Good Riddance

47 Espera que o sol já vem


Notas iniciais
Muito obrigada ao Marcelo Nery pela recomendação!

André voltou para a casa após largar Sascha na casa dos tios do Fabrício. Havia sido tão bom passar alguns dias com o cãozinho! Sascha já estava grandinho, afinal, já tinha cinco meses. O tempo parecia estar voando, e Sascha se tornava se possível ainda mais bagunceiro. Mordia tênis, roubava roupas, corria de um lado para o outro, enfim, não parava quieto. André até se sentia meio culpado de deixá-lo na casa dos outros, fazendo bagunça.

Ao menos Diogo e Rique haviam se afeiçoado bastante ao labrador.

Chegou à garagem e desceu da moto, retirando o capacete. Só queria pegar algumas coisas que esquecera, pois planejava dormir com o namorado na casa dos tios dele, naquela noite. Ouviu barulhos no salão e ficou um pouco surpreso por os pais já terem voltado, afinal, eles haviam dito que retornariam apenas na sexta-feira, e era recém domingo. Acho que vou ter de desmarcar aquele cineminha que combinei com o Fabrício, pensou chateado.

Desceu para o salão pronto para cumprimentá-los, mas parou no fim do lance de escadas ao notar o clima tenebroso dali. Cíntia recebeu-o com um olhar aflito, e o pai parecia uma geleira humana, parado rígido, seu olhar pesado como nunca antes vira. Pais e filho se encararam por alguns segundos, em silêncio, e o coração do mais novo palpitou em compreensão antes mesmo que eles falassem qualquer coisa. Ele sabe, concluiu.

Chegou a olhar para a escada, pensando se valeria à pena fugir.

“André,” Heitor chamou, e um arrepio atingiu o loiro. Aquele tom baixo e falsamente controlado do pai nunca significava boas coisas. “Sente-se aqui. Nós precisamos conversar.”

Seu coração batia desesperadamente quando fez o que lhe era exigido.

“Não tem nada para nos contar, filho?” Cíntia perguntou, seu tom mais suave. André a olhou por um momento, e sentiu o peito rasgar com a decepção que via nos olhos claros dela, tão azuis quanto os seus.

“Nada que vocês já não saibam.” Desviou o olhar. Não adiantava mentir, sabia disso. “Não sei como descobriram, mas não é nenhuma mentira.”

André tremeu com o barulho do punho do pai batendo no balcão.

“Você não é gay, André.” Ele determinou, como se fosse apenas mais uma rebeldia do filho. “Está apenas confuso. Associou-se com aquele rapaz de novo, e ele novamente tentou te levar para o mau caminho, desde crianças ele já tentava te perverter. Eu deveria ter impedido, fui relapso, mas não deixarei que isso continue acontecendo. Pelo seu bem-“

“Pelo meu bem?!” André exclamou, levantando-se abruptamente do banco, quase o derrubando. Olhou com raiva para o pai, seus olhos já lacrimejavam. “Eu não estou confuso, pelo contrário, estou mais lúcido do que nunca! Eu sou gay, e não tem nada que vocês possam dizer ou fazer que irá mudar isso.”

“Mas meu filho, tu tem certeza-“ Cíntia começou, seus olhos também sofridos, suas palavras doídas, mas Heitor ergueu a mão para que ela parasse. Sabia que a esposa padecia, também.

“Nós conversamos ontem à noite e chegamos à conclusão que lhe fará bem se afastar daqui. Temos meios, você tem nacionalidade inglesa, assim como nós. Era uma ideia antiga minha e de sua mãe que nos mudássemos para a Inglaterra, mas sempre adiávamos, por questões de trabalho e família. Mas agora-“

“Não irei para Inglaterra!” André exclamou. “E mesmo se eu fosse, eu não seria menos gay. O Fabrício-“

“Esse garoto é o problema!” Heitor se exaltou um pouco, enfim perdendo a postura controlada de um homem de negócios. “Eu não sei o que ele tem, mas com ele você não é o mesmo, perde o rumo, se deixa levar. Começa a ter essas ideias estranhas! Você sabe o quanto isso é errado, André! Você beijando outro homem... Sabe o quanto nos decepciona saber disso? Depois de tudo que fizemos por ti, é assim que nos retribui.” Disse com pesar e desgosto, palavras duras, e uma lágrima desceu pelo canto do olho do mais novo.

André olhou para a mãe, que lhe estendeu a mão, tocando-lhe o rosto. Também chorava.

“Filho, podemos recomeçar juntos em outro lugar. A Inglaterra é um país maravilhoso, tu sempre gostou de lá, não é mesmo? Teremos tempo, juntos, para conversar e pensar sobre tudo isso.” Ela tentou convencê-lo, com um sorriso fraco. “Por favor, André, nós só queremos o seu bem, sua felicidade.”

André se afastou dela também.

“Não. Vocês querem a felicidade de vocês. Porque vocês não aceitam isso, logo não querem nem tentar me aceitar. Eu sou a mesma pessoa, não uma decepção. Eu sempre fui assim, apenas me reprimia antes! Por que é tão difícil de entender?!” Balançou a cabeça de um lado para o outro, frustrado. “Eu amo o Fabrício.”

Arregalou os olhos quando o pai o agarrou pelo colarinho da jaqueta que usava.

“Não, tu não ama.” Ele disse, perdendo de vez a compostura, a irritação aflorando, junto ao medo de perder o filho para aquilo que via como uma doença. Toda a raiva e indignação expuseram-se à superfície. “Quando recobrar o juízo, vai perceber a bobagem que está dizendo! Vai olhar para trás, e sentir nojo do que fez. Então irá nos agradecer por isso!”

“Não irei! Até porque não vou me mudar porra nenhuma! Cansei disso, cansei dessa homofobia de merda de vocês, da sociedade! Aceitem que tem um filho viado, que gosta mesmo é de dar a bunda, ou vão sozinhos pra porra da Inglaterra e me deixem em paz!” Perdeu a paciência. Tal como o pai, nunca fora dos mais pacientes, apesar de explodir em raiva com mais frequência do que ele.

Caiu no chão com o tapa que recebeu.

“HEITOR!” Cíntia gritou, desesperada ao ver o filho apanhar. André se arrastou para trás quando o pai tentou se aproximar, porém impedido pela esposa. “Tu me disse que não iria bater nele... vamos conversar.”

“Conversar?! Não tem mais nada para conversar! Não ouviu o que ele disse?!” Conseguiu livrar-se da esposa e ergueu o filho do chão, segurando-o pela jaqueta, mal o deixando pisar no chão.

André segurou-o pelos antebraços.

“Tu vai obedecer aos teus pais! Acha que porque é maior de idade, iremos deixar tu acabar com a tua vida dessa maneira? Virar um promíscuo, um puto que dá a bunda e ainda se orgulha disso? Somos teus pais! Nós decidimos o que é certo para ti, e esse garoto pobre de índole duvidosa não é! Está me ouvindo? Está me ouvindo?! Irá para Inglaterra com a gente, queira ou não!”

André não respondeu. O pai o sacudiu, exigindo uma resposta.

“ESTÁ OUVINDO, ANDRÉ!?” Heitor gritou, e o André se encheu de raiva.

“Faz alguma diferença? Tem um filho viado de qualquer forma.” Rebateu, torcendo os lábios. “Mas como é que é mesmo, não foi pra isso que me criou? Fique sabendo que eu ‘tô cagando pra o que tu me criou, homofóbico de merda!”

Isso lhe garantiu outro tapa.

Cíntia gritou, e de repente o pai também gritava, milhares de coisa – xingamentos, em sua maioria. Tentou se defender, mas já nem entendia direito o que acontecia. Gritava de volta com o pai, mil coisas entaladas na garganta. Voltava a apanhar, ouvindo os gritos da mãe. Sua visão estava estranha, um tanto turva, talvez porque chorasse, e o conhecido gosto férrico de sangue enchesse sua saliva.

“Tu foi uma porcaria de um pai! Ausente, autoritário, preconceituoso! Tu poderia ser a reencarnação de Hitler, eu não iria duvidar!” Gritou, numa explosão de adrenalina.

“Eu te dei tudo que tu tem agora! Trabalhei dia e noite. Se me abstive, foi para dar para vocês aquilo que eu não tive. Foi para dar-lhes o melhor. É assim que tu vê?! Eu deveria ter batido em ti mais cedo, talvez houvesse evitado essa pouca vergonha!”

André nunca vira o pai tão enfurecido, fora de si, os olhos azuis queimando sem derreter a geleira que eram. Nem sempre o pai era ruim e, por mais que o odiasse naquele momento, sentia-se igualmente mal com o que falava.

“Eu nunca pedi pra trabalhar que nem louco! Eu nunca pedi pelo melhor! Eu nunca pedi pra ser gay! Então não jogue nada disso na minha cara!” Lágrimas grossas desciam de seus olhos, era impossível segurar. “PORRA, eu nasci assim! Qual o grande problema, afinal!?”

Heitor o segurou e empurrou contra a parede. André sentiu os pés perderem o apoio do chão novamente, apenas a ponta de seus dedos lhe dando um sustento parcial. A forma com que o pai segurava quase o sufocava, não o deixando respirar direito.

“Ingrato! Te dei tudo que tu tem, paguei tuas contas, fiz tuas vontades, te alimentei, te dei educação, e tu me retribui desprezando tudo isso e indo dar a bunda para aquele viado!? Tu me retribui virando uma bichinha, uma vergonha! Já não basta teu primo, quis seguir a moda!? Sempre comeu mulher e quer me convencer que nasceu assim? Isso é uma perversão, uma rebeldia!” Gritou.

“Vai se foder!” Gritou de volta. Apanhou de novo.

André engoliu a saliva com sangue com dificuldade, o rosto inteiro parecia latejar. Sentia-se nauseado e queria vomitar. E quando Cíntia tentou de novo afastar o marido do filho e Heitor empurrou-a, mandando-a não se meter, André soube que o pai perdera todo o controle, toda a sanidade. Algo dentro dele quebrara, e ele já não mais pensava no que estava fazendo. Se alguém não parasse, aquilo poderia acabar de uma forma ainda pior.

A mãe caiu ao chão pela força desmedida do empurrão, e seu lábio sangrou ao bater contra o dente.

Aquilo era realmente demais. Jamais assistiria à mãe sangrar. Decidiu não apenas tentar se defender. Socou o pai, fazendo-o cambalear para trás. Olhou então para a figura que o assustara por tanto tempo; uma raiva vibrante brilhava em seus olhos, não apenas um cansaço por saber que seria inútil ir contra ele.

Sempre fora.

Heitor o encarou surpreso, mas logo isso desvaneceu do rosto autoritário.

“Não se atreva... A bater nela.” André disse trêmulo, a voz pausada e falha.

“Querendo pagar uma de macho, filho?” Levantou-se graciosamente. “Desde que virou mulherzinha de outro, não tem mais esse direito.” Disse, a voz também vibrando de raiva, os olhos estranhos.

Cíntia, caída no chão, chorou, perdida, confusa. Nunca vira o marido de tal maneira, não imaginara que chegaria a tanto. Tinha medo do como aquilo poderia acabar. André tinha noção que ele e o pai tinham forças semelhantes, mas já havia apanhado e se sentia fraco. Heitor, quando mais novo, fora lutador amador de boxe, praticava para retirar o estresse do corpo. André sabia disso também, mas mesmo assim tentou acertar o pai. O que conseguiu foi um soco, que o derrubou.

Sentiu-se zonzo quando a cabeça bateu contra o chão, e sequer conseguiu mais pensar em se defender. Tinha vontade de rir, em realidade. Era esse o pai que tinha? Um pai que o espancava por ser gay? Nem tio Adriano, nem o pai do Davi bateram nos filhos ao descobrirem sobre a orientação deles, apesar de brigarem e repudiarem. Edgar até mesmo passara a aceitar o filho.

Se era para ter um pai assim, preferia não ter.

“Sou gay.” Murmurou,de bruços olhando para o chão. “Sou gay. Sou gay! Sou gay!” Sua voz aumentava a cada vez que repetia a frase, até estar gritando. “Sou gay!”

Heitor se ajoelhou, virando-o, e sentou-se em sua cintura, voltando a erguê-lo pelo colarinho.

“Isso é só uma fase, filho.” Disse confiante, e o André achou-o louco. Ele chorava, mas então deu-lhe um tapa e, a cada nova frase que dizia, lhe dava um novo tapa. Um tapa forte, que latejava e virava-lhe a cabeça. “Tu vai voltar a sentir nojo de homem, como sempre sentiu, vai ver, vai apagar essa parte da vida da tua cabeça. Eu só preciso tirar isso de ti, só preciso te curar. Preciso te curar, Eduardo.“ Heitor falava, olhando-o de maneira um tanto ausente, quebrado. Aos ouvidos do loiro, o tom de voz do pai parecia quase carinhoso enquanto atropelava as palavras, como se tudo que ele tivesse feito, houvesse sido para seu bem. Mas... Eduardo?

Meu pai enlouqueceu. André pensou, confuso. Sentia que poderia desmaiar a qualquer momento.

“Eu não fiz isso por ti, e te perdemos para sempre.” André não entendia, não sabia quem era Eduardo. “Eu deixei que ele seguisse essa loucura, mesmo sabendo o quanto errado era! E no que terminou?! No que terminou?!! Ele morreu. Você morreu...”

Heitor levou uma panelada na cabeça e caiu desmaiado para o lado.

André, de olhos arregalados, olhou para a mãe, assustada, chorando também, segurando a panela com ambas as mãos, antes de deixá-la cair gerando o barulho metálico característico, estridente. Cíntia bateu os joelhos no piso, ao seu lado, e segurou-lhe a cabeça, tentando abraçá-lo. André tossiu tentando falar, mas sua visão estava escurecida e a língua parecia ter o dobro do tamanho – cogitou a hipótese de tê-la mordido em meio à briga.

“Filho...” Ela chamou, mas o choro não a permitiu continuar.

Mesmo assim, mesmo que chorasse e o carinho fosse bom, após um momento se levantou, empurrando de leve a mãe, e a ignorou quando correu para a garagem. Cíntia estava num estado de choque tão grande que sequer conseguiu encontrar forças para se erguer e ir atrás do filho, impedi-lo. Continuou no chão chorando, tapando a boca com a mão e olhando de olhos arregalados para o marido desmaiado.

“André!” Ela gritou, mas este já ligava a moto, mesmo que mal tivesse tido forças para subir nela, abriu a garagem e acelerou para a rua. Simplesmente precisava fugir para longe daquela casa.

Fugir não.

Precisava de liberdade.

XxxX

Fabrício riu de uma piada do tio. Pretendia dali ir direto para o cinema após um banho rápido, mas ainda era cedo. Diogo e Rique também estavam a fim de sair, pegar um cinema com eles, ou ir a uma apresentação de teatro que seria apresentada aquela noite. Rique adorava teatro, e Diogo era doido por comédia, a combinação perfeita.

“Talvez na próxima saímos juntos então.” Diogo avisou, sentado no sofá com um braço estendido sobre o encosto. “Vá avisando o André.”

“Pode deixar.” Fafá garantiu. “Mas tio... Me diz, tu acha que meus pais vão aceitar de boa quando eu contar?” Fabrício perguntou. Agora que o dia estava próximo, sentia-se inevitavelmente um pouco nervoso. Próximo final de semana iria ver os pais e contar tudo. “Vão, né? Ou não?”

“Guri... Nenhum pai ‘tá plenamente preparado para escutar que o filho é diferente do que eles sonharam.” Diogo explicou sincero, olhando com carinho para o sobrinho. “Mas a Isa e o Lucas são dois maravilhosos. Tua mãe me aceitou sem pestanejar, assim como teu pai, e eu nunca, na vida, os vi desprezarem alguém por orientação sexual, cor, religião, o que for. Se eles vão ficar surpresos? Talvez. Talvez de primeira não saibam como agir, mas serão sensatos e jamais se privariam da tua companhia, do filho admirável que tu é. Para eles isso não fará diferença.” Piscou para o mais novo.

Fabrício sorriu, sentindo um alívio confortador.

“Fique feliz, tu nasceu numa família diferenciada. Ainda me lembro da minha alegria ao conhecer a família do Diogo, foi como voltar a respirar depois de todo preconceito que sofri com a minha.” Henrique garantiu, entrelaçando a mão ao do namorado. “Depois que tu e teus pais conversarem, será bom levar o André para vê-los. Vão poder visitar os lugares da infância de vocês até.” Sugeriu.

“Teus pais vão querer revê-lo, sem dúvidas.” Disse Diogo, olhando de soslaio para o Sascha, que caminhava alegremente com o resto do chinelo que havia destroçado mais cedo na boca. Cachorro safado, Diogo pensou.

“Eu convidei! Quero levá-lo depois, quem sabe num próximo final de semana antes das aulas retornarem, não sei. Veremos o que sai. A real é que parece que as aulas vão demorar um tanto pra voltar.” Fabrício comentou.

“É verdade... Fui contra a greve, mas a maioria votou a favor, então...” Henrique contou, e começaram a conversar sobre esse assunto de greve, até que Fabrício recebesse uma mensagem no celular. Pegou o aparelhou e franziu a testa ao lê-la.

André pedia para que o encontrasse na frente da casa.

“André ‘tá aí na frente.” Fafá se levantou do sofá, estranhando. Iriam se encontrar no cinema, já que André preferira ir para casa para tomar um banho e tirar um cochilo antes, pois estava morto de sono. Não o convidara, pois nunca se sabia se os pais poderiam chegar mais cedo de viagem. Havia aprendido a lição com Lázaro.

“Vai lá, eu vou preparar algo para comermos.” Diogo se levantou também, e o Henrique decidiu ir ajudá-lo.

Fabrício assentiu e seguiu para frente da casa.

Assim que saiu para a rua, viu através das grades o loiro ainda sobre a moto, de capacete, na calçada bem em frente ao portão. Saiu para a rua ao chamar por ele e não obter respostas. Um arrepio de preocupação o tomou conforme se aproximava, vendo o André de cabeça baixa, apertando o celular numa das mãos a tal ponto que os nós dos dedos estavam esbranquiçados.

“André?” Chamou de novo, e tomou um susto quando o loiro guardou o celular no bolso e retirou o capacete. O rosto estava inchado, vermelho num dos olhos. O lábio cortado, deixando escorrer um filete de sangue, as bochechas avermelhadas deixando claro que recebera vários tapas. Ele chorava, e o olhou com o brilho mais triste que Fabrício já vira na vida.

“André!”

O abraçou assim que o alcançou, e o André desabou num choro pesado ao retribuir o abraço, de uma forma que quase sufocou o moreno. A moto quase caiu, mas Fabrício deu um jeito de tirar o loiro de cima dela. Uma pedra parecia ter entalado em sua garganta, tirando-o o ar, queimando o peito. Escorregou com o loiro até o chão, ainda o abraçando. André não parecia ter mais forças nas pernas, parecia ter forças apenas para chorar e soluçar, enquanto o puxava como se fosse sua única salvação de cair em um abismo frio e negro.

“O que aconteceu?! André, me conta o que aconteceu? Quem te fez isso?” Fabrício perguntou desesperado, acariciando as costas, os cabelos do loiro, que apenas escondia o rosto em seu pescoço e chorava. Um choro alto, sofrido, que ele não fazia questão nenhuma de tentar abafar. “Amor... Loiro... Por favor, me diz alguma coisa.” Fabrício sentiu seus olhos lacrimejarem também. Pensou no que havia acontecido com o Guilherme e o Davi, e a raiva e angústia que sentiu esmagaram-lhe o peito.

“M-Meu pai...” André conseguiu soluçar. Era difícil pensar, mas no momento sentia-se arrependido de ter saído e deixado a mãe sozinha com aquele louco. Queria voltar, mas já nem sabia se conseguia; estava tão cansado... “E-Ele descobriu.” Abraçou-se mais ao moreno, em busca de proteção, consolo. Só queria abraçá-lo.

Fabrício arregalou os olhos, sentindo-se enjoado só de imaginar um pai batendo no filho a ponto de deixá-lo naquele estado. O abraçou mais forte, experimentando uma raiva como há muito não sentia, se é que já havia sentido algo tão poderoso assim. Um ódio pulsante. O pior era saber que isso deveria acontecer aos montes mundo afora, em tantas famílias preconceituosas.

“Eu não acredito que ele foi capaz de fazer isso contigo.” Falou com uma amargura genuína, e percebeu que as lágrimas já molhavam seu rosto também, enquanto trincava os dentes. Era terrível ver a pessoa que amava machucada, magoada e triste em seus braços, e se sentir tão impotente. Crescera numa família tão diferente que era difícil e dolorido acreditar e vivenciar uma experiência dessas, mesmo que não diretamente contra si.

Porém preferia estar no lugar do loiro.

“Eu sinto muito. É minha culpa, eu fui desleixado, tentei te beijar aquele dia-“

“Não.” André disse, engolindo o choro de uma forma surpreendente e, com as mãos em seus ombros, empurrando um pouco o moreno para encará-lo. “Isso não é tua culpa. Isso é culpa exclusivamente do meu pai.” Garantiu e tocou-lhe o rosto, afastando uma lágrima que, como as outras, escorreria e se esconderia na barba por fazer do namorado. Fabrício sentiu-se estúpido, era ele quem deveria estar consolando o loiro, mas estava ali, chorando e se afogando numa tristeza rasgante. André riu, mas a risada saiu fraca e ele sorriu igualmente fraco, deixando o Fabrício admirado. “Não importa.” André declarou e riu mais, balançando a cabeça.

Lágrimas ainda escorriam do rosto do loiro, mas se misturavam ao riso em seus lábios.

“André...?” Fafá não entendeu aquilo e ergueu-lhe o rosto, segurando-o com ambas as mãos. Suas testas se encontraram, e seus olhos só deram atenção um ao outro, isolando-os do resto do mundo. André suspirou e segurou também o rosto do moreno, fechando os olhos numa piscada mais demorada. Como era bom poder estar com o moreno.

“Não importa. Tenho você.” O loiro abriu os olhos o mirou intensamente. A realização caía como um raio fritando seus neurônios, mas justamente os neurônios que o deixavam triste, e uma felicidade estranha cresceu em seu peito fazendo-o sorrir, mesmo que a mandíbula doesse ainda mais quando tentava. Aquela pessoa tão maravilhosa à sua frente o amava. Fabrício o amava. Lembrou-se das palavras do Henrique: Fui muito mais feliz depois de me assumir, do que quando era enrustido. Uma vida de mentiras, e longe de quem se ama, é muito mais dolorosa do que uma verdadeira, mesmo que esta tenha seus altos e baixos.Voltou a chorar, mas era um choro diferente. “Tenho você, não vê? Não me importo com surras, com o preconceito dos outros. Eu mudei por tua causa, tu me fez uma pessoa melhor. Só tu me interessa... Só tu, nada mais. Posso levar mil surras, isso não vai mudar. Tenho você.” Repetiu, baixo.

Fabrício se sentiu ainda mais idiota por começar a chorar ainda mais, abraçando-se ao loiro. Era mesmo o idiota que André sempre afirmava. Amava tanto aquele loiro. Tanto. Tanto. Aqueles sentimentos não cabiam no peito, pareciam extravasar para outras partes do corpo, alcançavam até mesmo a ponta dos dedos, formigavam na pele.

Então continuaram abraçados, suas mãos tocando um ao outro como se tentassem afirmar que estavam ali, um para o outro. Seus lábios se encontraram, salgados. Não importava que estivessem na rua, sentados no chão, abraçados e chorando. Não importava.

Tinham um ao outro.

XxxX

André aceitou o cappuccino quente que Diogo preparara. Henrique e Diogo ficaram perplexos quando Fabrício levou André para dentro e o viram machucado daquela forma, rosto marcado pelo choro abundante. Haviam entrado só quando conseguiram parar de chorar, um pouco mais calmos, André principalmente.

Henrique insistira em levar o loiro ao hospital, mas o André recusou teimosamente. Diogo ficara furioso, chegara a quebrar uma cadeira e discutir com Henrique, quando este o impedira de ir até a casa do loiro, para tirar satisfação com Heitor. Henrique sabia muito bem que tipo de satisfação ele tiraria, e surrar o homem não levaria a lugar algum.

Fabrício então cuidou dos machucados do loiro, Henrique – mesmo atuando apenas como psiquiatra há anos – analisou se não havia quebrado o nariz. Felizmente parecia inteiro, apenas inchado. Depois Henrique ligou para Cíntia, tendo uma longa conversa com ela. Ele afirmou que ela estava bem, na casa uma amiga muito próxima, se recuperando. André recusou-se a conversar com a mãe, não queria pensar nos pais agora. Bastava saber que ela estava bem e segura.

Agora estava sentado no sofá junto com o moreno, Sascha ocupando todo seu colo e lambendo seus dedos, manhoso, como se entendesse que havia algo de errado com o dono.

Contava de maneira rasa o que havia acontecido.

“Eu sabia que seria assim quando ele descobrisse. Meu pai tem uma raiva anormal de homossexuais, ultrapassa um mero preconceito.” Contou num tom fraco, brincando com a orelha do labrador, que tentava lambê-lo em retorno. Seu corpo implorava por descanso. “Acho que por isso eu sentia tanto medo, achava que ele iria me matar...”

“Aquele filho da puta.” Diogo murmurou, espumando. Sua vontade de ir à casa do outro e espancar o pai do garoto não havia diminuído. Não aguentava esse tipo de covardia. Aliás, não aturava nenhuma covardia. Henrique apertou-lhe a mão, pedindo para que se acalmasse. Ficar xingando o pai do garoto na frente dele também não ajudaria em nada.

Diogo, furioso, levantou-se e foi para o pátio, tomar um ar antes que estourasse de vez. Fabrício sentia-se da mesma forma. Poderia muito bem ir com ele enfrentar o pai do loiro, mas como não era tão explosivo quanto o tio, conseguia se controlar e perceber que aquilo apenas aumentaria a ferida. André, apesar de tudo, amava os pais.

Henrique se lembrou do tapa que recebera da mãe, mas fora apenas isso, apenas um tapa. Lembrava até hoje de como doera, pelo que significava, mas uma surra daquelas... Não, não chegara nem perto daquilo. O pai fora mais brando que sua mãe, por mais incomum que isso fosse. Lágrimas de uma dor adormecida e compaixão quiseram fraquejá-lo, mas já aprendera a lidar com isso.

“Não escolhemos nossa família. Mas escolhemos nossos amigos e amores, e eu posso garantir, André. Tu escolheu muito bem.” Henrique falou confortador para o mais novo. Sua voz, de alguma forma, tinha um poder calmante, e talvez esse fosse um dos motivos para ser um psiquiatra tão bom. Acariciou docemente os cabelos dourados do mais novo, confortando-o. “E tu se tornou um rapaz maravilhoso.”

André sorriu fraco, abaixando a xícara não percebendo as lambidas que Sascha deu no líquido, aproveitando-se de sua distração.

“Eu sei. Escolhi muito bem...” Murmurou, olhando de esguelha para o Fabrício. Este colocou uma mão na cabeça do loiro, puxando-o de leve e encostando a testa nos fios loiros dele, com um senso protetor forte.

Nunca mais deixaria alguém machucá-lo daquela forma.

Simplesmente... Não permitiria.

XxxX

André, deitado de barriga para cima na cama do Fabrício, tocou com a ponta dos dedos o rosto do moreno, sentindo a barba roçar neles. Gostava da barba do namorado, mas também gostava quando ele tirava, pois não irritava tanto seus lábios quando se beijavam. Mas já estava acostumado. O adoraria de qualquer maneira.

Sorriu com o pensamento bobo.

Já o Fabrício o olhava, sério. Era tão raro vê-lo sério...

André deixou seus dedos suavizarem a expressão dele, tocando-o como se tentasse ler-lhe os pensamentos através do gesto. Fabrício acariciou seu rosto também, e o beijou os lábios rapidamente, com cuidado para não machucá-lo mais. André já tomara remédio para dores e um anti-inflamatório. Felizmente não tinha nenhum osso quebrado, apenas algumas dores insistentes e latejantes. Mas não era como se nunca houvesse apanhado na vida e não soubesse como lidar com aquilo.

A dor emocional era o verdadeiro problema.

“Por que não toca uma música pra mim?” André perguntou sabendo que, mais do que relaxar a si próprio, tocar iria melhorar o humor do namorado. Fabrício o olhou meio surpreso, não achava que o loiro pediria, ainda mais quando via que ele estava quase caindo no sono, dando piscadas mais demoradas, os carinhos se tornando mais lentos.

Mas não negaria. Não negaria nada a ele naquele momento.

Levantou-se da cama e foi atrás do violão do tio, já que o seu estava no apartamento. Quando voltou, André sorriu-lhe sem mostrar os dentes. Sua vontade foi voltar a chorar. O loiro estava sendo tão forte... Mas isso apenas fazia com que quisesse abraçá-lo e não soltar nunca mais. Dizer-lhe que não precisava se esforçar tanto, porque o protegeria e serviria de ponto de apoio.

Respirou fundo, controlando-se, e se sentou na cama, colocando o violão no colo. Procurou em seu repertório mental alguma música que animasse o loiro – faria de tudo para deixá-lo feliz naquele momento. Mas a escolha veio inconsciente, talvez não fosse a música mais animada, mas sempre aprendera a tocar com o coração, não conseguia ir contra isso. Sua versão era acústica, mais lenta e sussurrada que a original. Sempre preferia as versões acústicas. Legião Urbana. O que poderia dizer? Era sua banda brasileira preferida, ainda que muito antiga.

Começou a dedilhar de leve. Sua voz saiu baixa e tranquila, como uma canção de ninar que não tinha pressa alguma e poderia embalar sonhos aconchegantes.

Tocar relaxava seus músculos tensos.

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Tem gente que está
Do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar

Tem gente enganando a gente
Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia
A gente aprende

Se você quiser alguém
Em quem confiar
Confie em si mesmo

Quem acredita
Sempre alcança...

Parou de tocar antes do final da música e olhou para o loiro, vendo que ele havia adormecido. Seu peito continuava apertado, havia areia em seus olhos, mas ao menos conseguira fazer o loiro dormir, e seu corpo também perdera a adrenalina sufocante que o deixara tenso desde que vira o namorado machucado. Largou o violão e foi deitar-se com ele, abraçando-o gentilmente, cuidando para não acordá-lo ou machucá-lo. Acariciou os fios macios dos cabelos dele, trincando os dentes ao observar o rosto marcado.

Sentiu raiva novamente, mas ela arrefeceu quando o loiro se aconchegou inconsciente a si.

Beijou-lhe a testa.

“Vou cuidar de ti, loiro.” Garantiu baixinho, com lágrimas escorrendo por suas bochechas.

Era uma promessa.

Fechou os olhos e tentou dormir.

Notas finais
Música do cap.: http://letras.mus.br/legiao-urbana/1835507/ Foi muito difícil pra mim, escrever a primeira cena desse capítulo. Obrigada a todos que ainda estão acompanhando! Realmente, entramos na reta final de história. Beijos, até o próximo capítulo!