Good Riddance

3 Festa da matrícula


O dia foi mesmo exaustivo para o Fabrício. Depois das apresentações no CASL, os veteranos os levaram para o pátio e foi aquele banho de tinta. A partir daí era cada um por si, os bixos se dispersaram pelas ruas de Porto Alegre, abordando tudo quanto era gente que viam pelo caminho, pedindo por dinheiro. Uma moedinha, qualquer coisa, alguns centavos já ajudavam.

Fabrício se juntou com os amigos Rafael, Fran e Gabi. Os quatros caminharam da Rua Ramiro Barcelos para a Av. Ipiranga e pararam na sinaleira da R. Silva Só, ao lado de um Mcdonalds. Assim, Fabrício pedia dinheiro na sinaleira, como um perfeito pedinte sujo e mal-vestido, junto com a Gabi. E Fran e Rafael alternavam entre a sinaleira e o pessoal que saía do Mcdonalds.

Fabrício abriu um sorrisão e foi exibir todo contente os 20 reais que ganhara de uma mulher com quem praticamente flertou para arrancar dela algum trocado.

Gabi fez uma careta.

“Que injusto!” Exclamou, fazendo bico. “Eu fico aqui ganhando cinco centavos, ou dez centavos quando o pessoal está generoso, e tu ganha vinte reais de vez!”

“Tem que ter lábia, Gabi.” Fabrício piscou para a garota e passou um braço pelos ombros dela. Inclinou-se para perto, como se para segredar uma tática infalível. “Façamos assim – no próximo carro de vidro aberto com um homem na direção e, pelo amor de deus, nenhuma mulher no carona, tu se inclina bem para perto, abre um sorriso bem charmoso e diz: Oi, algum dia eu vou ser a tua doutora. Aí lambe os lábios e depois continua: mas primeiro tu tem que me ajudar, lindo. Tu não imagina como vou ficar agradecida se tu me conseguir algum dinheiro agora. Aí tu pisca e sacode um pouco o decote.” Fabrício se afastou e analisou o decote de Gabi, que estava rindo da voz de travesti que o moreno fizera para tentar imitar uma garota.

Gabi deixou o Fabrício ajeitar seu decote. Eram tão amigos, que ela nem se importava de ele 'apalpar' seus peitos e deixá-los mais evidentes. Fabrício era uma parada mesmo. Riu ao final com o assobio que ele soltou.

“Aqui, para tu que ‘tá carente a ponto de já sair mostrando os peitos por dinheiro.” Ele brincou e colocou umas moedinhas no caneco da garota. O caneco era de metal prateado e tinha as inscrições Medicina UFRGS, e um cordão verde com as mesmas inscrições se ligava a ele, assim as pessoas podiam carregá-lo no pescoço, se quisessem.

“Besta.” Gabi xingou, mas aceitou alegremente o dinheiro. Nesse momento o sinal abriu e os dois saíram do canteiro central, indo ‘assaltar’ mais alguns carros. Fabrício conseguiu uns três reais daquela vez, já a Gabi voltou exibindo uma nota de dez que recebera do carinha com quem flertara.

“Boa garota. Quase lá. Só mais dez reais para alcançar o mestre.” Fabrício gracejou. Falava sempre em tom de brincadeira e deboche, então mesmo quando dizia algo convencido, não havia como levá-lo a sério. Gabi colocou a nota de dez no decote e fez um beiço provocativo para Fabrício, desfilando com o dinheiro nos peitos.

Fabrício riu e puxou a nota dos peitos dela. E aí começaram um pega-pega pela nota de dez.

Eles não ficaram esmolando até muito tarde naquele dia. Ainda teriam outros três dias para fazer isso, na primeira semana de aula. Pelas cinco e pouco da tarde, já bem cansados e com a pele ardendo pelo sol forte, cada um voltou para a própria casa.

Fabrício pegou um ônibus, mesmo recebendo um olhar torto do motorista, que tratou de avisá-lo para não sentar nos bancos e ficar bem lá no fundo, e também alguns olhares curiosos das pessoas dentro do ônibus. Duas senhoras até o cumprimentaram por ter passado em medicina, e ele agradeceu com um sorriso simpático no rosto, do tipo que muito bem poderia fazer as vovós pensarem: ah, se eu fosse mais nova!

Foi uma dificuldade livrar-se de toda a tinta quando chegou em casa e partiu direto pro banho. Ainda tinha aula teórica da auto-escola, ali na Ramiro Barcelos, rua da FAMED, o que era bem prático, porque a tal festa da matrícula seria na Ashclin, que ficava naquela mesma rua. Quando saiu do banho com a toalha enrolada na cintura, ainda sentia a tinta grudada em algumas partes do corpo. Tinha certeza de que havia alguma enfiada no ouvido.

“Ah, Cherry!” Viu a gatinha sobre a cama de casal no canto do apartamento. Da porta de entrada, a cama ficava parcialmente escondida por uma reentrância na parede, e o armário ficava bem ao lado da cama. Cherry estava deitadinha comportada sobre um dos travesseiros, também brancos. Podia ser facilmente confundida com um bichinho de pelúcia com o qual Fabrício dormiria agarrado à noite. “Esqueci de ti, bonitinha.” Pegou-a com cuidado no colo, já que ela era tão pequenininha, e a levou até a cozinha, onde a serviu de um generoso pratinho com ração especial.

Cherry miou feliz e, espreguiçando-se, pôs-se a comer a ração, derretendo o Fabrício inteiro, já que ele tinha um fraco enorme por bichinhos, tanto gatos quanto cachorros. Não à toa havia pegado a gatinha abandonada sem pensar duas vezes. Segurando a vontade de morder aquela bola de pelos brancos, Fabrício saiu da cozinha e foi até o armário, em busca de alguma roupa legal para aquela noite.

Optou por uma bermuda e uma camisa branca. Achava que cores claras lhe caíam bem. Colocou uns tênis meio esportivo e espetou os cabelos negros para cima. Fabrício foi até o espelho de corpo inteiro ao lado da porta do banheiro e se analisou.

“Apresentável.” Assentiu para a própria imagem, como se fosse ela a lhe pedir a opinião. “O que acha, Cherry?” Perguntou quando a gatinha apareceu na porta da cozinha, lambendo os beicinhos com a barriga satisfeita. Dessa vez Fabrício não aguentou. Avançou até a gatinha, pegou-a no colo e se jogou com ela na cama, até perceber que chegaria atrasado na aula caso continuasse a fazer cócegas em Cherry, enquanto ela tentava mordê-lo e arranhá-lo de brincadeira, muito nova para realmente machucar.

XxX

É claro que o André não admitiria que passara boa parte da tarde fuçando no Facebook de Fabrício Ferreira, como um exemplo perfeito de stalker. Ele estava no grupo com os veteranos, como não havia visto antes? André ainda ficava emburrado por ele sequer o reconhecer. Foi até o espelho e se perguntou se havia mudado muito. Achava que não... Inclusive, odiava como parecia uns três anos mais novo do que realmente era. Tinha dezenove, mas as pessoas insistiam em achar que tinha uns quinze ou dezesseis. Fala sério!

Ainda se lembrava de uma vez em que fora se consultar por causa de uma dor de garganta persistente no ano interior, e a médica perguntou: “Quantos anos tu tem, querido? Quatorze?”. Na época ele tinha dezoito. André ficou extremamente vermelho, morto de vergonha, ainda mais quando a médica ficou nitidamente surpresa quando disse sua verdadeira idade. Aliás, André desconfiava que ela fora checar sua ficha depois, tomando-o por mentiroso.

Suspirou, rolando sobre a cama espaçosa e colocando as mãos atrás da cabeça como apoio. Não conseguia tirar o Fabrício da cabeça, e não entendia isso. Mas as lembranças da infância ficavam voltando. Era engraçado. Tinha amigos lá de seus doze, treze anos, que mal lembrava mais por achá-los hoje sem importância, amizades passageiras. Mas o Fabrício, que havia sido seu amigo até os dez anos de idade, era alguém que não esquecera. Haviam tido uma amizade bastante próxima, e André fechou o rosto ao perceber o sorrisinho surgido no canto do lábio.

Que bobagem ficar sorrindo feito um pateta saudoso da infância. Ele era apenas muito evoluído para lembrar de tudo tão nitidamente. Aliás, André fora agraciado com a famosa ‘memória fotográfica’. Raramente esquecia alguma coisa a qual dedicava alguma atenção. Não à toa havia passado de primeira num vestibular difícil sem praticamente nenhum estudo.

Levantou-se da cama e se virou para ir para o banheiro, mas sem explicação lógica, caminhou no sentido oposto, em direção ao armário. Abriu as portas que revelavam uma longa fileira de casacos e, na parte de baixo, uma sorte de tralhas que ele tinha a terrível mania de guardar.

Abaixou-se e tirou algumas caixas, tênis e livros do caminho. Perdido naquele mar de lembranças estava um skate velho. As rodinhas estavam gastas; a madeira, lascada; a parte superior antes preta, já acinzentada. O skate que o Fabrício deixara do lado de fora de sua casa na outra cidade. Deus! Havia mesmo guardado aquilo!? Por um instante pensara que era uma lembrança falsa.

Sentir-se constrangido por guardar o skate foi inevitável.

Havia visto o Fabrício da janela do quarto, onde estava trancado há dias, depois do flagra do pai. Heitor já procurava casas em Porto Alegre para que pudessem se mudar e, assim, ele ficaria mais próximo dos negócios e André estudaria em um colégio melhor. Mas nesse ínterim, o pai não deixou André sair de casa para se despedir do amigo pobre. Heitor era conservador e preconceituoso, não queria o filho metido com a ralé.

Mas assim que tivera uma brecha, André correra para frente da casa e conseguira pegar o skate antes que alguém o pegasse. O escondeu do pai, e o levou consigo para Porto Alegre. Desde que o colocara no armário, meio escondido, nunca mais havia posto as mãos nele. Era estranho tocar algo parte de uma vida tão distante.

André voltou a guardar o skate, o coração meio acelerado por nada. Levantou e, pensando duas vezes, resolveu ir para a festa da matrícula. Ela começava às 21h00min. Havia tempo de sobra para se arrumar e chegar até lá.

XxX

Fabrício bocejou quando saiu do CFC da Ramiro. O professor da noite era ainda pior do que o da manhã! Por pouco não babara enquanto dormia na aula. Estava muito mal acostumado com as aulas divertidas e interessantes do cursinho, devia ser o caso. Não queria ser injusto com o professor também, mesmo que ele falasse tão baixo que mais da metade do que ele explicava se transformava em estranhos resmungos que se assemelhavam a um cachorro ganindo ao tentar coçar as próprias pulgas.

Ele largou mais cedo. É boa gente. Fabrício decidiu. Já passava das dez, mas considerando que a aula iria até as onze... Talvez nem o professor aguentasse os próprios resmungos. Fabrício soltou uma risadinha ao atravessar a rua, passar pelo canteiro central e seguir pela Ramiro em direção à Ipiranga. Bem ao lado do RU da saúde, havia uma entrada de carros e uma placa informativa, apontando para a Ashclin. Fabrício dobrou, sentindo as orelhas subirem conforme o som se tornava mais alto. Havia uma cerca entre a calçada e um campo longo, gramado. Fabrício viu um quiosque cheio de pessoas, música, e logo chegou à conclusão de que era ali a festinha.

Precisou chegar até o final da ‘rua’ e dobrar para achar a entrada através da grade. O ‘laranja’ que os veteranos conseguiram para doar a Ashclin por uma noite, já que aquele era um clube exclusivo para funcionários da UFRGS, estava ali na entrada e cumprimentou Fabrício, indicando o caminho. Fabrício avançou farejando algum conhecido, mas era difícil, havia muita gente, talvez um pouco mais de cem pessoas, num espaço bem pequeno.

Fran não viria, morava em Novo Hamburgo e seria problemático ela voltar para casa tão tarde; Rafael era tão anti-social que achava difícil vê-lo. Só restava a Gabi, só que também não a viu naquela montoeira de gente.

Mas, extrovertido como era, logo Fabrício apossou-se de uma cerveja e meteu-se num grupo de garotos que papeava, se inteirando da conversa.

XxX

Eram mais de onze da noite quando André viu o Fabrício. O moreno já parecia um tanto bêbado, falando alto demais, rindo por tudo e praticamente monopolizando a conversa em um grupinho de garotos e garotas do lado de fora do quiosque. E as outros pareciam até felizes por isso porque, como estavam recém se conhecendo, era bom que houvesse alguém que puxasse a conversa e não a deixasse morrer.

André ficou perto da roda, estrategicamente virado de lado e um pouco atrás de um garoto alto de ombros largos, assim Fabrício não o veria. Não que ele viesse a reconhecê-lo se o fizesse, André lembrou desgostoso. Mas mesmo assim não queria ser visto pelo outro, não sabia dizer exatamente por quê. Mas de qualquer forma ficou ouvindo enquanto o Fabrício contava sobre algo da infância e...

Levou a mão à boca. Aquele mané estava falando sobre a descida da lomba!

“Nah. A gente fazia isso quase todos os dias das férias. Se jogava na água e ia pra confeitaria dos meus pais com os fundilhos molhados e o rabo entre as pernas.” Ria. O jeito que falava fazia os outros rirem também. Afinal, todo mundo já estava meio bêbado também, já que a bebida era liberada.

“E o que aconteceu com esse teu amigo, Fafá?” Perguntou uma garota de cabelos e olhos castanhos, baixinha, fofinha e de pele morena.

“Ah, sei lá, Gabi. Um dia ele sumiu e eu nunca mais vi ele depois disso.” Fabrício deu de ombros. Falava como se não fosse grande coisa. “Já faz uma porrada de tempo isso.” Explicou o garoto.

E a conversa seguiu sobre lembranças e traquinagens da infância. Todo mundo lembrava de alguma história e compartilhava. As risadas eram certas, e elas atraíram mais alguns calouros interessados em conhecer os colegas.

André ficou surpreso que ele lembrasse daquilo, claro. Mas então ele se lembrava do que faziam, mas não se lembrava da sua cara? Era um pateta mesmo, André pensou, mas abriu de novo aquele sorrisinho tolo. O qual escondeu rapidamente, de novo se sentindo idiota. Porém... Se fosse sincero consigo mesmo, diria que gostara de saber que ele ainda lembrava. Ah, mas continuava sendo algo idiota! Não havia pensando em Fabrício por anos, e agora tudo retornava com força total.

“Olha a foto, bixarada!!!” Uma veterana apareceu com a câmera em mãos. André notou que era sua madrinha, a Bruna. Ela era super baixinha, magrinha e tinha um ar meio de índia, com longos cabelos negros e olhos de noite. “Quero ver todo mundo com um sorriso no rosto! Vamô lá!” Exigiu, enquanto todo mundo se atarantava para aparecer na foto.

André foi sendo empurrado e, quando deu por si, foi puxado pela cintura por alguém. A pessoa nem o olhava, apenas o puxara para que parasse de sapatear sem saber para onde ir. O loiro olhou para o lado e arregalou os olhos ao ver que era o Fabrício quem passava a mão por suas costas. O moreno parecia mesmo bêbado, com um sorriso entortado para a câmera. O flash veio e o André piscou, percebendo que a foto havia sido tirada quando estava olhando de canto para o Fabrício com cara de: ‘Vem cá, ‘cê veio de Marte, imbecil?’.

Na segunda foto, André cuidou para olhar para a câmera, mas acabou piscando bem na hora. Típico. Ele odiava tirar fotos por isso. Sempre saía com a cara meio torta, os olhos fechados, ou um olho mais aberto que o outro... Mesmo que não estivesse bêbado. E estar com o coração acelerado não ajudava em nada. Com um suspiro, desvencilhou-se do Fabrício assim que a veterana fez um sinal positivo. Foi até ela olhar as duas fotos e implorou para que apagasse a primeira.

“Por quê? Ficou ótima!” Bruna se negou. André refreou o impulsivo de arrancar a máquina das mãos dela e jogá-la entre as árvores perto do quiosque. Resolveu que seria melhor ir buscar uma bebida e começar a ficar bêbado de uma vez.

XxX

Fabrício já estava ficando com sono, ainda mais bêbado como se encontrava. Já passava da uma da manhã, e ele havia perdido a prática em beber e se manter acordado até de madrugada, já que não fizera isso nenhuma vez pelos dez meses em que ficou estudando pro vestibular. Era até estranho estar fazendo tais coisas novamente. Mas gostoso. Sorriu para a garota com quem começara uma conversa. Ela era do quinto semestre. A festa da matrícula era aberta para todos os semestres, e algumas pessoas mais avançadas no curso apareciam, para conhecer a bixarada e também beber umas cevas de graça.

Ela era bem bonita. Tinha cabelos escuros, um rosto fino, mas de bochechas salientes, e os longos cílios negros deixavam seus olhos verdes ainda mais bonitos. A boca era vermelha e carnuda. Fabrício estava reparando na boca dela, já mal escutando o que ela contava sobre o curso (ainda que fosse bastante interessante saber sobre como eram os semestres mais adiante), quando a própria garota tomou a iniciativa e o beijou.

Fabrício foi pego de surpresa, mas não hesitou em passar um braço pela cintura dela e aprofundar o beijo. Temeu estar com um gosto ruim de cerveja na boca, mas logo aquilo não pareceu muito importante. Empolgou-se mesmo com o beijo. Fazia tempo também que não ficava com nenhuma garota. Ele e Gabi haviam ficado por umas semanas no ano interior, mas não dera certo e eles seguiram na amizade. Fabrício achava bem idiota quem acabava uma amizade só por trocar uns beijos com a pessoa. O que uma coisa tinha a ver com a outra?

Fabrício estava bem entretido ali com o beijo, quando uma comoção atraiu a atenção das pessoas, e ele e a tataravôterana – ou algo assim – se separaram. Olharam para o lugar onde as pessoas se viravam e, dando alguns passos, viram o que era. Havia um loiro em pé, e outro garoto, talvez também um estudante mais avançado no curso, caído de bunda no chão de frente para o calouro, que arfava com o rosto avermelhado.

“O que aconteceu?” Fabrício perguntou para a pessoa ao seu lado.

“Não entendi muito bem. Mas o loiro gritou que não era um viado nojento, ou algo assim, antes de empurrar aquele ali.” Segredou o outro, usando a mão para não deixar o som dispersar demais.

Fabrício ergueu as sobrancelhas e reparou em como o loiro pareceu desconfortável ao ter todos os olhares postos sobre si. O caído no chão levantou, limpando as calças.

“Não precisava de todo esse escândalo, idiota. Era só dizer que não estava a fim.” Ele seguiu para dentro do quiosque, deixando o loiro sozinho como alvo da curiosidade dos colegas.

XxX

André não suportou aqueles olhares por muito tempo. Avançou através das pessoas em direção ao caminho por onde viera para chegar até o quiosque. Logo estava longe das luzes, e seguindo pelo gramado e depois pela estradinha de areia ao lado de uma praça com árvores e bancos, tudo iluminado por apenas um poste um pouco distante.

É verdade que não precisava ter falado tão alto e empurrado o cara. E ainda tivera a má sorte de o som parar de tocar bem quando gritara que não era nenhum viado. Estava lá, de boa, conversando com uma colega, uma loirinha simpática chamada Vanessa, quando aquele garoto do sétimo semestre apareceu. Meteu-se na conversa e passou a contar sobre o curso, o hospital... Sem nunca tirar os olhos do André.

Até que a Vanessa foi pegar mais uma bebida, e ele se aproximou descaradamente, colocando a mão na cintura do loiro, perigosamente perto da bunda, e se inclinando para, André achava, beijá-lo. E na frente de todo mundo! Só podia estar bêbado mesmo. André o empurrou antes que acontecesse. Com um suspiro exasperado, passou a mão nervosamente pelos cabelos. Que maneira para começar a faculdade! Agora só faltava um cadáver cair em cima de si na aula de anatomia e tudo estaria perfeito!

Antes que André alcançasse o portão de saída, alguém segurou seu braço. Por um segundo insano, ele achou que seria o rapaz que empurrara, e agora vinha lhe dar uma sova por tê-lo exposto daquela maneira.

Mas estava errado.

“F-Fabrício?” Perguntou, surpreso.

O de olhos escuros franziu a testa.

“Como sabe meu nome?” Replicou, a voz embargada. Quase se apoiava no André ao segurá-lo. Sentia-se prestes a cair. Não sabia muito bem como havia dispensado a garota com quem estava ficando. Aliás, como era mesmo o nome dela? Só sabia que achara aquele loiro familiar e, movido por impulso e pelo álcool em seu sistema, o seguira ao vê-lo saindo com a expressão tão chateada.

“Eu... É...” André olhou para os lados, em busca de alguma salvação. Não encontrou nenhum ali naquele lugar escurecido, é claro. Voltou a olhar para Fabrício, notando que ele apertava os olhos, talvez estivesse tão bêbado que nem enxergar mais direito enxergava. “Eu te vi no grupo no Facebook.”

“Ah, claro!” Fabrício soltou, abrindo um sorriso. “Poxa, tu é bom fisionomista. Eu sou péssimo. E eu acho que perdi uma das minhas lentes, caralho, estou vendo dois de ti.”

“Acho que tu só está bêbado.” André revirou os olhos. “Por que me seguiu?”

“Sei lá. Já não te conheço de algum lugar?” Foi direto, pegando o loiro de surpresa. André sentiu as orelhas esquentarem.

“Erm... Eu... Sei lá.” Falou estupidamente. Não iria dizer ‘Claro, sou teu amigo de infância, não lembra?!’, né? Fabrício que lembrasse por ele mesmo. E de qualquer forma ele estava tão bêbado, que nem lembraria daquela conversa no dia seguinte.

“Huuum... Mas é sério. Eu acho que já te conheço.” Fabrício, para susto do André, segurou as bochechas do loiro e virou a cabeça dele de um lado para o outro, analisando-o sem muito tato.

André se desvencilhou.

“’Tá... Que seja.” Já estava constrangido com aquela análise e o rosto do garoto tão próximo, já que ele mal o enxergava e precisava chegar perto para ver. “Estou indo para casa.”

“Aquele garoto lá tentou te agarrar mesmo?” Fabrício perguntou, de novo sem tato. Mas qual bêbado que tinha algum tato? Ele seguiu o André feito uma sombra.

André suspirou, de novo passando a mão pelos cabelos.

“Prefiro não comentar aquilo.” Falou e foi quando chegou até a moto, estacionada junto a alguns carros. Era uma BMW K 1300 R Dynamic, custara 85 mil reais, e era até assustador deixá-la ali para ser roubada. Não havia segurança nos dias atuais. Ainda mais na capital. Mas a moto tinha seguro, ao menos isso.

Fabrício soltou um assobio.

“Uou! Que maneiro!” Analisou a moto de alto abaixo. Não notava que estava sendo inconveniente, mas o André não podia reclamar. Não conseguia enxotá-lo. Era... bom interagir com ele de novo. “Mas tu não deveria voltar para casa de moto.”

“Por quê?” André já colocava o capacete.

“Porque tu bebeu, manezão.” Fabrício empurrou o capacete do André, e quase tropeçou em cima do loiro ao fazê-lo. André sustentou o peso morto.

“Mas é tu quem está bêbado. Eu só tomei umas duas cevas, e comi antes de sair de casa. Manezão.” Devolveu o carinhoso apelido. Fabrício riu, passando o braço pelos ombros de André.

“Pior, cara. Que merda, acho que não comi nada desde... Desde de manhã antes de vir para cá.” Riu mais. Estava virando aqueles bêbados loucos que riem sozinhos. “Mas não vou deixar tu dirigir bêbado. ‘Tô indo pra casa, não quer dormir lá? É pertinho, dá para ir a pé.”

Talvez fosse reflexo de quase ter sido beijado por outro garoto antes, mas André se desvencilhou do Fabrício e subiu na moto.

“Te liga, mané. Eu sei me cuidar, não vou me matar pelas ruas. Ainda mais desertas. E vê se tu que se cuida para não acabar caindo numa esquina e dormindo na rua, de tão bêbado que está.” Disse rapidamente, meio sério, meio brincando. Não queria mesmo que ele acabasse dormindo numa esquina e acabasse assaltado. “A gente se vê.”

“Espera!” Fabrício pediu. “A gente é colega?”

“Quê? Idiota, se eu falei que te vi no grupo do Face...”

“Mas podia ser veterano.” Fabrício rebateu, piscando por uns instantes, tentando não cair de maduro.

“Somos colegas.” André concedeu. “Então a gente se fala...”

“Ainda vou descobrir de onde te conheço, cara.” Fabrício garantiu e acenou, enquanto o André balançava a cabeça e dava partida na moto.

É mesmo um pateta bêbado. André pensou, sentindo o vento bater contra o corpo ao avançar pelas ruas praticamente desertas.

Mas lá estava o sorrisinho no rosto de novo...

Notas finais
RU - Restaurante Universitário.Perdoem o André por chamar o outro de viado nojento. Ele cresceu com os conceitos errados, ainda precisa aprender isso. ;xAmores, eu agradeço demais a quem está comentando, essa fic tem um valor especial para mim, por todo o contexto dela. Um beijo para Taia, thaisg, Okumura Yui, Kao, Pandora Beaumont, Bruna Uzumaki, Diana R Barros, Álefe, RayUzu, Mayan, Menina dos olhos e Mary Winchester!Beijão!