Good Riddance

4 Primeiros contatos


André desceu da moto, no estacionamento da faculdade. Já havia se passado um pouco mais de uma semana desde a festa da matrícula, e agora era o primeiro dia de aula. Na verdade o segundo. Mas no dia anterior haviam tido apenas uma manhã de apresentação do curso, com o presidente da medicina e algumas pessoas que trabalhavam na COMGRAD. André foi na aula inaugural, sentou no fundo e ao final saiu rápido e foi para casa, escapando de mais um dia de trote, tinta e esmolagem.

Agora na terça-feira que as aulas começavam de fato.

A faculdade de medicina da UFRGS tinha uma distribuição meio estranha. Ou talvez nem tanto, mas André de cara não simpatizou com o Campus Centro. Era ali que teria a maioria das cadeiras do ciclo básico do curso, como Anatomia, Histologia, Bioquímica e Fisiologia. Mais adiante teria aulas no Campus da Saúde, e no Hospital de Clínicas, onde as aulas mais interessantes iriam acontecer, mas isso só quando chegasse à parte clínica, lá no quarto semestre.

No Campus Centro também estudava o pessoal de algumas engenharias, da física, da química, entre outros, mas havia um prédio especial para medicina, biomedicina, enfermagem (e também algumas aulas para biologia e educação física, mas poucas), chamado ICBS (Instituto de Ciências Básicas da Saúde).

De qualquer forma, André não achava que algum dia colocaria em prática nada do que aprenderia, já que herdaria toda a fortuna e os negócios do pai. Porém era de praxe, das famílias ricas, ter um filho com diploma de médico. Mas ele no fundo gostava dessa profissão... Preferiria virar médico do que seguir com os negócios familiares.

André adentrou no campus pela entrada principal, olhando ao redor tentando se localizar. Havia um banco do Brasil logo à esquerda, e seguindo havia um prédio enorme no caminho. Para esquerda havia um bar chamado ‘Bar do Antônio’ e outros prédios. Mas André seguiu para a direta, passando pelo bar da FACED, e depois pelo bar da arquitetura. Precisou perguntar onde ficava o ICBS para um dos guardas, e apenas quando topou com alguns alunos também perdidos – os nomes eram Ana e Gabriel – é que conseguiram encontrar juntos o lugar onde teriam aula. Era bem cedo, mal passando das sete da manhã, pois a aula era às sete e meia.

Quando estavam chegando à entrada, porém, um garoto apressado surgiu de bicicleta e quase os atropelou.

"Opa, me desculpem!" O garoto disse ao parar a bicicleta e pular dela. André se aprumou e olhou para o desastrado, com uma resposta engatilhada na ponta da língua, mas acabou se engasgando.

"Tu 'tá bem?" O moreno perguntou, colocando uma mão sobre o ombro do André, a expressão simpática. Ele olhou para os outros dois e os cumprimentou. “Vocês também são da medicina, primeiro semestre?”

“Sim!” Ana exclamou, também simpática. Era uma morena alta, bonita, ainda que rechonchuda, de cabelos cacheados. Mesmo que alguns houvessem se conhecido na festa da matrícula, era difícil lembrar de cada um dos setenta colegas. “A gente teve problemas para achar o ICBS...”

André fechou a cara. Seria possível que ele continuasse a não reconhecê-lo? Sentia-se estúpido com tudo aquilo. Fabrício estava mesmo muito bêbado naquela noite e dizia não enxergar direito. Mas também não deveria se importar tanto com esse fato. Mesmo assim, deu as costas a todos eles e seguiu sozinho para dentro do ICBS. Fabrício não entendeu aquela atitude, e tampouco os outros ali.

Fabrício acompanhou com o olhar o loiro até ele sumir depois de passar pelas roletas da entrada. Achara-o muito parecido com o amigo de infância lá da outra cidade, percebeu; mas muito diferente ao mesmo tempo. O amigo do qual se lembrava não era arrogante, e nem olhava para as pessoas como se elas fossem insetos. Fabrício quase se sentira como um gafanhoto de barba quando o garoto de olhos azuis o encarou após quase tê-lo atropelado.

Quando mais novo, Fabrício nunca perdoara o André pelo sumiço repentino, e obrigara-se a esquecê-lo. Hoje, quando recordava, dava risadas. Coisas de criança, pensou, quando passaram pela roleta na entrada e seguiram pelo corredor longo cuja última sala à esquerda era a de anatomia.

XxX

A primeira aula de anatomia foi bem chata. Havia no total seis professores, e naquele primeiro dia o professor que deu aula era bastante entediante. Porém a culpa não era exatamente dele. Aquela primeira semana seria apenas uma revisão geral dos sistemas do corpo – muscular, ósseo, cartilaginoso. Nem o professor – Stephano – parecia empolgado.

“Isso daqui é só para vocês irem entrando no clima.” Avisou logo de cara. “Nada disso será cobrado na primeira prova. A coisa fica séria mesmo quando começarmos neuroanatomia.”

A sala era bastante ampla, acolhendo os setenta alunos que haviam entrado para o primeiro semestre. André bem que tentava prestar atenção, mas logo se distraiu. Diferente do que acontecia no colégio, todos estavam concentrados e silenciosos, mesmo com a aula sendo chata. Ou ao menos a maioria parecia estar concentrada. André bem que conseguia fingir estar atento quando a mente estava viajando por algum lugar da via láctea.

André, sentado encostado na parede, viu que o Fabrício estava sentado bem à frente, anotando tudo que o professor falava, mesmo que nada aquilo fosse realmente importante. Até os veteranos haviam dito que aquelas primeiras aulas eram inúteis. Nerd. André xingou o Fabrício mentalmente. Ainda estava puto da cara que o moreno não o reconhecera. Ele, uma pessoa tão marcante. E humilde.

Quando a aula acabou, André soltou um aleluia!

Metade da turma, a turma A, dos melhores colocados no vestibular, seguiu para a aula de Biofísica, enquanto a turma B seguia para a aula de Bioquímica, ambos em outro prédio, o prédio da reitoria que ficava perto do bar do Antônio. Felizmente sempre havia alguns bem-informados que guiaram todo mundo até o dito prédio. André notou que o Fabrício também era da turma B.

No meio do caminho, o moreno o abordou. Fabrício estava com uma barba rala, grande apenas o suficiente para lhe escurecer um pouco do rosto, e André acabou achando isso estranho. Estragava as lembranças que tinha do melhor amigo de infância.

“Oi! Sabe, eu acho que te conheço de algum lugar...” Fabrício tentou puxar assunto. André torceu o nariz. De novo com aquele papo de já conhecê-lo de algum lugar! Parecia até cantada de pedreiro!

“Não, eu acho que não. Eu não teria por que conhecer um filho de padeiro que nem tu.” Esnobou. Como podia ser tão tapado?

Fabrício franziu a testa, virando o rosto para encará-lo melhor.

"Como tu sabe que meu pai é dono de uma confeitaria e padaria?" Ele perguntou, abismado, fazendo o André gelar por dentro.

"Ahmn, é, tu... tu fede a pão." Falou estupidamente. Por sorte, estavam na porta da sala de aula, uma sala bem menor que a última, com 1/3 do tamanho e sem ar-condicionado, um terror. André aproveitou a oportunidade para apressar-se sala adentro e fugir do Fabrício. Sentou-se numa cadeira vazia cujos lugares ao redor já estavam ocupados, querendo manter uma distância segura do moreno.

Tu fede a pão? Tu fede a pão!?! Por Deus, isso era o melhor que conseguia elaborar? Sério? Afundou na cadeira e escondeu o rosto, sentindo as bochechas arderem de vergonha. Precisava ficar longe daquele garoto ou acabaria dando com a língua nos dentes. Dali a pouco estava falando com ele sobre bicicletas, skates e lombas.

“Meu padrinho falou para pegar a turma B, porque esse professor não faz prova.” Sussurrou a garota ao lado do André. O loiro notou que era a tal Ana.

“O meu disse o mesmo. Disse que ele é um pesquisador famoso que já publicou mais de 350 artigos científicos.” Cochichou e olhou para o professor, que já aguardava os alunos meio apoiado à mesa, com os braços dobrados sobre a barriga proeminente. Era já mais velho, talvez uns cinquenta anos, tinha barba branca e cabelos já seguindo pelo mesmo caminho, e olhinhos pequenos por trás dos óculos de grau.

Aquela foi a aula mais estranha. Depois de mandar todo mundo fazer uma roda, o professor – Diogo – perguntou sobre o que a turma queria falar. Mas não sem antes começar um papo sobre eles serem a nata da sociedade.

“Mas a nata é o que sobra do coalho. É uma coisa molenga e sem-gosto que fica no fundo depois de coalhar o leite. Então vocês na verdade devem ser o coalho da sociedade.” Começou a dizer, e ninguém sabia se ria ou não, mas ao longo da aula descobriram que esse seria o professor mais engraçado do semestre.

“Ele tem o mesmo nome do meu tio.” Fabrício cochichou no ouvido do André quando a aula terminou e os alunos começaram a sair da sala. O loiro se sobressaltou e olhou sobre o ombro com o coração aos pulos, dando de cara com o sorriso largo do Fabrício.

“E por que diabos eu iria conhecer a porcaria do teu tio?” Perguntou mal-educado, pondo-se a quase correr para longe do Fabrício de novo.

Àquela altura, já era quase meio dia, e os estudantes começaram a ir até o RU, restaurante universitário do Campus Centro. Ficava perto do complexo do campus, este composto por aquela quadra onde havia a FACED, o ICBS e a reitoria, além do prédio da engenharia e do direito, atravessando a rua e caminhando um pouco. O RU do centro era considerado o pior de todos os RU, até barata na comida alguns já haviam encontrado, tirado foto e postado no Facebook, isso sem contar que as bandejas sempre pareciam sujas e a comida era de péssima qualidade. Mas por R$ 1,30 até que valia à pena.

Mas não para o André. O garoto seguiu para o bar da arquitetura, onde havia visto um pequeno restaurante que, inclusive, não era muito caro. Serviu-se bem – não que comesse muito – e não pagou mais do que R$ 7,00. Havia três colegas ali também, um que chamavam de paulista, outra que chamavam pelo sobrenome – Lótus –, uma loira extremamente bonita que era certamente a mais bonita de todas as gurias daquele semestre, e outro garoto franzino, porém simpático, de óculos e espinhas na cara, chamado João Pedro.

André juntou-se a eles e descobriu que eram colegas na época do cursinho.

“Achei meio chata aquela aula de anatomia.” O paulista comentou; também usava óculos, mas tinha um jeito mais descolado. “Mas aquele Diogo é muito pirado, até curti o cara.”

“Anatomia vai ficar mais legal quando começarem as aulas práticas, no laboratório. Eu ainda não comprei jaleco e luva.” João falou, enfiando uma garfada na boca.

“Tu também está fugindo da comida do RU?” Lótus perguntou para o André. “A gente decidiu comer bem na primeira semana antes de se arriscar a pegar uma infecção alimentar.”

“Foi um amigo meu que encontrou uma barata na comida. Acho que era na sobremesa: umas fatias de mamão.” João abriu uma careta de nojo.

André deu de ombros. Não costumava falar muito quando ainda não conhecia direito as pessoas. Não era alguém tão sociável, ainda que também não fizesse o tipo fechado, calado e sem amigos. Só preferia ouvir e observar primeiro antes de sair falando. Mesmo assim comeu na companhia dos novos colegas e não os achou tão chatos. Lembrou da Lótus das apresentações pós-matrícula. Ela havia dito que gostava de ficar de quatro. A resposta ousada deixara todos os garotos bastante excitados e alegrinhos.

“Algum de vocês conhece o Fabrício Ferreira?” Perguntou em dado momento. A pergunta saiu sem que pudesse segurá-la, e quis estapear a própria boca por isso. Ou enfiar o garfo na garganta, tanto faz.

“Ah, sei nada sobre ele não. Por quê?” Perguntou João.

“Por nada...” André retrucou.

XxX

O dia foi bastante empolgante para Fabrício. Ele adorava novidades e tinha uma facilidade absurda para se enturmar. Mal conhecia alguém e já sabia falando e causando gargalhadas nos que o escutavam, e na metade da tarde, depois de enfrentar a aula de histologia, que era dada por duas professoras, uma senhora magrinha e loirinha com jeito amável, e outra morena com cara de braba, os alunos foram raptados pelos veteranos.

Eles iriam levá-los para o parque da Redenção, onde iriam pintá-los novamente para que pudessem sair para mendigar. Os veteranos xingaram a maioria dos bixos, pois cada um tinha de ir na primeira semana com uma boia para a faculdade, mas Fabrício estava completamente por fora. Precisava entrar mais no Facebook, pois eles passavam todas as informações pelo grupo que haviam criado. De qualquer forma, quase ninguém havia ido com a tal boia, e esses sofreram bastante com as tintas. Foram os mais pintados de todos.

Fabrício reparou em algum momento que o loiro mal-educado não estava participando da bagunça. Mesmo que o loiro houvesse apenas lhe dado patadas, havia acabado deixando-o curioso. Cada vez mais tinha certeza de que o conhecia... Iria procurá-lo no grupo do Face quando chegasse em casa. Porém primeiro precisou enfrentar um dia cansativo pedindo esmolas. Dessa vez ele havia ido esmolar com outros colegas.

Fabrício acabou se divertindo bastante. Ele e mais três garotos – o Giovani, o paulista e o Guilherme – começaram a fazer todo um teatro para arrancar dinheiro das pessoas. Faziam showzinhos nas sinaleiras, recitavam poesias e até se ajoelhavam com palavras dramáticas para as pessoas que se recusavam a dar algum troco. No fim quase todo mundo acabava dando uma grana e Fabrício, por causa de seu jeito expansivo, simpático e alegre, conseguiu voltar para casa com quase cento e cinquenta reais, o que já o deixava com mais de 200 reais juntando com a esmolagem do dia da matrícula.

Parar na frente do supermercado Zaffari Ipiranga no final da tarde e ficar mais duas horas e meia perseguindo quem saía do mercado com as moedinhas do troco no bolso também ajudara bastante.

Chegou em casa podre, mal aguentando a dor nos calcanhares, e seguiu direto para um banho relaxante e bastante demorado. Apenas depois de mais uma hora inteira, chegou no quarto e foi checar o Facebook. Claro que não sem antes ter de dar um relatório completo por celular para a mãe, sobre como havia sido seu primeiro dia como ‘médico’.

“Mãe, faltam ainda seis anos para eu poder ser chamado de médico.” Revirou os olhos, mas não adiantava. Agora já era o médico da família.

Procurou colega por colega no grupo que haviam feito apenas para a turma, e demorou uns minutos generosos até encontrar o loiro. Caiu para trás ao se deparar com o nome André Santayana. Como havia feito o Facebook apenas recentemente, por causa da faculdade, nem tivera tempo de pensar em encontrar amigos antigos. Tinha boas recordações daquela época e, puxando mais pela memória – ele era realmente um péssimo fisionomista –, percebeu que, mesmo o loiro tendo mudado bastante, perdido parte dos traços mais infantis, ele ainda tinha bastante daquele garoto de nove anos atrás.

Recostou-se à cadeira e entrelaçou as mãos atrás da cabeça depois de adicioná-lo como amigo.

“Será que tu 'tá irritado comigo por que não te reconheci?” Pareceu-lhe óbvio que o loiro o reconhecera. Ele o chamara de filho do padeiro! “Acho que vou ter de me desculpar...” Pensou alto.

A mãe de Fabrício costumava chamá-lo de ‘velha caduca’ por ter a mania de falar consigo mesmo em voz alta quando estava sozinho.

“E se tentasse conversar contigo no chat agora?” Fabrício perguntou para a tela do notebook, olhando para a foto de perfil do loiro enquanto Cherry tentava subir no teclado.

Mas primeiro, André precisava aceitá-lo como amigo.

Notas finais
Fabrício pisando no orgulho do André por ter se esquecido também da noite da matrícula. huahauahuahaua! Capítulo onde nada acontece... Mas o próximo já está escrito e eu logo posto. ;)Obrigada a todos que comentaram: Capitã Barbossa, Okumura Yui, RayUzu, Bruna Uzumaki, Pandora Beamount, Kao, Venus, Taia, Mary Winchester e Nath! ♥