Good Riddance

27 Deixar acontecer


Notas iniciais
MUITO obrigada às SEIS (sério isso?) recomendações que recebi cap. passado. Um beijo especial para: Joy Vee, Srta HeLL, Paulinho Miranda, Nock, Cupcake52 e zumbi da vingança. AWN, foi lindo demais. Mil vezes obrigada!!!

“Não vou mais fugir.” Esclareceu, as maçãs do rosto ainda latejando.

Fabrício queria responder alguma coisa àquilo, dar voz à maneira como o coração bateu quase dolorosamente e as mãos suaram ao encontro das coxas do outro; porém as palavras não pareciam suficientes, e precisou soltar o ar que estivera prendendo sem perceber ao esperar uma resposta do André. A respiração quente escapava dos lábios sedutores do loiro, criando um calor gostoso sobre os lábios do Fabrício. Era como um elo unindo-os e começando a encurtar, atraindo-os como imãs de volta para um ao outro.

Assim que seus rostos pareceram entrar em harmonia para um encaixe ideal, cada um ligeiramente inclinado para o lado contrário ao do outro, Fabrício colocou a mão na nuca do loiro e o puxou de vez, capturando com precisão o lábio inferior dele, que já vinha namorando há tanto tempo, e agora enfim podia experimentar sem nenhum medo ou dúvida, tanto de sua parte, quanto da parte do André.

De novo o tempo paralisou, prendendo os ponteiros no lugar, ou seriam eles que desejavam estacionar naquele instante e esquecer tudo? Distantes do mundo. André soltou um gemido baixo e rápido contra a boca do moreno, experimentando centenas de sensações naquele curto espaço de tempo congelado, criaturas esvoaçantes se agitaram em seu estômago e o sangue jorrou quente por todos os pontos que conseguia alcançar. Por um momento se atrapalhou em como respirar, interessado mais em beijar do que encher os pulmões de ar. Fabrício subiu lentamente as mãos através de suas coxas e agora lhe segurava a cintura com uma firmeza exagerada por baixo da bata branca. E, por mais que por um lado a consciência do loiro exigisse que ele afastasse as mãos safadas dali, outra parte se regozijava, espalhando um contentamento ardente pelo resto do corpo.

O moreno sugou o lábio inferior do loiro, mordendo-o de leve com aqueles caninos afiados que eram parte da fantasia – não eram aqueles dentes de plástico que pareciam uma dentadura mal feita, apenas os caninos eram falsos e salientes, e André ofegou com o arranhão em seu lábio interno antes que o Fabrício o libertasse, mas lambesse seus lábios e voltasse a capturar ambos, colocando a língua dentro de sua boca e encontrando a sua a meio caminho. André sentiu-se ávido por mais, por sentir mais, por permitir-se mais, e experimentar tudo aquilo que se negara por tanto tempo.

O gosto do moreno rapidamente tornou-se um vício, e uma sede inexplicável queimou-lhe a boca. Mas quanto mais o beijava, mais a sede aumentava, e mais o vício se intensificava. André abraçou-se a ele, ofegante, enquanto seus lábios se perdiam naquela dança particular, e segurou-o como se sua vida dependesse disso. Em resposta Fabrício subiu as mãos por suas costas, a ponta dos dedos ascendendo lentamente pela linha sulcada da espinha do loiro, criando um arrepio torturante que deixava a pele formigando.

Fabrício dobrou os joelhos e, usando-os como apoio para o André, inclinou o corpo para frente, pressionando-se mais ao loiro, aprofundando mais o beijo, exigindo maisdele, tão insaciável quanto poderia. Extinguiu todo o espaço entre os dois, e seus braços circularam André com facilidade, esguio como ele era. Seu corpo urgia pelo outro, e sua ereção apertou-se na calça da fantasia e chocou-se com a do loiro, protegida apenas pela cueca que pouco ajudava a esconder a evidência do desejo. Ambos gemeram em uníssono com o contato prazeroso, estremecendo de leve. André moveu suavemente o quadril, friccionando-os mais e deixando Fabrício estarrecido com aquela atitude, o que o levou a começar um beijo mais desesperado, que extravasava uma saudade estranha – por todos os minutos que poderiam ter tido, mas que haviam sido roubados quando se separaram nove anos atrás.

André estava perdido nos braços do outro, e era perfeito, mais perfeito do que qualquer lembrança que poderia ter – e ele era bom em lembrar-se de tudo –, pois nunca antes ansiara tanto por algo, por tanto tempo, e só depois de muita luta – interna – era capaz de ter, conquistar. Era diferente de todas as suas experiências anteriores, que não eram poucas, e não somente por estar sentado no colo de um garoto deixando-se levar pela aquela avalanche criada, mas por ser o Fabrício ali, aquela pessoa que deixara um vácuo irrecuperável durante toda a sua adolescência, um vácuo que tentara suprir com inúmeras bobagens que apenas o haviam tornado aquele tolo de três meses atrás.

Pararam de se beijar por um momento, arfantes, ainda de olhos fechados e testas encostadas enquanto se acariciavam suavemente, sem pressa, precisando retomar o fôlego.

Fabrício sorriu, ainda meio grogue, não acreditando naquilo, de certo modo ainda com o temor que acordasse e se achasse deitado na cama, abraçando um travesseiro. Era impossivelmente melhor ter o loiro daquele jeito, por completo, e não parte de alguma fantasia.

Os dois se olharam novamente, as pupilas contraídas, pequenas, que pareciam deixar seus olhos maiores, a cor das íris em evidência apesar de parca luminosidade.

“Tu não fugiu mesmo.” Fabrício murmurou com uma felicidade tola, sentindo-se no paraíso, ou talvez em algum lugar ainda melhor. André respirou fundo, e soltou fracamente o ar, estremecendo com as carícias do outro em suas costas.

“Eu disse que não ia.” Sussurrou de volta, num tom meio arrastado, a mente lenta e a boca entorpecida pelo contato recente, tão intenso e real, que chegava a ser um tanto assustador. Lutara tanto contra seus desejos e agora, de uma forma tão arrebatadora, podia vivenciar tais momentos em todas as suas formas, desvendar cada emoção, entregar-se a cada sensação, e degustar todos os sabores.

André sentiu-se perdido em meio a um campo minado, desconhecido do caminho que não o levaria a uma implosão. Aquele sentimento... Compreendeu-o quando o Fabrício beijou-o de novo, dessa vez um beijo calmo e suave, que roçava os lábios e acariciava sua língua na dele. Não achava que estava apaixonado. Estava apaixonado – não havia nenhum verbo de dúvida frente à afirmação. Estava ali, tão palpável, tão evidente, tão forte que um beijo não era suficiente, queria mais, precisava de mais.

Aquela solução para sua cobiça que ao mesmo tempo era uma droga que o tornava dependente e faminto.

Mas ao mesmo tempo, era cedo demais para ir além, era tudo muito novo, intimidante de certa forma. Quando Fabrício lentamente contornou-lhe a cintura com a mão e deixou os dedos escorregarem por seu ventre, até tocarem seu pênis teso sobre a cueca, e então envolvê-lo com a palma cheia, num aperto comedido, André deu um pulo e o empurrou pelos ombros, ofegante e nervoso, e empurrou a mão dele para longe, fechando as pernas.

“N-Não vamos tão longe.” Falou nervosamente, constrangido, apesar de sentir o pênis latejar com o contato, interessado em ir bem longe. André quase o mandou se acalmar mentalmente.

“Mas... Tu disse que não iria fugir se fôssemos além de beijos.” Fafá o lembrou, se aproximando de novo e começando a beijar o pescoço do loiro enquanto sua mão acariciava a parte interna da coxa dele. André virou o rosto, puxando o ar com dificuldade, sentindo o corpo excitar-se ainda mais com a língua provocativa do moreno na região sensível sob sua orelha, e os dedos roçando próximos da virilha.

“Tu me interpretou errado. Eu quis dizer que não ia mais fugir do que eu sinto...” Disse com dificuldade, meio se irritando por ter de explicar com todas as letras. Era uma pessoa fechada, tinha dificuldade para expor seus sentimentos, o oposto do cara de pau do Fabrício que até isso falava com uma naturalidade exasperante. “Não que tu pode me estuprar com as mãos que nem tu ‘tá tentando!”

Fabrício riu e mordeu a orelha do loiro, que gemeu baixinho.

“Mas tua bunda eu posso pegar?” Perguntou descarado, e escorregou a mão pela coxa até a bunda, apertando-a. André de novo teve um sobressalto e mordeu os lábios. Fabrício era abusado também nos amassos. Considerando que ele era abusado em todo o resto, não era de se surpreender.

“Que fixação é essa pela minha bunda? Depois do que tu fez no paintball, ela merecia uma trégua.”

“Vou cuidar bem dela.” Disse num duplo sentido meio malicioso, meio brincalhão, massageando uma das nádegas do loiro e optando por não comentar que trégua era a última coisa que aquela bunda teria a partir daquele dia, principalmente depois que começassem a... Achou melhor também não terminar a frase, do contrário acabaria ainda mais excitado.

Por Deus, estava tão duro que já sentia dores, acabaria com uma câimbra.

“Idiota...” André murmurou apertando os olhos.

André estava tão sexy com aquelas coxas de fora, e o ombro desnudo com parte do peito aparecendo pela bata ter apenas uma alça. Fafá começou a descer os beijos até o peito dele, puxando o tecido da bata um pouco mais para baixo, para dar-lhe acesso a um dos mamilos do loiro, que capturou entre os lábios e lambeu com a ponta da língua. André soltou um suspiro entrecortado e afundou os dedos em sua nuca e costas.

Aquele maldito não conseguia se controlar, já estava avançando o sinal de novo! André o xingou mentalmente, porém o abraçou com força, subindo a mão da nuca dele até os cabelos, estragando o penteado com gel enquanto ele espalhava aquela sensação estranha e nova em seu peito com os chupões, lambidas e leves mordidas em seu mamilo. Mamilo! Nem tinha o raio de um seio, e ele estava ali, se deliciando. Estúpidas caipirinhas que havia tomado mais cedo, intensificando tais sensações. Xingou o moreno de novo nos confins do pensamento, mas apenas gemeu, deixando o quadril mole quando Fabrício o puxou pela cintura, atritando novamente suas ereções. Fabrício também gemeu, um gemido que mais se parecia com um rosnado. Cachorro.

“Ah, Fabrício-“ Chamou num tom lamentavelmente manhoso, do qual se envergonharia mais tarde, mais sóbrio; porém o som de vozes os fez pararem, paralisados com os olhos arregalados, o corpo entrando numa nova espécie de adrenalina. Olharam-se, e Fafá tentou dizer alguma coisa, mas o loiro colocou um dedo sobre os lábios dele, soltando um ‘shiu!’ baixo.

André empurrou o rosto do moreno quando ele chupou-lhe o dedo, e deu uma risadinha. O loiro moveu os lábios num ‘idiota’ mudo, usando os dedos como pinças para pegar os lábios do outro e fechar-lhe o bico.

“Eu juro que eu vi eles vindo por aqui!” Os dois arregalaram ainda mais os olhos ao reconhecer a voz da Gabi, apesar de a voz dela estar arrastada e embargada, denunciando que estava trêbada. “Vem, Fran, eu quero ver eles fazendo as pazes e se pegando!”

“Calma, eu ‘tô indo. Por que tu quer ver isso? E se eles tiverem se comendo? Ai, nada contra, mas não quero ver não, que pouca vergonha ficar espiando os outros!” A voz da Fran chegou até os dois, e também não parecia nada santa. Eram bem possível que estivessem se tropeçando pelas dunas, com dificuldade para se manterem em pé.

O queixo do loiro despencou, e Fabrício arregalou ainda mais os olhos, na típica expressão de medo que as crianças abrem quando são pegas no flagra fazendo arte. André estreitou os olhos e tornou o olhar pro moreno, mais do que nunca parecendo querer torturá-lo, estripá-lo, esfolá-lo e depois jogá-lo no mar, para que os pedaços se perdessem e nunca mais pudessem ser unidos novamente. Castrá-lo também parecia incluído no pacote.

André, sem dizer nada, e com uma expressão medonha, se levantou e começou a andar para longe do moreno estirado na beira da duna. As vozes das meninas ficaram para trás. Não podia acreditar que ele havia contado alguma coisa pra Gabi e pra Fran! Pra quem mais ele havia espalhado aquela história? O Rafael? A turma inteira? Que vontade sentia de socá-lo!

O pulso do loiro foi agarrado, e ele virou ao ser puxado sem piedade, perdendo o equilíbrio, mas sendo prontamente abraçado pelo mais alto.

“Hei, calma, onde tu pensa que ‘tá indo sem mim?” Fafá perguntou com um sorriso largo, fingindo que nada acontecera. Cara de pau nível mestre, e aumentando. André tentou se debater em busca de liberdade.

“Por que elas sabem sobre a gente? A gente mal... mal... se entendeu,” Ela difícil verbalizar essas coisas. “E meio mundo já sabe!”

“Erm... Eu falei só pra Gabi. Foi sem querer.” Explicou, mas mudou de ideia frente ao olhar mortal do loiro. “Ok, quase sem querer. Eu ‘tava precisando desabafar com alguém, desculpa. Esqueci que ela e a Fran não escondem nada uma da outra.”

André, sem nem perceber, fez um beicinho chateado e virou o rosto, ainda lidando com a indignação de ter mais gente sabendo sobre os dois. O que o levou a lembrar que havia desabafado com o Beto e, consequentemente, se acalmou, pois também buscara ajuda em alguém externo àquilo. Respirou fundo, pronto para perdoar o moreno, mas aí lembrou-se de outra coisa...

“Espera... No aniversário do teu tio... Ele ficou o tempo todo jogando indiretas...” Seus olhos se estreitaram de novo e caíram acusadores sobre o Fabrício, que abriu novamente aquela expressão que era uma mistura de ‘Tu me ama e vai me perdoar, né? e ‘Socorro, ele quer meu fígado!’. “EU NÃO ACREDITO! TU CONTOU PRA MEIO MUNDO!” O sacudiu pelos ombros, depois o soltou bruscamente e voltou a caminhar. Fafá tentou segui-lo. “Me deixa em paz!”

“Pera, loiro, foi mal, é que eu ‘tava precisando de uns conselhos, eu-“

“Tu ‘tá precisando é de uns chutes, pra deixar de ser tão... tão...!” Novamente não encontrou a palavra para defini-lo, e bufou. A verdade era que nem conseguia ficar brabo de verdade, mas isso não o impedia de soltar fumaça pelas ventas. Tinha vontade de jogar o moreno no mar. “Argh, te definir se torna cada vez mais impossível.”

“Porque sou único.”

“O único idiota dessa praia, só se for.” O empurrou e continuou andando.

Fafá o seguiu como um cachorrinho com o rabo entre as pernas, ou como um vampiro de dentes encolhidos, tentando se desculpar e, frequentemente, agarrá-lo de novo. André teve de dar uso à boa parte de seu autocontrole para não se deixar levar, mas no fundo estava se divertindo com o jeito todo arrependido do outro, e estava num momento sádico o suficiente para deixá-lo se sentir culpado por um tempo.

“Eu quero dormir, vamos pro ônibus.” André disse quando chegaram na altura da casa de festas, e saíram da beira da praia.

“Dormir?” Fafá não pareceu contente, agora se assemelhava ao Sascha quando queria um pedaço do que quer que o loiro estivesse comendo.

“Dormir!” André exclamou enfático, e pôde jurar ouvir um ganido insatisfeito do outro, mas devia ser coisa da sua imaginação.

Subiram no ônibus já quase lotado, pelas quatro da manhã, e rumaram de volta ao campus.

De volta às dunas, Fran e Gabi discutiam sobre terem ouvido ou não uns berros do André, e alguns sons da voz deles. Depois foram molhar os pés na água do mar e caminhar por uns quarenta minutos pela margem, conversando e rindo, contando sobre os guris que ficaram na festa, ou as cantadas que receberam, até tomarem o mesmo caminho dos meninos.

XxxX

O ônibus estava lotado e, assim como na noite anterior, repleto de gente quase desmaiada, podre, esgotada, que mal havia sentado nos bancos e já praticamente entrado em coma profundo. Os que ficaram em pé pela falta de lugar se apoiavam uns nos outros, ou nas barras de metal do ônibus, e cochilavam em pé. Ao ver aquele bando de jovens naquele estado deplorável, André percebeu como também estava exaurido. E não havia mais lugar para sentar.

“Olha o estado dos loucos. É muito cancha essa gurizada.” Fafá balançando a cabeça murmurou, como se com medo de acordar a galera – algo que provavelmente não aconteceria nem que um desfile de carnaval passasse do lado do ônibus.

“Essa juventude de hoje é lamentável.” O loiro declarou, como se fosse alguém muito maduro que não houvesse também dançado, bebido – se agarrado com outro! – e estivesse também louco por uma cama. Por motivos inocentes, é bom deixar bem claro.

“Fala como se fosse um velho!” Fabrício o cutucou no abdômen, fazendo o loiro saltar para trás devido às cócegas, um de seus maiores pontos fracos. Fafá se divertiu com isso e continuou cutucando o abdômen durinho do André até o fundo do ônibus, o limite da fuga.

“Para com isso!” André resmungou irritado. Não gostava de ter cócegas, e o moreno sabia muito bem disso. “Para antes que eu te dê um soco!”

“Outro soco?” Fafá não conseguiu impedir-se de implicar, com um sorrisinho malandro que tinha por objetivo constranger o loiro. “Meu queixo ainda ‘tá meio dolorido.”

André mordeu o lábio, sentindo aquela pontadinha de culpa pelo que havia feito. Se não tivesse tornado as coisas tão complicadas com suas dúvidas e medos, teria aceitado o beijo na outra noite e não teria socado o moreno. Ele não merecera aquele soco. Se bem que fora uma vingança boa por sua bunda.

Fabrício estava parado bem à sua frente, e André encostado a uma das barras de metal que ficavam bem ao lado da porta de saída do ônibus. Estendeu a mão até o queixo dele e o tocou com a ponta dos dedos, numa carícia delicada, pois não queria causar mais nenhuma dor. O ônibus entrou em movimento bem naquele momento.

“É aqui que dói?” André perguntou agora também sussurrando. Todos ali pareciam dormir, a exceção deles, mas talvez só não tivesse prestado atenção suficiente em cada um ali dentro. Fabrício, que se segurava à barra de teto, segurou a mão do André e a beijou na palma, mantendo o olhar sobre o loiro.

O famigerado formigamento nas bochechas apareceu, deixando André agitado. Olhou para o lado e por cima do ombro do moreno, enquanto Fafá se aproximava um passo ainda segurando-lhe a mão. Olhos negros cravados nos azuis.

“Se tu cuidar bem de mim a partir de agora, vai parar de doer.” Comentou com um ar indefinível, difícil dizer se havia alguma malícia ali, ou se era o André imaginando coisas. Pensou que seria difícil lidar com aquele moreno cheio de liberdades, se não colocasse uma coleira nele o mais cedo possível. Cachorros não podem ser mal acostumados.

“Não seja ridículo, vai parar de doer de qualquer forma, em alguns dias.” André se empurrou mais contra a barra de ferro, querendo escapar um pouco de toda aquela proximidade. “E não fica tão perto, ‘tá cheio de gente nesse ônibus.” Sussurrou grave.

Fafá contornou-lhe a cintura com o braço, segurando a barra às suas costas e deixando seus corpos a milímetros um do outro. André sentiu aquele calor traiçoeiro espalhar-se por sua pele, parecendo derreter-se e aprofundar-se nele.

“Estão todos dormindo.” Fabrício murmurou praticamente roçando os lábios nos do André. “E teus lábios estão me chamando.” Abriu um sorrisão travesso, daqueles que sempre abria quando sabia que falara alguma coisa que irritaria o loiro. Seus caninos pareceram mais salientes do que nunca, e seus cabelos negros eram uma bagunça endurecida pela maneira que André os agarrara enquanto se beijavam.

Os cílios dourados do André pareceram tremeluzir enquanto ele estreitava os olhos de uma forma nada simpática ao comentário do moreno. Fabrício sentiu um arrepio subir pela espinha, não sabia se de medo ou de excitação, pois o loiro sempre ficava muito sexy quando irritado. Parecia gostar de mexer com fogo.

“Se me beijar aqui dentro, eu juro que te atiro pela janela do ônibus em movimento.” Deixou bem claro, e não parecia estar falando da boca pra fora.

Não que o Fabrício estivesse desconsiderando a ameaça, mas bem na hora bocejou. Ele também estava pregado de sono. Aproximou-se mais e descansou o rosto no ombro branquelo exposto do André.

“Certo, então só me deixa dormir até chegarmos lá.” Pediu já acomodado, e fechou os olhos descansando parte de seu peso em cima do loiro sem nem pedir permissão. André arregalou os olhos, e agarrou o colete do ‘vampiro’, para manter o equilíbrio. O motorista do ônibus não estava poupando na velocidade.

Suspirou cansado apoiando a cabeça na barra de ferro, sem forças para empurrar o moreno abusado, e sentindo aquele mesmo calor continuar pulsando em seu corpo, agora abaixo da pele, deixando-o com uma sensação de febre – um frio insaciável que exigia pela proximidade do Fabrício, e uma temperatura anormalmente alta ardendo na pele.

“Às vezes, tu é pior que o Sascha. Abusado, bagunceiro, e não faz nada do que eu mando.” Murmurou contrariado. Mas fazer o que, adorava o Sascha.

Fafá apenas sorriu contra o ombro do loiro.

XxxX

“Hoje vamos poder dormir até mais tarde, porque o jogo de vôlei é só às 10h30min!” Fafá comentou alegre. Alegre até demais enquanto entravam na barraca. André mal teve tempo de se ajoelhar no colchonete e se virar para ele antes de ser sumariamente agarrado. Caiu de costas no chão, com o moreno sobre seu corpo. De novo aquelas sensações fortes invadiram-lhe o corpo, deixando-o nervoso.

A barraca era um lugar perigoso...

“Sai Fabrício!” Virou o rosto e tentou empurrá-lo. “Tu ‘tá animadinho demais!”

“E isso é ruim?” Fafá perguntou beijando-o no pescoço, e de repente lhe deu um chupão forte entre os caninos afiados. André soltou uma interjeição de horror. “Ops, desculpa.”

“Tu quer me deixar com outro roxo enorme por dias?!” Ainda se lembrava da semana que teve de carregar um roxo horrível, que chegou a ficar amarelado, no pescoço, por culpa do moreno. “Para com isso! Por que pra ti isso é tão fácil!? S-Sair agarrando outro guri... N-Não era pra ser assim... Tão normal.” André se exasperou encabulado e empurrou-o, sentando-se. A bata escorregou por seu ombro, e todo seu torso ficou à mostra, o que o deixou vermelho, principalmente pela maneira com que o Fabrício o comeucom os olhos.

Descarado. Nem sequer disfarçava!

“Fabrício!” André o chamou, pois o outro só faltava babar. “Idiota, até parece que nunca viu...”

“É que agora eu posso tocar.” Fafá abriu um sorriso pervertido e, ajoelhado, agarrou a cintura esbelta do loiro, trazendo-o para perto com um puxão forte, que quase fez André cair por cima de si, com um arfar assustado. “E pra mim é tri normal. Estou querendo beijar e tocar a pessoa que eu gosto, que que tem nisso?” Aproximou o rosto do loiro, que tinha os braços ao redor de seus ombros, e deu uma mordidinha no queixo dele. André corou mais, e virou um pouco o rosto.

Sentia-se patético. Uma guriazinha virgem. Já tinha bastante experiência, mas com garotas. Com o Fabrício, não sabia bem como agir. Achava constrangedor. Recém admitira aquilo tudo para si próprio, e o outro parecia já querer deflorar até seu ouvido! Ok, estava exagerando, mas ainda assim... Gemeu só com o beijo preguiçoso que o moreno lhe deu na bochecha. Já estava excitado – por causa de um beijo na bochecha. Perfeito, pensou irônico.

“Ok, mas vamos dormir então. Tu ‘tá todo fracote por causa das últimas noites de pouco sono e alimentação ruim, e te quero inteiro pro próximo jogo.” Fafá anunciou, soltando o loiro e retirando a capa da fantasia que ainda trajava.

Por um momento, André achou que ele o queria inteiro por outro motivo.

“Não ‘tô fracote.” André resmungou meio decepcionado, não sabia exatamente por quê. No fundo, não queria dormir. Começou a retirar as sandálias de tiras.

“Não ‘tá fracote, só desmaiando por aí.” Fafá implicou com um sorrisinho malandro. André o olhou feio, vendo-o já deitado com metade da fantasia posta de lado. Ou seja, nu da cintura para cima, com os braços atrás da cabeça. André sentiu aquele calorão subir pelo corpo, e decidiu colocar apenas um shorts para dormir.

“Queria ver se fosse tu com síndrome vasovagal e pressão baixa.” Murmurou emburrado, mas se acomodou no peito do moreno, descansando a cabeça no tórax dele e abraçando-o pela cintura, roubando-lhe o calor. Fafá se surpreendeu, e por um momento não soube o que fazer. Não esperava aquilo do loiro, mas, pelo visto, ambos tinham lados completamente novos um do outro para desvendar.

Fafá, por exemplo, descobriria que o André ficava bastante carente e afetuoso depois de beber. Já o André aprenderia que não conseguia ficar brabo com o moreno por muito tempo.

Ok, isso ele já sabia há um bom tempo.

Era o início de uma nova fase da relação dos dois que, por mais que não fosse ser fácil, tinha tudo para ser inesquecível e deliciosa.

Fabrício abraçou o loiro em retorno, fazendo carinho nas costas dele.

“Também senti muito a tua falta, loiro.” Murmurou sem saber se o outro o escutava, e perdeu a noção do tempo antes também de cair no sono, com um sorrisinho bobo nos lábios.