber disso. Na verdade, ela bem que sabia, pois conhecia bem até demais o filho que colocara no mundo. Mas de qualquer forma, depois do almoço André pegava sua bicicleta, companheira de aventuras, e pedalava até a dita lomba.

A cidade, ainda que não fosse minúscula, era pequena e tranquila, e a família Santayana era a mais rica e refinada de lá, vivendo em uma casa elegante que lembrava uma mansão em miniatura. Mas André não se importava em ser refinado enquanto pedalava empolgado pela cidade, respirando rápido pelo esforço físico e sentindo o vento fresco bater no rosto corado.

Em geral o ponto de encontro era no topo da grande lomba, às duas da tarde. Isso nas férias, pois quando estavam em aula, acabavam se encontrando mais tarde. Só havia duas escolas na cidade, ambas estaduais, mas de ensino bastante bom. Porém eles estudavam cada um em uma. O amigo de André chamava-se Fabrício Ferreira. Ele era um menininho pobre, que André conhecera por acidente. Literalmente um acidente, já que tudo começara com um acidente com um patinete.

A rua da lomba descia vertiginosa e, ao final dela, havia outra rua perpendicular bem ao lado do lago enorme, de águas límpidas que ocupava boa porta daquele bairro. Do outro lado, junto ao lago, havia um pequeno parque – o Parque do Vale – onde as pessoas costumavam correr, passear e beber chimarrão. André e Fabrício também costumavam brincar bastante sob as sombras das árvores frondosas.

André esperou alguns segundos no topo da lomba até ver Fabrício se aproximando à distância, com os olhos apertados pelo sol forte de verão. Ele tinha cabelos pretos bagunçados, e ainda por cima usava óculos. André adorava implicar com aqueles óculos estranhos, mas sempre corria quando Fabrício ameaçava lhe dar o troco com um soco bem dado.

"Tu está atrasado." André disse em seu tom de menino rico mimado, quando o garoto de mesma idade parou ao lado dele, com um skate velho embaixo do braço.

"Mas eu vim, não vim?" Fabrício rebateu em desafio, estufando o peito.

Os Ferreira eram uma família humilde, donos de uma singela confeitaria chamada Vitória, aonde Fabrício e André iam depois de brincarem na lomba. Era gostoso se encherem de doces depois de secarem as roupas, antes de saírem e apostarem uma corrida pelas ruas da cidade.

Com olhares audaciosos, os dois meninos encararam a lomba, esnobando sua declividade gigantesca com ares de super-herói. Não havia muitos carros por ali, eles surgiam eventualmente, mas eles sabiam como se virar quando acontecia algum imprevisto. André montou na bicicleta sem freios – que ele mesmo tirara (e ele estaria frito se Cíntia descobrisse).

"Freios são para meninas." Ele havia dito para Fabrício, mas no fundo era porque Fabrício usava um skate, e skates não tinham freio. E ele não podia deixar Fabrício acreditar que era mais corajoso.

Já Fabrício deitou no skate, de barriga para baixo. E era por isso que André secretamente gostava tanto dele. Aquilo era loucura. Era arriscado, mas Fabrício não se importava. Assim como ele também não se importava. Não havia outro amigo para comentar tal loucura que deixava ambos com o coração acelerado.

"um, dois..." Começou André, olhando determinado para a lomba assustadora. "TRÊS!" Gritou, e os dois tomaram impulso e começaram a descer a ladeira, aos risos.

O vento atingiu o rosto dos garotos com força, bagunçado os fios e enchendo os olhos de lágrimas. Um frio intenso causava fisgada nas entranhas conforme ganhavam velocidade. Eles gritavam um para o outro e voltavam a rir, aproveitando aquela sensação de liberdade e voo. Mas o ponto alto da brincadeira era quando, seguindo em linha reta, caíam diretamente nas águas gostosas do lago, com roupa, skate, bicicleta e tudo. Saltavam para fora dos ‘veículos’ antes de cair na água. Era como voar e cair num mar revolto, livrando o corpo de todo o calor do dia, e ainda exaurir os corações com a adrenalina.

Os dois submergiram, dando risadas. O frio na barriga ainda fazendo-lhes cócegas, deixando-os sem ar. Eles jogaram água um contra o outro, guerreando por alguns minutos..

"Tu viu aquilo?" Exclamou Fabrício um pouco depois, com os braços sobre o skate de madeira que flutuava na água. "Eu quase atropelei um gato! Tu viu a maneira como eu desviei dele?"

André gargalhou e nadou até a beira, esforçando-se para levar a bicicleta junto; havia uma barra que dava para se segurar e ajudava com a subida. Ele colocara dois dispositivos que impediam a bicicleta de afundar por completo, mas era difícil mantê-la na superfície já que ele era um tanto magrela e fraquinho.

Os dois saíram da água e correram lomba acima, para mais uma tentativa.

"Depois eu quero trocar." Pediu Fabrício quando eles chegaram lá em cima de novo, exaustos e ofegantes pela subida íngreme. “Eu vou no skate e tu na bicicleta.”

“Tu tem medo de ir no skate. É mais difícil.” Fabrício rechaçou, pura implicância.

“Cala a boca. Eu não tenho medo de nada.” André o empurrou.

Horas depois, úmidos e quase mortos de cansaço, os dois foram até a confeitaria dos pais do Fabrício. Haviam aproveitado e disputado corrida de bicicleta contra skate por quase toda a cidade. Uma velhinha havia gritado com eles quando passaram voando por ela, quase a atropelando. Fabrício gritou um pedido de desculpas por cima do ombro, mas a senhora continuou a resmungar. Agora a fome batia forte e nada melhor do que um bolinho de chocolate para recarregar as energias.

"Oh, Deus! Mas é todo o dia a mesma coisa!" Exclamava Isadora, mãe de Fabrício, mas, como todas as outras vezes, correu para pegar algumas toalhas. Eles já não estavam tão molhados, mas mesmo assim ela insistia que acabariam se gripando. Mesmo com o calorão lá fora.

Eles tomaram suco de laranja e comeram bolo e os pães de queijo. Os melhores da cidade, dizia Fabrício, e André acabava por concordar com um aceno de cabeça, a boca cheia demais para que conseguisse falar qualquer coisa.

Às vezes, quando André perdia a noção do tempo ouvindo as histórias do Lucas– pai do Fabrício – sobre lendas, mitologia e outros assuntos fantasiosos, ou tentando decifrar as charadas e brincadeiras do Diogo, amigo de infância de Lucas, a Cíntia aparecia na confeitaria, agradecia à Isadora por cuidar do filho com uma careta de desgosto e arrastava André para casa.

Ele abanava para Fabrício, que sorria e murmurava um "Até amanhã."

À noite, André ouvia as advertências da mãe. Dizia que se o pai descobrisse sobre as traquinagens dele junto com um garotinho pobre, ele ficaria de castigo até atingir a maioridade. Cíntia sempre acobertava tudo, e era o tipo de mãe que ladra, mas não morde. Ela gostava de ver o filho feliz, brincando feito qualquer outra criança saudável, mas o pai era exigente e queria que o filho já agisse como um adulto.

Mas André sempre abanava a mão, como se dispensando os argumentos da mãe. Ela nunca contava nada para o pai e, de qualquer forma, ele estava sempre viajando, cuidando dos negócios. Heitor era um homem influente, dono de terras e um negócio de importação e exportação. Conservador e rígido eram suas qualidades mais marcantes, ainda que colocasse a família em primeiro lugar – na maior parte das vezes.

No dia seguinte, André foi encontrar Fabrício, no mesmo local.

"Ela brigou muito?" Perguntou o menino, e André deu de ombros, não querendo falar sobre aquilo.

Os dois começaram a descer, e aquele prometia ser um dia como outro qualquer. Numa das descidas, os dois seguiram um carro enorme, prateado, que andava à frente. Desafiaram um ao outro a conseguir ultrapassar o carro. Mas o veículo parou abruptamente, algo que os dois não esperavam, pois nenhum carro nunca parava nomeioda lomba.

Fabrício ainda conseguiu desviar, gritando no processo, mas André levou um susto tão grande que não conseguiu desviar a tempo. Porém rapidamente calculou que se virasse a bicicleta de lado, ao menos não haveria chance de bater com a roda da frente e sair voando por cima do carro. Conseguiu virá-la, mas acabou se estatelando no metal do carro.

"Outh." Gemeu, deslizando até o chão depois de bater a coxa com força, esmagando carne contra osso. Tentou se levantar e viu que felizmente não tinha quebrado nada. Acabou rindo, apesar da dor. Provavelmente ficaria todo roxo.

"Inacreditável." Uma voz fria ecoou perto de André, e ele levantou o rosto. O sorriso murchou de imediato.

Heitor levantou o filho e o arrastou para dentro do carro. André ainda tentou reclamar, dizer que precisava pegar sua bicicleta, mas Heitor não o escutou; ou fingiu não escutar. Colocou-o no banco traseiro e, batendo a porta com força, subiu também no carro edirigiu para casa. André não se atreveu a falar com o pai, que mantinha a expressão austera e amedrontadora; os lábios crispados.

Fabrício viu quando carro passou, com André dentro dele. O loirinho parecia tão atemorizado que sequer o olhou. Fabrício se apoiou na margem de concreto e suspirou, jogando o skate para fora do lago, antes de sair também da água.

Sem André.

E caminhou até a confeitaria. Sozinho.

André nunca mais apareceu naquelas férias. E ele levou algumas semanas até desistir de ir até o lugar marcado, nos últimos dias antes de as aulas retornarem. Quando a saudade bateu forte, Fabrício resolveu ir de skate até a casa dele, a vários quarteirões de distância. Chegou lá, com os pés cansados e olhou para a única residência realmente grande da cidade. A casa ficava a uma boa distância da calçada, e Fabrício não achou que gritar por André adiantaria.

Então ele apenas abaixou a cabeça e colocou o skate apoiado em um dos pilares da grade. Pois andar de skate e descer aquela lomba pareceu perder todo o significado. Não seria a mesma coisa sem André.

E, com esse pensamento, voltou para casa.

Notas finais
Essa história vai ter muitos fatos, digamos, parcialmente verídicos, porque vai englobar muitas experiências que eu tive, ou vi, ou ouvi ao entrar no curso de medicina da UFRGS. Aliás, esse negócio de descer lomba e cair em um lago também tem algo de verídico! hehehe!Beijos para quem leu. ♥