Good Riddance

26 Destruindo muralhas


Notas iniciais
Gente, eu ia postar só sexta, mas me esforcei pra postar no primeiro dia do ano, até porque recebi 5 RECOMENDAÇÕES LINDAS! Obrigada à Pandora Beaumont, L Kill, Gokkun (apareceu sua rec! WEEE!), Maria Arichelli e Incon pelas palavras tão lindas, que amores, sério, me emociono demais aqui.

Fran exibiu a fantasia de cigana com um giro que fez a saia comprida rodopiar. Estava linda com uma saia vermelha e uma camiseta branca larguinha, que tinha um decote comportado. Os cabelos cacheados pareciam brilhar como uma noite estrelada, presos na cabeça por uma bandana vermelha, e a maquiagem a deixava ainda mais vibrante. Gabi a olhou encantada, batendo palminhas.

“Está tão bonita!” Exclamou e pegou a mão da amiga, girando-a uma vez.

Fran sorriu e fez uma carinha fofa, piscando os olhos de cílios longos e negros, antes de também cumprimentar a morena.

“Tu ‘tá ótima também.”

“Obrigada, madame. Espero que tenha um bom voo.” Gabi tirou o chapéu de aeromoça e fez uma mesura cavalheiresca. Fran riu.

“Aeromoças não fazem isso.” Revirou os olhos, mas Gabi deu de ombros.

A fantasia da Gabi era algo meio improvisado. Ela comprara apenas um chapéu preto de aeromoça, colocara os óculos escuros que André emprestara, um vestidinho preto com uma cinta e botas de couro preto de cano alto. E lá estava a fantasia de última hora.

“Vem, vamos pra fora, está calor aqui dentro.” As duas seguiram para o lado de fora dos alojamentos, para o gramado em que os vários estudantes se encontravam, bebendo e conversando ao som de uma música agitada que as meninas nem sabiam de onde vinha.

Era um festival de fantasias, cores, criatividade.

“Ali os guris!” Fran apontou para o grupo em que estavam o Fabrício e o Rafael e puxou alegre e saltitante a Gabi com ela. Fran amava festas, e sempre ficava mais empolgada que o natural quando ia a alguma. Gabi chegava a estranhar, pois durante o dia, e durante as aulas, ela era um pouco mais séria, ninguém diria que adorava festiar e beber.

Fabrício estava fantasiado de conde Drácula: roupas pretas com detalhes vermelhos e uma longa capa que ficava o tempo todo movendo como se fosse se esconder embaixo dela, ou sair voando, sempre exibindo os caninos afiados. Era mesmo um crianção. Já o Rafael estava fantasiado de algo que as meninas não souberam identificar, mas parecia uma espécie de zumbi. Usava jaqueta e calças pretas, e uma camiseta branca com uma gravata também preta. Até aí normal, porém o rosto estava pintado. Havia tinta preta ao redor dos olhos, na ponta do nariz e a boca parecia estar costurada de uma bochecha à outra. Era algo fácil de fazer, mas criativo.

“Até que ‘tá sexy.” Gabi comentou brincando, com um ar malicioso. Não percebeu que isso ruborizou as bochechas do alemão, porém a Fran percebeu, o que a deixou com a pulga atrás da orelha. Fran ainda tinha esperanças de conquistar o Rafael, apesar de jamais iria dar em cima dele depois do fora. Estava chateada, porém fingia que não – dissera ao Rafael que não era a fim dele quando ele viera pedir desculpas, e que o André estava ficando louco. Ainda desejava castrar certo loiro fofoqueiro. Não era pra ele ter ficado sabendo, e sentia-se agora um pouco envergonhada perto dele.

“E o André?” Fran perguntou por se lembrar da praga, e roubou a caneca com vodka e energético que o Rafael segurava sem dar satisfações. Gabi e Fafá se entreolharam, numa conversa muda. Gabi assentiu e sussurrou para a Fran.

“Vai na frente com eles. Eu vou ir um pouquinho depois com o Dré.” Avisou e voltou para os alojamentos, em busca do loiro perdido. Encontrou-o dentro da barraca no camarote (Gabi achava um absurdo que os dois estivessem no camarote e ela lá embaixo, sofrendo na baderna), deitado de costas com os braços tapando o rosto.

Balançou a cabeça em repreensão, soltando uns ‘tsc, tsc, tsc’ que atraíram a atenção do André.

“Oi, Gabi.” Ele disse, erguendo um pouco o corpo. “Não devia estar na festa?”

“Sem tu? Claro que não! Vamos indo e... Ah! Tu nem colocou a fantasia ainda, criatura?!” Gabi suspirou massageando a testa. “O que seria de vocês se não fosse por mim, hein?” Ela abriu a mala do loiro sem nenhum pedido de licença e pôs se a procurar a fantasia. André arregalou os olhos quando ela jogou duas de suas cuecas por sobre os ombros, como se elas fossem lixo. “É isso?”

“Sim.” André suspirou. Apesar de conviver com a guria há apenas dois meses, já fora o suficiente para saber que seria cansativo demais tentar impedi-la de arrastá-lo para a festa. “Gabi-“

“Nem venha me dizer que não ‘tá a fim de festa. Tu vai e acabou, ninguém vem pro Intermed pra ficar enfurnado dentro de uma barraca!” Ela determinou e jogou a fantasia sobre ele. “Tu vai ficar um pecado com essa fantasia.” Soltou uma risadinha safada, pensando em como o Fabrício ficaria empolgadinho com aquilo.

“Um pecado.” André a imitou com uma careta. “Parece uma tia safada.”

“Cala a boca e te veste logo!” Gabi mandou jogando uma cueca no loiro.

“Para de ficar jogando minhas cuecas pra tudo que é canto!” André exclamou exasperado, mas corou ao perceber que era uma cueca do Fabrício. A tocou de volta na cara da morena, que soltou um gritinho de nojo enquanto o loiro abria um sorrisinho sardônico.

“Vou te esperar ali fora.” Gabi saiu antes que tivesse de cheirar mais cuecas alheias. “Ah, e Dré... Vamos rápido que o pessoal já foi na frente, ok? Encontraram a Daniela e resolveram acompanhá-la.” Soltou mais uma risadela e deixou a barraca.

Só falara aquilo para fazer ciúmes no loiro. E não deu noutra, não demorou quase nada e o André saía da barraca já vestido e pronto pra farra. A fantasia dele era de grego – uma bata branca de apenas uma alça, com uma cinta na cintura, sandálias de couro com tiras que se entrelaçavam nas panturrilhas, e uma coroa de louros na cabeça.

Gabi o analisou de cima abaixo, com a mão no queixo. O Fafá ‘tá com sorte mesmo, André ‘tá quase um Deus grego! Pensou abrindo um sorriso encantador, novamente com aquela sensação de torcida pelos amigos. Parecia-lhe óbvio que André também estava apaixonado, só estava confuso e precisando de um empurrãozinho.

André suspirou, alheio aos pensamentos da amiga, mas acabou sorrindo de leve também, apenas com os lábios, e ofereceu o braço para a morena.

“Vamos?” Perguntou charmoso.

Gabi aceitou o braço do loiro, e os dois seguiram para pegar o ônibus.

XxxX

Gabriella maldita, foi só um carinha aparecer que já me abandonou pelo caminho. André pensou desgostoso. Gabi tinha esse problema de mal conhecer um cara e já ter coraçõezinhos em cima da cabeça. E o pior era que eram corações falsos, ela dizia que só gostava de fantasiar várias coisas pro futuro, porém mais na brincadeira, e se dava certo ela geralmente perdia o interesse rapidinho. Se dava errado, ficava se lamentando e fazendo drama por algumas horas.

André pegou uma bebida no quiosque, esperando a Gabi e o carinha que ela encontrara dar sinal de que queriam ir pro ônibus e, nesse ínterim, alguém se aproximou para conversar, já invadindo parte do espaço pessoal do loiro.

“Oi.” Disse o rapaz, mais alto. André arregalou os olhos ao reconhecê-lo. “Não sei se lembra de mim, sou o Beto, e nós tivemos um episódio meio... estranho na festa da matrícula. Eu só queria aproveitar pra me desculpar por ter chegado em ti daquele jeito, do nada. Eu faço esse tipo de coisa quando estou bêbado.”

“Oh...” André estava surpreso, por um momento achara que iria receber uma surra pelo que acontecera há dois meses e meio. Sentiu-se extremamente vexado, ainda se lembrava em parte do que havia dito ao rapaz – algo sobre não ser nenhum viado nojento. Caramba, como fui idiota e sem nenhuma noção de tato. Tudo que fizera de estúpido do passado em razão da raiva infundada que tinha dos homossexuais o atormentava atualmente. Era uma boa chance para reparar mais um de seus erros. “Eu que peço desculpas, eu fui muito estúpido naquela noite. Eu não acho viados nojentos... Digo! Eu não acho homossexuais nojentos!” Se corrigiu nervosamente, querendo se estapear. Malditas manias difíceis de perder.

O rapaz sorriu simpático, denunciando o aparelho nos dentes brancos. Devia ter uns cinco centímetros a mais que o loiro, os ombros eram largos mas não parecia muito musculoso. Os olhos eram verdes, os cabelos castanhos comuns e havia uma covinha charmosa no queixo quadrangular. A única coisa que estragava era o bigode grande que não combinava com o rosto jovem, ainda que combinasse com a fantasia de policial. André se surpreendeu ao pensar no garoto como bonito, e surpreendeu-se ainda mais por não se sentir mortificado com isso. Era bonito mesmo, e daí?

“Que bom saber. Onde estão os teus amigos?” Ele perguntou, olhando ao redor por um instante. “Os meus sumiram, acho que se esqueceram de mim.”

“Ah... Os meus já foram na frente, só ficou uma amiga, mas ela parece estar se ajeitando com um carinha.” André procurou pela Gabi, mas não a encontrou. Desgraçada! A xingou. “E ela também parece ter sumido.” Suspirou e bebeu um gole da cerveja que comprara.

“Podemos ir juntos para a festa, se não se importar? Odeio andar por aí sozinho.” Sorriu charmoso, afastando-se um passo do loiro. “Prometo que vou me comportar. Só quero conversar mesmo, estou tentando reparar todos meus erros do passado desde que sofri um acidente de moto há um mês e meio.” Ele explicou. André ficou surpreso. Apesar de não ter sofrido nenhum acidente, também desejava por algumas reparações.

“Ok, só deixa eu mandar uma mensagem pra Gabi pra ver onde ele ‘tá mesmo...” André pegou o celular e viu uma mensagem da amiga que não escutara chegar: André, socorro, eu juro que foi sem querer! Quando eu vi estava dentro do ônibus e percebi que tinha esquecido de ti! André revirou os olhos, ela só podia já estar meio bêbada. “Ok, vamos. Pelo menos indo contigo sei que não serei roubado.” Concordou em acompanhar o policial, que riu divertido. “E preciso achar a Gabi depois, não confio ela indo sozinha com um desconhecido pra essa festa.”

“Pode apostar! Está seguro comigo. E vamos atrás da tua amiga.” Galanteou. André estava desconfiado, mas tentando não achar que só porque o outro era homossexual que iria tentar agarrá-lo – de novo. Precisava vencer aquela barreira que criara entre si e os gays, ou o desconforto que sentia perto de algum. Na teoria já vencera os preconceitos, agora deveria colocar isso em prática.

Afinal, em breve queria resgatar a amizade com o Davi. E também...

Não aguentava mais sentir-se errado, e ter medo de si próprio.

XxxX

Gabi, depois de um tempo de papo com o garoto de outra universidade, a qual já sequer lembrava qual era, estava querendo se livrar dele. Papo chato e ainda era grudento, ficava tentando passar a mão o tempo todo. Descarado. Assim que desceu do ônibus, mandou uma mensagem para a Fran que dizia apenas: Socorro! Um cara chato quer me pegar, e eu perdi o Dré. Fran apareceu do lado de fora não muito tempo depois, junto como o Fabrício.

Gabi se jogou nos braços da amiga, e o Fabrício deu um jeito de dispensar o grude.

“Abobada, tem que parar com essa mania de jogar charme pra tudo que é guri que encontra.” Fran ralhou com a amiga, que fingiu fungar chorosa. Gabi estava era envergonhada por ter deixado o André para trás, que espécie de amiga trocava um amigo assim tão rápido por uma chance de ficar com um carinha gato? No caso era gato, mas chato, péssima escolha.

“Cadê o André?” Fabrício perguntou, não gostando da ideia que ele havia decidido não vir. Já pensava em voltar para encontrá-lo e acabar com aquele gelo que Gabi o aconselhara a manter.

“Ele deve estar vindo, me mandou uma mensagem.” Gabi avisou, espreguiçando-se por um momento, antes de puxar os dois amigos para dentro do lugar. “Mas vamos, estou com frio. Vamos dançar um pouco.” Pediu e sussurrou para o Fabrício. “E tu se aguente ao menos por hoje, ele ‘tá precisando mesmo de um tempinho pra pensar.”

“Por que sinto que vocês estão escondendo alguma coisa de mim?” Fran perguntou ao reparar nos dois aos cochichos. Gabi e Fafá apenas sorriram largamente, com ares de culpa, mas apenas se apressaram para a pista. Nisso viram o Rafael junto com alguns colegas, e a Daniela com uns amigos.

A índia se aproximou sorrindo, com o olhar voltado para o Fabrício. Fran olhou irritada para a Daniela. Não aguentava a falsidade da maldita e, mesmo que não tivesse nenhum interesse amoroso, morria de ciúmes dos amigos. Pelo menos o Rafael também não gostava da fingida.

Segurou Gabi pelo braço.

“Eu tenho algo pra te contar, e algo que tu não vai gostar de ouvir.” Declarou frente ao olhar interrogativo da amiga.

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André ficou surpreso ao perceber-se gostando da companhia do Humberto, que prefira ser chamado de Beto, por motivos óbvios, segundo o próprio. Novamente teve aquela percepção de como era estúpido ter preconceitos, ali estava uma pessoa bastante agradável e interessante, independentemente da orientação sexual.

“Então chegamos.” Beto comentou quando chegaram na entrada. “Vai me abandonar agora que vai reencontrar os amigos?”

André ergueu uma sobrancelha. Certo, isso fora alguma espécie de flerte? Se fosse antes, não levaria numa boa. Não mesmo. Aliás, sentiu-se desconfortável ainda, mas não irritado. Coçou os cabelos, sem jeito. Não sabia bem o que dizer, era meio óbvio que preferia encontrar os amigos, apesar de... Não saber se queria mesmo encontrar o Fabrício. Mas havia a tal Daniela no perímetro. E todas as outras gurias nessa festa também... Deus, não, não podia estar com ciúmes de todo mundo. Ciúmes... Ainda não podia acreditar que era mesmo isso.

“Ainda tenho que encontrá-los. Acho que vou comprar uma bebida.” Foi até o bar, e o Beto o seguiu, comprando uma também. André começou a beber uma caipirinha, adorava caipirinhas, e aquela estava muito boa. Acabou sentindo-se mais leve, algo bom para desestressar e esquecer os problemas ao menos por alguns minutos, mas quando percebeu, também começara a falar demais.

Definitivamente: bêbado que fala demais.

Acabou conversando sobre várias coisas. Seu preconceito (e acabara se desculpando novamente), como os pais também eram preconceituosos; contou o que acontecera com o Davi, e acabou falando também sobre o Fabrício. E foram-se vários minutos. Falou da Daniela, do estúpido ciúme, de como tudo era confuso e de como se sentia irritado e frustrado pelo outro estar ignorando-o por ter tentado fugir. Beto, que estava acostumado a servir de psicólogo de todos os amigos – diziam que ele era o tipo de pessoa que inspirava os outros a falarem sobre seus problemas –, apenas escutava, interrompendo em alguns momentos, incentivando o loiro a continuar em outros.

“E agora eu estou provavelmente apaixonado por aquele idiota!” Soltou quando já estava bebendo a terceira caipirinha. Era o que dava começar a beber de barriga vazia, pegava rápido demais. Arregalou os olhos com o próprio comentário, sentindo um rebuliço no estômago. Acabara mesmo de sair contando para a segunda pessoa em dois dias coisas que não devia? Aquele episódio todo vinha mesmo prejudicando seu bom-senso. Precisava urgentemente parar de beber, ou dali a pouco todo o Intermed saberia sobre aquela história.

“Então tu é mesmo gay? Eu sabia que não ‘tava errado naquela noite, sou bom em identificar essas coisas.” Beto comentou satisfeito, ainda que o garoto estivesse a fim de outro. Adoraria poder tirar a confusão daquela cabecinha loira e mostrar-lhe prazeres da vida que ele ainda não conhecia, mas percebeu que era em vão. Aquele coração já tinha dono. “Se tu quiser, posso te ajudar a esquecer esse cara por uma noite.” Tentou mesmo assim, aproximando-se com um sorriso galanteador, o aparelho dando certo charme.

André corou de leve, mas negou meio tenso.

Beto suspirou, não custava tentar, oras.

“Certo. Tu deveria ir esclarecer as coisas com o Fabrício. Melhor do que ficar se enchendo de dúvidas... As respostas não vão cair do céu, sabe? Você já disse tudo isso pra mim, o que falta pra falar para ele? Pra ti mesmo? Acho que já tem tuas respostas, tu acaba de se aceitar.” Piscou e bebeu mais um pouco. “E eu vou parar de te atormentar, porque, se eu continuar assim pertinho de ti por muito mais tempo, vou acabar te agarrando. Essa tua fantasia é perigosa.”

André arregalou novamente os olhos, extremamente encabulado com o comentário enquanto o Beto se afastava com um sorrisinho maldosamente divertido. Mesmo com o fora, Beto estava contente, era bom ver alguém superar os preconceitos, fazia-o sentir-se melhor, com alguma fé na humanidade.

André pediu mais uma caipirinha, encostado ao balcão do bar, pensativo. O que Beto falara... Era verdade, não era? Teria ficado ali mais tempo; porém viu a Vanessa próxima dali, sozinha, e não parecendo muito bem. Aliás, a garota parecia ‘fora da casinha’. Aproximou-se dela, achando-a muito estranha. De fato, os olhos azul-água da loira pareciam vidrados, e André teve a completa certeza de que ela não lembraria de nada daquilo no dia seguinte.

Colocou a mão sobre o ombro magro dela.

“Vanessa, ‘tá tudo bem contigo?” Perguntou preocupado, mas ela nem pareceu escutá-lo. Saiu andando para a rua, indo para pista de dança do lado de fora. André a seguiu, não achando seguro deixá-la completamente sozinha. Como ela andava quase aos tropeços, passou um braço pela cintura dela, que começava a dançar no ritmo da música, um braço erguido para o alto.

Em que enrascada eu me meti? Se perguntou o loiro, rolando os olhos.

Agora, meio bêbado também, teria de ficar de babá!

XxxX

Fafá já começava a ficar desconfortável com a maneira com que a Daniela tentava manter-se extremamente próxima dele. Na noite anterior, retribuíra ligeiramente o beijo que ela lhe dera, pois pegaria mal empurrá-la no palco na frente de todo mundo. Ela ficaria chateada, e o resto da mulherada provavelmente atiraria pedras. Não quisera ser indelicado, mas agora não sabia como dispensar a índia. Mesmo se não estivesse a fim do André, não ficaria com ela.

“Não, eu nem sei como são os esquemas, ‘tô meio perdidáço.” Fafá falou, referindo-se a algo que a Dani perguntara sobre a faculdade de medicina na UFRGS, mas Fabrício nem sabia como o curso era mais adiante, mal sabia o que era o internato. O André deve saber, pensou distraído, inclinando-se para trás para fugir da garota que já praticamente debruçava-se sobre si.

Foi quando viu com certa dificuldade o André junto com a Vanessa – o lugar estava muito lotado –, e havia começado uma comoção pois aconteceria um concurso de melhor fantasia masculina e feminina. Estreitou os olhos, achando estranha a proximidade dos dois, Vanessa parecia abraçada ao loiro, mas não conseguiu ver muito mais, pois eles logo sumiram de seu campo de visão. Ficou tão distraído com isso, que não percebeu a Daniela segurar-lhe a nuca e puxá-lo de rompante para um beijo.

Arregalou os olhos para isso, era a segunda vez que ela o agarrava daquele jeito. Já pensava em empurrá-la, apesar de preocupar-se em magoá-la com um fora daqueles, mas não precisou fazer isso. Alguém agarrou os cabelos da índia e os puxou com força, fazendo a menina soltar um grito, abafado pela música, e se contorcer para trás. Fran torceu o lábio superior em satisfação ao poder finalmente causar alguma dor na garota; sentiu-se até um tanto sádica.

“Fran, que que tu ‘tá fazendo?!” Fabrício perguntou perplexo, meio paralisado, sem saber o que fazer, o queixo lá no chão, já provavelmente perdido entre a multidão.

“Briga de mulher!” Alguém gritou, e aí virou aquela bagunça. Todo mundo queria ver o que estava acontecendo. As especulações começaram rápido, e de repente a Fran era a namorada do Fabrício, que o flagrara a traindo com outra. A criatividade era ilimitada e gratuita.

“Sua louca, me solta, o que tu pensa que ‘tá fazendo?!” Daniela berrou tentar livrar-se das garras que puxavam dolorosamente seus cabelos. Gabi aproximou-se e levou as mãos aos lábios. Fran lhe contara tudo, e ela ainda não conseguia acreditar. Dani era sempre tão amável e sorridente, chegara até a derramar algumas lágrimas com a verdade, mas ainda não conseguia odiar a índia, queria convencer-se que não fora tudo falsidade.

“Não fique agarrando o que é dos outros!” Fran declarou exasperada. Não se referia ao que era seu, mas do André. É, Gabi lhe contara tudo. Gabi simplesmente não era confiável para segredos. Ao menos para segredos entre amigos. Era um defeito da morena, ela não contava segredos para colegas, conhecidos, mas era incapaz de guardá-los para os melhores amigos.

“E desde quando ele é teu, sua ridícula! Me solta!” Dani berrou furiosa por estar sendo humilhada na frente de tanta gente. Fran puxou mais os cabelos longos e belos da índia, fazendo-a quase se dobrar em dois, tentando fugir da dor.

Ah, como é bom! Fran pensava exultante, louca para cair no tapa.

“Ridícula é tu, além de falsa.” Fran informou com desprezo. Não suportava gente falsa, ainda mais gente falsa para cima de seus amigos. Olhou pra o Fabrício, que continuava parado no mesmo lugar como um pateta. “E tu!? Beijando essa cadela?! Vai logo atrás do André, e deixa que eu resolvo isso.”

Fabrício corou, e olhou para a Gabi, que se escondeu atrás do ombro do Rafael.

“Fran, nós podemos resolver isso numa boa, e-“ Fafá tentou tirar as mãos da amiga de cima da Daniela, ainda não entendendo o que diabos estava acontecendo e incerto de como agir; porém Fran o olhou da maneira mais assustadora que já vira na vida. Era ainda mais assustador do que o olhar do André quando irritado! Fabrício se afastou um passo com as mãos para o alto, o rabo entre as pernas.

Fran soltou os cabelos da índia.

“VAI LOGO! JÁ DISSE QUE RESOLVO ISSO!” Fran berrou a beira de um ataque sanguinário, e Fabrício quase correu para longe, ainda mais depois de Gabi fazer-lhe um sinal para que ele fosse de uma vez e que depois lhe explicava tudo. Daniela, que cambaleara para o lado ao ser libertada de súbito, se aprumou também pronta para cometer um assassinato.

“Sua louca intrometida, tu ‘tá querendo apanhar?“ Ela tentou avançar, mas a Gabi colocou-se entre ela e a Fran, com um olhar duro.

“Não ouse tocar um dedo na minha amiga. Ela, diferente de ti, tem algum caráter, não rouba dos pais e da própria irmã por futilidades, e não fala mal dos amigos pelas costas.” Gabi falou chateada. Não queria acreditar naquilo, ou acusar a índia sem conversar em particular com ela antes, mas confiava na Fran, e não deixaria ninguém machucá-la.

À menção do roubo, lágrimas vieram aos olhos da Daniela.

“O que tu ‘tá dizendo, Gabi? O que foi que te contaram?” Deu um passo para trás, apertando o peito. Aquilo doía, e doía ainda mais todos aqueles olhares de desconhecidos sobre si, julgando-a como fora tantas vezes julgada no passado, antes de sair de casa e ir morar na cidade grande. Aquele era um erro do qual se arrependia amargamente. “Eu nunca-“

“Chega. Vamos acabar isso por aqui; se quiser conversar, conversamos amanhã, e não aqui no meio de uma festa. Só vê se para de dar em cima do Fabrício, ele não ‘tá a fim de ti, e fica sem jeito para te dispensar.” Disse, ciumenta. Incrível como ficara com ciúmes pelo André ao ver a Daniela agarrar o Fabrício. Devia uma ao loiro afinal, por deixá-lo para trás.

Sem dar chance para a outra falar mais alguma coisa, Gabi pegou Fran pelo braço e a puxou consigo para longe da Daniela, pelo caminho também agarrando o braço do Rafael e o arrastando junto. Rafael estava ligeiramente decepcionado, achava que ia ver de fato uma briga de mulher – cigana contra índia. O que foi? Todos têm os seus fetiches...

XxxX

André não aguentava mais bancar a babá. Vanessa parecia desligada do mundo, não sabia quem era quem, se metia entre desconhecidos para dançar, parecia até drogada. E ninguém queria pegar a responsabilidade de cuidar dela para si, pareciam achar ótimo que o André havia resolvido impedir que a garota acabasse nas mãos de algum desconhecido safado, que poderia até levá-la para a cama sem consentimento, e davam um jeito de fugir dos dois.

Como a Vanessa era baixinha – uns vinte centímetros a menos que o loiro –, André agora a mantinha parada ao abraçá-la por trás, impedindo-a de ir para o meio da pista e sumir. Suspirou olhando ao redor, em busca de alguém para quem empurrar o estorvo, mas não viu ninguém. Aliás, quem viu se aproximar de onde estava – próximo do palco da pista do grande quiosque –, foi o Fabrício. O coração pulou uma batida, e depois pareceu atrapalhar-se em uma arritmia.

Fabrício parou bem à frente do loiro.

“Tu e ela estão ficando?” Ele perguntou muito sério, deixando o André momentaneamente sem fala, o semblante marcado pela surpresa. Não! Tentou dizer, mas isso só saiu em pensamento. Fafá pressinou a testa e esfregou os olhos com uma mão, sentindo como se alguém usasse um facão para abrir-lhe o peito. Nem se importou que a Vanessa estava ali, ergueu o olhar e falou, num tom doído, olhos cravados no loiro:

“Se isso, entre nós, não vai acontecer, ao menos espere um tempo pra ficar com outra pessoa, ou fique em lugares que eu não veja, nem fique sabendo, pra eu ter tempo de... de parar de te querer.”

O olhar do André tornou-se ainda mais surpreso, e respirar transformou-se em uma tarefa difícil. Abriu e fechou a boca umas três vezes, transtornado, perdido, ouvindo os tais sinos bregas que algumas pessoas dizem escutar quando beijam alguém, ou coisa do gênero – o loiro nem identificou o que se passava dentro de si. Apenas soltou a Vanessa, apesar de não completamente para ela não dar de boca no chão, erguendo o olhar para cima por um momento, com um suspiro, o corpo tenso.

“Idiota... Como pode gostar tanto assim de mim?” Chegava a irritá-lo. Pegou a Vanessa e a jogou sobre um de seus ombros, e agarrou um dos pulsos do moreno. “Vamos.” Falou e começou a andar. Fabrício sentiu-se perdidáço pela segunda vez na noite, mas acabou acompanhando o loiro.

Pelo caminho, André topou com o Beto e, sem nem pensar duas vezes, largou a Vanessa em cima dele.

“Cuide dela, e cuide mesmo, ela ‘tá muito mal. Eu fico te devendo uma.” Pediu em seu tom mandão habitual. Beto olhou dele, para a Vanessa e então para o Fabrício, e acabou entendendo mais ou menos a situação. Assentiu, já conhecia um pouco da Vanessa, era com ela e com o André com quem havia conversado na festa da matrícula e, como logo já voltaria pros alojamentos, poderia levar a loirinha.

André o agradeceu mentalmente e continuou o caminho para a saída do lugar, levando o Fabrício com ele, sem olhá-lo e sem dizer nada. Queimava de indignação, nem sabia exatamente por que, talvez pelas tantas palavras entaladas na garganta, mas também queimava por outro motivo...

XxxX

Fafá deixou-se ser puxado pelo loiro, que agarrava com força seu pulso, até as dunas da praia, um pouco distante da casa de festa. Apenas quando a música cedera, e a iluminação vinha apenas de alguns postes próximos, é que o André o soltou ainda dando alguns passos, mantendo-se de costas para o moreno e podendo assim admirar o mar enegrecido a alguns metros. Sentia o coração bombear forte, deixando as pulsações no pescoço exacerbadas, e um suor frio escorria através da coluna.

“Eu não ‘tava ficando com a Vanessa.” Informou e encontrou coragem para se virar e encarar o Fabrício de frente. “Ela ‘tava meio doida, eu só ‘tava cuidando pra que nenhum engraçadinho se aproveitasse do estado dela...”

“Ah...” Fafá experimentou um alívio difícil de explicar. Ainda se surpreendia com como imaginar o loiro com outra pessoa o incomodava, a níveis alarmantes. Essas sensações eram novas, ao menos nessa intensidade. Aproximou-se um passo do André, esticando a mão, com a intenção de tocá-lo de alguma forma, mas estacou com a pergunta cortante:

“Tu lembra?” André inquiriu, e completou ao notar o semblante confuso do moreno, denunciando que ele não fazia ideia a que se referia. “Tu lembra do beijo na festa dos bixos?!” A expressão do outro foi o suficiente para que André captasse qual era a resposta. “É claro que tu lembra! Meu Deus, como tu é cara de pau, continuou agindo como se nada tivesse acontecido durante todo esse tempo!”

“E como tu queria que eu agisse? Se eu falasse qualquer coisa, eu provavelmente ganharia um soco bem dado na cara!” Fafá exclamou, não se sentindo nada culpado. Só estava mantendo a própria integridade física, oras!

André bufou.

“Era o mínimo que tu merecia. Se a Natália não tivesse aparecido, tu... Nós...” Nem conseguiu completar a frase. Era constrangedor demais. “Tu parece que ‘tá tentando me enlouquecer! As coisas não eram assim antes de surgir na minha vida de novo!”

“Eu te enlouquecer?! Tu que ‘tá tentando me enlouquecer!” Fabrício voltou a se aproximar mais um passo, deixando-os a uma distância irrisória. “Tu não se decide nunca, e eu não aguento mais esperar; tu às vezes baixa as defesas, em outras parece erguer uma muralha. Eu nunca sei como agir perto de ti, e quando tô longe eu-“

“Tu que quis ficar longe! Me ignorou o dia inteiro, e ainda ficou de papo com aquela Daniela. Cantou pra ela, depois beijou ela, hoje não desgrudou dela, e eu vi vocês dois juntos na festa também.” Disse com o rosto avermelhado, apertando os punhos. “Tu deveria simplesmente voltar praquela índia ladra.”

Fabrício não entendeu por que a outra era uma ladra – ladra de namorados? –, mas esse não era o ponto principal da questão. Passou uma mão pelos cabelos negros, bagunçando-o os fios que estavam endurecidos pelo gel que passara para deixá-los para trás. Em parte sentiu vontade de chacoalhar o loiro, em outra, achou-o fofo com ciúmes. Era evidente que aquilo era ciúmes, Fabrício não era porta a ponto de não perceber isso.

“Eu acho que eu já deixei bem claro quem eu quero, e essa pessoa não é a Daniela, mas um loiro irritadinho, complicado e cabeça dura.” Enumerou as qualidades do outro, e chegou a sorrir momentaneamente ao vê-lo abrir a fechar a boca, incapaz de encontrar argumentos para aquilo. “Pelo amor de Deus, nós até nos beijamos ontem à noite!”

“Tu...” André tentou encontrar algo para falar, mas uma torrente de emoções subiu e trancou na garganta; a sensação queimou nas escleras, e lágrimas brotaram no canto dos olhos. Levou as duas mãos à cabeça, apertando-a como se estivesse com uma forte enxaqueca. “Eu só estou confuso...! Isso tudo pode ser fácil para ti, mas pra mim não é! E tu não ajuda em nada me ignorando o dia inteiro e agindo como se me quisesse longe!”

Fafá agarrou os pulsos do loiro, puxando os braços dele para si, o que aproximou os dois. André ofegou baixo e o mirou com os olhos brilhosos pelas lágrimas – as íris azuis como um lago cristalino mais vívidas do que nunca. Fafá sentiu uma emoção forte por vê-lo assim, o coração bateu em agonia.

“Eu estava te dando um tempo! E se tu se esqueceu, não fui eu que passei o dia inteiro irritado ontem, distribuindo patadas e tentando fugir. Também não fui eu que te dei um soco, que te neguei um beijo, ou um toque de mãos. Tu acha que essas coisas também não machucam?” Fafá perguntou sério como nunca esteve, os olhos negros também brilhosos.

André entreabriu os lábios bem desenhados, e duas lágrimas escorreram por suas bochechas – uma de cada olho, caindo em perfeita sincronia. Não havia pensado sobre isso, olhara para apenas o seu lado da moeda. Um constrangimento muito maior o atropelou, junto com a culpa. Fafá sempre levava tudo numa boa, raramente se irritava ou estressava, e fora ele – André – quem colocara uma expressão magoada, consternada e angustiada naquele rosto sorridente.

Toda a indignação e exaltação do loiro esmoreceram como uma flor murchando sob a mira do sol. O sol no caso era o Fabrício. E André... Não, ele não era uma flor, não admitiria tal comparação. André mordiscou o lábio novamente, avermelhando-o e inchando-o um pouco pela força imposta. Apertou também os olhos, não queria chorar; porém quanto mais se segurava, mais as malditas lágrimas brotavam exigindo liberdade.

“André...” Fafá se arrependeu de jogar aquilo na cara do loiro, que agora mantinha a cabeça baixa, olhando para o espaço entre seus corpos, as mãos ainda fechadas em punho e o corpo trêmulo, parecendo frágil. Tão diferente da pose autossuficiente e arrogante que ele costumava usar como um escudo a maior parte do tempo...

“Eu me sinto tão confuso, e perdido, e com... medo.” André sussurrou interrompendo o que quer que Fabrício fosse dizer. “Eu criei tantas mentiras, para mim e para os outros, magoei tantas pessoas. Eu só queria ir pelo caminho mais fácil, porque eu não tenho tios legais, ou pais compreensivos, e tentei me proteger como eu pude, como eu conseguia. Mas... Deus, eu sempre senti tua falta – sempre – e ficava dizendo para mim mesmo que nossa amizade era estúpida e que tu era só um pobretão e como meu pai estava certo em nos afastar. Mesmo que eu nem acreditasse nisso, e mesmo que eu ainda lembrasse até da vez em que tu fez uma promessa idiota de que iria se casar comigo quando achou que eu ‘tava dormindo depois de me assustar com aquela brincadeira do espelho. Eu cheguei a te odiar por um tempo depois que me mudei, e te odiei quando tu não se lembrou de mim na matrícula. Mas, se eu for sincero, eu sabia desde o início que tu iria destruir toda a merda que eu construí ao redor de mim nos últimos anos assim que pus meus olhos em ti naquele dia. E eu me sinto perdido e desprotegido agora, sem essas minhas defesas idiotas, mas eu... Eu só... Me desculpa...” Um soluço escapou por entre os lábios úmidos do loiro enquanto ele agarrava com força o colete preto da fantasia do outro. E ergueu o olhar, assustado, como se só então percebesse tudo que deixara escapar em um rompante de culpa, e uma necessidade de compartilhar tudo que sentia. Ainda que não houvesse conseguido verbalizar sequer metade daquele caos interno.

Fabrício mirou-o estarrecido, mal acreditando em tudo que escutara. Seu coração disparado competia com uma melodia grave de tambores, e os olhos, antes brilhosos, também deixaram escapar algumas lágrimas. Queria dizer alguma coisa, qualquer coisa coerente e que não soasse idiota; porém tudo que conseguia pensar era em como André estava lindo com aquela fantasia de grego, como a pele dele tinha a tonalidade perfeita para ser marcada com dentes e lábios, e como aquela declaração sincera, transbordando vulnerabilidade, mexera consigo a ponto de afetar-lhe qualquer raciocínio coerente, deixando-o apenas com os instintos mais básicos. E esses instintos desejavam ardentemente abraçá-lo e beijá-lo, protegê-lo dos próprios medos.

“André-“ Voltou a chamar num murmúrio, e dessa vez largou um dos pulsos dele para segurar-lhe o rosto, limpando com o polegar uma lágrima teimosa que estacionara próxima do olho do loiro. Com isso André deu um passo para trás, sentindo o rosto arder com o contato e o corpo queimar com o olhar negro do maior sobre si; o hálito quente batendo em seus lábios salgados do choro.

O que não percebeu era que estavam muito na borda da duna, e que aquele mísero passo para trás, junto com a aproximação do moreno, foi o suficiente para criar uma miniavalanche na areia. André ofegou pelo susto, e Fabrício soltou uma exclamação surpresa assim que os pés perderam o apoio e eles deslizaram pela areia fina e branquinha da duna.

André agarrou-se no Fabrício e, quando enfim pararam, Fafá estava deitado no sopé da duna com um loiro sentado em seu colo, inclinado sobre si, abraçando-o pelo pescoço. Os joelhos do André encontravam-se um de cada lado da cintura do Fabrício, de modo que a bata grega estava arregaçada deixando à mostra toda a extensão das coxas extremamente brancas do loiro.

O olhar dos dois se encontrou enquanto ainda sentiam a adrenalina da queda, e André avermelhou pela posição constrangedora em que se encontravam. As mãos do Fabrício estavam estrategicamente pousadas em suas coxas, espalhando um calor que atingia a virilha e se transformava em arrepios através da espinha dorsal. Fafá mirava-o expectante, e a respiração dele era tão entrecortada quanto à do André. A tensão era praticamente palpável, carregada nas íris de cores opostas – claro contra escuro –, e em cada fibra do corpo.

André ergueu a mão e tocou no rosto do Fafá, acariciando-lhe a bochecha com o polegar, os olhares ainda conectados, pois dificilmente algo os distrairia um do outro. Fafá controlava-se para manter-se parado, querendo saber o que André faria – o que ele queria e o que tinha coragem de demonstrar para além das palavras; e somente apertou com força as coxas do loiro, de uma maneira que provavelmente deixaria marcas. André arfou baixo e percebeu que não aguentava mais – queria tanto beijar o moreno, sentir o calor e as mãos dele percorrendo seu corpo, os lábios e a língua buscando-se com sofreguidão. Precisava daquilo como quem precisa de oxigênio circulando pelo sangue quente, em alta velocidade.

Com um único movimento, extinguiu todo o espaço que os separava.

Os lábios do loiro pressionaram-se contra os do Fafá, e este imediatamente abraçou o corpo menor sobre si, envolvendo-o junto com a capa negra da fantasia. Os dedos do moreno forçaram a nuca do outro, e ele não esperou, invadiu esfomeado a boca alheia, querendo provar novamente do sabor que pertencia somente ao André. O apertou nos braços com toda a força que tinha, um medo inconsciente de que ele fugisse novamente, reencontrando desculpas e permitindo-se engolfar-se nos mesmos medos. André sentiu falta de ar entre os braços musculosos e possessivos do outro, e quebrou momentaneamente o contato dos lábios, inspirando fundo com a testa apoiada à do moreno.

“Fafá... Tu ‘tá me deixando sem ar.” André murmurou de olhos fechados, a face ruborizada enquanto acariciava delicadamente, com ambas as mãos, os cabelos negros e endurecidos de gel do outro.

“Isso é bom, ficar sem ar...” Fafá murmurou de volta, estreitando ainda mais o loiro. “Ou não...?” Abriu os olhos e o encarou em dúvida. André o olhou também, vendo aquela expressão pateta no semblante do moreno, e acabou rindo baixinho, voltando a fechar os olhos.

“É bom, mas eu posso acabar desmaiando por falta de oxigênio.” Explicou.

Era tão estranho... Sentia-se tão leve, como se correntes houvessem sido retiradas de seus tornozelos e pulsos, e uma sensação de confiança o deixasse relaxado; não sentia vontade alguma de sair do colo do outro, mesmo que a posição em parte o envergonhasse. Fafá sorriu também ainda olhando para o rosto do loiro, tão próximo, a respiração dele brincando em seu rosto como um afago quente. Levou a mão ao rosto do André e o acariciou também, delicadamente, querendo decorar nas digitais aqueles traços suaves e belos.

“Tu é tão bonito...” Fafá sussurrou de uma maneira boba, e André abriu rápido os olhos, mirando-o constrangido pelo elogio, e por notar aqueles orbes apaixonados do moreno, que agora observava seus lábios como que faminto. Fafá o puxou pela nuca para um pouco mais perto, os lábios rentes, os olhares aprisionados um no outro. “Não vai fugir de mim se eu quiser te provar mais do que com apenas beijos, né?”

André, apesar de todo aquele tempo de convivência, não conseguiu acreditar na cara de pau do Fabrício. Como ele conseguia falar aquelas coisas com tanta naturalidade? Como se estivesse perguntando as horas? Todo o corpo do loiro ardeu em um formigamento estonteante, e chegou a sentir uma vibração no baixo ventre apenas com aquela pergunta. Em parte queria repreender o outro pela proposta safada, mas no lugar disso mordeu o lábio.

“Não vou mais fugir.” Esclareceu, as maçãs do rosto ainda latejando.

[...]

“Gosta tanto dele assim?” Perguntou, com certa ideia se formando em seu íntimo. Fafá assentiu, solene. “Mas não vai poder cuidar sempre dele, afinal, um dia vocês vão crescer, ele vai se casar, tu vai se casar... As pessoas acabam se separando um pouco.”

“Não mesmo!” Fafá balançou a cabeça em negativa e passou o braço pela cintura de André, estreitando-o contra si. “André é meu. Vou me casar com ele, e não vou deixar que a gente se separe.”

“Se tu diz. Eu estarei sempre aqui pra apoiar vocês dois.” Falou e se inclinou, beijando a testa de Fabrício. “Boa noite, peste.”

“Boa noite, tio.” Falou Fafá, sem se importar de ser chamado de peste.

As luzes se apagaram, e só então André se remexeu bem acomodado próximo ao outro, erguendo o olhar para poder mirar o rosto do Fabrício, surpreendendo o moreninho ao revelar que ainda estava acordado.

“Vamos mesmo casar?” Perguntou num tom baixo e desconfiado. Fafá corou, mas assentiu com um movimento positivo de cabeça. “Okay... Então eu te perdoo por me assustar.” André concordou e, com suavidade, deu um beijinho nos lábios do amigo, antes de deitar novamente a cabeça no travesseiro e fechar os olhos.

Fafá sentiu as orelhas queimarem, mas sorriu largamente, traquinas, e se acomodou para dormir também, abraçado ao loirinho.

[...]

Notas finais
Música que define este momento: https://www.youtube.com/watch?v=76RrdwElnTU. OIJAIOUJHUIOAHJIUOAAJHAIUOJHAIUOAJAOIUAJHAUIO! WEEEE, finalmente! Que fofos, beijinho infantil (dedico essa cena ao Philipe Moon, que nem sei se lê ainda a fic, já que nunca mais deu as caras por aqui /cries, mas se estiver aí, foi especial pra ti que pediu xD). Gente, obrigada mesmo pelo retorno! Vou sumir por uns dias, pois amanhã trabalho o dia inteiro, sexta vou sair, e depois trabalho de sábado a quarta porque vou ser fiscal do vestibular da ufrgs. Semana que vem estou de volta com mais caps.! Beijooooooooooooooooooos!