Good Nightmare
4 Toda coisa ruim tem um lado bom
Notas iniciais
– Eu. Não. Vou! – O empurrei tentando andar para minha casa.
– Ah... Mas você vai! – Ele respondeu puxando meu pulso.
Já era de noite e o idiota da motoca metido a bad boy estava tentando chamar a atenção de todos os meus vizinhos e da minha família. Parabéns, Eric! Tomara que alguém jogue um chinelo na tua fuça com tanta força que faça você engolir sua própria língua.
– Me solta, Eric! – Tentei bater em seu braço, mas ele acabou segurando meus dois pulsos com uma mão. Que sorte a minha de ter um pulso quase esquelético. Sorte... – Moço, eu vou gritar!
Ele pousou seu dedo indicador em meus lábios. Arregalei meus olhos e observei sem reação seu sorriso se aproximar do meu rosto. Por um momento meu cérebro entrou em pane total. Beijar? Ou não beijar? Eis a questão.
Aí eu lembrei que o conheci hoje, e que é lindo.
Mas é um cretino, lindo.
Um cretino que ficou com todas as garotas do colégio, lindo.
Menos eu, linda.
Então eu mordi seu dedo.
E por incrível que pareça, eu quase o arranquei. Tenho que anotar no meu caderninho: tenho vocação para vampira, ou para cachorro raivoso mesmo.
Só sei que senti o cimento de encontro à minha bunda, o que não foi uma sensação agradável.
Eu sei que faço frases estranhas.
Olhei pra cima e vi que o dedo dele sangrava. Eu tiraria uma foto disso e colocaria no meu quarto, se não tivesse um Eric louco de raiva na cena.
– Droga! – Ele balbuciou mais alguns palavrões que não pude entender direito, talvez fosse em outra língua. – Te pego aqui amanhã no mesmo horário. – Respondeu por fim tentando manter a calma.
E então ele subiu em sua moto e partiu, deixando uma Olivia rindo de maneira discretamente escandalosa.
Depois de uns 10 minutos eu percebi o quanto eu devia estar parecendo uma louca deitada na frente de casa logo de noite, mas demorou mais 10 minutos para eu entrar. Eu sei que sou preguiçosa, ok?
Não deu nem o tempo de eu bater a porta para um Adam já estragar o resto do meu dia.
– Você sabe que vai ter que fazer muita coisa para eu não contar, não é?
Ele estava sentado no sofá lendo alguma coisa que não me interessava. Fiquei o encarando por um tempo imaginado se a cabeça dele ficaria boa na parede do meu quarto. Não quero me assustar todo dia de manhã.
– Não vou passar a noite em casa hoje, então invente alguma coisa convincente, se não for um desafio pra você, e fale para o pai se ele perguntar. – Ao terminar de tagarelar voltou ao seu livro ridículo.
Subi as escadas mostrando o meu dedo precioso para ele.
Droga! Quando ele fazia alguma coisa: “Olivia, ele já tem idade suficiente! Já é um homem maduro!” AAAAAAAAHHH! QUE MERDA!
Joguei-me em minha cama e tentei reorganizar meus pensamentos. Pareciam que eles estavam saindo de minha mente e querendo voltar e não conseguiam, como martelos atingindo minha cabeça e querendo abrir meu crânio.
O idiota do Eric “me pediu” para acompanhá-lo amanhã em uma tal de “festa de divulgação de alguma coisa da família” dele e que o mesmo deveria levar alguma pessoa para acompanhá-lo. Ele disse que como eu quase o deixei em coma, eu deveria fazer alguma coisa para retribuí-lo, e ele colocou a carona que eu nem pedi como mais um item!
Eu devo realmente ter afetado o cérebro dele com aquela bola.
. . .
– Eric Collins te chamou para sair?
– Não, ele me obrigou!
Eu já disse que essa guria tem namorado, certo? Realmente não parece.
– Olivia, isso é um sonho sendo realizado! – Gritou e se jogou no meio das cobertas emboladas que eu chamo de cama.
Ultimamente parece que na mente dessa garota só há espaço para garotos!
– Me ajude, Brenda! Eu não faço a mínima ideia do que vestir! – Disse puxando as cobertas e levando-a para o chão junto.
– NÃO FAZ ISSO COMIGO GAROTA! – Respondeu gritando tentando tirar o cabelo da cara enquanto eu ria quase sem respirar. – Coloca aquele vestido que eu te dei, Olivia...
– O azul escuro?
– É. – Ela já estava de pé novamente.
– Não acho que vou ficar muit... – Mais um problema dela, eu não conseguia terminar a maioria das minhas frases com ela por perto.
– Pega esse vestido. – Ela o jogou em minha cara. – E só volte aqui quando tiver tomado banho e vestida com ele. – E foi assim que terminou a história da garota que foi expulsa do próprio quarto.
No caminho do banheiro eu não sabia se ria ou se chorava da amiga que fiz.
[...]
– Olivia... Você deveria se arrumar assim mais vezes...
O que eu vi no espelho era realmente chocante. A mágica que Brenda fez com meu rosto e meu cabelo era quase inacreditável. Meu corpo não era desse jeito, nada era assim antes. Parece que até a cor de morto de meus olhos viraram um castanho esverdeado, e o meu cabelo meio marrom lama tinha se ajeitado. O vestido azul escuro rendado tinha mangas que iam até o pulso e acabava um pouco acima do joelho.
Permiti-me dizer que estava bonita.
O barulho de uma buzina me faz acordar de meus devaneios.
– Lembre-se de usar camisinha. – Brincou o capeta na pele de cordeiro.
– Lembre-se você, caso drogar meu irmão. Não quero ter sobrinhos. – E sai do quarto rebolando.
Por incrível que pareça, era fácil sair de casa enquanto meu pai trabalhava, pois Adam não ouvia nada. Adam um dia conseguirá explodir nossa casa com o volume do som de seu fone.
Sai como um vulto de casa para que nenhum vizinho percebesse minha fuga, mas seria muito mais fácil se o homem tivesse um carro menos chamativo.
– Você já ouviu falar na palavra humildade? – Perguntei enquanto colocava o cinto da BMW de Eric. Tanta gente com dinheiro pra escolher o carro que vai andar e eu tendo que ir de carona pra não pegar ônibus! Viro o rosto para encarar o cara que me obrigou a levantar da cama e me arrumar (o que eu faço quase uma vez por ano), e ele me olhava como se fosse me devorar apenas com os olhos.
– Não imaginava que você escondia tanta coisa assim... – Comentou queimando-me com seu olhar e mordendo os lábios. Uma mão boba sua tentou encostar-se a minha perna, mas não deixei nem que sua sombra pousasse nela. Ele riu e deu a partida no carro.
Pelo canto do rosto, observei o quanto ele estava, como diria minha avó, um pitéu. Trajava uma camiseta branca social com um paletó e um colete cinza, calças sociais da mesma cor e um par de sapatos Giorgio Armani marrons. Já disse que tenho uma queda por homens sociais?
Assim que chegamos e descemos do carro, fui voando na direção de Eric.
– Mas que droga você acha que está fazendo? – Perguntou enquanto eu ajeitava seu cabelo no topete e fechava o colarinho de sua camisa.
– Te ajeitando. Não vou entrar com você lá dentro parecendo que viu tutorial na internet de como se arrumar. – Ele sorriu largamente e dei um tapinha em seu peito.
Meu pai e minha mãe quando estavam juntos iam muito a esses lugares onde a gente tem que se arrumar. Eu e Adam éramos mais novos e tínhamos dificuldades em ficarmos apresentáveis. Era ele que me arrumava e arrumava a si mesmo, eu apenas o via se ajeitando.
Sem perceber, deixei minha mão no mesmo lugar. Eric me encarava intensamente que acabei por perder meu rumo. Por mais que eu seja e aja como uma garota difícil, assumir que era bom ficar perto dele era um avanço, ainda mais assim, tão perto de seu rosto.
Suas mãos pousaram em minha cintura e pude sentir seu hálito quente bater em minha orelha. Ele ia sussurrar algo em meu ouvido... Quando um casal de idosos pigarreou chamando nossa atenção.
Eric riu baixinho ao meu lado e me soltou, acabei rindo também enquanto o casal saía resmungando.
– Quanta falta de educação... – Falava a mulher para o seu marido que concordava e dizia mais coisas.
Eric e eu caminhamos pelo estacionamento rindo da cena, mesmo sabendo que meu rosto estava tão vermelho quanto o batom daquela idosa.
A festa realmente fazia jus ao traje dele, acabei por me sentir um tanto simples comparada com às outras presentes ali. Eric me apresentou para praticamente 50% das pessoas da festa fazendo a piada da “Ela não é minha namorada, eu tenho uma preferência melhor que essa.”
Depois de ter sida abandonada pelo protagonista da minha presença ali, fiquei sentada em um canto escuro do salão.
Meu olhar percorreu pelos grupinhos de homens, mulheres e casais quando meu olhar foi atraído por um homem de olhar frio no meio deles.
William conversava com um bando de homens engravatados enquanto todos riam e ele tentava forçar um risinho, mas voltou a sua cara normal de poucos amigos quando encontrou o meu olhar.
Pelo menos agora eu iria me divertir um pouquinho.
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